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sexta-feira, 10 de julho de 2020

UM BAIRRO ...





O Hipólito ...

Era uma vez um bairro. Um bairro que era território Apache. Uma espécie de reserva de índios sem índios. Proscritos da Alta da cidade académica ocuparam casas que floresceram numa esquadria perfeita entre ruas e praças. Cada praça, cada rua, um feudo. A proximidade dos vizinhos e a partilha de um ramo de salsa ou de uma caixa de fósforos para acender o “Hipólito” com que se confecionava a comida. Elas, de avental das lidas da culinária, falavam entre quintais das coisas que muitas vezes achavam sérias da vida, como ditos e mexericos. Eles tinham partido de manhã para a batalha da vida. Vinham almoçar a casa e chegavam de casaco ao ombro e gravata ao pendurão, encalorados em dias de  estio.  À noite, nas ternas noites, elas ficavam em casa a fazer renda ou a ver televisão, se a tivessem. Eles iam até ao Centro de Recreio. Lá, bebiam cerveja e comiam tremoços e amendoins. Também jogavam às cartas num alvoroço do ganhar e perder. Maldito trunfo que saiu a destempo. Maldita manilha que comeu o valete. Malditos caroços por onde se contabilizava as azeitonas que o freguês tinha engolido. Bendito marçano que vinha à casa das freguesas. Era o rol das compras que se pagavam ao fim do mês. Olhem, venham comigo e naveguemos pelo passado. Aqui é a mercearia do Alípio. Vende de tudo e até farinha “Amparo”, que é o amparo dos velhotes. A caixa verde com um idoso de respeitável barba branca e longa plasmado no pacote, convida a provar. Registem, aqui é talho do Aires, com a carne vermelha e apetecível exposta em ganchos que se vêm da rua. Aqui ao lado, olhem lá para dentro. É a Tabacaria Celeste da Dona Rosa. Observem quantos jornais, quantas revistas, quantos brinquedos.  Aqui, é um Café. Aquele homem que está ali debruçado sobre um tabuleiro a jogar as “damas” é o Silva. Também joga “xadrez” e faz “cheque-mate” ao cliente que, enfadado, espera por meia dúzia de pastéis de nata. E, nesta esquina, é o Café “Abrigo”. Aquele homem de tez roxa como a túnica de Cristo é o Domingos. Ganha a vida a engraxar os outros. A graxa abundante não lhe chegou para subir na vida. Mas, para os índios, a solidariedade nunca foi palavra vã e o Domingos lá vai escovando o seu triste fado. Agora, espreitem ali - é a barbearia. Faz “caldinhos” e penteados de “risco ao lado”. E se o freguês não se precaver, afundam-lhe a cabeça num frasco de brilhantina. Já agora, fiquem a saber que também temos uma esquadra da polícia, naquela rua estreita. Era escusado. Correr atrás de uma bola numa praça não é costume apache. Mas é para nós, crianças felizes, para quem partir um vaso das flores com um chuto monumental para o jardim da vizinha, é um hino acabado ao romantismo.
Quito Pereira            

sábado, 1 de fevereiro de 2020

A FORÇA DO CAPITAL ...






Há dias de azar ...

