sexta-feira, 22 de junho de 2018

COIMBRA EM REVISTA DA TAP - PRIMEIRA PARTE

COIMBRA, A SÁBIA


Coimbra é uma universidade. É uma canção. É o rio Mondego e o Choupal. Coimbra é um livro de histórias de batalhas suadas e de amores proibidos. Coimbra é uma lenda. Coimbra é de pedra e cal e de carne e osso. Coimbra é dos estudantes. É nossa e é sua também.

1 – UMA HISTÓRIA DO ARCO-DA-VELHA    A história de Coimbra funde-se e confunde-se com a da Península Ibérica e a de Portugal. Habitada desde tempos imemoriais, foi poiso dos romanos que chamaram à cidade na colina sobranceira ao Mondego, Aemenium. Mais tarde, em 714, chegaram os muçulmanos. Coimbra – Kulūmriyya para os árabes – foi islâmica durante mais de três séculos, e, não sendo uma grande urbe para o contexto Al-Andaluz, era, ainda assim, o maior aglomerado urbano a norte do Tejo. A cidade foi definitivamente reconquistada aos mouros em 1064 pelas tropas de Fernando Magno de Leão, que deixou nas mãos do moçárabe D. Sesnando a tarefa de reorganizar o burgo. Um século mais tarde, já integrada nos domínios do Condado Portucalense, Coimbra foi a morada eleita por D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, que se mudou com a corte para a velha alcáçova califal. Nela nasceram seis dos nove reis da primeira dinastia portuguesa. O século XII foi um período áureo na história da cidade. Bem localizada, com terrenos férteis, um bom porto fluvial, bem fortificada e povoada, Coimbra passou a capital do reino, honra que perdeu para Lisboa em 1255. Em meados do século XVI, graças à instalação definitiva da universidade em Coimbra, no antigo Paço Real, a cidade ganhou ainda mais vigor. Berço do conhecimento, Coimbra e a sua universidade tiveram um papel fulcral no mundo tal como o conhecemos hoje. :: 

OH COIMBRA DO MONDEGO                                                                                                 

O maior rio com nascente em Portugal (nasce na Serra da Estrela e desagua na Figueira da Foz, depois de percorrer mais de 250 quilómetros) foi determinante na fundação e no crescimento da cidade. O Mondego é tema recorrente na canção de Coimbra e em versos dos mais sagrados poetas da língua portuguesa. É no seu leito que todos os anos, por ocasião da Latada (a grande festa de receção ao caloiro), centenas de caloiros recebem o batismo dos veteranos da universidade. A encantadora Coimbra do Mondego apresenta-se com um trio de luxo a candidata a Património Mundial da Humanidade da UNESCO: concorrem a Universidade, a Alta e a Sofia, bem como um rol de património imaterial que desbravaremos nestas páginas. Os habitantes de Coimbra são coimbrões, conimbricenses ou conimbrigenses. Mas, segundo os estudantes, “elas” são as tricanas e “eles” os futricas.
3 -COIMBRA É UMA LIÇÃO

Testemunho vivo de sete séculos de saber, a Universidade de Coimbra (UC), mais do que a universidade mais antiga de Portugal – e uma das mais antigas do planeta! –, teve (e tem) um papel decisivo no país e no mundo: desde a epopeia marítima, à formação do Brasil e à integração europeia. Um exemplo, saudável e vigoroso, do melhor que Portugal tem para oferecer no campo das ciências, das letras, das artes e do conhecimento em geral. Por ela passaram estudantes de todas as partes do globo e alguns dos maiores vultos do saber da língua de Camões (ele próprio, estudou em Coimbra). A UC é determinante na vida da urbe e depositária de um sem fim de tradições académicas. D. Dinis fundou-a em 1290 e, durante os seus três primeiros séculos de vida, a instituição saltitou entre Coimbra e Lisboa. Já em 1537, por determinação de D. João III, fixou-se definitivamente em Coimbra no lugar do Paço Real medieval. Para entrar no Paço das Escolas é preciso cruzar a Porta Férrea, arco triunfal onde figuram esculturas alusivas às quatro faculdades originais (Teologia, Leis, Medicina e Cânones); aos dois monarcas fundamentais na vida escolar (D. Dinis e D. João III) e também a imagem alegórica da Sapiência, a insígnia da instituição. Atrás de si estão as novas faculdades, um espelho da arquitetura do Estado Novo (ditadura que vigorou em Portugal entre 1926 e 1974). Quando terminar a visita ao Paço, dispense-lhes também alguns momentos da sua atenção. Aguçamos-lhe a curiosidade se lhe dissermos que no Departamento de Matemática existe um magnífico mural de Almada Negreiros, o maior artista plástico do modernismo em Portugal? www.uc.pt

A TORRE E A "CABRA"
Ícone da cidade, a Torre da Universidade está para Coimbra como a Torre Eiffel está para Paris. É nela que mora “A Cabra”, o sino que regia a alvorada, as horas de estudo e de recolher dos estudantes. O ódio de estimação dos capas negras ao dito sino resultou na infame alcunha. Também existe “O Cabrão”, mas esse só toca em dias de cerimónia.

