quarta-feira, 10 de junho de 2020

A MINHA GENTE DE ANTANHO...

A minha gente de antanho

Mal a vaca mugiu na “loje” o ti Zé, voltou-se para a outra borda da enxerga, onde ficaria de bom grado, não fosse a sua Isabel ter dado um “pintcho” da cama, tirado o “morrão” da torcida do candeeiro que ateou “levezinho” com um dos quarenta fósforos da caixinha pequenina de quatro tostões. “ Ai mãe, só já restam tão poqueninos”, resmungara.
A vaca mugira de novo... Então, o Ti Zé espreguiçou-se, vestiu as ceroulas do dia, calçou as meias grossas de algodão que tinham levado um novo calcanhar, enfiou as calças de pana negra, calçou as botas da semana. Foi até ao lavatório do corredor e lavou a cara com sabonete Madeiras de Oriente, “patchinando” de água tudo em volta. Secou-se na toalha e voltou ao quarto. Enfiou o camisolão, embora já remendado ainda era bem quentinho, deu uma penteadela no cabelo e por ali demoraria se a Mourisca não mostrasse o seu desagrado pela demora.
Foi até à cozinha, onde a Ti Isabel já tinha limpado a cinza, picado o grosso tição meio ardido e juntado um braçado de carqueja que crepitava em chama viva. Enquanto lhe arrimava a cafeteira de esmalte azul pintalgado de branco, para fazer aquele cafèzinho de cevada que perfumava a casa inteira pela manhã, o Ti Zé pegou no copo e no caldeiro e foi acudir à Mourisca. Pôs-lhe uma “faxa” de feno na manjedoura, achegou-lhe o vitelo e não tardou a ordenha.
Quando montou as escaleiras, já abria o lusco-fusco.
A Ti Isabel, que viera esmagar a vianda na pocilga, abrira a cortelha ao marrano e a porta da capoeira às galinhas, montara acima com um braçadinho de toras, e foi acabar de fazer o café com acrescento de uma brasa chamejante, para que assentasse as borras lá para o fundo. Pusera as malgas na mesinha, coberta da toalhinha de linho, aproveitada de um velho e gasto lençol, já descosido e invertido pelo meio, mas que deixara o fundo bem resistente para levar uma bainha e servir de toalha.
Quando o seu homem arribou com o leite, pôs um tachinho sobre a trempe com um “poquenino” e levou-o a cozer. Entretanto, “esnocou” um codorno de pão e migou-o em pedacitos para a malga. Juntou-lhes uma colherzinha de açúcar amarelo, o leite e uns “goles” de café. Tirou da gaveta, o naco de toucinho cozido que sobrara do dia anterior, o queijo já em meia cura e ainda perguntou se haveria de estrelar um ovo...
Acabada a refeição, o ti Zé foi picar mais umas giestas e ajeitar uns “fieitos” para a cama da vaca e do bezerro.
Já o sol passara sobre a Xalma, quando veio o Ti Pepe: “Atão, vamos matar o “bitcho”?
O Ti Zé apanhou a samarra e de “carava” lá foi até à taverna do Ti Zé dos Pilos. Como não era muito dado a aguardente, pediu um copo de meio quartilho de vinho, resmungando, pois este já tinha sido bem “baptizado”! Na mesa ao lado estavam os guardas fiscais que tinham pedido umas farinheiras assadas ao lume, para acrescentar ao mata-bicho, pois tinham estado a noite inteira de plantão. Era a hora do Ti Zé e do Ti Pepe, porem as chancas a caminho da candonga. Saiu um deles primeiro, como se o outro não tivesse interesse em abalar “tão listo” e foi metendo conversa e pagando uma rodada, mais umas febritas assadas, umas lascas de bacalhau assado... para que se mantivessem por ali mais tempo. Então veio chamá-lo a catraia mais nova do Ti Pepe, que a mulher precisava de ajuda. O sinal estava dado. O Ti Zé fingiu cambalear para enganar quem por ali estava e acompanhou a cachopita. Mal se apanhou no Largo do Enxido, “óh!, pernas para que vos quero”, desatou a andar ligeiro, apanhou o carrego e ala que eles lá vão.

Georgina Ferro

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