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sábado, 5 de abril de 2025

CONTOS CAMPESINOS TEXTO KITO PEREIRA

A PUREZA INICIAL ...

É uma estranha comoção esta, a que me brota dos sentidos. Neste final de tarde sereno, deambulo por este vácuo do Tempo. O sol, andou todo o dia atarefado, a querer romper por entre  nuvens. Ao longe, lá ao longe, diviso uma mancha de céu azul. E, por detrás, em pinceladas dispersas, um cenário de cor escarlate - um quadro de Monet. 

Por um caminho estreito progrido em direção ao Juncal do Campo. O velho carro conduz-me agora até à base da colina. Por entre ramagens, diviso os muros do Campo Santo e, lá ao fundo, embrulhada na sua roupagem secular, a Gardunha. Do lado esquerdo da estrada, um campo de oliveiras. Avisto um habitante daquele povo pendurado numa escada. É hora de colher aquela dádiva da natureza – a azeitona. Reconheço-o e aceno-lhe. É o Jerónimo. Corresponde ao meu cumprimento com o gesto largo do boné que lhe vai forrando a cabeça das intempéries do tempo. Que não das intempéries da alma. No chão, um enorme pano verde. É o regaço onde se acolhe o fruto. É o recomeço do ciclo do azeite. Enquanto me vou aproximando da aldeia, devagar, vem alguém ao meu encontro. É a Graciosa. Vem ligeira no seu andar. O seu jeito ladino de lidar com a vida. Se calhar vai para o lar dos idosos – penso - começar o seu turno. 

E, naquela calma espacial, naquele turbilhão de silêncios, um som metálico e soturno sobressalta-me os sentidos. É o sino da aldeia. Ouve-se várias léguas em redor. Pelas suas badaladas, se medem as horas e o clamor dos dias festivos. Mas também da morte, quando bate os seus compassados “sinais”. E aí, o povo é um só. De todos os Lugares aparece gente que se esgota por estes caminhos de Cristo. Conhecem-se todos uns aos outros, neste pequeno universo de solidariedade fraterna. E a notícia de um passamento, transmitida de boca em boca pelo badalar de um sino, é como fogo a arder em palha. 

Mas há os dias festivos. Nada mais triunfal que uma festa de aldeia. É o dia de visitar as “alojas” do povoado. De provar o vinho espesso. De rumar ao largo da festa de bandeiras enfeitado. De comer um frango assado em reinadio convívio numa mesa velha e tosca. Mas, também, de vestir o melhor fato e acompanhar o padroeiro São Simão no seu andor. De pôr as colchas mais ricas à janela, mesmo que modestas. Na frente, o padre vai rezando a sua ladainha, acompanhado por um séquito de fiéis. Depois a banda, nos seus uniformes azuis. O regente à cabeça do cortejo, com o seu fato aprumado. A menina de tenra idade, de saia curta e meias brancas, vai transportando o estandarte.  O homem do trombone, anafado e de bigode, com o suor a acudir-lhe ao rosto. De novo retomo a minha atenção à estrada. Deixei-me afundar nos meus pensamentos. Fui levado pela corrente dos dias sem fim. E logo à noite, quando a explosão de um outro mundo me entrar pela casa adentro dando-me notícias escandalosas do meu outro país, de novo cerro os olhos num lamento. Recordo então do Jerónimo pendurado numa escada acenando-me com o seu boné. Aquela forma doce de caminhar pela vida. É o povo na sua essência. É o regresso à pureza inicial.

Kito Pereira (contos campesinos)

 

terça-feira, 19 de novembro de 2019

RIO DE OUTONO ...





Rio Ocreza ...

Regressaram os dias tristes. E as noites de Outono. Pelo meio da tarde, as nuvens descem sobre as montanhas. Uma estranha neblina invade o vale e o Sol, que não se deixa ver, resguarda-se nas entranhas do Moradal. Lá fora, o murmúrio de uma aragem agreste varre a planície e o planalto. É a dança do vento. As árvores dobram-se em agonia, desnudadas de folhagem. Há uma estranha calma nesta vertigem espacial. Parece que o Universo parou. Até uma nora à beira do caminho parece comungar deste estranho hiato do Tempo. Há muito que as suas rodas dentadas das engrenagens carcomidas de ferrugem deixaram de gemer o seu arrastado pranto. Mas é uma estranha ilusão. Aos dias continuarão a suceder as noites. E a noite voraz engole a aldeia num manto de escuridão. É hora de arrumar as alfaias. De resguardar o gado que se passeia pelos campos. De acender os paus com que se ateia o fogo. De colocar a panela de ferro tripé ao lume. De ir à aloje e abrir a torneira da pipa a compasso. De encher o jarro de vinho vermelho e espesso. De assar uma fatia de toucinho na brasa. Sente-se agora o acolhedor estalar da lenha. Na cozinha rústica, o fumo esvai-se pela chaminé enegrecida. E é ao clarão da lareira que se põe uma toalha branca na mesa tosca, memória dos antepassados. Num cesto repousa o pão quente, a côdea apetitosa a estalar. Neste ambiente de magia, já cheira a caldo saboroso. A mulher, de tez enrugada, sentada no pequeno mocho de cortiça, vai mexendo o caldo com uma colher de pau em movimentos ritmados. Tem os olhos fixos na fogueira e pressente-se que está ausente. No regaço do avental negro, o abanador com que vai atiçando as brasas. O homem, também distante nos meandros do seu pensamento, medita nas coisas sérias da vida. Agora que a noite se acomodou sobre a aldeia, a temperatura gélida tomou conta deste Lugar. E lá ao fundo, no coração do vale, junto ao pontão do Tabuinhas, corre um rio. Sente-se o seu cantar cristalino, por entre arvoredo e penedos. Mas ali, naquela garganta estreita, o Ocreza ainda não tem estatuto de rio. Chamam-lhe apenas ribeira - a ribeira do Ocreza. Mas por aqui, nesta paisagem agreste e desolada, é este o rio de esperança pertença deste povo -  o seu rio de Outono.
Q.P

