quarta-feira, 15 de abril de 2020
segunda-feira, 13 de abril de 2020
O LODO E AS ESTRELAS - Parte 1
Barragem de Picote
Folhear “O Lodo e as Estrelas” é ler um livro proscrito. O
testemunho de um Tempo. De um tempo passado amassado em sangue, sofrimento e
solidão. Talvez por isso em tempos remotos, o livro de Telmo Ferraz morreu à nascença.
O relato incómodo daquele passado que na época era presente fez a polícia
politica abafar uma realidade negra. Falar em Telmo Ferraz é lembrar um padre
que viveu a saga dos barragistas, que por entre fragas e do meio do nada
construíram as barragens de Picote, Miranda e Bemposta por esta ordem – barragens
do Douro Internacional que produzem hoje vinte cinco por cento da energia
nacional. Telmo deu tudo de si. Acarinhou e protegeu filhos da fome. Ofereceu o
pouco que tinha em bens materiais, até ao dia em que apenas ficou com a sotaina
que lhe escondia o corpo e até das calças se despojou. De fortuna, apenas as
estrelas do Firmamento e um coração doce. O livro de Telmo é um livro cru.
Talvez de uma beleza literária que se confunde com a inocência de um prosar
realista e torturante. Fica o aviso que só lê quem quer. Fica o resguardo que
escolherei episódios colhidos ao vento em várias páginas. Fica uma lembrança,
uma homenagem e uma memória. Lembrança de mineiros do carvão que demandaram as
barragens por mais uns miseráveis escudos por mês. E dos outros. Dos que
morreram minados dos pulmões. Também dos que sobreviveram para construir um
Portugal melhor. Para que conste.
“ O Zeca vomitou sangue. Um sangue vivo, quase encheu um
tacho! Esse tacho de sangue é o meu exórdio. Que todos me perdoem. Riam-se de
mim. Mas, pelo amor de Deus e dos nossos pais, peço um olhar de piedade para
todos os personagens deste livro. São personagens reais. Temos os mesmos nomes
e a mesma vida, no nosso pequeno mundo – uma barragem.”
O Boné Preto
O dia passou. O mês também. Tenho medo dos dias. Tenho medo
dos meses. Cada dia uma coisa nova. Hoje, impressionou-me um homem que,
retorcendo, ao mesmo tempo, com as mãos compridas, o boné.
Há três semanas que espera …
Porque me impressionou tanto este homem? Por retorcer o boné?
Talvez. Os dedos compridos, retesos, atrapalhados, a mastigar o boné como se
tivesse entranhas e, dentro, o pão dos filhos.
O boné preto! Os dedos compridos !
Breve, continuarei a folhear este livro para quem me queira acompanhar. Uma Via Sacra de espinhos. Um passado negro português.
Quito Pereira
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domingo, 12 de abril de 2020
P Á S C O A
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sábado, 11 de abril de 2020
ANIVERSÁRIO
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quinta-feira, 9 de abril de 2020
O BAIRRO NORTE ...
Saudade ...
