quarta-feira, 6 de julho de 2016

O DOUTOR AUGUSTO E A TAMPA DA SANITA ...







 Não era um manual de etiqueta. Era uma ameaça ...

O Doutor Augusto não gostava de mim. O contrário também era verdadeiro. Ele, o Doutor Augusto, era já homem maduro. E eu, uma tenra criança. Por desdita minha, era meu tio por afinidade. Não tinha pois para comigo, qualquer laço de sangue. 

Aborrecido e quezilento, não tinha particular afeto por crianças.  Que o mesmo é dizer, também o não tinha por mim.

Para azar meu, todos os anos eu ia passar um mês à cidade dos arcebispos, onde ele vivia – Braga. A minha cruz, começava logo na viagem entre o meu berço coimbrão e aquela cidade nortenha. Cinco horas de viagem, com o velho Augusto ao volante, o dedo polegar esborrachado na buzina do Ford Anglia preto, a cara encostada ao vidro, para ver melhor a estrada. Eram nos primeiros anos da década de cinquenta do século passado.

Na cabeça, um inseparável chapéu. Ela, a minha tia, com sua voz de harpa desafinada, ia-lhe gritando que o mostrador de velocidade já passava dos quarenta quilómetros à hora. Um tormento!

Chegados a Braga, qual quartel do exército, eu recebia da antipática figura, uma espécie de manual de conduta. Pela mão e comigo aos tropeções, o bruto levava-me à casa de banho e de dedo indicador em riste, dizia-me:

- O menino, quando fizer chi- chi, não se esqueça de levantar a tampa da sanita, para não molhar tudo …

Não era um conselho. Nem um manual de etiqueta. Era uma ameaça. E eu, de olhos tristes, engolia em seco e abanava a cabeça, em sinal de entendimento.

Ele, o tal Augusto, era formado em Leis. Conhecido na cidade, passeava-se de pasta preta na mão, entre o escritório e casa. Era saudado pelos bracarenses, que o conheciam, e ele correspondia à saudação com uma pequena vénia e um ligeiro trejeito de levar a mão ao chapéu de feltro de aba larga, como se tivesse a intenção de o tirar da cabeça.

Em casa, tudo era sombrio. Menos a Arminda, a empregada interna que funcionava ao ritmo de uma sineta. Uma espécie de reflexo de Pavlov.

Para o pequeno – almoço, a minha preclara tia tocava a sineta, sentada na cadeira de espaldar alto. Ele, lia distraidamente o jornal da manhã na outra ponta da mesa e eu, sentado no meio, a digerir aquela espécie de dobrar de finados. Ao almoço e ao jantar, a cena repetia-se, ainda com mais pompa e circunstância. Ele, o senhor doutor, pouco tempo passava em casa. O escritório, não lhe permitia grandes convivências e veleidades. Vivia para trabalhar e para se refugiar na quinta aos fins de semana, dando ordens ao assalariados.

De quem eu gostava mesmo, era da Arminda. Ela, pequenina e roliça, sempre que podia, levava-me à rua e, no Café Cinelândia na, ao tempo, Avenida Marechal Gomes da Costa, enchia-me a barriga de bolos.

Ela, à minha tia, de voz sibilina e esguia como uma vela, eu tolerava. Católica e devota, levou-me um dia a uma Catedral nas redondezas da sua casa. Foi mostrar-me o túmulo de um Santo qualquer, que de tão irrelevante que era, nem lhe fixei o nome. 

O Homem lá estava, provavelmente embalsamado, deitado num esquife de vidro, a roupa rota e um aspeto tão deplorável que eu, ao ver aquela manifestação de tão mau gosto clerical, recuei aterrorizado e olhos arregalados, e desatei a correr pelo Templo, com a harpia atrás de mim a grasnar, com medo que eu fugisse para a rua. Agora que já passou um carro de anos, estou convicto que naquela tenra idade, estive a um passo breve de me tornar ateu.

O que é certo, é que regressei da igreja nauseado, com a deplorável imagem do pobre Santo. Por três dias não comi, amarelo como uma folha no outono. Ela, a minha tia, de faces caídas de preocupação, insistia que eu comesse a canja. Ele, o Augusto, descia então o jornal e, pelo bordo superior do noticioso, apareciam uns olhos de leopardo, emoldurados por uma armação de óculos lentes e grossas e dizia-me com brusquidão e imperativo:

- O menino tem que comer a sopa toda …

Não era uma ordem. Era mais uma ameaça. Eu estremecia de medo, e ia procurar guarida na face bondosa da Arminda, ali em pé à espera de ordens, na esperança vã, que ela me tirasse das garras do leopardo.

