Hoje o negro da nossa camisola é o preto do nosso luto ...
Todos os que gostamos da velha
Académica estamos tristes. Mais tristes aqueles que beberam de um grupo
singular de estudantes dotados para jogar a bola. Naquele tempo recuado, a
Académica de Coimbra bateu-se com os melhores. Pisou palcos nacionais e
internacionais. Levou o nome de Coimbra pela Europa. Nesse grupo, dois
futebolistas se distinguiam pelo facto de serem irmãos e titulares da equipa –
maravilha – os irmãos Campos. Ambos se formaram em Medicina. Hoje, o Victor
Campos partiu. Fica um vazio imenso e uma memória. A lembrança de um jogador
aguerrido, defensor implacável dentro do campo da camisola negra. Dizia-se que
tinha tanto de mau feitio na peleja como de dois pés soberbos e o fino recorte
do seu futebol miudinho e rendilhado. Era muito difícil a qualquer antagonista
disputar uma bola com Victor Campos. A magia da sua técnica com a bola levava
sempre a melhor. Um dia, no Hotel “Terceira Mar” nos Açores, um antigo árbitro de futebol que residia no Barreiro falou-me da Académica e dos muitos
jogos que arbitrou da Briosa. Recordou um jogo no Algarve onde Victor Campos lá
achou que o meu confidente estava a prejudicar a Académica e foi - lhe dando
parecer do seu desagrado. Mas como este continuava impávido e sereno a fazer
aquilo que lhe parecia ser uma arbitragem imparcial, o Victor Campos passou por
ele e pisou-lhe um pé ostensivamente, fazendo que tinha sido acidental, para
depois de sorriso amarelo mascarado de amabilidade lhe dizer: desculpe foi sem
querer. Como os grandes campeões, o Victor Campos lidava mal com a derrota, que
o mesmo não significa que tivesse mau perder - são coisas distintas.
Apenas uma vez falei com o Dr. Victor Campos. Por
ocasião de uma intervenção cirúrgica de um familiar. Ele fez parte da equipa
que efetuou a operação e teve a gentileza de me procurar num quarto da antiga
Clínica de Montes Claros e me explicar todos os procedimentos de um tratamento
que foi um êxito. Aqui, neste momento, quero registar esse passado menos bom e
agradecer ao médico que um dia jogou futebol na Briosa e na seleção nacional, a sua disponibilidade para comigo e de me ter procurado voluntariamente.
Esta é uma crónica triste. Mas o
Dr. Victor Campos, guerreiro que era dentro do campo, merece que eu termine este
meu testemunho emocionado com algo que nos faz rir e atesta bem do seu espírito
académico: numa tarde de domingo, no velhinho estádio municipal, jogavam
Académica e Vitória de Setúbal. Numa disputa de bola, Jaime Graça – outro
grande jogador – atirou-se para o chão magoado. Victor Campos, com muitos anos
de tarimba das manhas do futebol profissional, logo percebeu que a lesão era
simulada, até porque o resultado corria a favor dos sadinos e era preciso
deixar escoar o tempo de jogo.
Dirigiu-se então para o jogador prostrado no chão e disse – lhe com
aquele seu fino humor:
-Óh Jaime estás com sede ?
O sadino, a gemer de uma dor que
não tinha, perguntou-lhe num esgar de ronha:
- Não. Mas porquê ?
O Victor, mal humorado e porque
tinha dificuldade em perder, agarrou – o por um braço e disse-lhe com um ar “gentil”:
- É que estão ali uns tipos na
bancada a atirar-te com laranjas …
Nós, os que amámos uma Académica
que era uma pedrada no charco do futebol profissional que nos valeu invejas e
inimigos, entoamos hoje um grito académico e enviamos- te uma enorme coroa de
flores.
Obrigado, Dr. Victor Campos.
Q.P.