Todos temos momentos menos bons na vida e o Albino naquele dia não devia ter saído de casa. Professor do Ensino Secundário em Coimbra, aventurou-se a comprar um Renault 5 novo em prestações, fazendo poupanças e sacrifícios. Naquela tarde, algum tempo depois do 25 de Abril de 1974 e em época de fervilhantes confrontos partidários, o  Albino todo orgulhoso com o seu novo carrinho teve o demónio a saltar-lhe ao caminho. Junto ao Estádio Municipal de Coimbra, ao acender um cigarro com o isqueiro enquanto conduzia, teve uma distração momentânea e quando deu por ela tinha o seu amado automóvel novinho em folha e a brilhar abraçado a um poste de iluminação pública com a frente feita num harmónio. Um drama ! Quando o carro foi rebocado para uma pequena garagem ao fundo da Rua dos Combatentes do lado direito e já extinta, o Albino quase caiu de costas de susto com a exorbitância do orçamento da reparação, ainda mais quando só se tinha seguro do automóvel contra terceiros. Por intermédio de um amigo, lá conseguiu um entendimento com o encarregado da oficina - o Senhor Oliveira - para solver o conserto da viatura na medida das suas possibilidades, fazendo entregas de dinheiro acordadas entre ambas as partes até à totalidade do pagamento. Uma situação aflitiva para quem já tinha de encargo as obrigações monetárias do bem adquirido . Porém, assim ficou acordado e o Albino, que na época tinha no MRPP a sua bandeira política, num assomo de dignidade e de impulso revolucionário, levantou o punho esquerdo e disse convicto ao Senhor Oliveira:

- Senhor Oliveira, acredite que vou pagar - lhe o arranjo do meu carro com a força do meu trabalho …

O mecânico ajeitou então os seus velhos óculos graduados pendurados no nariz, assoou o enorme nariz vermelhão com um lenço amarelo e respondeu-lhe encolhendo os ombros:

- De acordo, mas eu cá preferia que o senhor professor que me pagasse com a força do capital …

QP    

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A NOITE DAS ESTRELAS CADENTES ...





Restei eu ...

O local, que de dia se anima com as escolas e o riso das crianças, de noite é ermo. Ermo e escuro. Escuro e sem vida. Dobra - se um portão e, ao fundo de uma ladeira, um edifício com uma entrada larga e um painel grande e bem a propósito da cidade mondeguina. Não fora muitos dos seus utentes já a caminhar pela fronteira da Vida, a Casa de Repouso teria o brilho de um qualquer espaço de lazer. Mas não. Entramos e logo nos deparamos com quem caminha sem destino ou fazendo discursos à toa. Outros dormem e ainda outros, debruçados sobre mesas largas, vão usando lápis de cor nas flores que pintam em folhas brancas que lhes são distribuídas. O regresso à instrução primária. De velho se volta a menino. Também os que, na posse das faculdades, lêem o jornal da cidade e discutem ainda os problemas da sociedade a que pertencem e a quem generosamente deram o seu contributo numa vida activa de muitos anos. Naquela amálgama de afectos, muitas profissões. Gente com formação académica superior e outros nem tanto. Também os que, fechados em si próprios e alheados do que se passa à sua volta, foram nomes conhecidos na cidade coimbrã. A Noite de Consoada é mote para carta de alforria. Os mais afortunados, apoiados pelas pelas suas famílias que os vão buscar, regressam ao seu passado. Outros, ou porque as suas famílias já se extinguiram ou por incapacidade física ou psíquica, ficam a gravitar na órbita do seu desencanto e das memórias. Ontem, à Mesa da Consoada daquela Casa de Repouso, eram catorze. Quinze se contassem comigo que ali estava como familiar. Não queria que o meu residente jantasse sozinho e fiquei. Os outros, com lágrimas,  beijos e abraços sentidos, partiram. Restei eu.

