( foto de Fernando Rafael)
O meu estimado amigo Fernando de
Oliveira Rafael, nasceu a poucos quilómetros de Coimbra. Gosta da sua bela vila
de Penela que foi seu berço, e também da cidade universitária mondeguina onde
vive. Balança portanto, entre estes dois amores: Penela e Coimbra. De Coimbra, que
um dia foi capital do reino antes de Lisboa e teve no Mosteiro de Santa Cruz o
primeiro Panteão Nacional onde jaz o Fundador, Fernando Rafael vai calcorreando
ruas e praças, na descoberta deste ou daquele pormenor de interesse para
fotografar, como é o caso de artísticos edifícios de cantaria trabalhada, ou de
becos medievais e míticos da urbe. Por vezes – muitas vezes – o veraneante bebe
o cálice amargo da decadência, que mais se acentua quando Coimbra foi seu berço e viveu outras realidades. Não
quero agora fazer aqui uma busca exaustiva de locais ou de espaços comerciais
emblemáticos da nossa cidade, que foram devorados por um novo tempo. Nem da
cintura industrial, que era também o sangue vivo que fazia pulsar as artérias
estreitas da baixinha, com o poder de compra dos que tinham o seu emprego
garantido. E, lá no alto, como imagem de marca de uma cidade única, o coração
emblemático dos que cá nasceram: a Torre da Universidade.
Todos os dias visito este espaço
do meu amigo. E há dias, no silêncio dos meus pensamentos, olhei esta foto de
uma casa degradada, lá para as bandas do Miradouro do Vale do Inferno. Aquela memória
diante dos meus olhos, foi um dos mais afamados restaurantes da cidade. Situado
na margem esquerda do Mondego, o Retiro Real da Canas pela sua vista
privilegiada para o rio e para o anfiteatro da cidade, e também pelo excelente
serviço de restauração, era um marco na arte de bem servir o cliente. Porém,
esta fotografia inquietante, trouxe-me também outras recordações. A lembrança
das tardes soalheiras de domingo, quando no velho Estádio Municipal de Coimbra,
uma genuína Académica recebia um dito clube grande de Lisboa, com o estádio
pintado de vermelho e a romper de multidão pelas costuras. Eles, os de Lisboa,
eram sempre favoritos na contenda. E nós, os de Coimbra, na secreta esperança
que o rato conseguisse enganar o gato. E, pela instalação sonora do estádio, lá
vinha o anúncio que era quase um hino de fé: o jogador da Académica que marcar
o golo da vitória, tem direito a um almoço grátis no Retiro Real das Canas.
Era Coimbra. Uma outra Coimbra.
Uma Coimbra entre muros, menos indiferente, mais intimista e mais barricada na
defesa da sua genuinidade e dos seus valores intrínsecos. Uma Coimbra dos seus
cidadãos. Uma Coimbra mais solidária e mais nossa.
QP