A praia de Mira é um viveiro de memórias, de recordações doces que me fazem navegar pelo passado, como quem rema na Barrinha num barco carregado de moliço. O verão era sempre um amontoado de povo na sua essência, de portugueses e emigrantes que falavam um francês emprestado, com um rancho de filhos atrás que exigiam aos pais a bola ou o balão colorido que o feirante de ocasião apregoava a chamar a atenção dos turistas. Mas, no meio da confusão de gente que procurava sofregamente viver um ano em apenas quinze dias de lazer, havia o Bairro Norte na sua calma espacial. Era um aglomerado de moradias singelas, construídas com o produto da faina do bacalhau. A esmagadora maioria das vivendas pertencia a pescadores que moirejavam pelos mares frios do Canadá. Eram campanhas longas de muitos meses e elas, as mulheres, ficavam em terra a tratar da lavoura e dos filhos, e a responsabilidade de no verão alugar as casas aos forasteiros, sendo os preços acertados entre todas as mulheres, para que não houvesse grande discrepância de valores. E era no Bairro Norte que eu e a minha família lançávamos âncora em tempo de férias. Por várias vezes alugámos a mesma casa. Situava-se na primeira linha de praia. Por um portão de madeira saímos para a areia e, trepando um pequeno morro, repousávamos a vista sobre o oceano. Um mar largo e encapelado, que nos trazia o cheiro intenso da maresia. E nós ali, no cimo da duna, de cabelos ao vento e os filhos pela mão, num pacto de amizade com as ondas e a branca espuma. Lá longe, estático por entre a bruma de fim de tarde, um barco de proa erguida repousava no areal, na espera de uma nova refrega com o mar. E à noite, com a cabeça deitada no travesseiro, ouvir como pano de fundo a voz intemporal do oceano e adormecer em paz no silêncio das estrelas e do Bairro Norte. Por vezes, a nossa senhoria aparecia. Trazia-nos algo que colhia nas suas terras cultivo - um gesto de cortesia. Depois, no pequeno quintal junto à duna, falava da vida e das suas inquietações. Lembrava o marido que batalhava lá longe na epopeia do bacalhau. E, enxugando os olhos húmidos ao avental preto, falava de saudade. E nós a olhar, tentando animá-la com palavras sentidas, quase familiares. Era uma simbiose de afetos. Afinal, de sentimentos partilhados entre quem vivia do mar e de nós, que no Bairro Norte do nosso contentamento e por duas semanas, aportávamos àquele cais de felicidade.
Quito Pereira
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quarta-feira, 8 de abril de 2020
INTERLÚDIO MUSICAL - JOÃO AFONSO e Orquestra Clássica do Centro - «Traz outro amigo também»
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terça-feira, 7 de abril de 2020
MARCELO DOS REIS - Bostik Azul [Alternate Take]
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segunda-feira, 6 de abril de 2020
TUNAMELICHES
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domingo, 5 de abril de 2020
CONTO
RECORDAÇÕES DE MENINA
A Mariana pôs, ao ombro, o sacho
Compensando o peso com uma mão
Enquanto, na outra, sustinha a cesta
E, com o seu tão habitual despacho,
Saiu palmilhando o caminho do “tchão”,
Em passada miudinha, mas bem lesta
Não tardaria o toque das Trindades.
Ainda, era preciso ir à fonte
E fazer mil e uma actividades
Antes do sol se pôr lá no horizonte
Volta com a cesta cheia de renovo
Retira algumas folhas de nabiça,
Aparta os “retaços” para a vianda,
Depois de ver se havia algum ovo
Coloca o portado no galinheiro,
Mede, a palmo, a porquinha roliça
E sobe as escaleiras, mas desanda,
(Lembra-se que tem umas voltas a dar)
Terá de arranjar “caraba” primeiro,
De quem queira e possa ir ajudar
A acarretar o feno do lameiro
Lá sai ela, novamente apressada,
Entra na casa da Pepa da ti Neves,
No curral do ti Zé Ramos e da Bei
Num afã de passos afoitos e leves
Ainda vai ver do ti António Lei…
Ouve as Avé-Marias, à chegada,
Psina-se e ora com muita devoção
É a hora de acender a candeia,
Emparelhar uns gravetos ao tição
Atear o lume e fazer a ceia
Quando o sol raiou, de manhãzinha,
Já Mariana provava a merenda
Que iria levar para o lameiro
Tinha metido no meio da cozinha
O açafate com toalha de renda
Pratos de esmalte branco, do louceiro,
Talheres guardados para a altura
Barranhão, para o caldo de “baginas”
“Tchouriça” de ossos tradicional
As rodilhas e “paninhos” com fartura
Uns tantos copos e malgas pequeninas
Tudo, como era o habitual!
O seu Toino, acartara-lhe a lenha
Com que cozera as carnes e feijão,
Para os de casa e quem quer que venha
À faina do lameiro, dar uma mão.