A refeição que se come em silêncio. Apenas o som dos talheres e os funcionários de escala na noite que de forma diligente vão mimando este ou aquele na sua cadeira de rodas de cabeça pendente sobre o prato da sopa. Naquela mesa ali ao lado, alguém que conheci em tempos de outrora e que me diz muito em apreço. Ela, uma grande professora de matemática. E eu, um desorientado aluno na disciplina. Tempos de Liceu que não esqueço, quando recordo de a ver passar de pasta na mão, com o seu belo rosto e passada elegante. Ensinou-me a fazer equações – com esforço. Olho também a Elvira – nome fictício – que não tem casa nem família e deambula pelas mesas invocando o nome de Deus e me premiou com um beijo molhado na face. Limpa a boca com um lenço branco por causa da saliva e vem agradecer a minha presença no jantar, nesta época de emoções na sua pequena comunidade. Sim, naquela noite de estrelas cadentes. Depois da refeição e do bacalhau como prato obrigatório, começaram a levantar-se das mesas e a dirigirem-se aos quartos que a idade já pesa. Então parti. O Eurico, meu homónimo fardado de branco, foi abrir-me a porta da saída e mergulhei na noite fresca e escura. Rolando devagar enquanto guiava, fui observando as luzes da urbe em noite em que a chuva deu tréguas ao Natal. Nova ceia tinha à minha espera e ao abrir a porta de casa, o meu neto correu para mim de braços abertos e abracei -o. Então disse-lhe, que na viagem de regresso ao lar, ainda não tinha avistado o Pai Natal que de certeza virá. E não lhe menti, porque realmente não vi o trenó dourado do Homem das Barbas Brancas riscando os céus da cidade, porque o Bom Ansião existe e existirá sempre na mente das crianças e dos Homens de Boa Vontade. Mas ali, naquele momento e ao meu colo ainda com a chupeta na boca, eu descobri a serenidade emocional de que tanto necessitava naquela noite especial em que encontrei, no sorriso feliz e inocente do Miguel, o meu Menino Jesus.
QP                 

terça-feira, 23 de abril de 2019

O ALBINO BARBEIRO ...





  • Nos anos cinquenta do século passado, deambulavam pelo nosso Bairro algumas figuras muito conhecidas na cidade. Gente simples e carismática, que gozava da simpatia geral dos habitantes do antigo Bairro Marechal Carmona. Hoje, venho lembrar de uma dessas figuras que por este Bairro andou, calcorreando ruas e praças naquela que era a sua profissão - barbeiro. Não possuía estabelecimento que se lhe conhecesse nem emprego por conta de outrem. Era pura e simplesmente barbeiro ao domicílio. De mala na mão, lá ia de porta em porta visitando os clientes habituais, entre ao quais eu me incluía. Os meus cortes de cabelo eram sempre momentos épicos. Criança que era, detestava aquele sacrifício supremo de me sentar num banco de cozinha, enquanto o Albino, para suavizar o meu choro convulsivo, ia relatando jogos de futebol dando uma entoação brasileira à voz, à mistura com o som do matraquear da tesoura e do pente castanho e gasto com que me aparava e alisava o cabelo. Gradualmente, o meu choro transformava-se apenas num soluçar, quando me apercebia que o Albino estava nos procedimentos finais, ou seja, quando de navalha de cabo preto bem apertada na mão e o dedo polegar em riste apontado ao céu, me acertava as patilhas. Ato contínuo, punha - se à minha frente, fletindo as pernas, ficando cara a cara comigo, balançando a cabeça de um lado para o outro como  se fosse um pêndulo - certificava-se se as patilhas estavam à mesma altura. Aquele momento ainda hoje me assusta, ao lembrar aquela cara magra em que se destacava   um nariz afilado e um respeitável bigode negro e, ainda hoje, ao relembrar a sua figura frágil, mais tenho a convicção que aquela magreza pouco tinha a ver com a sua matriz genética, mas com um rosário de dificuldades e privações. E o corte de cabelo terminava sempre numa apoteose de pó de talco derramado em quantidades generosas sobre o meu pescoço e num enorme pincel com que o Albino me limpava os olhos e as orelhas em movimentos frenéticos. Apesar disso, era um homem divertido e reinadio. Vivia numa rua estreita, numa casa humilde junto à Sé Velha, mesmo em frente a uma agência funerária. Dizia por brincadeira que quando abria a janela do quarto de manhã e dava de caras com os caixões, ficava logo “bem disposto”. Em determinada tarde domingueira de verão, montou- se no Choupalinho, junto ao Mondego, um ringue de luta livre. O lutador, que se intitulava de nacionalidade grega, desafiava as cerca de cinco dezenas de basbaques que circundavam a arena para com ele medirem forças, sem que alguém se atrevesse a defrontar tal figura. Atemorizados, todos olhavam com respeito aquela montanha de carne e músculos de aço, até que, vinda de lá de trás uma voz resoluta se perfilou: vou eu !!! Com assombro, todos viram então o Albino dar um pulo felino para uma entrada no ringue em apoteose, colhendo as palmas e o respeito dos circunstantes . Teve azar. Conforme deu o salto, tropeçou numa corda que delimitava o espaço e desabou no recinto, batendo com a cabeça no chão e perdendo os sentidos, que o mesmo é dizer que o corajoso Albino mesmo antes de começar o combate já estava KO. E assim se finou o seu momento de glória, tendo todos percebido sem grande esforço que perante luta tão desigual, aquele incidente mais não era que a antecipação do que certamente ia acontecer - o Albino barbeiro a sair do ringue inanimado… e de charola.
  • Q.P.   

