quarta-feira, 31 de agosto de 2011

VÃO-SE OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS. OU NEM ISSO?

  
                                                                                                                               * Rio Mondego *


 - Olha que tens que deixar isto pronto hoje! 

 - Não vai dar, patrão                                                  
Já o sol alaranjava no poente e ainda lhe faltava plantar mais de três centos de pés de couve. Aflito, o Horácio tinha a certeza de que não ia conseguir plantar tudo antes de escurecer.
Mesmo assim, de joelhos e cabeça baixa, o suor a arder-lhe nos olhos e a escorrer pela ponta do nariz, frenético, ofegante, ia sachando e enterrando os pequenos caules na terra que antes revolvera com a enxada.
O crepúsculo já sombreava as leiras cavadas e o monte de pés de couve por plantar parecia maior.
Sentiu o barulho de botas cardadas, no lajedo, atrás de si a aproximarem-se.
- Então?
- Não vai dar, patrão!
- És uma lesma. Mas não faz mal. Vem cá amanhã para eu te pagar as horas de hoje. Que nem as mereces, tu bem sabes, mas que hei-de fazer? Vou arranjar outro para fazer o serviço.
- É verdade, aquela quelha ao pé do rio ainda é tua, não é? Aquilo não dá para nada, mas...
- É. Ainda é minha é...
Trôpego, escarrava para a estrada a caminho do casebre onde vivia com a mulher que o esperava com as mãos debaixo do avental.
- Correu bem o trabalho para o Sr. Noronha?
- Não deu...
Sentia as paredes do estômago coladas, causando-lhe agonia e dor. Nem ele sabia bem se da sede, se da fome.
Sentado num tripé à mesa tosca de madeira, com a mulher à sua frente, as unhas sujas, a barba por fazer, a pele tisnada do sol, começou a sorver a sopa rala com um ruído surdo quando chupava o resto que ficava na colher. Abocanhou um bocado de toucinho já rançoso e meteu a garrafa à boca. Via-se-lhe a maçã de Adão a dançar para baixo e para cima, quando o vinho lhe escorria pela garganta.
Depois, arrotou, sentou-se na cadeira de baloiço onde costumava ficar horas a fio, de mãos cruzadas no peito, como num esquife, a olhar o infinito ou a dormir e a ressonar, murmurando quando acordava:
- Não vai dar...
Há anos que vivia assim, desmazelado, um farrapo, farto da vida, sem falar com ninguém, nem mesmo com a mulher a quem só se dirigia raramente, e ainda assim,  por monossílabos quase inaudíveis.
Tinha vendido ao Sr. Noronha, por tuta e meia, uma após outra, todas as pequenas propriedades que herdara, para poder comer e alimentar a mulher e o rancho de filhos que criou e que emigraram para Lisboa à medida que foram crescendo.
Bom. Vendido não foi bem. O Sr. Noronha não lhe arranjava trabalho mas a verdade é que o tinha ajudado muito. O Horácio não era mal agradecido...
Emprestou-lhe dinheiro por várias vezes ao longo dos anos. Só que, quando não recebia a tempo e horas o estipulado, executava-lhe as hipotecas que o Horácio tinha assinado para garantir o reembolso dos empréstimos e o pagamento dos juros exorbitantes.
Como num filme retrospectivo, rememorava isto tudo e remoía:
- Não vai dar...só se for a quelha...

 Rui Felicio

..
Passou-se há dezenas de anos nas Torres do Mondego. Estamos a regredir ou a comparação com os dias de hoje é abusiva?

terça-feira, 30 de agosto de 2011

UM CONTO DA GENTE SIMPLES ...

...... o velho armário do dentista ...

(foto de Daisy Vieira)
Em Juncal do Campo, pequena aldeia da Beira Baixa, existiu um homem que se chamava Duarte. Finou-se, vai para uma década. Era muito conhecido nas aldeias em redor, pelos seus vários dotes. O Duarte – o Duarte ferrador – ferrava burros e cavalos. Mas não era só esse o seu único atributo. Também era barbeiro e dentista. A verdade, é que nestes três ofícios, não tinha mãos a medir. Ferrava as bestas, com o mesmo desvelo com que cortava cabelos, de tesoura e pente na mão. Depois, rapava a nuca aos fregueses com uma navalha, dos pêlos impertinentes que resistiam no cachaço. O pó de talco era a apoteose final, num expediente de onde recebia uns parcos tostões. Injusto, seria omitir que também fazia a barba aos conterrâneos. Molhava o pincel numa pequena taça de alumínio, onde jazia um pó previamente diluído em água. Com a navalha em riste, escanhoava milimetricamente o rosto do freguês, com os óculos pendurados na ponta do nariz, a assobiar a “Senhora do Almortão”. Maior responsabilidade, era a sua apetência para dentista. Com o paciente – nunca esta palavra foi tão certeira – sentado numa velha cadeira de madeira, o Duarte pelejava contra qualquer dente incisivo ou molar que lhe aparecesse pela frente. Nunca perdeu uma refrega. Com o alicate numa mão e água – forte na outra como anestésico, o ferrador do Juncal viu a sua fama espalhar-se léguas em redor. E nem sequer faltava o armário das mezinhas caseiras, para os casos mais complicados. Que conste, nunca dali saiu ninguém com grossa hemorragia, que fizesse o sofredor necessitar de tratamento hospitalar. Um dia, a loja do Duarte, que também era barbearia e consultório de dentista, fechou para sempre. Resta a “Ti” Engrácia, viúva que lhe dedicou uma vida. Agora que o companheiro partiu deste mundo, vai espiando por entre as cortinas rendilhadas da janela, os movimentos da rua estreita.
Q.P.

