quarta-feira, 31 de agosto de 2011

VÃO-SE OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS. OU NEM ISSO?

  
                                                                                                                               * Rio Mondego *


 - Olha que tens que deixar isto pronto hoje! 

 - Não vai dar, patrão                                                  
Já o sol alaranjava no poente e ainda lhe faltava plantar mais de três centos de pés de couve. Aflito, o Horácio tinha a certeza de que não ia conseguir plantar tudo antes de escurecer.
Mesmo assim, de joelhos e cabeça baixa, o suor a arder-lhe nos olhos e a escorrer pela ponta do nariz, frenético, ofegante, ia sachando e enterrando os pequenos caules na terra que antes revolvera com a enxada.
O crepúsculo já sombreava as leiras cavadas e o monte de pés de couve por plantar parecia maior.
Sentiu o barulho de botas cardadas, no lajedo, atrás de si a aproximarem-se.
- Então?
- Não vai dar, patrão!
- És uma lesma. Mas não faz mal. Vem cá amanhã para eu te pagar as horas de hoje. Que nem as mereces, tu bem sabes, mas que hei-de fazer? Vou arranjar outro para fazer o serviço.
- É verdade, aquela quelha ao pé do rio ainda é tua, não é? Aquilo não dá para nada, mas...
- É. Ainda é minha é...
Trôpego, escarrava para a estrada a caminho do casebre onde vivia com a mulher que o esperava com as mãos debaixo do avental.
- Correu bem o trabalho para o Sr. Noronha?
- Não deu...
Sentia as paredes do estômago coladas, causando-lhe agonia e dor. Nem ele sabia bem se da sede, se da fome.
Sentado num tripé à mesa tosca de madeira, com a mulher à sua frente, as unhas sujas, a barba por fazer, a pele tisnada do sol, começou a sorver a sopa rala com um ruído surdo quando chupava o resto que ficava na colher. Abocanhou um bocado de toucinho já rançoso e meteu a garrafa à boca. Via-se-lhe a maçã de Adão a dançar para baixo e para cima, quando o vinho lhe escorria pela garganta.
Depois, arrotou, sentou-se na cadeira de baloiço onde costumava ficar horas a fio, de mãos cruzadas no peito, como num esquife, a olhar o infinito ou a dormir e a ressonar, murmurando quando acordava:
- Não vai dar...
Há anos que vivia assim, desmazelado, um farrapo, farto da vida, sem falar com ninguém, nem mesmo com a mulher a quem só se dirigia raramente, e ainda assim,  por monossílabos quase inaudíveis.
Tinha vendido ao Sr. Noronha, por tuta e meia, uma após outra, todas as pequenas propriedades que herdara, para poder comer e alimentar a mulher e o rancho de filhos que criou e que emigraram para Lisboa à medida que foram crescendo.
Bom. Vendido não foi bem. O Sr. Noronha não lhe arranjava trabalho mas a verdade é que o tinha ajudado muito. O Horácio não era mal agradecido...
Emprestou-lhe dinheiro por várias vezes ao longo dos anos. Só que, quando não recebia a tempo e horas o estipulado, executava-lhe as hipotecas que o Horácio tinha assinado para garantir o reembolso dos empréstimos e o pagamento dos juros exorbitantes.
Como num filme retrospectivo, rememorava isto tudo e remoía:
- Não vai dar...só se for a quelha...

 Rui Felicio

..
Passou-se há dezenas de anos nas Torres do Mondego. Estamos a regredir ou a comparação com os dias de hoje é abusiva?

12 comentários:

  1. Texto muito oportuno, que nos dá bem a noção do que nos pode vir a acontecer...Vão se os anéis....
    É só fazer o inventário de quantas casas de "Comprar ouro, a pronto pagamento" já abriram em poucos meses em Portugal!
    100, 200, 300...talvez milhares!!!!
    Vamos tendo esperança...que ainda fiquem os dedos!

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  2. Há poucos dias, vadiando pela Baixinha, vi um homem que passeava duas placas, uma que lhe cobria as costas, outra que lhe cobria o peito, numa espécie de sanduíche humana. De um lado e outro, em letras negras sobre o amarelo das placas, apenas duas palavras: COMPRO OURO.
    Claro que se percebia que o comprador não era ele. Era apenas um tarefeiro publicitário, adivinhando-se que ganharia uns "trocos" pela tarefa encomendada pelo escondido agiota.

    Abusiva a comparação com os dias de hoje?
    Infelizmente, caro Rui Felício, a tua reflexão nada tem de abusiva.
    Sem dramatismos, que não ajudam a enfrentar as dificuldades que se avizinham, há que reconhecer que muito boa gente está sujeita a ter de vender as suas "quelhas"...
    Já não falando daqueles, e são muitos, que há muito tempo já nada têm para vender.