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

NO PRETÉRITO DO TEMPO ...






Estou só. Aqui, neste lugar, rodeado de montanhas. De novo me deixei engolir pelas entranhas do silêncio e da solidão. Ali, naquele nada, uma pequena fita de alcatrão vai serpenteando por entre colinas. É a estrada que me conduz à aldeia aninhada no ventre de um vale sombrio. Lá longe, ali ao longe, o fio de estrada desaparece numa curva suave por entre uma guarda – de - honra de pinheiros bravos. Olho o horizonte esfumado por entre castelos de nuvens que se arrastam pachorrentas sobre as montanhas cor de cinza. São cinco da tarde e uma aragem fria sopra agora de mansinho. Sinto que estou no pretérito do Tempo e da Vida. Lá, naquele desterro, quatro muros brancos e singelos delimitam o minúsculo cemitério. Cá fora, fardados a rigor na sua casaca azul e galões dourados, vários soldados da Guarda Republicana perfilados. Vêm saudar quem partiu com um tiro de carabina. Aguardo a chegada do cortejo. Nem preciso de meditar muito sobre o que se vai passar. Tudo tem o seu tempo neste Tempo. Tudo tem um ritual nesta cerimónia simples e austera. À frente o padre, depois as mulheres e, no fim, os homens em passo lento, chapéus de aba larga colados ao peito. O silêncio é profundo e avassalador. Apenas o matraquear dos sapatos das mulheres no empedrado da calçada fere o silêncio do povoado. O negro predomina nos trajes femininos. Nas suas máscaras pálidas, avivam-se as rugas de um passado sem rosto. Os homens, cabisbaixos, olham-se de soslaio, escondendo as emoções, tolhidos num labirinto de lembranças. Quem ali vai, despedindo-se da vida, foi homem de labuta e de folias. Quando o garrafão corria de mão em mão naquela mesa corrida debaixo das latadas. E a concertina que tocava tardes e noites sem fim, com os companheiros já meio pingueiros a cantar à desgarrada nas noites mornas e de luar. Mas hoje, aqui, neste povoado singelo, escreveu-se um ponto final. Retiro-me antes da salva de tiros. A curva suave da estrada misteriosa suscita-me curiosidade. Parto sem destino, no galopar dos meus pensamentos pardos. Uma enorme descida leva-me até um vale perdido no Tempo. Ali não existe Passado. Nem Presente. Nem Memórias. Um homem de cajado na mão e cabelo ao vento, andrajoso e de longas barbas brancas em desalinho, saúda-me com uma vénia. Aceno-lhe, correndo agora à desfilada na procura desesperada do meu Tempo presente. Aquele casario longínquo, que já vejo esbatido na bruma do entardecer, é - me familiar. Sinto que cheguei ao meu porto de bonança. Entro no meu escritório, refúgio das minhas emoções, enquanto lá fora a noite cai fulminante sobre os telhados escuros e o vento corre célere pelas veredas da aldeia neste lamento de outono.
Q.P.        

sábado, 21 de setembro de 2019

NAS MARGENS DE UM LUGAR AUSENTE ...