Agradecimento por ser SEX...agenário

Apesar do tempo decorrido não queria deixar de registar os meus sinceros Agradecimentos a todos aqueles que, alertados pelo meu Amigo RAFA, AQUI, me “oficializaram” aquilo que, sem falsas modéstias, passei a ser: SEX…agenário!

Conforme escrevi noutro local aqui ficam também beijos meus para vocês, gaita, que isto de atingir tal estado (SEX...agenário) tudo deverá permitir!

Resta-me uma dúvida: Foi uma nomeação para o Conselho de Administração do CR60A (Clube dos Respeitáveis 60 Anos) , não foi Alfredo?

CURIOSIDADE-DOCUMENTO RARO...NEM TUDO O QUE PARECE É!


Poucos terão documento equivalente.
Tem 68 anos e 5 meses.
Pena não ter o nome do Restaurante ( Tasca )
embora suponha que existia a cerca de 20 metros
da casa onde nasci e vivi 7 anos.
Desculpa a vaidade.
Um abraço
Afonso Costa
Mas eu acrecento José... Afonso Costa!!!
Estás desculpado...porque é verdade.Está confirmado!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

JOGO DO BURRO

Chamava-se Albino, mas pouca gente sabia o seu nome. Era tratado e conhecido por todos como o Binão. Na década de sessenta, devia andar na casa dos 50 anos de idade.

Morava na Rua do Teodoro, numa minúscula casa térrea decrépita e era visto amiúde na zona das paragens dos trolleys do Calhabé a caminhar, bamboleante, umas vezes em direcção à Rua dos Combatentes ou outras a caminho de uma taberna que havia antes de se chegar ao Café Aquário. Gostava de jogar ao burro, no quintal da tasca, debaixo de uma parreira. Talvez por estar muito treinado ou talvez porque era baixa e, por isso, mais adequada à sua estatura, a bancada de madeira carcomida onde era preciso acertar com as malhas de chumbo nos quadrados do tabuleiro, facilitava-lhe o arremesso dos discos, e ganhava com frequência as partidas, emborcando de graça os copos de tinto que constituíam as apostas do jogo.
De cabeça quadrada e disforme, desproporcionada do corpo, pernas curtas, grossas e arqueadas, a sustentarem um tronco largo e musculado, de onde emergiam dois braços fortes que lhe chegavam aos joelhos, era senhor de uma força hercúlea que assustava quem se atrevia a ridicularizar a sua grotesca figura.
Nunca o vi rir, certamente pelo natural complexo da sua estatura anã de pouco mais do que 1,40 m.  Quando enclavinhava, como uma tenaz, a sua mão no braço de alguém mais desprevenido, que tivesse tido a desdita de lhe dirigir alguma piada de mau gosto, rangiam-se-lhe os dentes e os ossos da vítima estalavam como cartilagens.  
Curiosamente, neste jogo, disputado aos pares, o seu parceiro habitual era o enorme Calmeirão, conhecido mandador das fogueiras dos Santos Populares.
O Binão vivia pobre, sobrevivendo da paga de esporádicos recados que fazia.

Mas já tinha sido muito rico!
Na década de quarenta, ainda jovem, tinha-lhe saído a sorte grande na lotaria. Seiscentos contos, segundo se dizia! Uma fortuna!
Foi então que finalmente convencera a Alzira, por quem andava apaixonado há anos, a namorar e a casar com ele. Passando ele a ser dono daquela enorme fortuna, a Alzira, que até aí sempre lhe recusara os intentos, espantando-o de forma grosseira e sugerindo-lhe que “se medisse”,  acabou por ceder às suas insistências.

Casaram na antiga igreja de S. José, perante os sorrisos dos convidados e a chacota de quem assistiu à cerimónia. Ela, elegante e bonita suplantava-o do alto do seu 1,70m e ele, de olhos em alvo e pescoço esticado, parecia fitar o céu quando a olhava.
Constava que o casamento não durara mais do que dois ou três meses, porque a Alzira, de quem se desconhecia o paradeiro, pela calada de uma noite, enquanto ele dormia, fugiu com uma mala cheia com todo o dinheiro que o Binão ganhara na lotaria e que escondia religiosamente debaixo do colchão.