Estranhamente, porém, o Doutor em Leis, era um benfeitor. Na sua bela quinta lá para os lados do Bom Jesus, mandava os caseiros dar todos os dias o pequeno - almoço às crianças mais pobres da localidade. Lembro-me de as ver em fila, de púcaro de lata na mão, para beber o café com leite e comer uma fatia de pão com manteiga. 

A casa era Queiroziana, com amplos quartos virados para a quinta e em cada parede interior da casa, uma pintura à mão de grandes dimensões, obras assinadas por artistas daquela época. Lá na localidade, era um homem bem visto pela população, sendo ele, igualmente, entidade empregadora.

Porém, apesar da sua faceta filantrópica, o Doutor Augusto não tinha o dom da cordialidade. Aquela laço apertado na garganta que lhe substituía a gravata, dava-lhe um ar de papagaio de circo. Um dia, morreu. Eu, que sempre vi nele uma espécie de general da tropa, a querer mandar em tudo e em todos, nem sequer sei em que circunstancias se finou. E, valha a verdade, nem sequer me interessou. De velho, certamente. Ámen.

Nas voltas e reviravoltas da vida, tenho um pequeno sobrinho nascido e a viver em Braga. Quando me visita em Coimbra, vem logo ter comigo. Sabe que não lhe ponho barreiras. Há tempos, aninhou-se ao meu colo, a observar um pequeno brinquedo colorido.

Veio-me então à lembrança, o meu tio por afinidade. Via-me a mim, a levar o meu sobrinho pela mão aos tropeções, a dar-lhe ordens que soavam a ameaça. Talvez um dia, o meu  sobrinho nortenho, em minha casa, urine na tampa da sanita. Então, vou dar uma sonora gargalhada e o velho Augusto dará três voltas na tumba, por constatar como foi em vão, toda aquela sua conduta prepotente e desajustada para comigo.
Quito Pereira          

Jardins em Montreal

A jardinagem é uma autêntica cultura popular em Montreal. Em qualquer local as pessoas gostam de criar os seus canteiros de flôres adornando-os por vezes com os mais variados objectos, entre os quais se podem ver potes, bicicletas, jarros em cerâmica, regadores, banheiras, sanitas, tudo envolvido ou cheias de belas flôres, assim como esculturas, etc.
Numa volta podem-se ver vários tipos de jardins com a maior das facilidades, o que com o número elevado de árvores dão-nos uma aparência de verdura fora de vulgar.

Mesmo os espaços pequenos gostam de os embelezar, nem que seja com um canteiro pleno de flores e um chorão do tipo anão.
Outros não ficam só pelos jardins e fazem como que um prolongamento com trepadeiras
que por vezes até fazem sobressaír as belas águas furtadas de arquitectura muito diversificada, assim como os diferentes tipos de escadas exteriores que dão acesso à entrada principal muito utilizadas por estes lados. De notar a arte do ferro forjado num grande número de edifícios.
Há outros casos aonde as pessoas optaram pela simplicidade, criando grandes espaços livres que dão uma noção de profundidade e verdura a quem passa.

terça-feira, 5 de julho de 2016

ANIVERSÁRIO

LUIS GARÇÃO NUNES

05-07-1955

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações deseja 

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!











domingo, 3 de julho de 2016

PASSATEMPO (ENVERGONHADO...)

1º - O que tenta mostrar esta  foto, se fosse tirada de dia?
2 º- Donde foi clikada?
3º-  Pede-se "benevolência"!


Foto " Fotógrafo(?), quem és tu? Ninguém!


De dia comigo é assim..Comigo claro.


Com esta  fica  o passatempo mais panorâmicamente envergonhado e---descorado!
Assim fica completa . A Ló ficou a haver um próximo "arraial" na Escola de Hotelaria!

sábado, 2 de julho de 2016

ENCONTRO COM A ARTE


Enviado por Mestre Deolindo

A MOTA DO JOÃO ...





Apagão total ...

Deitado numa maca e de pés para a frente, entrei triunfalmente na sala de urgências do Hospital da Universidade de Coimbra. 

