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domingo, 14 de outubro de 2018

O QUITO



Ora aqui está uma pessoa que já merecia uma estátua no Bairro Norton de Matos, de preferência na Praça dos Açores. Isto para não dizer que merecia outra no Choupal, junto à antiga ponte de madeira e outra em Castelo Branco, na mesma escadaria que tem os reis de Portugal. Uma estátua em Lagos no lugar do Dom Sebastião, outra na Guiné que poderia ser em Bissau, Bafatá ou Catió e uma enorme no Juncal do Campo.
Em Coimbra, no Choupal porque foi onde nasceu e viveu grande parte da sua infância. Ainda criança, ajudava o avô a tratar daquelas árvores, mantendo a mata limpa evitando a possibilidade de fogos e impedindo os vândalos de destruir tão precioso património da cidade. Foi ele que construiu a primeira ponte de madeira que atravessava o rio na zona do Choupal e impôs (lembrem-se que ainda era criança) a quantia de 5 tostões por cada travessia, dinheiro esse que revertia integralmente para a preservação da Mata Nacional do Choupal.
Também Coimbra, no BNM na Praça dos Açores, porque foi lá que passou a sua juventude e onde começou a arregalar os olhos para as miúdas da vizinhança, dando origem aos primeiros textos, autênticas odes ao amor. Mais tarde, viria a abandonar as odes para se dedicar inteiramente à prosa. O Bairro e as suas gentes foram retratados nos seus textos de tal forma que tudo e todos ficarão para a eternidade.
Em Castelo Branco, seria justo que ficasse na mesma escadaria onde estão os Reis de Portugal, pois estão lá muitos que pouco fizeram pelo país e muito menos pela cidade de Castelo Branco. Pelo contrário, o Quito deu seu sangue suor e algumas lágrimas pela cidade e por esse povo que tão bem soube retratar com a sua arte de tão bem escrever. Ainda hoje esse povo o recebe com enorme carinho, amizade e respeito.
Em Lagos, o lugar para a estátua deveria ser onde está o Dom Sebastião. Esse tal Dom Sebastião deu de frosques para Marrocos, dizem as más línguas que se juntou com um tuareg, eu quero acreditar que foi com uma odalisca, mas o que é certo é que nunca mais apareceu, nem para dizer adeus!... O Quito, não!... O Quito vai para Lagos 3 e 4 vezes por ano, não para se pôr à varanda da casa a ver o pôr do sol. Não, vai para conhecer e ajudar aquela gente, aquele povo: pescadores, merceeiros, barbeiros, engraxadores, policias, bombeiros, gasolineiros e até mendigos. O Quito fala com eles, ouve-os com paciência de Jó, aconselha-os e no final ainda nos delicia, pondo no papel, mais uma vez para a eternidade, as suas vidas, dificuldades, usos e costumes.
Na Guiné então, ninguém tem dúvidas! O Quito esteve lá na guerra e era suposto que deveria ter amigos e inimigos! Os inimigos seriam para abater. Mas não, o Quito não tinha ninguém para abater, porque só tinha amigos. Ninguém poderia ser seu inimigo e ninguém o considerava como tal. Mais uma vez os episódios  e as histórias passadas nesse difícil tempo, ele passa-os para o papel e nós, ao lê-los, passamos a gostar daquela terra e daquela gente. Se não for possível uma estátua em cada cidade, pelo menos deveria tê-la numa das cidades.
Em Juncal do Campo, ainda tenho esperança que o Presidente da Câmara arranje o dinheiro para mandar erguer a estátua que há muito está encomendada. Ninguém naquela terra ajudou tanto aquele povo como o Quito e mais uma vez escreve, para que fique para a posteridade, a vida e as dificuldades dessas suas gentes.
Espero que isto não caia em saco roto e que os responsáveis destas terras vejam a injustiça que fazem ao ignorar tão ilustre e bondoso Homem!

Viva o Quito!... Viva!... 

Tenho dito,
Alfredo Moreirinhas