quarta-feira, 20 de março de 2019

PÁSSAROS DO SUL ...






voo adiado ...

É com um sorriso divertido que vou observando da minha varanda privilegiada na praia de Porto de Mós, em Lagos, da tentativa de um sonhador que pretendia elevar nos céus um parapente. O homem, ainda jovem, tinha umas pernas longilíneas e corria pela areia húmida e dura com a elegância e a leveza de uma ave pernalta. Mais fácil seria lançar-se de uma arriba poucos metros ali ao lado, um abismo de respeito. Assim talvez conseguisse os seus intentos e ficasse pendurado no céu azul, entre um cântico de glória ou uma missa de finados. Olhando e degustando um robalo escalado naquele restaurante encravado na falésia, eu intimamente queria que o jovem conseguisse os seus intentos de iludir os Tratados de Física, o grande sonho do Homem que hoje em grandes jatos comerciais cruza continentes e oceanos. Mas ali era uma questão de honra. Contrariar as Leis da Gravidade de um modo mais ou menos artesanal. Porém, a natureza venceu. Uma nova correria pela praia quase deserta e o parapente a ruir como um baralho de cartas. Foi o fim de uma aventura que nem sequer começou. De joelhos no chão e uma cara de desilusão, o pássaro adiado foi recolhendo todo o panal que trouxe depois debaixo do braço e abandonou o areal. O inverno de um dia de praia simpático e soalheiro no inverno do seu descontentamento. Aquele episódio e aquela tentativa de voar trouxe - me à lembrança tempos antigos. No meu armazém de memórias, com surpresa, recordei o Mestre Florival e da noite em que nos balançámos   mar adentro na sua pequena traineira. Apenas um pequeno rádio nos ligava a terra em décadas já tão distantes. Hoje, não sei se teria capacidade para uma madrugada longa ao relento, de me deitar na ré do barco de mãos cruzadas na nuca e um molho grosso e duro de cordas a servir de travesseiro, a olhar as estrelas e a ouvir o marulhar brando do mar a bater no casco da embarcação. Depois o regresso ao cais, quando o sol já subia ainda tímido a linha do horizonte. A juntar ao barulho ritmado do motor a bater lá no fundo da traineira e como cortejo na cauda do pequeno barco, um bando de gaivotas a piar na rota e na cobiça do pescado de Mestre Florival. Aquele voo falhado de um turista acidental, foi para mim um turbilhão de lembranças e de me recordar o voo plano sereno e elegante das inocentes aves na minha primeira e única experiência num modesto barco de pesca, com direito a guarda de honra das simpáticas gaivotas - os meus pássaros do sul.
QP        

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

UM HOMEM SINGULAR ...