Comera uma falha de pão e queijo
Que engoliu com um copito de vinho
Deu à Mariana um alegre beijo
E desceu à loja a jungir as vacas
Para se meter, depressa, a caminho
Com forquilhas, ancinhos, nagalhos, sacas…
Mariana tardou a findar a lida
Pois queria fazer tudo com esmero
Agradecer, da melhor forma devida,
Com ostentação e algum exagero,
Na comida que levaria ao “tchão”
Aos amigos que a vinham ajudar
A enfeixar e acarretar os fenos
Desde os lameiros até ao palheiro,
Que, embora fosse obra de somenos
Não era menos digno de gratidão
Davam, no campanário, as onze horas
Blusa rameada cingida à cintura
Saia de godés e avental franzido
Rosto rosado cor de maçã madura
A Mariana lá vai, sem mais demoras
Calcorreando o caminho comprido
Com a mãe e a comadre a seu lado
Levando à cabeça o açafate
Tão primorosamente organizado
Como pelo arraial da “Sacraparte”
Foi uma festa a chegada das três
O realejo do Toino deu o mote
A cantoria seguiu em desgarrada
E todos acorreram a tomar vez
Em redor duma mesa improvisada
E, ali, se ajeitavam em magote
Partilhando as sopas do barranhão
Ou enchendo a sua malga pequena
Que, cada qual seguravam na mão
Numa liberdade alegre e plena
E havia de tudo um poquenino:
“Tchouriça d’ ossos” e da outra também,
Farinheira e farinheiro cozidos
Queijos de leite de vaca e caprino
Presunto bem curado, como convém,
Copos de vinho vezes e vezes enchidos
Não faltaram as “bicas” doces da festa
Aquela água cristalina da fonte
A força que a alegria empresta
Mesmo que o suor escorra da fronte!...
Georgina Ferro
A Mariana pôs, ao ombro, o sacho
Compensando o peso com uma mão
Enquanto, na outra, sustinha a cesta
E, com o seu tão habitual despacho,
Saiu palmilhando o caminho do “tchão”,
Em passada miudinha, mas bem lesta
Não tardaria o toque das Trindades.
Ainda, era preciso ir à fonte
E fazer mil e uma actividades
Antes do sol se pôr lá no horizonte
Volta com a cesta cheia de renovo
Retira algumas folhas de nabiça,
Aparta os “retaços” para a vianda,
Depois de ver se havia algum ovo
Coloca o portado no galinheiro,
Mede, a palmo, a porquinha roliça
E sobe as escaleiras, mas desanda,
(Lembra-se que tem umas voltas a dar)
Terá de arranjar “caraba” primeiro,
De quem queira e possa ir ajudar
A acarretar o feno do lameiro
Lá sai ela, novamente apressada,
Entra na casa da Pepa da ti Neves,
No curral do ti Zé Ramos e da Bei
Num afã de passos afoitos e leves
Ainda vai ver do ti António Lei…
Ouve as Avé-Marias, à chegada,
Psina-se e ora com muita devoção
É a hora de acender a candeia,
Emparelhar uns gravetos ao tição
Atear o lume e fazer a ceia
Quando o sol raiou, de manhãzinha,
Já Mariana provava a merenda
Que iria levar para o lameiro
Tinha metido no meio da cozinha
O açafate com toalha de renda
Pratos de esmalte branco, do louceiro,
Talheres guardados para a altura
Barranhão, para o caldo de “baginas”
“Tchouriça” de ossos tradicional
As rodilhas e “paninhos” com fartura
Uns tantos copos e malgas pequeninas
Tudo, como era o habitual!
O seu Toino, acartara-lhe a lenha
Com que cozera as carnes e feijão,
Para os de casa e quem quer que venha
À faina do lameiro, dar uma mão.
