quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A FISGA...


"Um gajo sem uma fisga não era ninguém... Fazia parte! Era como que o prolongamento do braço. Construíamo-las e preservávamo-las como o maior tesouro à face da terra. Levávamo-las connosco mesmo que fôssemos a um casamento.. Serviam para caçar, para torneios de tiro ao alvo, e, porque não dizê-lo, como arma dissuasora de defesa pessoal.                                      Mas o processo era penoso para quem não tinha nada. Era preciso antes de mais, arranjar uma forquilha, que tinha de ser de madeira leve mas dura, (oliveira era excelente) ter a forma de V, e ser perfeita em termos de equilíbrio dos dois galhos. Havia tipos (betinhos) que gostavam de deixar um terceiro galho, formando um ípsilon, o que na minha opinião, era ridículo.                                                                                                                      Depois passávamos semanas a manusear a forquilha, cortando mais uma lasca aqui, retirando mais uma pele ali, à espera de arranjar os restantes acessórios. Ela ia ficando com um aspecto “velho” e polido. A malta não gostava muito de exibir fisgas com aspecto recente. Dava uma imagem de novato no grupo, e isso não era bom.                                                                                         Seguia-se o cabedal, que era nem mais nem menos, que um rectângulo de pele de vaca, restos de sapatos que encontrávamos nos vários locais de reciclagem natural, que havia espalhados pela aldeia. Esse pedaço tinha de ser retirado de um sítio especial do sapato, uma língua por cima do peito do pé, para ser flexível, e o mais fino possível.                                                                     Por fim, faltavam os elásticos, que eram o mais difícil de conseguir. Alguns passavam horas à porta do ti Zé Carvalho, mecânico de bicicletas, à espera que ele por fim, lhes atirasse um pedaço de câmara de ar estragada. Na altura, as melhores eram encarnadas, mas o progresso, preocupou-se muito pouco com as nossas necessidades, e começou a fazê-las pretas, que eram muito mais duras e difíceis de esticar.                                                                                  Quem tinha conhecimentos no hospital, ou num laboratório, sempre conseguia o supra sumo dos elásticos, que eram os tubos amarelos que aí se usavam para diversas coisas, que vai vale desconhecermos. Com esses, um tipo era considerado um autêntico "rei da fisga" e invejado pelo resto do maralhal." in Memórias & Inspirações

JOSÉ PASSSEIRO

Sem comentários:

Enviar um comentário