Há seis décadas que navego no caudal do Tempo. Seis décadas a remar num mar de tormentas e de bonança. E hoje, aqui, neste rincão, sinto que atraquei nas margens de um Lugar ausente. Freixial do Campo se chama este meu cais de solidão. No coração da aldeia, sento-me junto do fontanário. Um ténue fio de água vai caindo no regaço lodacento de uma concha feita de pedra tosca. Apenas o barulho da água cristalina trespassa o silêncio da tarde clamorosa de luminosidade, a contrastar com o granito escuro das casas humildes, alinhadas nas margens de cada viela. Por ali, todos os dias, passam destinos cruzados. O Destino das gentes que regressam da labuta da terra e lhe revolvem as entranhas na luta pela sobrevivência. Mas há os outros. Os que, em grupo, sobem a rua estreita. Acolá, no início da aldeia, a camioneta da carreira parou, para que se pudessem apear. Vêm da cidade e, na mão, pendente entre os dedos, os sacos de plástico transparente, onde repousa a marmita do almoço comido na fábrica, nos subúrbios da cidade. Por momentos, é assim, quando o sol já se esconde para lá do Moradal. A aldeia ganha vida para, como por magia e segundos depois, se esvaziar e de novo mergulhar na sua letargia de séculos. De novo fico só. Apenas a Ana, curvada sobre a  bengala, me olha com as suas faces rosadas e uns olhos grandes e expressivos. Dou comigo a pensar como deveria ser bonita aquela mulher. Mas também dou comigo a refletir que segredos, que tormentos, que sabedoria encerrará o Sacrário da sua cabeça cansada, de cabelo liso derramado sobre os ombros. Ao lado, ali ao lado, é o café do Calmeiro. De estatura avantajada, arrasta penosamente os pés, onde moram umas enormes sandálias. Por detrás das fitas coloridas, pendentes na porta, como obstáculo à entrada de moscas, chama-me para dois dedos de conversa. Entro então no estabelecimento e o Calmeiro vira-me as costas. Lentamente, dirige-se para o balcão de onde traz as duas bebidas que nunca me deixa pagar. Regressa em silêncio, no seu passo lento, revelando dificuldades na locomoção, as calças presas por um par de suspensórios, que vai afagando com um trejeito que há muito lhe conheço. E é por detrás dos óculos grossos e gastos, sentado comigo à mesa, que me fala da Vida. Das doenças e do desencanto. Dos filhos que estão sempre no seu pensamento. Da mulher, companheira amiga de tantos anos, o seu porto de abrigo que, com ele, partilha muitas horas de balcão, na esperança de clientes que cada vez aparecem menos. No fim, sempre no fim, com a sua mão enorme e avassaladora, cumprimenta-me num gesto de despedida. É um homem emotivo, o Calmeiro. Fica sempre com uma lágrima no olho, na hora da partida. E eu, de regresso às planícies sem fim, que se esgotam no horizonte da minha pálida existência, vou meditando nos percursos esconsos da Vida. E se o Calmeiro partir, pelos caminhos da Eternidade antes de mim, religioso que é, rezar - lhe- ei uma breve prece, porque vou sentir a sua falta.
QP.      

quarta-feira, 3 de julho de 2019

O BECO ...




Juncal do Campo ...

Hoje, sinto-me estranhamente bem. O cadeirão confortável e o sol pleno que entra pela janela larga da sala lavam-me a alma. Quando com as chaves a tilintar rodei a fechadura da casa fechada que me esperava, escancarei de novo a porta de um passado. Olho as fotografias semeadas pelos móveis com retratos de dias felizes. Depois, num dos quartos, assomo à varanda e olho as serras ao longe. São as minhas serras. Com elas convivi diariamente, quando, nas manhãs de janelas abertas de par em par, havia um pacto mútuo de silêncio cúmplice entre mim, a Estrela e o Moradal. São montanhas austeras na sua beleza perpétua. E ensinaram - me que a intemporalidade é só privilégio da natureza. Elas percorrerão os séculos e eu, simples mortal, reduzo-me à minha insignificância de as venerar. Havia nesta convivência diária algo de transcendente. Talvez um qualquer Ente Superior se nos revele todos os dias, materializado nas montanhas grandiosas e nos vales profundos. E no cantar dos rios de águas límpidas e ainda virgens da fúria devastadora do Homem.

Vista daqui, deste planalto, a aldeia é um mar de oliveiras. E, lá no fundo, entre caminhos estreitos e vielas apertadas chegamos ao fundo da povoação. Estacionado o carro, vou olhando o silêncio. Não se vê vivalma, até que uma porta em madeira maciça se abre a gemer nos gonzos. Da casa modesta mas bem conservada, sai uma rapariga nova com um alguidar à cabeça balançando as ancas roliças e que se apressa a levar a roupa para o lavadouro público. Depois regressa em andar ligeiro já sem o carrego que levava e fecha a porta de casa com estrondo. De novo o silêncio. De novo o marasmo dos dias. Do lado esquerdo da rua existe um beco. Uma garganta estreita, que tem um caminho que parece levar-nos às planícies do infinito. De lá, daquele beco, vejo aparecer um homem. Veste pobremente e traz na cabeça um boné vermelho com um emblema de um clube desportivo. Senta-se num banco e vai - me olhando perplexo. Um estranho por ali é sempre algo de novidade e dá azo a muitas especulações. Mas reconheço- o e sei que infelizmente nem vai ter a oportunidade de dialogar com ninguém, porque é mudo. Já tem uma idade que não aparenta e faz-se perceber gestualmente. Porém, os que com ele convivem há tantos anos, entendem-no como se ele falasse. Satisfeita a curiosidade, abandona o local e desaparece sem deixar rasto. O Mário é mais afoito. Vem direito a mim e com o seu rosto comprido e um bigode grisalho, quase mete a cabeça dentro do habitáculo do carro. A conversa é calorosa mas negativa. Porque tudo ali é negativo. Fala-me a cambalear, com uma doença degenerativa que o pôs naquele estado. Recordou o Raimundo, seu pai, e os valores da solidariedade e da honradez que ele lhe transmitiu. Incentivei-o com palavras de conforto, enquanto aquele beco ia ganhando algum alento. Sentados no degrau de uma porta, os moradores falam agora da vida e das ambições que não têm. Alguém conhecido faz então questão que eu traga uma saca de laranjas colhidas num quintal. Agradeci e depois parti, com a convicção profunda de que por momentos naveguei naquele microcosmos de afetos e que atraquei num beco da vida.
QP        

sexta-feira, 28 de junho de 2019

NOITE AMARELA ...