SALA DOS CAPELOS
Antes da instalação definitiva da Universidade no Paço Real, esta era a Sala do Trono, onde em 1385 se reuniram as Cortes que, depois de um prolongado vazio de poder, elegeram D. João I como rei de Portugal – o primeiro da segunda dinastia. Com a transformação em Paço das Escolas, a sumptuosa Sala dos Capelos (ou dos grandes atos) passou a receber as cerimónias mais importantes da vida académica, como os doutoramentos solenes, os honoris causa, a abertura solene das aulas ou a investidura do reitor.

SALA DO EXAME PRIVADO
No tempo em que era morada de reis, esta dependência era o aposento do monarca. Foi também nesta sala que se realizou, a 13 de outubro de 1537, a primeira reunião entre o reitor D. Garcia de Almeida e os professores da universidade. Aproveitamos e lançamos um desafio aos nossos leitores brasileiros: será que conseguem achar, na série de retratos que adornam a sala, o de D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, brasileiro que entre 1770 e 1779 foi reitor da instituição?

BIBLIOTECA JOANINA
É a joia da coroa da universidade, um delírio barroco do século XVIII. Erigida a mando de D. João V, a sumptuosa casa-forte do saber guarda mais de 200 mil volumes, entre eles uma primeira edição de Os Lusíadas (a epopeia de Luís de Camões) e também uma Bíblia Hebraica manuscrita, datada de 1104. Os floreados em talha dourada, os frescos e as delicadas chinoiseries são tão surpreendentes quanto o facto de a biblioteca abrigar uma colónia de morcegos que zela pela manutenção dos livros. Os mamíferos alados comem os insetos papirófagos, que destroem os livros. Por baixo da biblioteca fica a antiga prisão académica.

CAPELA DE SÃO MIGUEL
Construída em 1517 e sucessivamente restaurada ao longo dos séculos, a capela da universidade exibe uma mistura de estilos que vai do gótico ao manuelino, passando pelo barroco e pelo neoclássico. Nossa Senhora da Conceição é a padroeira da UC.

4- ALTA
Coração da cidade, a Alta foi poiso do fórum romano, da alcáçova muçulmana e do paço real medieval. Foi nesta varanda sobre o Mondego que nasceu Coimbra. Comece a visita pelo recém-renovado Museu Machado de Castro. Aqui achará o colossal criptopórtico romano onde assentava o fórum da cidade. A estrutura, datada do século I, é a maior e mais bem conservada da Península Ibérica e das poucas, em todo o mundo, que tem dois pisos sobrepostos para contrariar o declive acentuado da colina. Do velho núcleo romano, suba às novas dependências do museu batizado em honra de um dos maiores escultores que Portugal viu nascer (Joaquim Machado de Castro, 1731 – 1822). Espera-o um fantástico acervo de escultura renascentista que inclui nomes tão importantes como o de João de Ruão ou Mestre Pero. Mas as grandes surpresas são a Última Ceia, de Hodart, obra maneirista em terracota, e a “capela do tesoureiro”, edifício quinhentista da Baixa coimbrã que, por volta de 1960, foi trazido, pedra por pedra, para dentro do museu. Nos restantes pisos está um espólio impressionante de pintura, têxteis, mobiliário, cerâmica e joalharia. Reserve três horas para digerir tudo isto com calma e depois passe por outro museu obrigatório: o da Ciência, que exibe uma parafernália de instrumentos científicos dos séculos XVIII e XIX. De seguida visite, em ordem anacrónica, as sés: a Nova primeiro, a Velha depois. O templo, sagrado em 1640, pertenceu ao colégio da Companhia de Jesus até 1759. Em 1772, a igreja roubou à Sé Velha o lugar de sede episcopal da cidade. A Sé original, a Velha, fica mais abaixo, na colina da Alta, e é um monumento românico da segunda metade do século XII. Destaque para o retábulo da capela-mor, em gótico flamejante, executado pelos escultores flamengos Olivier de Gand e Jean d'Ypres em finais do século XV, e para o retábulo da capela do Santíssimo Sacramento, de estilo maneirista, datado de 1566, da autoria de João de Ruão. Perca-se nas ruas acidentadas da Alta e vá tomando atenção às fachadas mais improváveis, volta e meia saltar-lhe-ão à vista lindos portais manuelinos (como os da Casa de Alpoim ou da Casa da Nau), e passe pelas escadas do Quebra-Costas, onde está o monumento à tricana – a mulher de Coimbra. Aqui achará também os vestígios mais significativos da velha muralha da cidade, dos poucos que chegaram, mais ou menos intactos, aos nossos dias – a Torre e o Arco da Almedina, onde funciona o Núcleo da Cidade Muralhada. Viaje até aos primórdios da urbe neste centro interpretativo e depois cruze a Porta da Barbacã, porta principal da cidade no período islâmico. Museu Nacional Machado de Castro \\\ www.mnmachadodecastro.imc-ip.pt Museu da Ciência \\\www.museudaciencia.pt Museu Municipal de Coimbra - Núcleo da Cidade Muralhada \\\ www.cm-coimbra.pt