Decididamente, eu tinha uma avaria que precisava de ser resolvida. 


Até lá, foram litros e litros de frascos pendurados por cima da minha cabeça, a balançar num ping – ping e gota a gota enervantes. 

A maior sorte foi ter ficado encostado a uma janela ampla, que me deu para observar o céu e as nuvens alvas e aquele aviãozinho de passageiros cor de prata, que ora deixava um rasto de fumo esbranquiçado no céu, ora se escondia no ventre de um castelo de nuvens.


A minha observação foi de repente interrompida. Encostado a mim, apareceu uma outra maca e como o reposteiro não estava corrido, fiquei a olhar para a cara do miúdo inquilino da dita maca. 

Vinha num estado miserável, a cara pintada de vermelho, que mais parecia um cartaz da intersindical. Olhei com curiosidade uma perna entrapada, os pulsos ligados e as crostas de sangue mal seco na testa. Foi então que, num impulso, que lhe perguntei descarado:


- O que é que te aconteceu, puto ?


E ele, que depois me disse que se chamava João, explicou que aquela maldita gravilha numa curva fez derrapar a mota. Depois só se lembra de ter voado por cima do guiador e de ter ficado sem sentidos. 

Apagão total, como diria o Mário Zambujal.


Tentei animá-lo, dizendo-lhe que tinha ouvido um comentário de que ia ser transferido para o hospital de Leiria, perto de sua casa e que se calhar o seu caso não era grave.


Foi então que a resposta do miúdo me surpreendeu, quando me disse com um olho negro e a ponta do nariz esfolada:


- Sabe, eu não estou preocupado comigo, o que me preocupa é minha mota que ficou lá, e se os meus avós a não forem buscar, se calhar roubam – ma.


Fiquei de novo a olhar para as garrafinhas transparentes penduradas por cima da minha cabeça. E a pensar em como são diferentes as prioridades das pessoas ...
Quito Pereira

    

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ARTE URBANA EM LISBOA - PARTE I



Aqui Vhils prestou homenagem ao Fado diva Amália Rodrigues, desta vez usando o tradicionalpavimento de paralelepípedos . Que data de 2015, e encontra-se na Calçada do Menino de Deus.


Illustrator Nuno Saraiva criou este mural na Travessa da Mata, não muito longe da catedral . É chamado de "Cavaleiros da Posta Real" ea inspiração veio de cavalos de Étienne-Jules Marey, o fotógrafo do século 19 que foi um dos pioneiros do cinema de animação. O objetivo é lembrar a comoção que antes rodeava a vizinha Correio Velho Palace.


Calçada da Glória e Largo da Oliveirinha, atravessada pelo funicular Glória , compõem a galeria de arte de rua oficial, com sete painéis oferecidos pela Câmara Municipal. Foi inaugurado em 2008, e ainda organiza exposições temáticas temporárias.


A Calçada da Glória EO Largo da Oliveirinha, Por onde passa o Elevador da Glória , E uma galeria de arte urbana oficial, com sete Painéis concedidos Pela Câmara Municipal. Foi em inaugurada 2008, e organiza Exposições Temáticas temporarias.

propaganda esquerdista cobriu ruas de Lisboa em 1970, e este no Bairro Alto recorda aqueles dias. É encontrado em Travessa dos Fiéis de Deus, e foi criado em 2009 pelos artistas Antonio Alves e RIGO, obviamente influenciada pelo design maoísta.



 

Diferentemente da maioria dos outros trabalhos nas ruas do Bairro Alto, estes murais têm sido capazes de sobreviver por vários anos. Eles são encontrados na Rua da Vinha desde 2012, enquanto que no paralelo Rua de São Boaventura é um trabalho mais recente de Binau.
Ao Contrário fazer that costuma Acontecer sem Bairro Alto, Estes murais Tem conseguido Manter-se NAS paredes há Já Alguns ano. Encontram-se na Rua da Vinha desde 2012, enquanto na Paralela Rua de São Boaventura ESTÁ Uma obra Mais recente, da autoria de Binau.

Na Travessa dos Fiéis de Deus é esta peça pela artista bem conhecido de Luxemburgo, Sumo Doubledevil.

Na Travessa dos Fiéis de Deus Encontra-se ESTA obra do conhecido artista luxemburguês Sumo Doubledevil.

Enviado por Beatriz Chito