Rui Felício 

BIBLIOTECA "ENCONTRO DE GERAÇÕES"REPÚBLICA DO CARMO- PARTE II

CAPÍTULO 5(parte)-Romance Histórico de Coimbra-A Republica do Carmo- de Fernando Rovira
Quem era Leonor, a formosíssima tricana de Coimbra, heroína da nossa história?
Estêvão ouviu pela primeira vez falar dela, deveis estar lembrados, na noite em que livrou o estudante Mendonça de uma enorme sova no botequim de Sansão. Alguém a definiu então, de maneira primorosa: uma beleza espiritual. Pois bem, quem leu o que na época se escreveu a seu respeito não tira uma virgula ao que foi dito.
Trajava sempre de tricana. Mas não ia “descalça para a fonte”, como a Leonor de Camões, que não lho permitia o viver da casa que recebera como filha.
Trajo de tricana, sim, mas aprimorado, luxuoso mesmo, no que chegou a ser imitada por algumas meninas ricas da cidade que, até então, consideravam esse trajo próprio de moças pobres, devaneios de estudantes. Usava mantilha, prendia o xaile com elegância, a saia um pouco subida a deixar ver a meia branca e, no pé, o formoso chinelo de biqueira de verniz.
Até à morte da mãe, ia Leonor nos 16 anos, ambas viviam numa casita modesta situada no local que, umas dezenas de anos depois, herdou o nome da fábrica que ali laborou quase até aos finais do século XVIII, habitualmente designada pelo povo por feitoria dos linhos.
Por ali ter nascido e vivido, era conhecida por alguns por Leonor de S. Francisco; por outros simplesmente por Inglesa.
Porquê, Inglesa? Pelo louro do cabelo? Por ser alta e esbelta? Por ser diferente?...Nada disso!
A avó de Leonor era lavadeira. Na Primavera e no Verão, quando o Mondego corria manso e de águas pouco fundas, ela batia e torcia nas lajes negras do rio a roupa da gente rica da cidade. Com isso bastava ao sustento, seu e da filha, o qual não ia além daquele pouco a que estão habituadas as pessoas simples do povo.
A filha, mãe de Leonor, era aos 18 anos uma moça bonita, de grandes olhos doces e lânguidos.
Ajudava a mãe nos serviços mais difíceis e penosos da lide. Era ela que transportava à cabeça as avantajadas trouxas de roupa que vinha suja de cidade e para lá voltava com a seráfica alvura dos altares.
Um pouco além das pedras onde as lavadeiras ensaboavam, batiam e coravam a roupa, ficava o local onde os ingleses, aquando da Terceira Invasão Francesa, haviam fixado uma guarda, lugar esse que viria a perdurar na toponímia coimbrã com o nome de Guarda Inglesa. Os militares, que ali permaneceram vários meses, conduziam os cavalos pela arreata e iam pô-los a beber num ponto do rio situado um pouco acima do sítio onde as lavadeiras se entregavam ao seu afã diário. Entre eles, havia um, louro, de bigodito também alourado, que deixava transparecer pela atitude sempre alegre o feitio bem disposto e folgazão dum latino. Tinha o costume de se aproximar das lavadeiras e dirigir-lhes a palavra.
Elas nada percebiam daquela algarviada e, como não sabiam responder ao que não entendiam, faziam a única coisa que podiam fazer…riam. Outras vezes, aproximava o cavalo delas e ficava a gozar o espectáculo de ver cada uma a fugir para seu lado em grande galhofa.
De todas as vezes que isso acontecia, e bastantes era, o soldado não tirava os olhos de Maria Leonor, que assim se chamava a tricana de olhos doces e lânguidos.
Entre as mais moças solteiras que por ali estavam, era Maria Leonor a única que atraía as atenções do militar.
Logo que o viam surgir da margem, com o cavalo pela arreata, as companheiras diziam-lhe com uma ou outra invejazita mais traquina a tresmalhar dos sorrisos benevolentes:
- Lá vem o inglês. O diabo do homem não tira os olhos de ti, Maria Leonor. Parece que lhe saltam da cara!
- Muita água bebe aquele cavalo…Ainda acaba por arrebentar, coitadinho! – acrescentava logo outra.
-Vocês são doidas! – retorquia ela, corada.
- Ó Maria Leonor, ainda hoje não puxaste pela garganta.
Tens de cantar uma dessas cantigas tão bonitas que tu sabes!
- Sei cá eu qual hei-de cantar?!
- Canta aquela das fogueiras de S. João – lembrou a mãe.
E a voz bem timbrada elevou-se nas alturas, insubmissa e romântica, a partilhar a alegria com as águas, com os salgueiros, com as areias do rio…


Ó cidade de Coimbra
Arrasada sejas tu
Com beijinhos e abraços
Não te quero mal nenhum.

Sansão é dos frades crúzios
A Calçada dos amantes
A Praça das regateiras
A Ponte dos estudantes.

Campos verdes de Coimbra
Cheios de canaviais
Quem se fia em estudantes
O que recebe são ais.

Quem é este passarinho
Que no ar faz ameaças?
C´o biquinho pede beijos
Co´as asinhas pede abraços.


O soldado sentou-se e ali se deixou ficar, embevecido…Quando o último verso se extinguiu, levantou-se e bateu palmas entusiasmado.
As lavadeiras já se haviam habituado a vê-lo por ali, mas sempre a distância respeitosa. Um dia, o soldadinho foi mais atrevido. Veio junto de Maria Leonor e, num português arrevesado, perguntou-lhe se queria ir com ele para Inglaterra, quando a guerra acabasse. Ela tardou, mas acabou por compreender, e, sem levantar os olhos da pedra onde torcia a roupa respondeu:
- Sei lá onde isso é….
E ambos se puseram a rir.