5- A BAIXA
Passando a Porta da Barbacã, chega-se ao arrabalde, a cidade extramuros, onde desde cedo se desenvolveu a vida popular e comercial de Coimbra. O desenho medieval da zona baixa mantém-se mais ou menos fiel ao original, especialmente na área conhecida como a “Baixinha”. Nesta zona há que visitar a Igreja de São Tiago, de traça românica, e a Igreja de São Bartolomeu, que a reconstrução levada a cabo no século XVIII dotou de um estilo barroco simples. Vá pelas vielas até à Rua Direita, onde, a partir do século XIV, se estabeleceu a Judiaria Nova (a velha, do século XII, fica onde hoje passa a Rua do Corpo de Deus). Atalhe até à Rua da Sofia, aberta por vontade de D. João III e de Frei Brás de Braga no século XVI para albergar os colégios universitários – entre eles o primeiro colégio das Artes. A Sofia é uma montra do renascimento em Coimbra. Pouco adiante fica outro dos mais importantes monumentos da cidade: o Mosteiro de Santa Cruz. Iniciado a 28 de julho de 1131 com o patrocínio de D. Afonso Henriques, foi entregue à ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Originalmente românica, a Igreja de Santa Cruz foi alvo de sucessivos acrescentos que resultam numa fabulosa mescla de estilos. No altar da igreja estão D. Afonso Henriques e o seu filho D. Sancho, que repousam em elegantes túmulos renascentistas, uma encomenda de D. Manuel I, que achou os túmulos originais demasiados toscos para a grandeza dos seus antepassados. Outros apontamentos dignos de destaque são o fabuloso cadeiral manuelino, uma clara homenagem aos Descobrimentos portugueses, e os baixos-relevos do Claustro do Silêncio, com cenas da Paixão de Cristo da autoria de Nicolau Chanterenne, também autor do púlpito da nave da igreja. Ainda na Baixa não deixe de passar pelo Pátio da Inquisição, sede do Tribunal da Inquisição depois de 1548, e pelo Edifício Chiado, valiosíssimo exemplo da arquitetura do ferro. Neste espaço cultural, sede do Museu Municipal de Coimbra, encontrará um acervo artístico diverso – composto por peças de pintura portuguesa, mobiliário, cerâmica, escultura e prata – colecionado ao longo de mais de quatro décadas pela família Telo de Morais. www.turismodecoimbra.pt

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O ar do tempo

Mais um trabalho da MU que tem por fim de levar à democratização da arte mural em Montreal, transformando a cidade num museu a céu aberto com os seus cinquenta murais exteriores até à data.

terça-feira, 19 de junho de 2018

RECANTOS DE COIMBRA

JARDIM DA SEREIA....pouco recomendável turistícamente pelo abandono em que se encontra, principalmente os lagos sem água...
   Praça da República- Entrada principal do Jardim da Sereia
    Pormenor arquitetónico  da parte superior do Pórtico de entrada
    Cascata-Agora
  Cascata como seria suposto estar... (NET)
    Jardim "Jogo da Péla"! actual
   Jardim da Péla devia no mínimo estar(foto net)

  Aqui e em baixo- esculturas em ferro de Rui Chafes.

