domingo, 12 de maio de 2019
ANIVERSÁRIO
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Aniversários
sexta-feira, 10 de maio de 2019
APONTAMENTOS DE VIAGEM ...
A estação dos comboios é singela. Lá dentro, lá dentro da
estação, há um balcão envidraçado. E, atrás do balcão, um homem de cabelo
grisalho e camisa azul, que se cinge ao seu porte atarracado, olha o viajante
suspeito. O viajante sou eu. Mira-me na desconfiança se irei ficar ou partir,
mas a pequena mala que levo na mão denuncia-me. Distraidamente, vou olhando
para a banca dos jornais. Leio os cabeçalhos, na esperança de encontrar um
motivo de interesse que me preencha as cerca de três horas de viagem. Da
senhora que vende todo o tipo de verdades, mentiras e utopias, apenas vejo a
cabeça que emerge por entre uma montanha de revistas de capas apelativas e
cautelas de lotaria presas por uma mola, a tentar vender a sorte ou a ilusão.
Sentada numa cadeira de madeira, a idosa ignora-me. Sabe, pela experiência de
muitos anos, que a sua pequena banca é apenas uma montra para aqueles que, de bagagem
na mão cruzando destinos, lançam um olhar vagabundo pelas letras gordas dos matutinos,
de cabeça pendente sobre o ombro para não perderem pitada da glória dos ases da
bola ou de um qualquer artista em dificuldades que vendeu retalhos da sua vida
a um manipulador de palavras cinzentas e de sonhos desfeitos. Ela, a senhora
que vende jornais, continua sentada. Vai fazendo a sua malha, com duas agulhas
que esgrime com destreza, enquanto vai puxando o fio de lã amarelo que tem
preso por um alfinete vistoso à gola da blusa florida que veste com aroma a primavera.
Não a desiludo. Compro um jornal, enquanto vou dando uma vista de olhos pela lotaria.
Aposto na terminação cinco por cinco euros. É o preço da minha ilusão. Depois
dirijo-me ao postigo da venda de bilhetes. Um vidro separa-me do funcionário
que, com uma voz que parece vinda do além, me pergunta o destino. Peço uma passagem
para a capital, que me é servida numa placa giratória em alumínio. Dinheiro
para lá, bilhete para cá, para precaver qualquer eventual assalto. Uma
sociedade barricada nos seus próprios medos e angústias como antigamente,
quando se ostracizava os doentes com lepra. Lá fora, o cais de embarque está vazio.
Apenas vejo uma mulher pequenina, vestida de negro, sentada num banco de ripas.
Veste por fora o que a forra por dentro – o luto da alma. Vagueio pela plataforma,
aguardando o comboio. Fixo as linhas paralelas e um emaranhado de carris que se
cruzam sem se perceber o destino. Olho para norte e a linha parece diluir-se no
infinito. Olho para sul e a linha é engolida já ali, no meio do casario da
cidade. Apenas o enorme depósito da água, pintado de branco, parece ser a
sentinela fiel dos dias que correm ao sabor de um Tempo que amarra o viajante
ao ferrete dos ponteiros do relógio cruel, que lhe conta impiedosamente as
horas, os minutos e os segundos do palco efémero da Vida. Na bruma da manhã acolhedora,
olho o dorso do comboio que se avoluma à medida que se aproxima da estação. Vem
sinistro, no seu rodado metálico, apitando na procura de qualquer transeunte
distraído. O altifalante da gare vai anunciando a sua chegada na sua voz
roufenha. Depois a composição imobiliza-se e, em curto espaço de tempo, o silvo
agudo da partida. Sento-me só, num compartimento confortável mas sombrio.
Castelo Branco ficou agora para trás e já só vislumbro a plácida melancolia dos
olivais. Lá mais à frente, irei encontrar as Portas do Rodão e até o Castelo de
Almourol me saudará, sitiado pelas águas mansas do Tejo. Lá longe, na capital,
acordarei da minha letargia, com o estrondo da grande cidade. Da gente que se
cruza comigo de semblante fechado, gladiadores de um tempo que lhes foge na
arena diária do nascer e do renascer. Mas voltarei. O comboio que me levou ao
encontro da urbe dos mil encantos e desencantos, rumará de novo à Beira -
Baixa. E ali, ao anoitecer, o relógio da Estação de Castelo Branco, com os seus
ponteiros negros, lá estará à minha espera, indiferente à minha saga de romeiro do Tempo. Porque ele – o Relógio – apenas tem o compromisso de contabilizar os
dias perpétuos. Mas olho - o com simpatia. Porque é ele que orienta os meus
passos perdidos, neste meu tímido caminhar pelos labirintos da vida.
