Alfa Pendular ...
Naquela tarde fria de outono entrei na Gare do Oriente. Tinha
como intenção apanhar o comboio rumo à cidade universitária. Pelo espaço
deambulei, acotovelando - me por entre vagas de gente. A feira tecnológica das
novas ideias e negócios, com o nome de Web Summit, juntara naquele local mais
uns milhares de forasteiros. Por entre escadas - rolantes apinhadas de turistas e
restaurantes de comida rápida a transbordar de clientes, fui tentando
sobreviver ao caos instalado. Aqui e ali, retirados a um canto como aquele
mundo não lhes pertencesse, também vi rejeitados da vida. São rostos de ferro,
duros e impassíveis. Vidas perdidas de olhar vazio e mãos cheias de nada. Na
penumbra das suas existências, apenas uma palavra faz sentido – sobreviver.
Como um foragido, esgueirei-me para o último andar. Para
minha surpresa, o ambiente reinante era de calma. Do terraço, avistava-se uma
paisagem aprazível daquele local da capital. Ao longe, pequenas cabinas
suspensas por um cabo transportavam turistas ávidos de novas sensações.
Surpreendente, foi um afamado restaurante conhecido pela
cerveja e os seus bifes e molhos estar quase deserto. À porta, um empregado novo
e de fino bigode, tenta convencer-me a entrar. Com um familiar a meu lado,
decidimos almoçar a especialidade da casa. Assim, com quatro espanhóis sentados
numa mesa próxima de nós, todos já de simpática idade, esperámos pela hora do
comboio.
Do lado de lá da vidraça, o funcionário amável e bem fardado,
pergunta- me o destino. Esclarecida a situação, entregou-me o bilhete, tendo
informado com zelo profissional, que a primeira classe eram as duas últimas
carruagens da composição. A sua é a carruagem 2 - esclareceu-me.
Subi à plataforma de embarque. Um abraço de despedida ao meu
familiar, que rápido foi tragado pelo ventre escuro da escadaria de acesso ao
patamar inferior. Uma aragem fria agride-me agora o rosto. Passeando pela gare,
vou olhando os viajantes. Ali um casal de namorados, que se vai abraçando e
beijando, indiferentes aos presentes. Acolá, dois polícias que dão nas vistas
por empunharem duas metralhadoras de cano curto. Atentos, olham para o rosto
dos presentes um tanto disfarçadamente, como que procurando um alvo
referenciado. Alguns jovens fazem também parte daquele elenco da vida real, que
vão olhando atentamente o écran dos seus telemóveis. E, numa ponta da plataforma,
dois asiáticos ainda jovens. Ela, de casaco comprido e branco, sentada num
banco de madeira, vai comendo de uma pequena tijela de plástico, aquilo que
julgo ser uma canja de galinha. Ele, sentado displicentemente com os pés
cruzados em cima da numerosa bagagem, parece fatigado.
Na hora aprazada, o comboio “ Intercidades “ irrompe na gare.
Agitam-se os viajantes e entram na composição de rompante. Num ápice, o espaço
fica vazio. Sobro eu e os asiáticos que, minutos depois e entretidos com a
conversa, não viram chegar com pés de lã o comboio “Regional” com destino a
Tomar. A composição passou por eles de mansinho e parou a uma distância
respeitável do lugar onde se encontrava o casal e foi o drama. Ela, mal se
apercebeu que estavam em risco de perder o transporte, poisou a tijela no banco
e com uma pequena sacola na mão, correu em direção ao comboio. Ele, carregado
de malas, tentou acompanhá-la até que tropeçou e derramou-se ao comprido, espalhando
a bagagem no cimento da plataforma, perante a indiferença de alguns viajantes,
que entretanto foram aparecendo para partir. Num último esforço, o homem conseguiu
reunir os pertences e em salto felino penetrou no ventre do “Regional”, que lá
partiu mansamente.