   Álea  junto ao campo de Santa Cruz...donde se viam jogos à "borla"...
    Campo de Santa Cruz
   Campo de Santa Cruz 

   Rua Alexandre Herculano
  Praça da República- Posto de Turismo e esplanada Café  Cartola

segunda-feira, 18 de junho de 2018

CONTO SOBRE OUTRO CONTO


A Rosalva, trintona, toda em forma de violão, morava na pacata cidadezinha de Belterra (aliás, nem cidade ainda era, mas sim um município da Cidade de Santarém, no Estado do Pará). Casada com (predestinado) Cornélio, adorava as músicas e cantores da Jovem Guarda, especialmente do Erasmo Carlos e Roberto Carlos.

Cornélio cercava a Rosalva como galo quando está querendo meter o esporão na galinha. Um ciúme exacerbado. Incontrolável. Via, em qualquer pessoa do sexo masculino, um rival em potencial. E nem precisava que o pretenso rival tivesse um corpo esculpido em academia. Para Cornélio, um homem era um homem e, portanto, perigo iminente de perder a amada Rosalva para algum concorrente.


A mente do Cornélio vivia em polvorosa. Quando saiam, seja para passearem ou irem a missa, até o assovio de um passarinho ele já cogitava ser alguém assoviando para a Rosalva. Afinal, ela chamava a atenção (e inveja) até da mulherada, com aquele corpo todo enrijecido, pernas alongadas e um bumbum que parecia “moldado” para a esposa do Cornélio.


Quando Cornélio não podia acompanhar Rosalva, não permitia que ela fosse sozinha a qualquer lugar, ainda que a companhia fosse filha da vizinha, a Nanda, por quem o Cornélio não tinha muita simpatia. Mas, afinal, era mulher. 
Na cabeça do Cornélio, mulher não era perigo.


E a Rosalva? Como ela mesma se intitulava, uma “santa”! Só se fazia acompanhar, para qualquer lugar, com o marido ou com a Nanda, amiga desde sempre.


Cornélio, casado há quase 15 anos com Rosalva, não teve um emprego seguro, em que precisasse ter um horário definido para labutar. Por conta disso, ausentava-se de casa conforme a necessidade do serviço que se lhe aparecia. Não saia de casa, porém, sem antes se certificar de que Rosalva iria permanecer em casa, e, caso saísse, já deixava negociado com Nanda para acompanhar a mulher.


E Nanda nunca recusou ou se fez de rogada, quando necessária (e desnecessária!) sua companhia à Rosalva. Em muitas das vezes, até se oferecia para tal “serviço”, embora não cobrasse do Cornélio absolutamente valor algum para a “função”. Era tudo por prazer, como ela costumava dizer.


E Cornélio, nessas ocasiões, sentia-se inteiramente tranquilo. E até arriscava dizer aos amigos o quanto cuidava de sua esposa, e criticava aqueles que permitiam que estas saíssem desacompanhadas.


Certo dia, Cornélio, chegando do serviço, foi dar uma incerta na bolsa da Rosalva, dizendo a si mesmo: “O seguro morreu de velho”. Já estava aliviado e quase arrependido de vasculhar as coisas da amada, quando percebeu um pedaço de papel, na cor vermelha, com muitas dobraduras, parecendo um origami, o que logo lhe chamou à atenção e acionou o “desconfiômetro”.


Foi desdobrando o minúsculo papel, e, à medida que seus dedos trêmulos abriam mais uma dobra, da sua testa caiam gotas de um suor quente, como se algo na cabeça estivesse a queimar. 

Meu amor, quando seu marido estará ausente, para termos mais horas, loucas e apaixonadas, para nós? Espero ansiosa por sua resposta. Beijos, amor. Assinado: Nanda”.
Tinha tanto medo de perder a amada, que aceitou a sugestão de ambas para morarem juntos, os três. 
Acabou por se gabar aos amigos e vizinhança, que era o tal, que dava conta de duas mulheres. Essa foi a "negociação" com Rosalva e Nanda, para que ninguém soubesse que perdera a mulher para quem menos ele temia: outra mulher.
E viveram felizes por um bom tempo. 
Chama a Mamãe


 Lendo o conto do Quito (http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2018/06/a-amante-do-felisberto.html), fiquei inspirada para contar um "Contro Sobre Outro Conto"
AQUI



domingo, 17 de junho de 2018

A BOMBA NO NIASSA ...




 Navio Niassa ...