Q.P.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
ENCONTRO COM A ARTE - FOTOGRAFIA
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Encontro com a Arte- Fotografia
quarta-feira, 8 de maio de 2019
AVENIDA SÁ DA BANDEIRA - ELEVADOR DO MERCADO - ESTÁTUA A CAMÕES
Em primeiro plano a desactivada Manutenção Militar
Em 2º plano a renovada Escola Primária de Santa Cruz
Elevador há...mas fora de serviço....
ESTÁTUA A CAMÕES

Primeira colocação da estátua(oblisco ou conjunto
arquitectónico) em 1881, instalado na Alta de Coimbra, junto Porta Férrea Universidade, numa iniciativa de estudantes universitários.
Mais tarde ainda foi colocado junto ao Jardim Botânico perto do CADC
Actualmente ao fundo da Avenida Sá da Bandeira desde 2005
terça-feira, 7 de maio de 2019
MAIO FLORIDO NO BAIRRO NORTON DE MATOS
segunda-feira, 6 de maio de 2019
QUEIMA DAS FITAS
A propósito
Se soubesse no que a coisa ia dar, não teria vindo.
Há um pequeno livro de Fernando Assis Pacheco que retrata a vida de um emigrante galego na Cidade de Coimbra, na segunda década do século passado.
Chama-se, a obra, Trabalho e Paixões de Benito Prada e acedi-lhe através de um volume da coleção Livros RTP, na edição nova.
O livro encerra em si todas as carateristcas da literatura picaresca, aquela literatura em que o herói assume a sua condição humana plena e as peripécias da história são exatamente os eventos menos prestigiantes, aqueles que nos fazem realmente humanos e não semideuses. Sendo Benito Prada imigrante e galego numa cidade de ilustração, permite ao autor focalizar internamente, pelos olhos do estrangeiro, aquilo que de mais estranho a nossa cidade apresenta: uma divisão inconcebível, aos olhos de uma república democrática, em pleno século XXI, entre os futricas e os estudantes.
É evidente que a cisão entre os dois mundos foi mudando de cor, mas continua a existir. A divisão sociológica e geográfica que prevaleceu até meados do século XIX não desapareceu de todo. Até então, aos estudantes estava reservada a cidade dos estudos dentro do espaço das couraças e cuja porta de Almedina era cerrada no cair do sol. Se um aluno fosse apanhado fora do seu domínio pela guarda real, era imediatamente preso e entregue à guarda académica, que o colocava umas horas ou uns dias na prisão, nos calabouços da biblioteca Joanina. Mas no convívio diurno, o estudante era rei e senhor de uma cidade que existia para o servir e quase tudo lhe era permitido, perdoando-se-lhe a boémia e o excesso.
E hoje, como se vive essa coexistência? Se é verdade que o mundo estudantil e o futrica convivem no mesmo espaço urbano, será que sociologicamente essa convivência é pacífica?. Perguntem isso mesmo aos residentes da alta, especialmente aos vizinhos da Sé Velha, perguntem às vendedeiras do mercado quando lhes assaltam a banca para roubar o nabo, perguntem ao dono da tasca no dia do cortejo da latada ou da queima, que prefere fechar para não ter de ver os estudantes a sair pela porta sem pagar o consumo.
Isto tudo a propósito de um comentário breve ouvido a um pai de família num dos cortejos académicos. Esse pai, que tinha vindo ver o desfile onde o seu rebento desfilaria em cima do carro - um fitado portanro- ao ver o estado em que o filho se encontrva, embebedando-se exaltadamente, apenas pôde dizer:"se soubesse que a festa era esta futrica, tinha pensado duas vezes antes de vir".
Por Antonino Silva,
Se soubesse no que a coisa ia dar, não teria vindo.
Há um pequeno livro de Fernando Assis Pacheco que retrata a vida de um emigrante galego na Cidade de Coimbra, na segunda década do século passado.
Chama-se, a obra, Trabalho e Paixões de Benito Prada e acedi-lhe através de um volume da coleção Livros RTP, na edição nova.
O livro encerra em si todas as carateristcas da literatura picaresca, aquela literatura em que o herói assume a sua condição humana plena e as peripécias da história são exatamente os eventos menos prestigiantes, aqueles que nos fazem realmente humanos e não semideuses. Sendo Benito Prada imigrante e galego numa cidade de ilustração, permite ao autor focalizar internamente, pelos olhos do estrangeiro, aquilo que de mais estranho a nossa cidade apresenta: uma divisão inconcebível, aos olhos de uma república democrática, em pleno século XXI, entre os futricas e os estudantes.
