Não era um manual de etiqueta. Era uma ameaça ...
O Doutor Augusto não gostava de mim. O contrário também era
verdadeiro. Ele, o Doutor Augusto, era já homem maduro. E eu, uma tenra
criança. Por desdita minha, era meu tio por afinidade. Não tinha pois para
comigo, qualquer laço de sangue.
Aborrecido e quezilento, não tinha particular
afeto por crianças. Que o mesmo é dizer,
também o não tinha por mim.
Para azar meu, todos os anos eu ia passar um mês à cidade dos
arcebispos, onde ele vivia – Braga. A minha cruz, começava logo na viagem entre
o meu berço coimbrão e aquela cidade nortenha. Cinco horas de viagem, com o
velho Augusto ao volante, o dedo polegar esborrachado na buzina do Ford Anglia
preto, a cara encostada ao vidro, para ver melhor a estrada. Eram nos primeiros
anos da década de cinquenta do século passado.
Na cabeça, um inseparável chapéu. Ela, a minha tia, com sua
voz de harpa desafinada, ia-lhe gritando que o mostrador de velocidade já
passava dos quarenta quilómetros à hora. Um tormento!
Chegados a Braga, qual quartel do exército, eu recebia da
antipática figura, uma espécie de manual de conduta. Pela mão e comigo aos
tropeções, o bruto levava-me à casa de banho e de dedo indicador em riste,
dizia-me:
- O menino, quando fizer chi- chi, não se esqueça de levantar
a tampa da sanita, para não molhar tudo …
Não era um conselho. Nem um manual de etiqueta. Era uma
ameaça. E eu, de olhos tristes, engolia em seco e abanava a cabeça, em sinal de
entendimento.
Ele, o tal Augusto, era formado em Leis. Conhecido na cidade,
passeava-se de pasta preta na mão, entre o escritório e casa. Era saudado pelos
bracarenses, que o conheciam, e ele correspondia à saudação com uma pequena
vénia e um ligeiro trejeito de levar a mão ao chapéu de feltro de aba larga, como
se tivesse a intenção de o tirar da cabeça.
Em casa, tudo era sombrio. Menos a Arminda, a empregada
interna que funcionava ao ritmo de uma sineta. Uma espécie de reflexo de
Pavlov.
Para o pequeno – almoço, a minha preclara tia tocava a
sineta, sentada na cadeira de espaldar alto. Ele, lia distraidamente o jornal
da manhã na outra ponta da mesa e eu, sentado no meio, a digerir aquela espécie
de dobrar de finados. Ao almoço e ao jantar, a cena repetia-se, ainda com mais
pompa e circunstância. Ele, o senhor doutor, pouco tempo passava em casa. O
escritório, não lhe permitia grandes convivências e veleidades. Vivia para
trabalhar e para se refugiar na quinta aos fins de semana, dando ordens ao
assalariados.
De quem eu gostava mesmo, era da Arminda. Ela, pequenina e
roliça, sempre que podia, levava-me à rua e, no Café Cinelândia na, ao tempo,
Avenida Marechal Gomes da Costa, enchia-me a barriga de bolos.
Ela, à minha tia, de voz sibilina e esguia como uma vela, eu
tolerava. Católica e devota, levou-me um dia a uma Catedral nas redondezas da
sua casa. Foi mostrar-me o túmulo de um Santo qualquer, que de tão irrelevante
que era, nem lhe fixei o nome.
O Homem lá estava, provavelmente embalsamado,
deitado num esquife de vidro, a roupa rota e um aspeto tão deplorável que eu,
ao ver aquela manifestação de tão mau gosto clerical, recuei aterrorizado e
olhos arregalados, e desatei a correr pelo Templo, com a harpia atrás de mim a
grasnar, com medo que eu fugisse para a rua. Agora que já passou um carro de
anos, estou convicto que naquela tenra idade, estive a um passo breve de me
tornar ateu.
O que é certo, é que regressei da igreja nauseado, com a
deplorável imagem do pobre Santo. Por três dias não comi, amarelo como uma
folha no outono. Ela, a minha tia, de faces caídas de preocupação, insistia que
eu comesse a canja. Ele, o Augusto, descia então o jornal e, pelo bordo
superior do noticioso, apareciam uns olhos de leopardo, emoldurados por uma
armação de óculos lentes e grossas e dizia-me com brusquidão e imperativo:
- O menino tem que comer a sopa toda …
Não era uma ordem. Era mais uma ameaça. Eu estremecia de medo,
e ia procurar guarida na face bondosa da Arminda, ali em pé à espera de ordens,
na esperança vã, que ela me tirasse das garras do leopardo.
Estranhamente, porém,
o Doutor em Leis, era um benfeitor. Na sua bela quinta lá para os lados do Bom
Jesus, mandava os caseiros dar todos os dias o pequeno - almoço às crianças
mais pobres da localidade. Lembro-me de as ver em fila, de púcaro de lata na mão,
para beber o café com leite e comer uma fatia de pão com manteiga.
A casa era Queiroziana, com amplos quartos virados para a quinta e em cada parede interior da casa, uma pintura à mão de grandes dimensões, obras assinadas por artistas daquela época. Lá na localidade, era um homem bem visto pela população, sendo ele, igualmente, entidade empregadora.
A casa era Queiroziana, com amplos quartos virados para a quinta e em cada parede interior da casa, uma pintura à mão de grandes dimensões, obras assinadas por artistas daquela época. Lá na localidade, era um homem bem visto pela população, sendo ele, igualmente, entidade empregadora.
Porém, apesar da sua faceta filantrópica, o Doutor Augusto
não tinha o dom da cordialidade. Aquela laço apertado na garganta que lhe
substituía a gravata, dava-lhe um ar de papagaio de circo. Um dia, morreu. Eu,
que sempre vi nele uma espécie de general da tropa, a querer mandar em tudo e
em todos, nem sequer sei em que circunstancias se finou. E, valha a verdade,
nem sequer me interessou. De velho, certamente. Ámen.
Nas voltas e reviravoltas da vida, tenho um pequeno sobrinho
nascido e a viver em Braga. Quando me visita em Coimbra, vem logo ter comigo.
Sabe que não lhe ponho barreiras. Há tempos, aninhou-se ao meu colo, a observar
um pequeno brinquedo colorido.
Veio-me então à lembrança, o meu tio por afinidade. Via-me a
mim, a levar o meu sobrinho pela mão aos tropeções, a dar-lhe ordens que soavam
a ameaça. Talvez um dia, o meu sobrinho
nortenho, em minha casa, urine na tampa da sanita. Então, vou dar uma sonora
gargalhada e o velho Augusto dará três voltas na tumba, por constatar como foi
em vão, toda aquela sua conduta prepotente e desajustada para comigo.
Quito Pereira

