Diz a sabedoria popular que “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Também esta verdade assume relevância nos recontros da guerra em África. Se muitos são relatos verídicos e emocionados, outros são fantasiosos e fruto da imaginação de cada um. De uma pequena escaramuça se faz uma batalha sangrenta, com explosões e baixas à mistura. Vem isto a propósito de uma informal conversa num café de Lagos, cidade apinhada de gente maioritariamente estrangeira, numa babilónia de línguas e culturas que se passeiam pelas artérias e vielas da cidade, numa organização desorganizada, neste mês de Maio acolhedor em terra algarvia. Sentado numa mesa do “Mimo”, esse mimo de café na Rua Infante de Sagres, vou olhando a rua. Na mesa ao lado, estão dois homens que conheço de vista e que pelo sotaque se percebe serem algarvios. E o Zé Manel, dono do estabelecimento que,  entre duas “bicas” que vai servindo, se senta junto a mim. Fala-me de Lagos, deste ou daquele pormenor, como do grupo de teatro amador de que faz parte, ou da ditadura da Câmara de Lagos, que lhe indeferiu um requerimento para colocar mais quatro mesas na explanada do seu pequeno café. Subitamente, a conversa descambou para a guerra de África. Falando para mim e para os dois outros clientes, disse com convicção:

- Antes de chegar à Guiné, podia ter morrido em Lisboa a bordo do navio “ Niassa”, quando explodiu uma bomba no porão.

Depois, em jeito de narrativa, prosseguiu:

- Faltavam cerca de dez minutos para o barco largar, com os familiares no cais a dizer adeus com lenços brancos. Tinham já retirado uma escada de acesso a bordo e apenas faltava retirar uma outra escada. Então, ouviu-se uma grande explosão e o barco tremeu. Foi um atropelo, com os militares a gritar, numa correria para abandonar o paquete. Depois, veio a saber-se que tinha sido uma bomba colocada no porão, que abalou a estrutura do navio, mesmo junto à linha de água. Mais tarde, quando desci junto do meu beliche, fiquei pálido. No local do rebentamento, a minha bagagem estava desfeita, tal como a de alguns camaradas meus. Cá fora, os familiares não arredavam pé aos gritos de “ assassinos, assassinos, querem matar os nossos filhos”. A noite caiu e do cais ninguém arredava pé. Mais tarde, talvez para as gentes desmobilizarem, o barco foi levado para o largo, onde pessoal da Lisnave arranjou os estragos e lá seguimos viagem escoltados por um barco de guerra da Marinha, um dia depois do previsto. Entretanto, a Emissora Nacional, disse formalmente que o “Niassa” tinha partido, quando ainda estávamos em Lisboa. Omitiram, deliberadamente, os factos aos seus ouvintes.

Desconhecendo esta realidade, fiquei a olhar o meu amigo. Os outros dois clientes, que disseram que também tinham combatido na Guiné, ouviram tal como eu, esta narrativa com desconfiança. Um deles até sorriu, com desdém de uma peripécia fruto de uma imaginação fértil. Porém, para mim, a descrição tinha demasiados pormenores e comecei a acreditar que talvez houvesse algo de verdade no relato que nos era contado em agitação e em jeito de catarse. Então indaguei. Pesquisei e realmente batia certo. A bomba no “Niassa”, aconteceu poucos dias antes da revolução de Abril. Mais precisamente, no dia 9 de Abril de 1974.

Desta vez o Zé Manel, que mata e esfola tudo e todos sem ser capaz de pisar uma formiga, disse a sua verdade de uma  verdade histórica. E, felizmente, sobreviveu para contar mais esta memória baça que já se vai perdendo nos tempos. E eu, que sou bastante amigo dele, tenho o deleite de o ouvir dizer-me:

- Quito, tenho ali para provarmos uma amêndoa amarga de estalo …

A nós, a mim e a ele, sobreviventes que fomos e somos, a guerra crua da Guiné não nos aniquilou nem a amizade nem os sonhos.

QP
             

sábado, 16 de junho de 2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

JARDINS ....E PASSEIOS FLORIDOS NO BAIRRO NORTON DE MATOS

    Um jardim florido- Rua Infante Santo
   Uma amostra dos passeios floridos

ANIVERSÁRIO

ERNESTO COSTA

          JÓJÓ


Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

CURIOSIDADES




Falta acrescentar...

Falta a lição sobre futurologia: "Um dia ainda me vais agradecer!"