É evidente que a cisão entre os dois mundos foi mudando de cor, mas continua a existir. A divisão sociológica e geográfica que prevaleceu até meados do século XIX não desapareceu de todo. Até então, aos estudantes estava reservada a cidade dos estudos dentro do espaço das couraças e cuja porta de Almedina era cerrada no cair do sol. Se um aluno fosse apanhado fora do seu domínio pela guarda real, era imediatamente preso e entregue à guarda académica, que o colocava umas horas ou uns dias na prisão, nos calabouços da biblioteca Joanina. Mas no convívio diurno, o estudante era rei e senhor de uma cidade que existia para o servir e quase tudo lhe era permitido, perdoando-se-lhe a boémia e o excesso.
E hoje, como se vive essa coexistência? Se é verdade que o mundo estudantil e o futrica convivem no mesmo espaço urbano, será que sociologicamente essa convivência é pacífica?. Perguntem isso mesmo aos residentes da alta, especialmente aos vizinhos da Sé Velha, perguntem às vendedeiras do mercado quando lhes assaltam a banca para roubar o nabo, perguntem ao dono da tasca no dia do cortejo da latada ou da queima, que prefere fechar para não ter de ver os estudantes a sair pela porta sem pagar o consumo.
Isto tudo a propósito de um comentário breve ouvido a um pai de família num dos cortejos académicos. Esse pai, que tinha vindo ver o desfile onde o seu rebento desfilaria em cima do carro - um fitado portanro- ao ver o estado em que o filho se encontrva, embebedando-se exaltadamente, apenas pôde dizer:"se soubesse que a festa era esta futrica, tinha pensado duas vezes antes de vir".
Por Antonino Silva,
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Antonino Silva
sábado, 4 de maio de 2019
O ÁGUIAS DE OURO
Foi numa tarde de Abril que cheguei a uma cidade que não conhecia. Tinha uma estação de caminhos de ferro e uns carris que desapareciam
nas planícies de ninguém. O comboio era modesto e desconfortável, com apenas
duas carruagens que balançavam ao sabor de uma paisagem de solidão. Recordo, que
ao chegar ao meu destino, a composição parou em grande chiadeira. Comigo
desembarcaram apenas um outro militar e um padre e, da outra carruagem, mais
três passageiros que, apressados e cansados da viagem, arrastavam as suas malas.
Dentro da estação e do lado esquerdo, estava um homem anafado e de camisa azul
que, do lado de lá da vidraça, vendia bilhetes aos passageiros que não havia. A
seu lado, um pequeno rádio portátil que trazia notícias de outros mundos e
assim se diluía o tempo no marasmo dos dias. Passado aquele breve momento de
agitação, a gare ficava de novo refém do silêncio da planície. Depois, na
conquista da cidade, o empedrado dos passeios levava - nos a uma praça ampla,
que no verão era batida por um sol impiedoso. E uma feira semanal, onde os
tendeiros vendiam a sua mercadoria regional aos poucos turistas que apareciam.
Realmente, naquela época recuada, Estremoz era terra de militares. De cidadãos
fardados de verde, a receber instrução para partirem para as três frentes de
guerra. A hospitalidade das gentes esbatia - se na sombra da tragédia de uma
pequena cidade simpática, a quem foi imposto o anátema de bastidores da guerra.