O Mondego continuou a correr, as lavadeiras a lavar, a guarda inglesa no seu posto a guardar e Maria Leonor e o soldado a amarem-se.
Uma tarde, o soldado vinha triste. Maria Leonor não perguntou nada. Para quê?...!
Despediram-se. Nas bocas, ficou o travo de sal do último beijo.
O militar não está em lado nenhum, a não ser entre a vida e a morte, mesmo se o coração parte cheio de esperança de voltar.
- Quando a guerra acabar, venho buscar-te!
Maria não disse nada. Ficou a ouvir os passos lentos a afatarem-se, esmagando a areia e o seu coração.
As companheiras estavam com ela, sua mãe também estava ali, mas Maria sentia-se só numa noite sem manhã…
Os dias passaram sobre sobre os dias. Cada hora, uma esperança morria e o coração ia-se finando na setença que adivinhava.
- Maria, olha quem lá vem!
O mesmo uniforme, o mesmo garbo…mas não era o sodado de Maria. A voz soou triste como um requiem:
- És tu a Maria Leonor? És tu a Maria?...
Maria levantou os olhos assustados. Na voz do soldado adivinhou a desgraça. Por fim, o grito rompeu o vómito de aflição que lhe fechava a garganta:
- Morto, meu Deus?!
O soldado, cabeça pendida e olhos a marulharem em águas de agonia, apenas soube dizer:
- Caíu a meu lado. Pediu-me para te vir dizer…
O rio, que era triste, ficou mais triste. A espuma do sabão eram saudades que a água ia levando, mas nunca as levou todas…
- Como se vai chamar? – perguntou uma companheira.
- Se for menino, é João.
- E se for menina, é Maria Leonor, como tu…
- Não, só Leonor. As Marias são infelizes.
Leonor nasceu e passou a ser a razão duma vida.
Ao certo, nunca soube nem o dia, nem o local onde João morreu, nem a terra que lhe comeu o corpo. Para ela, esse dia foi aquele em que os seus beijos tiveram o gosto do sal.
De uma vez, ao regressarem a casa, calhou a filha perguntar:
- Onde morreu o pai?
Ela parou, levantou os olhos para o céu, e respondeu:
- Ali…por detrás do Monte da Esperança.
……………………………………………………………………………………………………………………………………………….
 
FIM da apresentação  deste Livro do Fernando Rovira
(a primeira parte foi postada em 26/08

ANIVERSÁRIO ZÉ Eduardo

JOSÉ EDUARDO SOARES

 

29-08-1948 / 29-08-2011


63 ANOS

"Encontro de Gerações" deseja


MUITAS FELICIDADES!


PARABÉNS!

 
aos 6 anos...






e aos....


18 anos


Com as Marafonas em Santiago de Compostela



2008 no GEG


Prova Cabrito de Sicó-Louçainha
 Passagem de ano  2010/2011
2º aniversário "Encontro Gerações"                                  

domingo, 28 de agosto de 2011

Muita Parra pouca Uva

O importante é estar por cá.
Um Abraço.
Tonito.

ANIVERSÁRIO - Inês Santos

INES SANTOS - 27 Anos


28-08-1984 /  28-08-2011




"Encontro de Gerações" 


deseja FELIZ ANIVERSÁRIO!


PARABÉNS







ANIVERSÁRIO - Lena Oliveira

MARIA  HELENA OLIVEIRA

28-08-1951 /  28-08-2011


"Encontro de Gerações" deseja


FELIZ ANIVERSÁRIO!
PARABÉNS

sábado, 27 de agosto de 2011

FADO NEGRO

Naquela rua soturna de Lisboa, existia um prédio. Eram quatro andares e um sótão, que também servia de habitação. Lá dentro, gente humilde. Viviam do seu magro pecúlio e da solidariedade que compartilhavam entre si. Por uma escada velha de madeira, subia-se até ao topo. Sempre de lanterna na mão, naquele reino das trevas, quer fosse de dia ou de noite. Era como dedilhar as cordas de uma viola. O gemido triste de um fado. No quarto andar, viviam as irmãs Margarida e Felismina. Ao lado, o velho João Bernardino, que subia as escadas curvado para a frente, trazendo às costas o peso das privações. E a Elvira, que vendia sardinhas ao fundo da Rua da Prata. No sótão, habitavam a Zulmira e o Rogério. A Zulmira, era ainda uma bonita mulher. No rosto, porém, tinha marcado o sofrimento dos sopapos da vida. Esgotava os seus dias dobrada sobre a máquina de coser “Singer”, ou picotando pacientemente malhas em meias de senhora. Ao Rogério, não se conhecia profissão. Tinha olhar de lince, naquele rosto esquálido. As farripas de cabelo que lhe sobravam na cabeça, penteava-as para trás, ensopadas em brilhantina. Percorria a noite de Lisboa, de gabardina cor de cinza até aos pés e boina basca descaída sobre a orelha, procurando negócios de ocasião. Negócios pardos. Uma vez, entrou deitado numa maca no hospital dos Anjos. Foi numa noite morna, lá para os lados da Madragoa. Um negócio de tabaco clandestino, de que cobrava o seu quinhão. Da discussão à zaragata, foi um passo. Alguém puxou de uma pistola e atirou-lhe. Mas salvou-se, com os cuidados médicos e o desvelo da Zulmira que o amava. O Rogério, passava agora as horas deitado, convalescendo, olhando para a velha televisão a preto e branco, de ecran baço, com que um dia apareceu em casa, sem explicar a proveniência. Um ano, houve festa naquele prédio da rua triste. A Margarida, tinha arranjado um emprego das mil e uma noites. À vista de quem ali vivia dos magros escudos. Bateu de porta em porta, a dar a feliz notícia aos solidários vizinhos. Era agora empregada de bordo do paquete “Santa Maria”. Ia finalmente saborear a vida. A Felismina – sua irmã – debulhou-se em lágrimas. Viviam sozinhas e perdia a sua companheira de sempre. A Margarida, porém, exultava, com o mundo a seus pés. Funchal, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nova York, na rota da vida. Mas foi sol de inverno. À terceira viagem, o navio foi tomado de assalto . Um tal Galvão, um bandido que odiava o Senhor Doutor Salazar - diziam lá no prédio. Todas as noites, a vizinhança encostava os ouvidos à telefonia, na procura de notícias da pobre Margarida. Um dia, resolvida a contenda, a irmã da Felismina chegou. Beijaram-se até às lágrimas. Depois, foram os vizinhos a abraça-la, um a um. À entrada da porta, a mala de cartão, com rótulos colados dos destinos por onde tinha passado. Fora curta aquela etapa da vida. Nunca mais regressou ao mar. Mas era agora muito considerada por todos. Tinha percorrido mundo. Um deslumbramento, para quem nunca tinha passado a fronteira da Rua Augusta. Hoje, passado mais de meio século, a pesada porta da entrada ainda lá está, com o seu batente em ferro pintado de verde. Mas já lá não estão os seus moradores de outras eras. Deram o derradeiro passo, para o outro lado da vida. Deles, apenas uma esfumada lembrança. E o trinar longínquo de um fado negro.
Q.P.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