Agora, era a minha vez. À hora certa, o “Alfa” apareceu.
Mentalmente, fui fazendo cálculos onde pararia a penúltima carruagem, afinal a
carruagem 2. A minha suspeita foi bem - sucedida.
Lá dentro, o conforto do lugar individual sem parceiro do
lado e o jornal e café oferecidos. O
olhar pela janela ampla, observando a paisagem que me foge no sentido inverso
da marcha rápida do Pendular. Meditabundo, recordo os momentos vividos na
balbúrdia lisboeta, a contrastar com a serena calma daquele espaço – rolante,
onde os passageiros falam quase em surdina, para não incomodar os outros
viajantes que ocupam a carruagem 2.
Há um balançar que me embala. Vou olhando as estações
desertas, que vejo passar à velocidade de uma seta. Ali e acolá, posso olhar as
localidades e num imprevisível abrandamento do comboio em Caxarias, vi o pulsar
de uma outra realidade: roupas a secar nos estendais das janelas e um homem de
fato - macaco que, longe da feira tecnológica, vai metendo tábuas numa carrinha velha e muito usada, na labuta diária pela vida. De tudo isto me apercebi, da
janela da minha carruagem 2.
Embrenhado numa notícia de jornal, não vejo aproximar -se de
mim um funcionário da composição. Vem impecavelmente fardado e, educadamente,
pede o meu bilhete. Remexo nos bolsos do casaco e encontro o talão verde que me
dá direito a um lugar na carruagem 2. Então ele pica o bilhete com um pequeno alicate,
que produz um som metálico que me traz à memória os velhos elétricos de
Coimbra. Ato contínuo, devolve-me o bilhete com um agradecimento e uma pequena
vénia. Registo a atitude de quem se esforça em dar uma boa imagem dos comboios
portugueses. Mas a minha mente retorna de novo a Lisboa.
Da feira de novas ideias, interrogo-me agora sobre este
galopar constante da tecnologia ao serviço do Homem. O mundo pula e avança, no
dizer do poeta. Mas há o reverso da medalha, quando a máquina substitui o ser
humano. Dou comigo a meditar na legião de rejeitados e desempregados da
sociedade tecnológica, que filtra os mais apetrechados daqueles que, até por
limitações naturais ou culturais, se vêm varridos de uma sociedade que,
supostamente, os aceita na mais hipócrita generosidade camuflada dos mais
cavernosos interesses.
Uma sociedade a branco e preto, entre herdados sorridentes e uma
tribo ampla de desfavorecidos da vida. O monstro tecnológico sem alma, com o
seu comportamento pragmático e estúpido, jamais saberá o significado da palavra
emoção. O sentir da palavra saudade, por exemplo, essa doença sem cura que não
há Liga nem peditórios que minimize, esse doloroso estado de alma de nos
despedirmos do sangue do nosso sangue. Olhando pela janela, por entre montes e
casario, é nisto que vou refletindo, sentado confortavelmente na minha
carruagem 2.
O rodado do “Alfa” tem agora um som diferente. Algo que me é
familiar e me recorda a infância. É a ponte sobre o Choupal e Coimbra que me
abraçam. Cheguei finalmente ao meu destino. Despeço-me do comboio que vejo
partir rumo a norte, até que a luz vermelha que ostenta na retaguarda se sumir
por completo, embrulhada no véu negro da noite.
No meu berço coimbrão, olho agora da janela do táxi, as luzes
da minha eterna cidade.
Na noite escura e fria, meto a chave na porta do meu aconchego.
E num inexplicável pensamento, faço um exercício por onde correrá agora o comboio
que me trouxe para casa. Talvez já pise terrenos de Aveiro, alvitro em
pensamento.
E sorrio incrédulo com a empatia que firmei com uma simples
carruagem – a carruagem 2 - do mais veloz
comboio nacional, o simpático Alfa Pendular.
Quito Pereira