Na verdade e no meu caso, Estremoz foi apenas o prefácio de um livro de muitas privações, sofrimentos e dramas, que duraram mais de dois anos em África. Ali, naquela
praça apelidada de Rossio, existia e existe um Café de nome apelativo - Águias
de Ouro. Era próximo do Regimento de Cavalaria e lugar de encontro de oficiais
e sargentos milicianos. Recordo o estabelecimento escuro e amplo, com
mobiliário pesado e sombrio. As mesas eram de tampo castanho e as cadeiras
desconfortáveis, como se aquele local de lazer e convívio fosse uma espécie de
extensão do quartel. Mas era ali que tentávamos aliviar as nossas penas, sempre
que as folgas permitiam sair dos muros do velho Convento datado do século XIII
e adaptado a fins militares. Mas nem sempre o “Águias de Ouro” era a nossa
carta de alforria. Por vezes, aparecia por lá um Coronel de Cavalaria que, do
alto dos seus galões, fazia alarde da sua autoridade para deslumbrar meia dúzia
de clientes que ocupavam as mesas na troca do preço de um café pelo fresco da
ventoinha gigante que girava no teto a agitar as tardes de calor. Ele, o tal
Coronel, comandante do meu e nosso batalhão quase de partida para África, era
pouco ou nada estimado pelos seus inferiores. Havia um fosso inultrapassável
entre ele e os seus comandados. Vaidoso, exibia as suas fitas vermelhas
e amarelas a pender da boina como símbolo da Arma de Cavalaria. As botas altas
de equitação e um pequeno bastão compunham o personagem, que não tinha pejo em
interpelar um qualquer militar sobre o aprumo do fardamento ou até de um corte
de cabelo menos cuidado. Desconhecia aquele oficial superior, que um líder se
impõe sem se impor. Flui dele uma
natural liderança, que não se conquista
a golpes de autoritarismo. Ficou para
sempre na nossa retina a positividade do capitão da companhia que passou à
reserva como general e que, passadas tantas décadas, com ele continuamos a
conviver. Um homem que nos chefiou e foi respeitado até hoje pelas suas
qualidades como nosso comandante em tempo de guerra e pelas suas qualidades
humanas intrínsecas. Mas é naquele baluarte de café e restauração, que ainda
repousam algumas das minhas memórias alentejanas. Hoje, sei que o “Águias de
Ouro” lá continua na Praça do Rossio. Não sei se já mudou de mobiliário. Nem
tão pouco sei se a ventoinha avantajada do teto do Café ainda gira ou se o ar
condicionado matou aquela relíquia do passado. O que sei é que aquele bastião
de memórias pardas resistiu ao tempo, e que a cidade readquiriu o seu carisma e
a tipicidade de um Alentejo que encanta pelo perfume e pela melancolia das suas
planícies e dos seus sobreirais, que o odor fétido da guerra não matou.
QP
sexta-feira, 3 de maio de 2019
INTERRLÚDIO MUSICAL-SEPARADOR-BRIGADA VITOR JARA
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ANIVERSÁRIO
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Aniversários
quarta-feira, 1 de maio de 2019
ENCONTRO COM A ARTE - PINTURA-Guia
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Encontro com a Arte - pintura
terça-feira, 30 de abril de 2019
COIMBRA DOUTROS TEMPOS SÉRIE V
FOTO Nº 1 Torre da Santa Cruz
FOTO Nº 2 Piscinas Municipais
FOTO Nª 4- Coreto Parque da Cidade
FOTO Nº 5 - Calhabé - Construção Igreja São José(nova), vendo-se a antiga
FOTO Nº 6 - Demolição ponte Velha
FOTO Nº 7 - Lavadeiras do Mondego-Ponte do Modesto
FOTO Nº 8 - NORA DO CHOUPAL
FOTO Nº 9 - Largo da Portagem
FOTO Nº 10 - TEATRO AVENIDA
FOTO Nº 11 - Estação Velha
FOTO Nº 12 - Praça 8 de Maio-Igreja de Santa Cruz
FOTO Nº 13-Igreja de Santa Cruz-Praça 8 de Maio-Paços do Concelho
FOTO Nº 14 - "TAXEIRA" vendendo o Poney
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Coimbra antiga
domingo, 28 de abril de 2019
AS PALAVRAS AUSENTES ...
Vou partir. Levo na minha mochila de caminheiro as palavras
ausentes que me faltam neste calcorrear de vales e montanhas, que se
espreguiçam indolentes no pasmar dos séculos. Porque elas - e apenas elas, as
palavras ausentes - me falam dos caminhos que vigiam os meus passos perdidos. Eles,
estreitos e escuros, olham - me do eterno crepitar do Tempo. Resistiram ao
penoso caminhar dos anos. É o seu silêncio soberano que me acorrenta o
pensamento e me tolhe a alma. Passo a passo, como que a medo, percorro a aldeia
soturna. Olho as portas cerradas e abandonadas ao estertor do encadear dos dias
que passam. Sentado no regaço de pedra da fonte centenária, relembro com
respeito e saudade o esplendor de tempos de antanho, quando o sol radioso de bonança
brilhava no céu beirão e entrava pelas portas e janelas da aldeia plena de vitalidade
e de cor. Agora tudo morreu. Apenas portas fechadas. Apenas janelas fechadas.