Amarela é a noite. Uma noite com rosto, salpicada de estrelas. Estrelas dispersas no palco imenso. Silenciosas, parecem vigiar a planície campesina. Também a lua, majestosa no seu lento navegar, ilumina os caminhos e as estradas desertas, como se a Vida se escoasse para lá das montanhas. Um luar desmaiado de cor amarela, que inunda tudo envolto em silêncio. Um silêncio absoluto, quase intimidante. De longe olho a curva da estrada. Que mistérios me reserva o que a vista não alcança? Nada. Do lado de lá da curva, de novo e apenas o silêncio. Diluiu-se a vida na luz de um candeeiro mortiço, como uma vela pálida de finados a anunciar o ancoradouro da Vida. Percorro de carro a noite amarela. Vagueio o meu pensamento pela cidade distante – Coimbra. Lembro a Torre da Sabedoria. O Pinhal de Marrocos do meu passado. Uma Rua com nome de Navegador que foi a minha. Um Bairro que é o meu. Num sobressalto vislumbro uma silhueta. Parido debaixo das saias da noite, vejo emergir um homem. Um ser alto e magro. Anda devagar, olhos no chão, meditabundo, como se caminhar fosse uma penitência. Cruzo-me com ele e, num esforço, adivinho-lhe os traços da face magra e rosto sombrio - é o Cardosa. Seguimos destinos opostos. Rápido deixei de o ver tragado pelas sombras angustiantes da noite amarela. Por minutos, em marcha lenta, relembrei a sua cara cansada e sem alma. Um dia dei-lhe boleia numa curva apertada destes caminhos de Cristo. Vinha sujo, o semblante marcado pelo esforço da jornada. Um rosto sem emoções. Mas, naquele dia, para minha perplexidade, o Cardosa sorriu. O Senhor Doutor Juiz, homem generoso, deu – lhe trabalho numas propriedades suas lá para os lados da Esteveira. Afinal a oportunidade de ganhar algum dinheiro e afagar os apelos de um estômago vazio. De novo recordo aquela noite -  a noite amarela. Para alguns, aquele será apenas e só um vagabundo. Para outros, o ferrete acre de um excluído, um indigente. Para mim, que um dia lhe pressenti na alma e no olhar triunfante a satisfação de uma ocupação que lhe permitia ir vivendo com alguma dignidade, aquele homem jamais será um indigente ou um vagabundo. Prefiro chamar-lhe um caminheiro da noite.
Q. P.    
             

quinta-feira, 13 de junho de 2019

AUSÊNCIA ...





(em Memória de Manuel Luís)

Ao crepitar da lareira já não se contam histórias. A ausência tomou conta deste lugar. Apenas o rubro clarão do azinho a arder concede ao espaço amplo e soturno alguma vida. As cadeiras vazias lembram o passado. Uma memória de tormentos contados na primeira pessoa. Todas as conversas – todas – iam parar ao fundo do poço da mina. Falava-se de volfrâmio. Falava-se de escravidão. Falava-se de perseguições. Falava-se de fome. Falava-se de doença. Um a um, os lugares foram ficando vazios. Apenas o lume se manteve no seu posto porque é imortal. Ele, o velho mineiro Manuel Luís, resistiu o que pôde. Comigo e com a lareira, dialogámos a três. Depois, com idade provecta, partiu. Partiu para a galeria dos heróis anónimos. Esperei-o na berma da estrada. Quis despedir-me dele. Um esquife humilde coberto por um pano negro e um singelo ramo de flores compunham o quadro funesto. E um cortejo de povo cabisbaixo, que olhava fixamente as pedras cor de cinza da calçada. Ausência - tudo era ausência.

O dono do café refugia - se atrás do balcão. De companhia, dois desempregados que ali veem escoar-se a esperança e os dias claros. Faces caídas, olhares perdidos. Por vezes, o estabelecimento é sacudido por uma revoada de passantes. Bebem algo à pressa ao balcão e partem na aventura de sobreviver. Muitos trazem na roupa que envergam a marca do caminhar dos dias. Gente de labor. Lá de dentro, de dentro de uma sala fria e húmida, exala um aroma penetrante a comida acabada de fazer. Um ou outro caminhante, passageiro do Tempo, sentado numa mesa de madeira forrada com uma toalha de papel, reconforta o estômago para o recomeço da jornada. Uma televisão encostada a uma parede branca fala sozinha. As notícias do dia, ditas em catadupa, parecem não ter nexo. Ninguém as ouve. Ninguém lhes dá atenção. Findo o repasto, o cliente retira-se. Remexe no fundo dos bolsos, na procura de uma nota ou das moedas que permitam pagar a refeição barata. Apenas cinco euros é o preço do reconforto e da sobrevivência. Depois parte. A sala, mascarada de restaurante, fica vazia. O amplo salão de novo fica inerte e sem vida. Resta apenas a lareira a crepitar de memórias. E a ausência.
Q. P.


sábado, 1 de junho de 2019

POEMA DO NADA ...