Comera uma falha de pão e queijo
Que engoliu com um copito de vinho
Deu à Mariana um alegre beijo
E desceu à loja a jungir as vacas
Para se meter, depressa, a caminho
Com forquilhas, ancinhos, nagalhos, sacas…
Mariana tardou a findar a lida
Pois queria fazer tudo com esmero
Agradecer, da melhor forma devida,
Com ostentação e algum exagero,
Na comida que levaria ao “tchão”
Aos amigos que a vinham ajudar
A enfeixar e acarretar os fenos
Desde os lameiros até ao palheiro,
Que, embora fosse obra de somenos
Não era menos digno de gratidão
Davam, no campanário, as onze horas
Blusa rameada cingida à cintura
Saia de godés e avental franzido
Rosto rosado cor de maçã madura
A Mariana lá vai, sem mais demoras
Calcorreando o caminho comprido
Com a mãe e a comadre a seu lado
Levando à cabeça o açafate
Tão primorosamente organizado
Como pelo arraial da “Sacraparte”
Foi uma festa a chegada das três
O realejo do Toino deu o mote
A cantoria seguiu em desgarrada
E todos acorreram a tomar vez
Em redor duma mesa improvisada
E, ali, se ajeitavam em magote
Partilhando as sopas do barranhão
Ou enchendo a sua malga pequena
Que, cada qual seguravam na mão
Numa liberdade alegre e plena
E havia de tudo um poquenino:
“Tchouriça d’ ossos” e da outra também,
Farinheira e farinheiro cozidos
Queijos de leite de vaca e caprino
Presunto bem curado, como convém,
Copos de vinho vezes e vezes enchidos
Não faltaram as “bicas” doces da festa
Aquela água cristalina da fonte
A força que a alegria empresta
Mesmo que o suor escorra da fronte!...
Georgina Ferro
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Encontro com a arte-prosa
sábado, 4 de abril de 2020
BAIRRO NORTON DE MATOS...
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sexta-feira, 3 de abril de 2020
COIMBRA DE OUTROS TEMPOS -Praça 8 de Maio
quinta-feira, 2 de abril de 2020
ANIVERSÁRIO
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terça-feira, 31 de março de 2020
ENCONTRO COM A ARTE - PINTURA- AGUARELA do Botânico
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Encontro com a Arte - pintura
segunda-feira, 30 de março de 2020
AQUELA TARDE NA FIGUEIRA ...
Figueira eterna ...
Foi num tempo já remoto. Um tempo em que o futebol tinha
outro encanto. Sem matilhas organizadas de claques e dirigentes a insultarem
–se em jornais ou em estações de televisão. Um tempo em que o desporto – rei
não se jogava com os adeptos em casa sentados no sofá, pagando uma avença
choruda para insultarem o árbitro no recato do lar, a mastigar tremoços e com um copo de cerveja na mão.
Naquela época, o futebol era ao domingo à tarde. E, naquela tarde, a Académica
de Coimbra visitava a Naval da Figueira da Foz para um medir de forças
escaldante. Forte era a rivalidade entre os dois emblemas. Os da Figueira, por
uma questão de bairrismo, não admitiam vassalagem à cidade universitária. Os de
Coimbra, sarcasticamente, chamavam à Figueira da Foz a Coimbra B. Postas as
coisas neste pé, logo se adivinhava que era no relvado a correr atrás de uma
bola que se ajustavam contas. Então, numa tarde primaveril e com o estádio a
rebentar pelas costuras, o jogo começou. De Coimbra, grande era avalancha de
gente na esperança de uma vitória gorda. Como se previa, a coexistência nas
bancadas entre figueirenses e conimbricenses não foi pacífica. Lembro aquele individuo de faces rosadas, camisa transpirada e sapatos de camurça verdes nos
pés, que irritado mandava os de Coimbra para a terra deles. Os de Coimbra
agitavam bandeiras, até ao momento que os da Lusa – Atenas marcaram um golo e entornou
- se o caldo que já estava azedado. E foi com aquele golo raquítico que selou
uma vitória, que a Académica regressou a Coimbra. Porém, a terceira parte da partida jogou-se fora do estádio, com escaramuças e correrias entre gente jovem de
ambas as cores. Na retina, fica - me o adepto de Coimbra que se travou de
razões com um figueirense que estava num terceiro andar de um prédio à varanda.