Apenas um vento agreste que varre as ruas despidas de gente e de vida. Ali,
naquele pátio modesto, já nem adivinho sequer o bater vivo e ritmado do martelo
na loja do ferrador. Acolá, aquela nora carcomida pela ferrugem, foi tragada
por um monte de silvas e ervas daninhas. Jaz agora inerte, na solidão dos dias
emprestados. No chão, em redor do poço que trazia a água que é o alimento da
terra, apenas pesquiso, na rota batida e ressequida, indícios do caminhar
paciente do rocinante no labor das manhãs de rega. O ecoar metálico do sino,
fere o silêncio da aldeia e percorre, em vagas sonoras cada vez mais esbatidas e
distantes, as léguas de vastidão do vale. É quando a tarde já resvala para a
escuridão da noite, que aquele lago adormecido em paz ganha algum movimento.
Das casas, das pequenas casas, como por mistério, as portas gemem devagar nos
gonzos e, em surdina, amparadas nas bengalas ou envoltas no xaile negro que é a
manta que envolve o luto da alma, as mulheres idosas, de olhos postos no chão e
rosto austero caminham em direção da pequena igreja de paredes imaculadamente
brancas para ouvirem a Palavra do Senhor dita num murmúrio de muitas vozes,
quase um velado queixume.
São as labaredas da alma de gente simples e sofrida. São vidas
ausentes, ditas por palavras ausentes …
Q. P.
sábado, 27 de abril de 2019
RECORDAÇÕES DO BAIRRO DE OUTROS TEMPOS
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Bairro (notícias)
sexta-feira, 26 de abril de 2019
MEU CORTE DE CABELO
As lembranças do Quito (Aqui) levaram-me a outras: minha mãe!
As fotografias inexistem, porque àquela época, da minha
infância, só tenho as lembranças narradas pela minha mãe. Mas, a dor que eu
sentia quando ela “catava” os piolhos e
lêndea, só quem passa por isso sabe bem a que me refiro.
Minha mãe, viúva muito cedo, e com 5 filhos para criar (eu,
a mais nova, com 5 anos), e como ela mesma costuma dizer – já nos seus 102
anos! – não tinha recursos para pagar babá e tampouco nos levar a um(a) cabeleireiro(a). Então, ela cortava o nosso
cabelo, ao jeito dela. Acreditem: usando lâmina para barbear! Se podíamos
opinar sobre o corte? Nem pensar. A resposta era um tapa “no pé da orelha”!
O corte era sempre bem curto. Quanto menos cabelo,
melhor, para poder “catar” piolhos e
lêndeas. Aquele momento de retirar essas “pragas” que grudavam nos cabelos da nuca era por demais
sofrido, porque, para mim, era o local onde a “puxada” do cabelo doía muito.
Lembro-me de chorar durante todo o “procedimento cirúrgico”, mas era obrigada a
engolir o choro. Não sei como isso se dava com as outras minhas irmãs, mas
tenho apenas lembranças do que acontecia comigo. Afinal, quem “apanha” nunca
esquece”.
Não satisfeita, porque não tinha tempo para o feito,
mamãe colocava um pó branco em minha cabeça (depois de muito tempo soube que era DDT (sigla de diclorodifeniltricloroetano)
um pesticida. Envolvia minha cabeça em um pano branco e assim eu ia pra escola. Ela sequer imaginava (e até hoje não imagina) o perigo de estar
manipulando aquele veneno, e eu, de estar com aquilo no meu couro cabeludo. Mas
Deus protegeu! Ah, e como protegeu!
Vou culpar minha mãe por isso? Nunca! Ela é a
minha heroína. A mulher de fibra - que foi e tem sido - só nos orgulha.
Ela diz que, quando criança, meu cabelo era
muito fino, tanto, que sequer segurava um grampo. Pois! Mas desde que me conheço, o
meu cabelo sempre foi “problemático”.
Nas poucas vezes, já adulta, e querendo
provocar-lhe, disse para ela que sofro as consequências do tanto de DDT que ela
usou na minha cabeça. Ao que ela me responde: “ É nada. Não tinha tempo para ficar catando piolhos e lêndeas! Isso é
consequência desses shampoos que vocês usam!”
Dizem que cortar cabelo com lâminas endurece os
fios, e tendo a acreditar que sim, pois era dessa “ferramenta” que minha mãe se
valia para “cortar” meu cabelo, na infância.
Mãe, como queria que esse tempo voltasse.
Permitiria até que a senhora passasse a máquina, me deixasse ...careca”.
Chama a Mamãe!
(mas não para cortar seu cabelo!)