Neste domingo de verão, corro  entre velhos olivais e campos  de cultivo ressequidos na míngua da água reparadora. Ao meu redor, oiço o ruído de um silêncio perturbador. Caí para fora de mim. Caí para fora do mundo. Caí para fora da Vida. Olho o amontoado de casas e de telhados que me espreitam naquele povoado plantado no limbo do nada. O cantar da água que corre numa ribeira é o som apaziguador de um violino numa sinfonia de angústias. Deixo a aldeia no estertor da sua existência, agora que as suas gentes partiram. Aquele vazio espacial, aquele caldo de solidão, mais não é que um pesadelo feito de ausências. Um encadeado de silêncios feitos do nada e de ninguém.   Subo então ao céu. Arrasto-me por uma estrada estreita com penhascos fundos que me estendem as garras afiadas num hino à hostilidade.O caminho estreito impede-me de voltar para trás. Sôfrego, trepo a montanha apavorado, na procura de um cais salvador. Lá em cima, naquele cocuruto de mundo, olho em redor e só vislumbro montes austeros e ténues fios brancos que lhes riscam os dorsos descarnados. São caminhos e são mistérios. Afinal o infinito existe. Sentado num regato de pedra, inquieto, oiço o sibilar  do vento e sinto-me trespassado de medos naquela terra de ninguém. Parto montanha abaixo, na procura de uma amarra robusta que me prenda à Vida e ao mundo. Na noite morna, olhando as luzes da cidade, sou assaltado de dúvidas existenciais. Um turbilhão de pensamentos leva-me ao desencanto e à constatação de uma realidade crua de um outro país que é o meu. Desfolho, lentamente, o livro de poesia. Um livro de páginas brancas, ausente de palavras ditas e escritas que talvez nem façam sentido. Só o silêncio avassalador poderá ser prefácio de um poema breve, feito do nada e de nadas.
Q.P.      

domingo, 28 de abril de 2019

AS PALAVRAS AUSENTES ...






Vou partir. Levo na minha mochila de caminheiro as palavras ausentes que me faltam neste calcorrear de vales e montanhas, que se espreguiçam indolentes no pasmar dos séculos. Porque elas - e apenas elas, as palavras ausentes - me falam dos caminhos que vigiam os meus passos perdidos. Eles, estreitos e escuros, olham - me do eterno crepitar do Tempo. Resistiram ao penoso caminhar dos anos. É o seu silêncio soberano que me acorrenta o pensamento e me tolhe a alma. Passo a passo, como que a medo, percorro a aldeia soturna. Olho as portas cerradas e abandonadas ao estertor do encadear dos dias que passam. Sentado no regaço de pedra da fonte centenária, relembro com respeito e saudade o esplendor de tempos de antanho, quando o sol radioso de bonança brilhava no céu beirão e entrava pelas portas e janelas da aldeia plena de vitalidade e de cor. Agora tudo morreu. Apenas portas fechadas. Apenas janelas fechadas. Apenas um vento agreste que varre as ruas despidas de gente e de vida. Ali, naquele pátio modesto, já nem adivinho sequer o bater vivo e ritmado do martelo na loja do ferrador. Acolá, aquela nora carcomida pela ferrugem, foi tragada por um monte de silvas e ervas daninhas. Jaz agora inerte, na solidão dos dias emprestados. No chão, em redor do poço que trazia a água que é o alimento da terra, apenas pesquiso, na rota batida e ressequida, indícios do caminhar paciente do rocinante no labor das manhãs de rega. O ecoar metálico do sino, fere o silêncio da aldeia e percorre, em vagas sonoras cada vez mais esbatidas e distantes, as léguas de vastidão do vale. É quando a tarde já resvala para a escuridão da noite, que aquele lago adormecido em paz ganha algum movimento. Das casas, das pequenas casas, como por mistério, as portas gemem devagar nos gonzos e, em surdina, amparadas nas bengalas ou envoltas no xaile negro que é a manta que envolve o luto da alma, as mulheres idosas, de olhos postos no chão e rosto austero caminham em direção da pequena igreja de paredes imaculadamente brancas para ouvirem a Palavra do Senhor dita num murmúrio de muitas vozes, quase um velado queixume.
São as labaredas da alma de gente simples e sofrida. São vidas ausentes, ditas por palavras ausentes …
Q. P.
          

quarta-feira, 17 de abril de 2019

NO OCASO DO TEMPO ...