BIBLIOTECA "ENCONTRO DE GERAÇÕES"

 Agradeço ao FERNANDO ROVIRA a oferta deste interessante livro!
"A República do Carmo"
"ROMANCE HISTÓRICO DE COIMBRA"- Capa de  IDALINA ROVIRA.


A Introdução , fundamental para o enquadramento  do Romance Histórico, ocupa as páginas de 11 a  22, 9 CAPÍTULOS - EPÍLOGO - e NOTAS.

A Introdução é uma "Lição de história", com datas, nomes e factos reais que abrange as invasões francesas, a presença das tropas inglesas e...as crises porque passou Portugal....com alguma semelhança com o que actualmente se está a passar com a crise económica!
Como é um pouco extensa publico hoje uma parte da Introdução  e depois  mais algumas passagens.
 


INTRODUÇÃO
     Destina-se esta pequena introdução a auxiliar o leitor, porventura menos familiarizado com a História, a entender o porquê da violência que irá encontrar em muitas das páginas que vai ler.
     Em termos cronológicos, a acção deste livro desenvolve-se entre 1808 e 1840, um dos mais desgraçados períodos da História de Portugal: invasões francesas – presença estrangeira – lutas civis. Por isso, achámos fundamental a caracterização e descrição, em termos tão breves quanto possível, do contexto sócio-politico em que ela decorre, consciente embora do risco que, em História, as sumarizações podem implicar.
        O século XIX foi um século de convulsões.
        A partir das invasões francesas, o País não mais voltou a encontrar a paz de que necessitava par se recompor do descalabro em que caíra. Vivia-se um permanente mal-estar político, económico e social. O erário público mantinha-se à custa de sucessivos empréstimos internos que se iam tornando cada vez mais gravosos devido ao juro aumenta na proporção em que diminuía a receptividade pública. Dos 700 milhões de francos que a França teve de pagar como indemnização de guerra, apenas nos coube o exíguo montante de 2 milhões, apesar de Portugal ter suportado prejuízos incomparavelmente superiores. Porém, o País não tinha voz para ser ouvido, nem tinha voz para nada…
       A paz com a França foi assinada em 1814. Contudo, apesar do termo das hostilidades, os ingleses ainda por cá foram ficando, comportando-se algumas vezes como se em colónia sua estivessem, o que fez com que a reacção contra a sua presença fosse aumentando de vigor. Nem governo, nem povo, os viam com bons olhos. Para piorar as coisas, Beresford, comandante do exército, consegue do Rei a autorga de tão amplos poderes que o colocam numa posição de total independência perante o governo do Reino. E, num momento em que todos os braços não seriam de mais para se fomentar a reanimação económica de que o País tanto precisava, Beresford procede a grandes recrutamentos de soldados.
        Grassando vertiginosamente, à custa do mal estar generalizado, o ideário liberal insinua-se com facilidade nos espíritos. A Maçonaria, veículo privilegiado das novas ideias, fixa-se e robustece-se. Em COIMBRA, a loja maçónica Sapiência congrega importante núcleo de personalidades favoráveis ao liberalismo.
        Em certo momento, começa mesmo a propagandear-se em alguns sectores, incluindo o exército, a queda da Monarquia. Em Pernambuco, chega a eclodir um movimento republicano: em Lisboa, nos meios maçónicos, prepara-se idêntica conspiração, mas por ironia, sem os cuidados de sigilo peculiares das associações secretas. Em 1817, doze dos implicados são condenados à  pena capital, entre  os quais o General Gomes Freire de Andrade, oficial brilhante que, desde o ano anterior, era grão-mestre da maçonaria portuguesa:
        O estado da nação vai de mal a pior. Em 1818, o défice anual atinge os 5 milhões de cruzados. É a bancarrota. O País conspira. Em Junho desse mesmo ano, constitui-se o Sinédrico, associação secreta cujo objectivo era preparar a revolução liberal. Aos quatro membros fundadores – Fernandes Tomás, Ferreira Borges, José da Silva Carvalho e João Ferreira Viana – muitos outros vêm juntar-se.
Continua

CURIOSIDADES! A VIRGULA

Sobre a Vírgula
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Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..


Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.


Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.


Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.


A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.


A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!


Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.




Detalhes Adicionais:(esta parte mais conhecida)




COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:




SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.*






* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...








* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...




enviado por José Afonso Costa

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

METEORO

Corria o Natal de 1961, annus horribilis do Estado Novo, marcado pela perda de Goa uns dias antes, pela conspiração do quartel de Beja e pelos ataques dos angolanos em Luanda.
Os cientistas não tinham dúvidas!
A tenebrosa notícia era difundida ininterruptamente, entremeada com música clássica, pela televisão e pela rádio, fundamentada com cálculos matemáticos indiscutíveis. Salazar, com ar pungente, falou ao País, recomendando ao grande povo português que soubesse comportar-se com dignidade na hora da tragédia, porque a Pátria saberia renascer das cinzas, mesmo que ficasse orgulhosamente só no mundo, porque este era o castigo divino para aqueles que nos atacavam.
Um meteoro de enormes dimensões iria romper a atmosfera terrestre naquela noite. A energia do choque seria mais de um milhão de vezes superior à que libertara a bomba de Hiroshima! Sabia-se com exactidão o ponto onde ocorreria o impacto, perto do apeadeiro de São José, em Coimbra e era certa a destruição total do planeta Terra. Não havia forma de lhe escapar. Seria indiferente mudar de uma cidade para outra, de um país para outro. Era o apocalipse, o fim do mundo, tal como Nostradamus previra.
Interpretei o calor abafado que estranhamente me inundava o corpo naquela noite fria de Dezembro, como efeito da lenta aproximação incandescente do meteoro, depois da sua entrada elíptica nas altas camadas da atmosfera. A multidão em pânico olhava a bola luminosa que, a cada minuto, ia aumentando de diâmetro no breu da noite.

Ao meu lado, na rua, aquela bonita rapariga que eu só conhecia de uns fugazes encontros nos bailes do Clube Recreativo do Calhabé, tremia de medo sem saber o que fazer, tal como todos nós. Não havia mais do que um superficial conhecimento entre mim e a Ângela, por termos dançado duas ou três vezes, mas a aflição daquele momento aproximava-nos, impelia-nos um para o outro.
Olhámo-nos. Sem necessidade de quaisquer palavras, decidimos aproveitar os últimos momentos de vida. Beijámo-nos longamente, indiferentes aos gritos aterrorizados da multidão. À espera do fim próximo que o calor cada vez mais intenso prenunciava, queimando-nos os corpos, o beijo catalisava as profundezas de todos os sentidos...

Subitamente, acordei sobressaltado, exausto, com o coração a bater desenfreado. Espreitei pelas persianas do meu quarto, e em vez do imaginado cenário de destruição, vi o verde das árvores dos quintais do bairro e a calmaria de um bonito sol de inverno, rebrilhando no orvalho das plantas e das flores . Afinal tudo não passara de um sonho!
Vesti-me à pressa, corri à Fonte da Cheira e bati à porta da Ângela que a abriu sorridente, pegando-me delicadamente na mão. Por algum efeito telepático, também ela, como eu, tinha sonhado com o hipotético meteoro. Também ela tinha sentido o mesmo calor abrasador que eu senti...

Rui Felicio

SÓTÃO NORTON DE MATOS

GRANDES NOMES DO JAZZ MUNDIAL PASSARAM PELO CENTRO NORTON DE MATOS EM 2002/2003 - Além  do Ginásio do Centro, também houve exibições no TAGV e no CAE da Figueira da Foz.Qual será este QUATETO? Talvez nenhum destes!

Fica este apontamento duma época marcante no Centro Norton de Matos!