    Aquele abraço.

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  3. Não vou comentar este teu texto Rui, vou únicamente dizer que há dezenas de anos eu "estive lá" presente na sombra da escravidão de vida do Horácio e na do déspota e oportunista Sr. Noronha.

    Não podia ser mais real e mais tocante a tua descrição!!!!
    Eu sei....eu "estve lá".
    Bjo.

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  4. Gostava de explicar que o termo "quelha" era uma designação popular, dada na aldeia das Torres do Mondego a um estreito socalco de terra lavrada, normalmente nas imediações do rio.

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  5. O comentário da Teresa Lousada sensibilizou-me muito.

    Ela "esteve lá"! Interpreto isso como tendo sentido a desgraçada vida do Horácio e da mulher, como se os estivesse a observar realmente enquanto lia.

    Obrigado Teresa. Não precisava de ler este comentário para saber que és uma mulher muito sensivel e solidária, mas apraz-me tê-lo lido...

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  6. Tenho que dividir o meu comentário em dois planos: primeiro, realçar a prosa do Rui Felício. Muito bem elaborada, todos os pormenores de um cenário rural e de quem nele se movimenta. "Sentado à mesa tripé ...". Todo este parágrafo e o seguinte, caracterizam na perfeição o personagem.
    No outro plano, recordar os agiotas. Os tempos são difíceis. Mas nunca é mau para todos.Há sempre gente, que valendo-se das dificuldades e fragilidades dos outros, aproveitam para tirar largo partido disso.
    Vivemos tempos complicados e o futuro é muito cinzento. Um terreno propício a golpistas sem escrúpulos.
    Gostei muito do texto, Rui.
    Um abraço

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  7. Há por aí, e sempre houve, muitos agiotas que se aproveitam das dificuldades alheias para acumular grandes fortunas.
    Sei do que falo, pois após a morte do meu avô, a nossa casa foi esvaziada por meia dúzia de patacos! Era vê-los todos os dias a bater à porta da minha avó e a levar as coisas mais valiosas. Da biblioteca, foram, por eles, escolhidos os livros raros e valiosos, sendo os restantes, mais de cinco mil livros, vendidos a peso para a Biblioteca Municipal de Coimbra.

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  8. Que dizer mais? Belo texto, situação de "neo-feudalismo"infelizmente real e consentida e , felizmente, amigos que nunca se conformarão!

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  9. Quem escreve assim é um Artista, um artista neo-realista.
    A servidão humana é uma realidade que ofende a inteligência, e, com ela, o progresso. Há sistemas e estádios em que ela é um factor de crescimento e, como tal funciona. Mas, há outros que, reivindicando-se de inexcedível superioridade, mesmo de “fim da história”, convivem com a servidão com um enorme descaramento, porque tanto fingem eliminá-la ou superá-la como, ao mesmo tempo, a justificam, simuladamente.
    O texto tem a grande virtude de nos ajudar a tomar consciência do momento que vivemos hoje, uma espécie de fechar de anel com os finais do séc. XIX, princípios do séc. XX (d.C.). (Sempre com algumas diferenças: já não há “moços de cego” - como o tio do amigo com quem almocei -, a percorrerem o Alentejo à procura de esmolas, as quais estão, hoje, mais próximas).
    No séc. VII-VII a.C. escrevia-se:
    «E agora contarei uma fábula aos reis, sábios que eles sejam. /
    Deste modo falou o falcão ao rouxinol de pescoço manchado, /
    Enquanto o levava muito alto, entre as nuvens, preso nas garras. /
    E o infeliz, trespassado pelas garras recurvas,/
    Gemia. Brutal, lhe dirigia o gavião estas palavras: /
    “Insensato, por que gritas? Agora tem-te quem é muito mais forte. /
    Irás para onde eu te levar, por bom cantor que sejas; /
    Se me apetecer, refeição farei de ti ou te deixarei ir em liberdade. /
    Louco quem pretende medir-se com os mais poderosos; /
    Vê-se privado da vitória e à vergonha associa sofrimentos”.
    Assim falou o falcão de voo rápido, a ave de longas asas.» (Hesíodo, Teogonia, versos 202 a 212).

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  10. E nós por cá o que temos.
    Gente boa?
    Tonito.

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  11. Ficção ou não o Felício contando uma história de outro tempo transportou-nos para a triste realidade dos dias de hoje em que a agiotagem a todos os níveis impera e em que os mais ricos se tornam mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
    O texto tem contornos magníficos na discrição das personagens, no vilão do Noronha e no servo do Horácio.
    Um abraço
    Abílio

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  12. Para além da beleza da descrição a oportunidade do momento, na vida de muitos!
    Os comentários complementam, de forma magnífica, o texto do Rui Felício.
    Os grandes "falcões" já voam por aí...

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