De novo, regresso. Do bulício febril da cidade Coimbrã ao ocaso do Tempo são pouco mais de duas horas de viagem. Guio embrenhado nos meus pensamentos. Lá ao longe, muito ao longe, já diviso a cripta da Serra da Estrela. Agora que a neve partiu, ficou ainda uma alva cabeleira rala que se derrama timidamente pela encosta. É a agonia do inverno no renascer da primavera. Farrapos de nuvens brancas como algodão passeiam lentamente por cima do Moradal. Percorro agora a estrada que me leva ao povoado da Lameirinha. Saio do carro e há um silêncio que é um mistério. Um vazio que me sufoca e me perturba. Dentro do Café há poucos sorrisos. A vida leva - se a sério. Desde cedo que a labuta nas courelas que oferece o pão lhes endureceu o rosto. Uma máscara de sofrimento. Não aprenderam a sorrir. É quase um sacrilégio. Guardam os sorrisos contidos apenas para as épocas festivas, quando a concertina se passeia pela aldeia e o Santo é levado num pequeno andor a percorrer o palco da vida de muitos para quem o rendilhado austero do cume das montanhas é o limite dos sonhos. Para lá das serras não existe nada. Só vagas quimeras. Do lado de cá desta fronteira da vida, apenas o sabor acre da solidão. Almoço só, numa mesa encostada a um canto da sala. Na vidraça da janela uma mosca voa batendo furiosamente contra o vidro, numa ânsia de liberdade. É um zunido irritante que me acompanha durante a refeição. Vou almoçando sem pressa, olhando a sala onde se sentam um dúzia de clientes que sorvem a sopa de cabeça curvada sobre o prato, como quem cumpre uma penitência. Reparo agora numa cartolina colocada em destaque sobre a minha mesa. Em letras negras e cheias, tem a palavra “Reservado”. O David sempre que pressente a minha presença entende dar-me um lugar especial. Ele sabe que eu gosto daquela mesa para a refeição. E tem o cuidado de a guardar. Por detrás do seu rosto de menino há um coração bondoso. E ele, que é arguto, também sabe quanto o estimo pela sua educação e lição de vida. Depois da refeição parto, vencendo as curvas da estrada. Dois quilómetros percorridos e sou tragado por uma floresta de pinheiros. De novo o silêncio. Outra vez o mistério de uma aragem branda que dança escondida por entre a copa das árvores. Parado na berma da estrada olho a povoação de Salgueiro do Campo ao longe, alcandorada na crista de um monte e espraiando o seu branco casario pela encosta plena de uma luminosidade clamorosa. Percebo agora que não estou só. Ali ao lado, junto ao tronco de um pinheiro, um lagarto de mil cores de cabeça erguida olha-me num misto de curiosidade e angústia, na incerteza de que a fera humana lhe possa fazer mal. Mas poderá estar descansado neste palco de ninguém em que ambos somos protagonistas. Ele poderá usufruir livremente do seu habitat natural.  E eu, perdido no ocaso do Tempo, naquele pretérito sem presente nem futuro, sinto-me amarrado e sem esperança ao apeadeiro da vida.
Q.P.                 

sexta-feira, 15 de março de 2019

AMOR ENCARNADO ...







Do Benfica por decreto ...

Que estranho pensamento o meu, que me leva pelos caminhos do passado. De deambular numa bruma de saudade por terras tão distantes e tão singelas. Freixial do Campo como porto de abrigo das minhas emoções. Recordar as gentes. Lembrar quem tão bem me tratou, numa cordialidade e amizade que não era mascarada. Gostavam de mim e eu gostava deles. Do Calmeiro fica-me uma eterna saudade. Cidadão sem mácula, a honra da palavra dada em mais de um metro e oitenta de altura. No seu estabelecimento de cafetaria, alguns emblemas e calendários alusivos ao seu Sporting de Lisboa. O Francisco Calmeiro era um deslocado no meio da tribo encarnada da aldeia, que venerava o Benfica da capital. Mas nada que alguma vez provocasse a falta de harmonia fraterna entre os seus pacatos habitantes. Numa tarde de verão, sentados à mesa do seu Café e resguardados do calor, ofereci - lhe um pequeno galhardete da Académica de Coimbra. Pesadamente, levantou-se da cadeira. Arrastou os pés grandes e inchados que mal cabiam nas sandálias e, religiosamente, pendurou o presente que lhe acabava de oferecer em local bem visível, junto a um emblema do verde da sua simpatia e do seu contentamento. Depois apertou - me a mão e selámos uma amizade perene. Soube há dias que o Calmeiro partiu para a Grande Viagem. Mas tenho a certeza absoluta que aquele adereço coimbrão que um dia lhe ofereci lá continua na prateleira de uma amizade sólida. Não quero, não quero voltar a Freixial do Campo. Recuso abraçar a Felisbela vestida de negro para o resto de vida a chorar no meu ombro a morte hedionda. Recuso olhar o balcão vazio sem o rosto e o sorriso de um homem de afetos - recuso. Mas não recuso ver os outros. Os tais da tribo encarnada. Recordar o António e o Joaquim. E o João taberneiro. O António e o Joaquim são irmãos. O Joaquim muito falador. O António mais reservado. Porém, era o António quem mais afirmava a sua fé no Benfica. Na sua velha “Peugeot” cinzenta de caixa - aberta, trazia pendurado no espelho retrovisor um enorme galhardete do clube do seu coração, com um grande emblema de uma águia de asas abertas, e em rodapé e a letras douradas a afirmação perentória – O Glorioso.   Também em local estratégico, uma pequena imagem de Nossa Senhora de Fátima colada no “tablier” junto ao volante, para que Ela o guardasse de algum acidente na estrada. E assim, balançando entre a devoção ao Santuário de Fátima e o amor pelo Santuário da Luz, o António lá ia caminhando pela vida. No intervalo desses dois bastiões de fé, consertava janelas e persianas e era assim que ganhava o seu sustento. E juntava-lhe alguma agricultura de subsistência, no quintal da sua pequena moradia de janelas airosas. Já o Francisco tinha uma grande empatia comigo. E um dia, para minha surpresa, rematou-me à meia - volta : … o senhor Pereira é boa pessoa, vê-se mesmo que é do Benfica! E eu, colhido de surpresa naquele chavão de que “quem não é do Benfica não é bom chefe de família”, não tive capacidade de lhe dizer que não. De lhe afirmar que a minha cor não tinha cor. Que a minha cor era a ausência de cor. Mas, para não o desiludir, do Benfica fiquei por decreto. Todas as quartas - feiras eu deambulava pelas ruas estreitas e empedradas de Freixial do Campo. No regresso, parava o meu velho carro junto da venda do João taberneiro. O João que arrasta consigo a cegueira desde a nascença. Mas ali estava ao balcão, tratando do seu negócio. Naqueles fins de tarde, oferecia-me um copo de vinho tinto. Dizia-lhe então que preferia vinho branco, enquanto as moscas dançavam num estranho bailado junto da lâmpada mortiça pendurada do teto por um fio encardido e gasto pelo tempo. Então, com gestos estudados, quase mecanicamente, ele trazia a garrafa e enchia-me o copo sem desperdiçar uma gota. Depois falávamos. Apesar da sua costela encarnada, evitava falar de desporto. Ouvia o seu pequeno rádio colocado em cima de uma prateleira em madeira e estava a par de tudo quanto era notícia. Falava da política nacional e internacional. Era um cidadão atento, apesar da sua tragédia negra. Terei sempre por aquele homem humilde um carinho muito especial. E, por vezes, naqueles dias de quarta – feira, o Benfica europeu batia-se para lá da fronteira. Então o Francisco e o António entravam na venda e encaravam comigo e de rajada perguntavam-me se o clube do “nosso” coração ia ganhar. E eu acenava-lhes afirmativamente com a cabeça, resoluto. E eles, que entendiam aquilo como uma profecia quase divina ou se como eu tivesse os dotes mágicos do bruxo da Meimoa, iluminavam o rosto num sorriso de certeza de vitória e brindávamos em mais uma rodada de vinho ao êxito encarnado. E o Francisco dava uma cotovelada no braço do irmão e exclamava em jeito de elogio que me era dirigido: aqui o amigo Pereira é mesmo um grande benfiquista !!!
QP