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

BIBLIOTECA "ENCONTRO DE GERAÇÕES" João Ferreira

           A CULPA
Corria um Julho sufocante. Nesta Coimbra, de frondosos jardins, com um rio largo e amigo, banhada de juventude que sobe e desce a colina da Universidade, há sempre uma sugestão de verde e fresco que aquele mês tentava encarniçadamente negar.
No escritório, o calor, temperado pela aragem quente da ventoinha, fazia-se sentir com alguma impiedade.
A cliente seguinte tinha acabado de se sentar. Relativamente baixa, grande obesidade, visivelmente afogueada, faces viçosas ruborizadas, era a imagem caricatural daquele verão. Com uma revista fazia rodar o punho com rapidez, abanando-se angustiadamente. Um vestido justo, branco com bolas vermelhas, fazia-a mais cheia e acalorada. Grandes manchas de transpiração marcavam o vestido junto aos sovacos. A testa, de grande dimensão, luzia polvilhada de bolhas de suor que a outra mão limpava com frequência a um lenço já encharcado. De cabelo ruivo apanhado no cimo de forma a libertar o pescoço, pele salpicada de pequeninas manchas acastanhadas, aparentava ser ainda bastante jovem. Nunca mais de trinta anos.
- Faz favor de dizer! Comecei eu.
-Bem, vou contar tudo!
Limpou uma vez mais a testa, ajeitou-se melhor transbordando na cadeira que ia resistindo.
- Sempre me dei bem com o meu marido. Casámos há dez anos e temos dois filhos, um com nove e outro com seis anos. O Carlos foi sempre bom pai. Muito amigo! Trata-os com muito carinho e dá-lhes toda a atenção possível.
Com o lenço apertado entre os dedos grossos e fusiformes, voltou a limpar a testa e os olhos que, entretanto, começaram a lacrimejar.
- Há uns tempos que andava a chegar mais tarde a casa. Saía depois de jantar e deixou de ter comigo o carinho que tinha antes. Quando lhe dizia que estava modificado, dizia-me que era doida e que não via que andava atrapalhado com o trabalho. Depois começou a mostrar-se agressivo e sem paciência. A dizer coisas que me ofendiam e nunca tinha ouvido antes.
- Como por exemplo?...
- Gorda! Parva e doida era sempre!
Procurou na sua bolsa outro lenço e limpou, de novo, a testa e olhos.
- Andava desconfiada, mas pensei que eram afigurações minhas. Uma amiga disse-me que o tinha visto com uma moça, colega dele. Mas, naquela altura, não liguei! Era natural que fosse encontrado a falar com uma colega de trabalho. Isso não queria dizer que andassem…
- Há quanto tempo é que a sua amiga lhe disse isso?
- Talvez há uns quatro ou cinco meses.
- E depois?
- O meu marido já não pára em casa, não quer saber dos miúdos e até falta com o dinheiro para as despesas. No outro dia, porque lhe pedi dinheiro com insistência, deu-me um empurrão que malhei logo, estendida no chão. Não posso com isto. Não posso admitir que ele me faça isto.
-Na verdade, quando as coisas chegam a esse ponto…
- A minha vida é um inferno! Sinto-me traída! Trocada por outra! Ofendida! Eu queria provas. Custava-me a crer que aquilo me estivesse a acontecer. A mim!
- E já tem provas?
- Já! Por isso só agora vim ter com o sr. dr..
- E que provas?
- Ao virar os bolsos das calças, para as lavar, encontrei um papel. Este!
Desembrulhou um papel que dizia: “Meu querido”, espero-te logo à noite. Estou sozinha! Hoje vamos fazer uma festa grande! Tua Glória.”
- Grande porca! Uma festa!? Está tudo dito! Esta puta, estragou-me a vida! Desculpe estas palavras, mas não posso com isto!
- Sabe quem é esta Glória?
- É a mesma que a minha amiga viu com ele.
- A casa onde vivem é própria ou arrendada?
-Arrendada!
- Traga-me uma certidão de casamento, certidões de nascimento dos filhos, a identificação completa da sua amiga e vá pensando quanto é que devemos pedir a seu marido de alimentos para si e seus filhos.
- Mas, para que é que o sr. dr. quer as certidões?
-Ora, para instaurarmos a acção de divórcio! Não foi para isso que me procurou?
- Não! Nem pensar! Eu procurei o sr. dr. para me dizer como é que eu posso ser boa àquela lambisgóia. A culpa é toda dela! O meu marido foi intrujado. Porque ele é bom e sempre gostou de mim e dos filhos. Nada disso!.
Voltou a limpar a testa e, convicta:
- Vim para saber se posso pôr uma acção contra ela ou fazer outra coisa. Mas contra ela. Contra ele, nunca! Ela é que lhe virou a cabeça! É que se lhe pôs à frente! Nós as mulheres sabemos bem como isso é! Os homens vão atrás de salamaleques e não têm cabeça para ver claro.
Ele não tem culpa!
Natural de Coimbra, onde
estudou, se licenciou em
Direito e advogou.
Iniciou o seu percurso
literário, com a publicação,
em 1996, do livro de poemas
"REGISTOS DE MIM"
(faleceu a 07-12-2004)
A CULPA E A HONRA é uma colectânea de belas narrativas que, tendo como destinatário preferencial as gentes do foro, interessará ao leitor comum, na medida em que lhe revela um mundo que o inconsciente colectivo ainda imagina povoado de sombras inquisitoriais, a que o negro das vestes dá um remate de soturna gravidade. Um mundo, porém, que tem de abrir-se, de democratizar-se. E são obras como esta que nos ajuadam a compreender que os claros-escuros da Justiça são, afinal, o rosto compulsório da própria vida.(António Arnault)

ENCONTRO COM A ARTE

Foto de Luis Garção Nunes "Meus momentos a preto e branco" MY MOMENTS"

Setembro de 2009
"Encontro Gerações" agradece partilha

APRENDER COISAS VELHAS


Por vezes,voltando à nossa criancice,reparamos que fomos formatados erradamente e que,sem maldade,nos foram incutidos alguns preconceitos.
Eu sei que este video é um bocadinho longo.
Mas vale a pena vê-lo.
É simples e belo.
Ver com todo o ecrã.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

BRUXELAS COMANDA-NOS

A propósito da viagem do casal Rafael a Bruxelas, a quem renovo os meus parabéns pelas bodas de ouro do seu casamento, ocorreu-me falar do poder legislativo europeu, “de facto” sediado naquela histórica cidade:

O jurista tem compromisso com o Direito, o que necessariamente não significa que o tenha que ter com as leis quando estas se encontram desajustadas do próprio Direito.
Na realidade, o conceito de Direito é anterior e superior ao do ordenamento jurídico. Isto é, o Direito é a conglomeração dos princípios gerais que a sociedade de homens livres consagrou ao longo do tempo, através do uso da razão, enquanto que as leis são emanações e criações contingentes e circunstanciais, provenientes tanto da força quanto da razão.
Mais daquela do que desta, quando se trata de sociedades ditatoriais. Por isso, é lícito afirmar-se que a ordem jurídica é questionável, já o não sendo o próprio Direito, senão do estrito ponto de vista filosófico.
Por outro lado, cabe primordialmente ao jurista o apuramento da verdade real, mesmo com prejuízo da verdade formal, porque os formalismos legais mais não deveriam ser do que o conjunto de procedimentos e normativos que sistematizam o desenrolar e a dinâmica do processo judicial, não se sobrepondo nunca à verdade real dos factos, das perícias, dos testemunhos...
Mau grado estes princípios universalmente reconhecidos, os burocratas de Bruxelas têm transformado esta Europa em que vivemos, num complexo sistema de normativos e baias ao livre comportamento, legislando abundantemente sobre as mais insignificantes e despiciendas matérias.
Chega-se ao cúmulo de serem libertados autores confessos de crimes hediondos, com provas insofismáveis dos crimes de que são acusados, apenas porque essas provas terão sido alegadamente obtidas de forma ilegal. Sendo que a suposta ilegalidade pode até resultar de contravenção a leis, elas próprias, desajustadas do Direito!