A discussão subiu de tom e o adepto navalista, de cabeça perdida, dizia cá para
a rua ao ferrenho seguidor da Briosa:
- Não te vás já embora, grande cavalgadura, espera por mim que eu vou aí abaixo dar- te um tiro …
Tinha aquele futebol de outras eras outro sabor e outro encanto, atrevo-me a dizer um sopro de romantismo?. Claro que tinha …
QP
domingo, 29 de março de 2020
COIMBRA DE OUTROS TEMPOS- PONTE DA PORTELA
sábado, 28 de março de 2020
BOAS LEITURAS....José Passeiro
"Ribeira d’Eiras
Terra sem rio, riacho ou ribeira não é terra farta. A nossa Ribeira de Eiras, nasce no Brejo e alimenta - se, de outros pequenos cursos de água que a engordam e fortalecem até desaguar na Vala do Norte e depois no Rio Mondego. Tirando algumas excepções, como daquela vez em 2002 em que galgou margens, inundou moradias e destruiu muros, ela corre suave na Primavera, quase seca no Verão e recupera o seu caudal tradicional no Inverno. Hoje, sacia a sede a quintas, xácaras e pequenas hortas enquanto serpenteia ao longo do seu curso. Mas antes era muito mais que isso. A força das suas águas era utilizada para moer azeitonas e cereais em lagares e azenhas. As suas águas límpidas desencardiam roupas, almas e pessoas, nas Almoinhas, Laranjeiras e Rio d’Além. Os seus recantos sombrios refrescavam a miudagem na represa do Ti Luis, no Escravote ou na Sapeira. Nela pescávamos ruivacos e enguias. Nela apanhávamos laranjas e tangerinas arrastadas pelas águas. E como eu adorava acompanhar os meus frágeis barquinhos de papel, nas fantásticas corridas que realizávamos, desde o açude até ao Paço, em tempos de invernia e forte caudal. Hei-de repetir essa façanha um dia destes. Hei-de construir um barquinho de papel, dobrando-o como quem faz um guardanapo, fazendo sobressair a sua vela triangular. Hei-de largá-lo à água e acompanhar o seu difícil trajecto cruzando o açude. Hei-de vê-lo desaparecer debaixo da velha ponte, para surgir segundos depois, triunfante, do outro lado dela, e seguir balançando orgulhoso em direcção ao oceano…e hei-de suspirar de alegria, como fazia nessa altura...
." in Memórias & Inspirações"
José Passeiro
sexta-feira, 27 de março de 2020
ENCONTRO COM A ARTE - FOTOGRAFIA - Olivais do Alfredo
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Encontro com a arte - Fotografia
quinta-feira, 26 de março de 2020
COIMBRA DE OUTROS TEMPOS - LARGO DE SANSÃO-PRAÇA 8 DE MAIO
terça-feira, 24 de março de 2020
ENCONTRO COM A ARTE - POESIA
A CRISE DO COVID 19 E O POETA ALENTEJANO
Nã venham pó Alentejo
Tô escrevendo aqui no monti
Um poema pós de fora
Viver aqui na presta
Vã-se mas é daqui embora.
As notis aqui sã frias
Nã aguentas nem que te mates
3 mantas Nã te chegam
Até arreganha a pele dos tomates
Os dias aqui sã tã quentes
As vezes até falta o ari
50 graus n’ amarleja
Nem na rua podemos andari.
Na temos aventoinhas
Com o calor nã se pode.
Os velhos usam samarra
E as velhas têm bigode
Querem vir pá cá morari
Nem sabem a bicheza que há aqui
Gato bravo e Saca-rabos
Raposas e javali.
As 5 da manhã tamos-se álevantar
Pa monde ir ver do gado
Nem imaginam o que é Andar
com um pé todo cagado.
Na temos carro de praça
Nem sequer internet
Uns andam aqui a pé
Os outros na biciclete.
Nã temos praia perto,
e só se bebe aqui bagaço
Os sapos aqui sã tã grandes
Espetam com cada cagaço…
As casas nã têm luz
E lume é no chão
O gerador só faz barulho
Pá gente ver a tlevisão
Já dizia a outra porca
É nos montis ca gente móra.
Como já viram, isto na presta
Vã-se mas é daqui embora.
Se antes era deserto
Agora continua a ser
Nem os queremos aqui tã perto
Nem os queremos aqui a viver.
Podem vir visitar
Mas venham noutra altura
Deixem se aí ficar
Enquanto está merda dura.
De Um Alentejano que quer ajudar.