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O TABUINHAS ...





Ribeira do Ocreza ... 

Roda que roda, o meu carro corre devagar ao encontro do silêncio das montanhas. Uma reta breve que bem conheço sobe ligeira até ao planalto, para depois a estrada afundar num vale, numa dança ao sabor das linhas de água. Acolá, vislumbra-se um pequeno pontão e, por baixo do pontão, em saltitante convívio com as fragas, as águas cristalinas da ribeira do Ocreza.  Também uma cruz, firme numa base de cimento, a recordar um acontecimento trágico das armadilhas da vida. Ao lado do pontão, uma casa. Uma casa velha e degradada. Tem as portas sempre fechadas e é quase um mistério. Não se vê vivalma mas, ao olhar as traseiras da habitação de madeira, vislumbra-se um estendal de roupa multicolor a secar ao vento e pressente-se que ali vive gente. Ao lado da roupa, jaz uma velha carrinha que é um hino à ferrugem. A casa, porém, tem uma história que se perde nos tempos. Por ser feita de tábuas, foi batizada de tabuinhas. Foi taberna, que era o oásis dos que vindos das aldeias a ganhar a jorna na cidade, ali paravam para beber um copo de vinho na caminhada que ainda faltava para o destino albicastrense. Era, para muitos, uma peregrinação diária de cerca de trinta quilómetros a pé, se contarmos a ida e o retorno. Diziam alguns, que também por ali passavam mulheres da vida, uma versão pouco consistente. Deixar o Tabuinhas e subir o vale até novo planalto. Virar à direita por uma estrada estreita, olhar algumas vivendas dispersas e continuar a rota de todas as lembranças. Quantos dias por ali passei. Quantas noites de inverno com a chuva a varrer a vidraça do pequeno carro. Quantos fins de tarde na taberna do João, rodeado de gente simples. Então, enquanto os copos de vinho se iam alinhando no balção de granito, eu falava. E eles, em sociedade fraterna, ouviam em religioso silêncio e achavam que eu era o poço de sabedoria que não era. Que eu era o rei que não era. Um rei sem trono. Eles, o João, o Morgado, o Rosa, o Calmeiro, o António e o Joaquim que eram irmãos e outros tantos, que tiveram vidas difíceis e cheias de obstáculos, de privações e canseiras, é que eram os meus catedráticos da vida. Sabiam do tempo, sabiam das sementeiras, sabiam distinguir o voar do gavião do planar de uma águia e do cantar pleno de um rouxinol. Sabiam da natureza e das coisas importantes da vida. Por isso, no dia em que parti porque eu era um deles, vi olhos baços e rostos de emoção.

E eu hoje, aqui e agora, sentado neste muro olhando o Moradal, já só oiço o silêncio do jorrar da água na fonte centenária. Inspiro o ar fresco campesino que me entra nos pulmões e relembro o passado nesta ausência. E ao deambular por aquele tempo de concórdia e pela aldeia singela de Freixial de Campo, o meu coração diz – me que por eles fui estimado e  que a todos honrei.  Porque eu gosto da gente simples.
QP    

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

RENASCER ...




 O futuro foi ontem ...