  
 
 (foto net)
Um dia apareceu naquela aldeia que foi seu berço. Nunca me tinha visto mas deu-me um abraço. Depois falou-me com o à vontade de quem me conhecia há muito tempo e apresentou-se como repórter de guerra de uma cadeia de televisão francesa. Foi um tu cá tu lá, numa torrente de palavras que parecia não ter fim. Olhei-o cético e curioso, a resguardar-me de um vendedor de banha da cobra. Apenas me apercebi que tinha algum fundo de verdade no que dizia, quando me exibiu um cartão “PRESS” que lhe validava a sua identidade profissional. Tinha todos os condimentos para ser repórter. Era descontraído, descarado e de palavra fácil, como pude constatar no dia em que me levou a reboque numa etapa da Volta a Portugal em Bicicleta que passava em Castelo Branco em direção à meta no Fundão. Atrevidamente, meteu o carro na caravana de apoio aos ciclistas e quando a Brigada de Transito da Volta lhe fez sinal para parar, ele meteu com vigor o braço de fora da janela do carro com o cartão na mão e gritou convicto: “PRESS”. Tal ousadia valeu-nos o continuar na corrida e ele, no meio da caravana, por vezes tirava a cabeça de fora do automóvel e dizia imperativo: Óh Raúl, mexe-me esse traseiro !!! Mas o Raúl Matias não mexeu a bunda e lá chegou ao Fundão no meio do rebanho. Mas o Camilo achou por bem fazer uma visita cortesia ao pelotão, depois da esforçada etapa e, sempre de cartão na mão, lá entrámos nos quartos do “Alambique de Ouro” e … meu Deus, aquilo parecia os destroços de uma batalha, com ciclistas sentados no chão a gemer e outros deitados na cama a levar soro naquele hospital improvisado. Era patético e eu, à custa do descaramento do nosso repórter “francês”, observei o que muitos portugueses nunca viram. O homem de quem vos falo, vive em Paris. Tinha uma singular apetência por saias, o que não é defeito. Era um romântico e apaixonava-se com facilidade e, naquele dia, passeando de bicicleta num jardim de Paris, viu uma bela jovem de ar angelical. Ficou doido com a beleza dela e quase caiu da bicicleta. Ela, sentada num banco, lia atentamente um pequeno livro e ele, pedalando devagar e em círculos à volta do banco, olhava- a embasbacado com tanta formosura. Havia uma diferença de idades razoável entre os dois e tudo parecia condenado ao fracasso, se atentarmos até que ela lançou um olhar reprovador e de enfado ao cavalheiro atrevido. Atrevido sim, ou não fosse ele repórter de guerra, habituado a andar por muitos conflitos no globo e sujeito a uma bala perdida. Mas era corajoso e persistente e, depois de abandonar o parque parisiense, foi para casa e não dormiu. A donzela não lhe saía da cabeça e que fazer senão na tarde seguinte montar de novo na bicicleta e rumar àquele parque de Paris. E como a sorte protege os audazes, ela lá estava. O mesmo banco. A mesma pose. O mesmo livro. O mesmo ar cândido e um cabelo de ouro a escorrer pelos seus ombros frágeis. De novo a bicicleta a rodar em círculos em volta da professora universitária, até que ela baixou o livro e sorriu-lhe com um ar doce e entornou-se o caldo. Dali até se amarem numa velha mansarda da Cidade Luz,  foi um ápice. Fizeram juras de amor. De um amor sincero e arrebatado. Um dia, apresentou - ma em Portugal. Era linda e tinha uma voz meiga. Trazia pela mão os filhos, fruto daquele amor e ele olhava-a feliz e dizia – me embriagado de paixão: ela é o meu anjo. Naquela mulher, encontrou finalmente o seu porto de abrigo sentimental, afinal tão preciso para quem tinha uma profissão perigosa, quando presenciou os ajustes de contas na Roménia de Ceausescu, ou gelou de frio nas estepes da Europa de leste em missões alto risco. Hoje, já não terá idade para aquelas andanças e o que percebo é que o seu futuro já só passa pelos filhos e pela terna cumplicidade e o olhar apaixonado e ardente de Michelle.
Q  P.             