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Chama a Mamãe
quinta-feira, 25 de abril de 2019
ENCONTRO COM A ARTE- POESIA
A COR DE ABRILninguém tem nas mãos Abril
mas Abril sempre acontece
quando uma esperança renasce algum sonho apetece
se um cravo rubro floresce
na ponta de uma espingarda
se a cor da mágoa se esquece
e o arco-iris nos guarda
mas não sei dizer a cor
que tem a nossa vontade
terá talvez tons de anil
ser um madrigal de Abril
a madrugar na cidade
ou serem as vozes mil
que dão cor à liberdade
uma vontade a crescer
no peito que se deslassa crescendo em nós sem se ver
mas vermos que nos abraça
pressentindo em modo vário
que ao sermos um povo unido
nos fica o medo vencido
e nós um mar solidário
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Encontro com a arte-poesia
ANIVERSÁRIO
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terça-feira, 23 de abril de 2019
O ALBINO BARBEIRO ...
- Nos anos cinquenta do século passado, deambulavam pelo nosso Bairro algumas figuras muito conhecidas na cidade. Gente simples e carismática, que gozava da simpatia geral dos habitantes do antigo Bairro Marechal Carmona. Hoje, venho lembrar de uma dessas figuras que por este Bairro andou, calcorreando ruas e praças naquela que era a sua profissão - barbeiro. Não possuía estabelecimento que se lhe conhecesse nem emprego por conta de outrem. Era pura e simplesmente barbeiro ao domicílio. De mala na mão, lá ia de porta em porta visitando os clientes habituais, entre ao quais eu me incluía. Os meus cortes de cabelo eram sempre momentos épicos. Criança que era, detestava aquele sacrifício supremo de me sentar num banco de cozinha, enquanto o Albino, para suavizar o meu choro convulsivo, ia relatando jogos de futebol dando uma entoação brasileira à voz, à mistura com o som do matraquear da tesoura e do pente castanho e gasto com que me aparava e alisava o cabelo. Gradualmente, o meu choro transformava-se apenas num soluçar, quando me apercebia que o Albino estava nos procedimentos finais, ou seja, quando de navalha de cabo preto bem apertada na mão e o dedo polegar em riste apontado ao céu, me acertava as patilhas. Ato contínuo, punha - se à minha frente, fletindo as pernas, ficando cara a cara comigo, balançando a cabeça de um lado para o outro como se fosse um pêndulo - certificava-se se as patilhas estavam à mesma altura. Aquele momento ainda hoje me assusta, ao lembrar aquela cara magra em que se destacava um nariz afilado e um respeitável bigode negro e, ainda hoje, ao relembrar a sua figura frágil, mais tenho a convicção que aquela magreza pouco tinha a ver com a sua matriz genética, mas com um rosário de dificuldades e privações. E o corte de cabelo terminava sempre numa apoteose de pó de talco derramado em quantidades generosas sobre o meu pescoço e num enorme pincel com que o Albino me limpava os olhos e as orelhas em movimentos frenéticos. Apesar disso, era um homem divertido e reinadio. Vivia numa rua estreita, numa casa humilde junto à Sé Velha, mesmo em frente a uma agência funerária. Dizia por brincadeira que quando abria a janela do quarto de manhã e dava de caras com os caixões, ficava logo “bem disposto”. Em determinada tarde domingueira de verão, montou- se no Choupalinho, junto ao Mondego, um ringue de luta livre. O lutador, que se intitulava de nacionalidade grega, desafiava as cerca de cinco dezenas de basbaques que circundavam a arena para com ele medirem forças, sem que alguém se atrevesse a defrontar tal figura. Atemorizados, todos olhavam com respeito aquela montanha de carne e músculos de aço, até que, vinda de lá de trás uma voz resoluta se perfilou: vou eu !!! Com assombro, todos viram então o Albino dar um pulo felino para uma entrada no ringue em apoteose, colhendo as palmas e o respeito dos circunstantes . Teve azar. Conforme deu o salto, tropeçou numa corda que delimitava o espaço e desabou no recinto, batendo com a cabeça no chão e perdendo os sentidos, que o mesmo é dizer que o corajoso Albino mesmo antes de começar o combate já estava KO. E assim se finou o seu momento de glória, tendo todos percebido sem grande esforço que perante luta tão desigual, aquele incidente mais não era que a antecipação do que certamente ia acontecer - o Albino barbeiro a sair do ringue inanimado… e de charola.
- Q.P.
domingo, 21 de abril de 2019
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