Helder Telo
Nã venham pó Alentejo
Tô escrevendo aqui no monti
Um poema pós de fora
Viver aqui na presta
Vã-se mas é daqui embora.
As notis aqui sã frias
Nã aguentas nem que te mates
3 mantas Nã te chegam
Até arreganha a pele dos tomates
Os dias aqui sã tã quentes
As vezes até falta o ari
50 graus n’ amarleja
Nem na rua podemos andari.
Na temos aventoinhas
Com o calor nã se pode.
Os velhos usam samarra
E as velhas têm bigode
Querem vir pá cá morari
Nem sabem a bicheza que há aqui
Gato bravo e Saca-rabos
Raposas e javali.
As 5 da manhã tamos-se álevantar
Pa monde ir ver do gado
Nem imaginam o que é Andar
com um pé todo cagado.
Na temos carro de praça
Nem sequer internet
Uns andam aqui a pé
Os outros na biciclete.
Nã temos praia perto,
e só se bebe aqui bagaço
Os sapos aqui sã tã grandes
Espetam com cada cagaço…
As casas nã têm luz
E lume é no chão
O gerador só faz barulho
Pá gente ver a tlevisão
Já dizia a outra porca
É nos montis ca gente móra.
Como já viram, isto na presta
Vã-se mas é daqui embora.
Se antes era deserto
Agora continua a ser
Nem os queremos aqui tã perto
Nem os queremos aqui a viver.
Podem vir visitar
Mas venham noutra altura
Deixem se aí ficar
Enquanto está merda dura.
De Um Alentejano que quer ajudar.
Helder Telo
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segunda-feira, 23 de março de 2020
UMA RECORDAÇÃO ...
Era o 55 da Picheleira . Saudade ...
O inimigo global fechou-nos em casa. Vamos olhando para as
cadeias de televisão incrédulos com as notícias que vêm de longe e do nosso
país. Por vezes é preciso tentar sacudir a pressão, navegando por outras
realidades ou memórias. E hoje, olhando absorto pela parafernália de
informação, de ditos jocosos ou de fotografias nas redes sociais, dei comigo a
olhar uma estampa a preto e branco de uma equipa de futebol do ano longínquo de
1925. Nada de especial, não fosse o Atlético Clube da Picheleira se confundir
com as minhas recordações de menino. Era e é ali, naquela zona de Lisboa, que o
Atlético da Picheleira agora chamado Vitória de Lisboa tem o seu campo de
futebol. Naquela época dos anos setenta do passado século, o recinto era de
terra batida. Naquela zona eu tinha família. A Picheleira é um rincão da
capital de ruas estreitas com roupa colorida a secar nos estendais das janelas,
de leitarias que naquele tempo vendiam leite a granel e tabernas onde se ouvia
a religião do fado na voz rouca de Alfredo Marceneiro. Então, ao domingo, as
gentes corriam a ver o seu Vitória de Lisboa. Eram sempre partidas renhidas, num louvor
ao futebol amador. Também um hino aos que assistiam aos jogos de uma forma
civilizada, independentemente da simpatia clubística de cada um. Na chamada barraca de chá
servia-se cerveja, copos de vinho e sandes de chouriço para fazer apetite
para o almoço, que os jogos eram sempre de manhã. E eu lá ia pela mão do meu
tio Fernando, que ostentava na lapela do casaco com orgulho o emblema das águias de
Benfica. Lembro-me dele, curvado sobre os ombros como se trouxesse o mundo às
costas. Um sorriso doce moldava-lhe o rosto e a bondade era a sua imagem de
marca. Era um homem cordial e educado, que desenhava prodigiosamente. Tenho
saudade da sua ausência. Naquela fotografia do Atlético da Picheleira que olhei
demoradamente, estava um filme da minha tenra idade e por minutos abstraí-me da
nossa preocupação coletiva. De novo o Atlético da Picheleira agora travestido
de Vitória de Lisboa a embalar o meu berço de menino.
QP
ENCONTRO COM A ARTE- COIMBRA DE OUTROS TEMPOS
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Ajudas de Cus(t)po. Tuna Meliches.,
Coimbra antiga
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