Vamos comê - los de cabidela ...
Eu já tinha idade para ter juízo. Mas é que tinha mesmo !
Contam-se talvez pelos dedos das mãos, as vezes que depois da final do Jamor de
2012, fui ao Estádio Cidade de Coimbra ver a Académica jogar. Tenho- me
reservado a olhar de longe o descalabro da epopeia academista. Mas, na semana
passada, um familiar que por acaso nasceu cá em casa, telefonou - me e intimando-
me a comparecer nas Caldas da Rainha, para um jogo de futebol da Taça de
Portugal, com um grupo de rapazes amadores lá da terra, que trabalham de dia e
treinam de noite, a troco de 150 euros mensais.
- Óh pai, vamos comer os tipos de cabidela, que os gajos
jogam na 3ª divisão e andam mal classificados na tabela – dizia-me ele a
salivar... até te ofereço o bilhete...
Fui. Meti- me no meu novo Maria Mercedes que me dá muito gozo
conduzir e com a minha companheira a abarrotar de paciência com aquela minha
súbita paixão clubista, lá partimos para a batalha das Caldas, sem mouros à
vista.
Chegámos às Caldas a meio da manhã. Um tempo ameno, um
passeio no parque da cidade a olhar os patos multicolores a deslizar pelo lago
cheios de peneiras, uma visita a um urinol manhoso no meio da mata com a bexiga
a rebentar, e um chá quente tomado numa esplanada ao ar livre, para aliviar o
raio de uma tosse de cão que não me deslarga (gosto deste termo). Depois chegou
o tal que nasceu lá em casa acompanhado de um amigo, o que quer dizer que lá
tive que pagar mais dois almoços.
Depois partimos rumo ao pequeno estádio da Mata Real. Menos a
minha companheira que, bem mais inteligente que nós, preferiu ver montras do
comércio local.
O estádio é pequenino e estava a abarrotar de gente. Os
vindos de Coimbra e de outros lados do país, a afiar as facas para degolar um
bando de passarinhos. Os de lá, meios calados e a rezar o Terço, na esperança
de não levarem uma abada. Depois foi o que se viu. Os amadores das Caldas
arregaçaram as mangas e ao biqueiro para a frente, tiveram a sorte de, ao menos
por uma vez, ter acertado em cheio na bola de coiro (também gosto deste termo)
e pimba … grande golo com os de Coimbra calados e a pensar que o primeiro milho
é para os pardais. Depois nervos à flor da pele, expulsões, mais chutões para o
ar e caneladas à mistura e ó milagre dos milagres, então não é que a turma de
Coimbra com pouco jeito para jogar à bola, até conseguiu marcar também um golinho
?! Agora é que vai ser – rangia os dentes a rapaziada afeta a Coimbra com
esperança renascida e sedenta de vingança. Mas se lá dentro o jogo estava
“quente”, ao redor do campo a malta das duas claques portava-se na afinação.
Nessa altura, enquanto ia espirrando e tossindo encostado a um muro, eu já
estava mais fixado nas reações ao prélio do maralhal de Coimbra de todas as
idades, do que propriamente nos biqueiros e pontapés para a frente daquele jogo
entre casados e solteiros. Fomos aos penaltis e perdemos. E perdemos bem.
Fiquei a olhar aquela explosão de alegria dos da casa e bati-lhes as palmas que
mereciam. Então, alguém reconhecido pelo seu gabarito académico e de boina
preta na cabeça, passou por mim com os olhos injetados de sangue e vociferou
como se eu tivesse alguma culpa da tragédia: Isto é uma vergonha !!!
Os das Caldas ficaram a festejar. Os nossos, com grande
melão, regressaram a Coimbra. Cá por mim, dilacerado pelo desgosto da derrota e
a chorar convulsivamente, fui refugiar-me no Vila Galé da Ericeira a abarrotar
de clientes, a olhar o mar bruto a bater nas rochas e a fazer Votos de Clausura até
porque chovia a cântaros. Desci ao bar, lembrei a amena conversa que uns tempos
antes ali tinha tido com o meu distinto amigo Rui Felício e fiquei a beber mais
um chá quente para aliviar a gripe e a olhar para um grupo de portistas, que na
TV seguiam um jogo entre o Paços de Ferreira e súbditos do Senhor Dom Jorge
Nuno Pinto da Costa. Em determinado momento, os da capital dos móveis marcaram
naquela altura um golo aos azuis e empataram o match. Foi então que um tipo
grande e de acentuado sotaque nortenho, se levantou irado com a sua equipa e
vociferou de cabeça perdida e para quem o
quis ouvir:
- Quem vos metesse uma espinha de raia nesses cus grandes e gordos !!!!
Em silêncio, enquanto beberricava o meu chá de Camomila e a
poucas horas de ter perdido o jogo nas Caldas, fiquei a meditar naquela pérola
de comentário portista e a pensar no que diria eu ao pouco brioso grupo de rapazes
da Académica, atendendo a que tinham perdido nas Caldas da sua famosa loiça.
Mas claro que não digo, porque respeito ao máximo a nossa camisola negra e os
nossos atletas. Também porque sou um rapaz que tive uma educação espartana num
colégio de freiras na Suiça e tirei com raro brilhantismo e para quem não o
saiba, um esforçado doutoramento em Catequese, com Louvor e Distinção, pela
Igreja de São José do Calhabé, no tempo do saudoso e filantropo padre Aníbal …
Quito Pereira