Minha rica mãe!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

POSTALINHO - XURÉS-GALÍCIA E GERÊS CASTRO LABOREIRO


   Espanha- Entrimo(Orense) Serra de Xurés
    Foto F. Rafael

                     Baixa Limia-Serra de Xurés-Parque Natural-Galícia
                     Foto de Celeste Maria
                     Castro Laboreiro.
                     Capela de Senhora do NUMÃO
                     Foto de Celeste Maria

    Espanha Serra de Xurés- Pacin
     Foto de Celeste Maria
         

terça-feira, 12 de junho de 2018

ANIVERSÁRIO

ROSA MARIA GÂNDARA

12-06-1946

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Jardinzinhos de Montreal

É sem dúvidas acolhedor passearmos nestas ruas plenas de jardins dos mais variados tipos. Neste caso apresento alguns com arbustos que nos acompanham ao longo do nosso passeio.

domingo, 10 de junho de 2018

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A GLÓRIA DO DESPORTO AMADOR ...






Nesta cascata indecorosa dos subornos, resultados viciados e envelopes por debaixo da mesa no desporto profissional, em que as modalidades ditas amadoras são pagas a peso de ouro a atletas também eles ditos amadores, o país vai olhando todos os dias para os mais diferenciados personagens de um desfile de mau gosto. Maior é a feira, quando se trata de futebol profissional e dos milhões de euros e de interesses instalados, de uma atividade globalmente mal frequentada. Desde os novos escravos e seus mercadores do século XXI , passando por trafulhas, agiotas e  gente insolente com o culto da sua própria personalidade, encontra-se de tudo. Depois há os outros. Os que são genuinamente amadores. Aqueles para quem o cifrão, é substituído pela bandeira da fraternidade e da convivência sã.


De Salgueiro do Campo, nestes dois últimos fins de semana, não me chegou o cheiro vil da corrupção. Chegou-me antes o aroma dos frangos assados e das febras grelhadas, do som do tilintar das garrafas de cerveja em brindes entre povos de quatro aldeias, a disputar um torneio de futebol: Salgueiro do Campo, Rochas de Cima, Freixial do Campo e Tinalhas. Venceu o melhor, que levantou a Taça. Sem remoques, nem conferências de imprensa.

Conheci aquelas gentes. O que outrora eram batalhas campais em jogos de bola disputados com determinação, hoje, o ardor da luta também lá está, mas com outros protagonistas. Aqueles que, assumido a sua faceta campesina, dão lições de como o desporto amador, é a pérola do verdadeiro espirito de competição.


Destes torneios entre aldeias, lembro as taças que vinham pedir à Farmácia do Salgueiro,  o que nunca lhes foi negado. Com alguma nostalgia, lembro o dia em que a Associação Recreativa do Barbaído, organizadora de um torneio, nos pediu um troféu. O Barbaído, pequeno povoado encravado entre montes onde impera o silêncio, é conhecido pelo “centro de mundo”, vá lá saber-se o porquê.  Passeando pela cidade, vi uma bela e vistosa taça numa vitrina, por um preço módico. Comprei o troféu, que lhes entreguei. Ficaram deslumbrados com a oferta, e no fim do torneio, acharam por bem oficializar um agradecimento, em carta timbrada com o logotipo da Associação. Um reconhecimento pouco protocolar, atendendo ao teor do documento, que não era de palavras de circunstância ou de palavras vãs. Estava ali muito do coração da gente simples.


Para rematar, da bela povoação de Tinalhas das casas solarengas e senhoriais, que também tem como padroeira Dona Isabel de Aragão, que ali é venerada em imagem que é cópia da que se encontra no Convento de Santa Clara em Coimbra, recordar o Terceiro Visconde de Tinalhas, Dom José de Meireles Coutinho Barriga da Silveira Castro e Camara e o seu espírito filantropo. Conta o povo, que um dia o Senhor Visconde foi ver um jogo de futebol no terreiro onde têm lugar as Festas da Padroeira, e não percebendo nada de futebol, ficou muito condoído por ver  vinte e dois rapazes muito transpirados, de calças arregaçadas até ao joelho, em mangas de camisa e socas nos pés, a lutar bravamente pela mesma bola e, num gesto magnânimo, mandou um capataz ir à cidade comprar uma bola para cada um, para que não houvesse mais zaragata. Promessa honrada e cumprida de Visconde. Naquele tempo, o desporto – rei dava ainda os seus primeiros e incipientes passos em todo o mundo. 


São narrativas de ontem, de hoje e de sempre, verdadeiras ou fruto da imaginação popular na exaltação dos seus mais predicados filhos. Tinalhas e os seus Viscondes. Tinalhas e a sua história.

Q.P.