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

MOMENTOS ...





Quando  Cherif Bacisko Susso me revelou a sua música, tropecei em África. Olhei a Kora que dedilhava como se fosse uma harpa. E, de repente, veio - me à lembrança o Baca. O Baca era Homem Grande, quer dizer, ancião de muita sabedoria. Vivia no nosso aquartelamento e era duplo, ou seja, trabalhava para o exército português e para o inimigo. Levava notícias nossas e trazia informações relevantes do antagonista para nossa segurança. E nessa ambiguidade parda vivemos, até ao dia em que deixei aquele aquartelamento para rumar a outro destino na Guiné, mais isolado e ainda mais perigoso. Mas não é de guerra que venho falar. Apenas da circunstância do Baca também tocar Kora. Lembro-me dele, de gorro azul de malha enfiado na cabeça, sentado junto à parede exterior do meu quarto, a produzir aqueles sons africanos de mistério e uma ladainha que parecia não ter fim. Todos estes momentos me passaram pelo pensamento e pela retina, ao ouvir e observar o poeta e cantor de rua. Sentado naquela praça com Cherif junto a mim, dialogámos por momentos. Falou - me do seu berço e de ser filho de pai senegalês e mãe guineense. Veio para Portugal e em Portimão assentou arraiais de armas e bagagens. A música e a Kora são a sua vida. Perguntou-me, com curiosidade, como era vida no norte de Portugal. Depois falou-me da solidariedade entre os músicos de rua e de que sendo o verão a melhor época para amealhar algum dinheiro, praticamente trabalham todo o ano. Pelo que me deu a entender, a fábula da cigarra e da formiga, de trabalhar no verão para ter no inverno, é ficção para o músico de rua algarvio. Perplexo ficou quando lhe disse que tinha estado largos momentos a ouvir a sua arte. Confessou-me que não reparou, para depois me perguntar o que é que eu achava do som da Kora. Falei-lhe não ser a pessoa mais indicada para emitir uma opinião, mas ele disse-me que o som ainda não era totalmente do seu agrado. Que exigia ainda mais afinação. Percebe-se que Bacisko Susso é amante da sua profissão. Faz gala disso. Não dedilha as cordas apenas para que as moedas tilintem no estojo do instrumento. Ele exige de si próprio um trabalho sério, mesmo que pouco reconhecido por veraneantes de verão à procura de praia, de marisco e da pele bronzeada para fazer inveja ao vizinho lá da terra ou ao colega do escritório. Mas ficou a promessa porque me pediu, que da próxima vez eu ouvisse a Kora com atenção, para ver se eu notava alguma melhoria nos seus acordes. Fizemos esse pacto, com a certeza do meu analfabetismo musical. De mim, Basisko Susso apenas tem a vantagem inglória de eu não gostar de praia, de não comer marisco, de me estar nas tintas para o bronzeado do meu vizinho do lado e de que há muito dei um pontapé nas resmas de papel do escritório.

Q.P.                         

Koras Africanas.

* * *




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

SONS DE ÁFRICA ...




 Kora ...

