Patxi - A força das palabras ditas ...
No universo
do léxico português, há algumas palavras proscritas. Uma delas é a palavra
“adeus”. Pelo que ela encerra de dor, de afastamento, de lágrimas.
Fomos e
somos um povo de lágrimas. Fomos e somos um povo de partidas. Fomos e somos um
povo de despedidas.
Abraço não é uma palavra proscrita. Pelo que encerra de amor,
de amizade e de fraternidade. Mas também ela pode ter o sabor amargo da
despedida.
Seja no abraço do emigrante, que parte para mais um ano de labuta e
que deixa para trás a aldeia singela, a casa que construiu com esforço e a
família idosa que fica no torrão – natal, a digerir nos olhos húmidos a
ausência, seja no passado remoto, quando a Gare Marítima de Alcântara se
transformou no Cabo das Tormentas dos que demandavam a guerra. E dos que, no
cais, de lenços brancos a acenar e o ronco sombrio do paquete, viam partir os
seus.
Abraço, num contexto de despedida, é a antecipação da saudade
de quem ainda está presente. Um abraço feito de ausência, é um mundo de emoções.
De emoções e de destinos desencontrados, se faz também o Aeroporto
de Lisboa. De novo as partidas de quem tem projectos de regresso. De novo pais
a despedirem-se de filhos e até dos netos.
Neto é uma palavra mágica. Como mágica é a palavra regresso
ao seio dos avós saudosos da criança. O reboliço da chegada, da casa
desarrumada com brinquedos espalhados pelos compartimentos, que são agora o seu
reino sem barreiras.
Deitados no leito, ficamos em êxtase, olhando as suas feições
correctas, o ritmo da chupeta que vai chuchando com a doçura dos inocentes. As
mãos pequeninas e laboriosas, quando se trata de abrir gavetas, espalhar
talheres pelo chão da cozinha e outras traquinices que nos faz sorrir.
De
sentir no seu peito a respiração a arfar em compasso lento, quando na cama o
aconchegamos para junto de nós, depois do biberon reparador engolido até à
última gota e nos sentimos no zénite da paixão.
Mas há o reverso da medalha. Outra vez a partida para a
grande metrópole. Outra vez a palavra proscrita – adeus.
Ali, no meio da rua, os avós ficam especados a ver o carro
desaparecer ao fundo, na curva do desencanto. Olham-se nos olhos a querer
mostrar cumplicidade mascarada de indiferença, como se nada se passasse, quando
o rosto fechado adivinha que se passa tudo. Um novelo de emoções difíceis de disfarçar.
O silêncio é agora o imperador da casa vazia. Ela - a avó –
procura uma qualquer ocupação, tentando esgrimir floretes contra o afastamento
do seu pequeno tesouro. Ele - o avô - de joelhos na carpete da sala, vai
guardando numa caixa os brinquedos coloridos e agora inertes, à espera que o
menino regresse e lhes dê, nas suas mãozinhas tenras, a vida que eles reclamam.
Então, o avô, numa convulsão de pensamentos, recorda uma das suas
canções preferidas: “ Palabras “, de Patxi Andion. E dum pequeno extracto do
texto da melodia que o cantor e actor, com a sua voz grave e pausada, declama
com grande carga emocional, num hino de amor, esse sentimento transversal aos
corações brandos.
E num deserto de ausência do pequeno ser que é a nossa
continuidade e que partiu para a grande cidade, só nos resta num murmúrio dorido,
relembrar as “palabras” sentidas e austeras do madrileno, nessa epopeia de gostar,
quando o Tempo já nos foge e o Destino nos aparta dos que amamos e nos faz
também declamar na língua de “nuestros hermanos”, a frase de Patxi que nos
submerge a Alma :
- … que helada que está esta casa ! …
Quito Pereira