Passando-se a segundo plano o objecto principal do processo crime, para que os investigadores se debrucem por tempo indeterminado e através do uso de formas dilatórias, sobre a ilicitude formal de obtenção dessas provas.
Quando seria mais coerente com os princípios gerais de Direito, condenar quem obteve as provas de forma ilícita, mas mesmo assim aproveitá-las para julgar de modo célere, o acusado no processo crime.

Provoca-se assim o arrastamento do processo, muitas vezes até ao limite dos prazos prescricionais.

É a subversão dos princípios! Privilegia-se o acessório e endeusa-se o formalismo, em detrimento do essencial e da substância, para gáudio dos burocratas de Bruxelas.

E quando se trata de litigância fiscal com o Estado, as leis de Bruxelas têm gradualmente adoptado a inversão do onus da prova, deixando os cidadãos contribuintes praticamente indefesos contra a prepotência estatal.
  Rui Felicio


TERNAS MEMÓRIAS ...

...ternas memórias ...

Era tempo de Primavera. Naquela noite, como todas as noites, a minha avó acompanhava-me ao quarto. Estava na hora de deitar. Curvada sobre si própria, amparava-se no corrimão de madeira, levando-me pela mão. Depois, a oração da noite, que me fazia soletrar: “… Pai nosso, que Estais no céu…”. Então, beijava-me na testa e saía. A enorme porta de madeira, rangia nos seus gonzos , fechando-se devagar. E eu ouvia os seus passos de veludo a afastarem-se, descendo a escada estreita. As manhãs, acordavam esplendorosas. Pela fresta da janela, eu via os raios de sol plasmados contra a parede branca do quarto, inundando-me de alegria. Saltava da cama e abria as portadas da janela larga. Lá em baixo, junto à porta da cozinha, estava o “Blego”. Era o meu cão. Expectante, abanando a cauda, aguardava o companheiro com quem corria à desfilada pelos campos do Mondego. Ladrava de impaciência, esperando a minha companhia. Uma espécie de reprimenda. E eu, desejoso de partir, clamava pela vinda da minha avó. Era um vestir rápido, passar a cara pela água fresca do jarro e um pente no cabelo de raspão. O pão que comia à pressa. E o leite saboroso, aquecido na cafeteira, em cima das brasas cor de rubi. Na hora da partida, sempre os conselhos da minha avó. “…Cuidado com o rio e com os poços…”- dizia-me, enquanto atiçava a lareira com um abanador, onde havia de confeccionar o almoço. Então, eu e o “Blego”, partíamos. Saltitante, de língua de fora e cauda no ar, o meu companheiro de aventura já sabia o itinerário. Lá íamos em direcção à ponte do velho Pama. O campesino, vivia na outra margem do rio. Por vezes, bem nos apetecia fazer-lhe uma visita de cortesia. Mas a minha avó, desde cedo me vedou as intenções. Tinha razão. A ponte era muito frágil e ameaçava a cada momento despenhar-se no rio. Mas, de longe, espreitávamos a sua humilde casa. Por vezes, via-nos, acenando ao neto do Mestre Pereira. O “Blego” respondia também ao cumprimento, ladrando. Depois a partida até à “Roda Doida”. Como era belo o seu lento rodar. E os alcatruzes da nora, subindo e descendo, naquele bailado amistoso, num abraço com o rio. Também o doce cantar do Mondego, afagando as suas margens, num perpétuo murmúrio. Mais longe, esbatida no horizonte, a silhueta duma barca. À ré, um homem que, com uma vara comprida, fazia deslizar a embarcação na travessia do rio. Num pulo, chegava a hora do almoço. Uma passagem junto dos trabalhadores da Mata, que, acantonados debaixo da sombra acolhedora, comiam da marmita, a sua frugal refeição. A tarde era gémea da manhã. E no fim do dia, quando o sol se escondia por entre os eucaliptais e a máquina a vapor partia da Estação Velha, lançando o seu silvo agudo que ecoava pela mata, perdendo-se nos confins da planície Mondeguina, regressávamos ao lar. Um último olhar ao céu, agora vestido de cor púrpura. E o vagaroso fechar da porta da cozinha, virada a poente. Amanhã, a certeza do regresso do sol acolhedor. O milagre do renascer da Natureza. E das madrugadas de cetim, naquela cumplicidade com o Choupal, que eu abraçava como meu. Com o “Blego” a meus pés, aguardando paciente a sua refeição, comia-se à volta da mesa de madeira, à luz do candeeiro a petróleo. Na lareira, o estalar dos ramos secos e o fumo subindo em espiral pela parede enegrecida da chaminé generosa. O crepitar saudoso dos meus verdes anos. Ternas memórias.
Q.P.