Gil Eanes é nome de navegador. Mas é também nome de esplanada e café com mais de meio século de história. Fica ali, no coração da cidade, mesmo junto à estátua do “Desejado”. Naquele espaço, cruzam-se destinos. Os de cá, com a pressa da labuta diária pela vida. Os outros, os forasteiros, que se passeiam calmamente no arrastar indolente das férias de verão. E foi ali, na esplanada do Gil Eanes, que de novo encontrei sentado num banco corrido de madeira o tocador de kora. É um homem novo e elegante no seu porte esguio e dedos ágeis. Tem umas feições corretas e veste de negro, afinal também a cor da sua pele. Nota - se nele o cuidado do aprimorar o seu trajar e a dignidade que ostenta naquele palco de todos os dias que é a rua. Os melodiosos acordes do seu instrumento africano enchem a praça. Também, a espaços, a sua voz quente e envolvente. Tão envolvente como a brisa morna que dança agora sobre a copa dos palmeirais. É a aragem do barlavento algarvio, a associar-se à arte do tocador. Fecho os olhos e deixo - me embalar pelos ritmos de África. Lembro o meu tempo africano mas, estranhamente, não é pelo recordar do meu passado de guerra, nem pelo assumir do medo e das angústias daqueles tempos cinzentos que me deixo envolver. É pela outra África. A África dos aromas. A África dos sabores. A África dos mistérios. A África dos poentes cor de rubi. A África das gentes. Pelos dedos de Cherif Bacisko Susso e da sua música intimista, subo à colina do meu contentamento. Uma simbiose de fascínio com a terna harmonia dos horizontes de fogo e um qualquer Deus amado pelos povos daquele continente tão perto e tão distante, que só quem demandou terras de África é capaz de entender. Oiço em respeitoso silêncio aquele virtuoso artista da vida e dos sons quentes africanos, e olho com complacência os basbaques que, de mãos nos bolsos, olham desinteressados e voltam as costas no seu analfabetismo presunçoso a quem traz até eles a sabedoria das raízes africanas expressa em notas musicais.


A tarde vai longa e o sol escondeu-se para lá dos telhados. Já se vai sentindo em crescendo a frescura da noite. Levanto-me então e abeiro-me dele. Agradeço-lhe aquele momento de magia africana e ele sorriu de agrado. No estojo daquele instrumento tão singular que me provocou tão arrebatados sentimentos e lembranças, depositei algumas moedas em louvor da sua arte. E, de coração cheio, parti.

QP.     

sábado, 22 de setembro de 2018

A DAMA E O VIOLINO ...





 (foto net)
É um estrondo de som e de luz o entardecer na cidade. Potentes colunas sonoras debitam música em grande gritaria dentro dos pequenos bares, onde eles e elas falam e bebem em grande alvoroço e algazarra. Cá fora, reclames de néon dão cor festiva à rua estreita semeada de restaurantes. Mesas cheias de turistas, maioritariamente estrangeiros. Da barafunda e anarquia dos bares, à serenidade das esplanadas de rua em hora de jantar. Gente elegante e bronzeada pelo sol – alguns e algumas - falam em surdina, naquele ato de degustação a céu aberto. Ouve-se o tilintar dos copos no cruzar de brindes calorosos, e os empregados de camisa branca e calça preta afivelam um sorriso de circunstância. Percorrem as mesas, passeando as bandejas do contentamento dos estimados clientes e fazendo uma vénia quando a gorjeta é gorda.

É neste palco de contrastes, aqui e ali, junto às esquinas da boa comida e do lazer, que ela pousa o velho estojo do violino no chão. Abre a tampa com a delicadeza de quem cumpre uma exigência protocolar. Depois, ao ritmo calmo da sua frágil figura e de uma cara magra de muitas privações, vai tocando uma valsa. É uma valsa triste. O seu corpo de vento veste umas calças sujas e uma blusa encardida de largo decote, que revela um pescoço de muitas rugas e de décadas de vida. Surpreendente é que ela não toca. Faz que acaricia as cordas, mas os seus dedos pequenos estão quase inertes. Percebe-se então que é um minúsculo gravador escondido num trapo escuro do seu vestuário, que debita a música que ninguém ouve. No chão, a seus pés, um recipiente de lata onde este ou aquele veraneante mais condoído com a desgraça alheia, deposita um moeda de um euro que, juntamente com algumas outras, dão para enganar o estômago com uma frugal refeição, a tentar o milagre diário de sobreviver. São os acordes distorcidos e roufenhos de uma valsa negra.

Q.P.