Há um Tempo que partiu. Um Novo Tempo que chegou. Aqui, nesta vazio espacial, somos senhores e vassalos de nós próprios. Caminhamos errantes por léguas e léguas sem fim. Embarcámos nesta nave feita de granito, que nos endurece a face. Mas não há lágrimas. Aceita-se o presente. Do passado, apenas um sussurro, que se pressente no silêncio avassalador das montanhas. A reta da Esteveira, é um traço negro de alcatrão, riscado no meio do nada. Ali, do lado esquerdo, por entre dois pequenos montes redondos adornados de pinheiros, aparecem, como por mistério, os telhados simples de um povoado que se esconde, como que envergonhado do seu berço singelo. Barbaído se chama, aquele recanto beirão, onde habitam cerca de cem almas. Por uma estrada estreita e sinuosa, lá chegamos. Ali, naquele vale polvilhado de um aglomerado disperso, vivem-se dois extremos. O clamor do sol impiedoso do verão e o frio cortante do inverno, onde, por vezes, é difícil o acesso da camioneta da carreira, por causa da neve. Naquele Lugar, também houve um Tempo que partiu. E um Novo Tempo que chegou. Um momento comemorado de forma simples. Tão simples como as suas gentes. É no pequeno Centro Desportivo e Cultural da aldeia, que se assiste à reunião dos que moram nas cercanias da Serra da Raposa e que por ali passam ou ouvem nas noites após os dias de trabalho árduo na courela, percursos sofridos de vida. Naquele serão tão especial, alguns, os mais novos que ainda resistem ao drama da desertificação, juntam-se para conviver e celebrar a chegada do Novo Ano. Longe do bulício endinheirado das festas do Funchal, do carnaval antecipado da Serra da Estrela ou do requinte apenas acessível a alguns do casino do Estoril, Barbaído emerge do fundo do seu próprio Tempo e da sua solidão ancestral. Ali, lá, é o arado a batuta que rege a sinfonia da vida. Quando do remexer da terra fofa e pródiga, se assiste ao milagre da generosidade das sementeiras, a oferecer ao Homem o produto do seu esforçado labor. É esse, para estas gentes, o significado da palavra renascer. Um recomeçar que não se traduz no virar da página de um simples calendário. Mas no murmúrio de uma prece, dita no recato do lar, que se não troca por uma bandeja de fogo de mil cores a estrelejar no ar, ou por uma taça de cristal a transbordar de champanhe. Lá fora, naquela noite de desejos e de esperanças para muitos nas mais diversas latitudes, apenas na nossa retina a humidade baça que invade as ruas estreitas e o casario, por entre a luz difusa e mortiça dos candeeiros a iluminar cada beco e cada esquina. É o suspiro conformado da alma, em Tempo de invernia …

 Q.P.       

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

TALVEZ UM CONTO DE NATAL ...





 Jesus - Menino
É Tempo de Natal. E lá, no interior do país, no dito Portugal profundo, há nas zonas campesinas um respirar diferente. Uma paisagem dolente, no seu diálogo mudo e ancestral com a natureza em silêncio. O fumo das chaminés que se ergue lentamente em espiral no ar fresco do entardecer, é um sinal de vida. Da vida que existe em aldeias empoleiradas em pequenos morros ou aninhadas no fundo dos vales. Um manto de oliveiras que se estende por campos a perder de vista, compõe uma paisagem bucólica em que, em alguns casos, apenas o tilintar dos badalos ao pescoço dos rebanhos, fere a monotonia de um hino de solidão. Lá, naqueles montes e vales esquecidos e de gente envelhecida, não se discute o trepidante mundo de hoje. Nem as greves dos comboios, nem a greve dos juízes, nem a greve de estivadores ou dos enfermeiros. Vive-se, apenas e só, do instinto e do milagre de viver e de sobreviver. Mas, em cada casa singela, em cada humilde lar, há sempre um Menino Jesus nas palhinhas deitado. Porque uma Criança rodeada de pequenas lâmpadas de luzes vermelhas e azuis, mais não é que uma imagem de paz, de concórdia e de fraternidade. Afinal, uma mensagem nobre dos deserdados da vida. Não trocam a sua Fé profunda pela religião da ganância e do dinheiro. Vivem na Santidade – seja lá o que isso for – de quem se levanta de madrugada para dar alimentação ao gado, apanhar a azeitona das árvores com as mãos enrugadas, e que comem o caldo ao crepitar da lareira no declinar do dia, na companhia do Menino Jesus. Um quadro de simplicidade. Nestes dias de um Tempo Natalício, o padre que tem nome de um Santo, percorre as várias aldeias da região que conhece como as suas mãos, porque também ali nasceu. Sabe, melhor do que ninguém, das angústias e das necessidades dos mais vulneráveis. Na sua missão, que não se esgota em pregar a Palavra de Deus por montes e vales, em capelas húmidas e escuras, o padre com nome de Santo procura na medida das suas fracas possibilidades, minorar as carências dos mais pobres. Porque também ele não nasceu em berço de ouro e a sua vida sempre foi e é de uma existência de entrega aos outros. É o lar dos idosos da aldeia, que lhe lava a roupa e é ali que toma as suas frugais refeições, que paga com o seu pequeno ordenado.


Esta é, ainda hoje, a realidade de uma parte de um Portugal tão português, que honra mais que ninguém esta Quadra no Sentir da Devoção pelo Seu Jesus - Menino, num cenário da pobreza despida da ambição e da viscosa hipocrisia que mina a sociedade de hoje, e da intolerância que alastra em muitos corações.


Talvez esta simples narrativa, seja um Conto de Natal.

Q.P.