Os dedos dormentes ...
Calma, tenham todos muita calma! O preclaro dono desta
espécie de jornal de caserna, não precisa de estar já de lápis azul na mão,
para omitir o que não interessa. Assumo que não vou cortar nada daquilo que as
mentes mais perversas podem estar a pensar.
Mas porque será que a bonita cidade
das Caldas da Rainha, há - de ter um anátema tão pesado em cima?! Olhem, sem
querer ofender ninguém, se Vossas Senhorias soubessem muito de História de
Portugal, lembravam-se logo da Rainha Dona Leonor, em vez de pensar qual seria
o tamanho do menhir que eu traria aqui à estampa.
Tudo mentira. Do que vos venho aqui falar é do Varela, do
Neiva, do Ambrósio e de outros artistas de pista, que habitavam o Quartel das Caldas da
Rainha.
Um dia, para lá entrei, com meia dúzia de tostões num bolso
cosido por dentro do casaco, por causa da gatunagem de caserna.
Desconfiado,
levei um cadeado para fechar o armário, mas cometi um erro elementar: deixei a
espingarda no armeiro e roubaram-me os pernes que a articulavam.
Resultado: quando lhe peguei, o canhão derramou-se pelo chão como
um baralho de cartas. De rabo para o ar, andei a apanhar a coronha, o cano e
aquele mecanismo complexo, de que também fazia parte o gatilho.
Sem o querer, fiz-me larápio de meia - tijela à força.
Roubando pernes aqui e ali, reconstruí o fuzil que, milagre dos milagres, até
funcionava.
Funcionava tão bem, que ao primeiro tiro para um alvo, na
carreira de tiro da Tornada, deu um
“coice” tamanho, que recuei três passos mesmo sem ter vontade e fiquei com um
ombro todo dorido. O balázio, em vez de acertar no alvo, subiu em flecha pelos
ares, ao que parece sem consequências.
Já não me bastava o martírio de andar a puxar pelas botas que
pesavam como chumbo, ainda tinha que aturar um tal Varela, que mandava na
Companhia e que falava “axim”. O homem gostava de continências e exigia que lhe
fizéssemos a saudação militar mesmo fora do Quartel.
Dizia:
- Na xidade, todo o mancebo tem que me fazer continência,
mesmo que eu vá com a minha bixicleta. A bicicleta era a mulher.
Se eu fosse a contabilizar as continências que fiz ao Tenente,
estava rico. Até já tinha um calo na testa e os dedos dormentes, de tanta
saudação à moda de feijão - verde.
Na pista de exercícios, tínhamos que aturar o Ambrósio.
Vaidoso como um pavão, gabava-se do corpo musculado e um dia, ao exemplificar o
exercício que tinha uma certa componente de risco, saltou de uma plataforma de
três metros de altura, para um poste que tinha uma espécie de galho, onde ele
segurava as mãos peludas. Teve azar. Falhou o salto desejado e veio de cabeça a
pique, em movimento uniformemente acelerado, até esbarrar no chão com estrondo
e inanimado.
Grande reboliço nas hostes e o Ambrósio a ser levado para
Lisboa em estado grave. A Companhia, que simpatizava pouco com ele ou mesmo
nada, em vez de ficar pesarosa, foi para a caserna e dobrou-se a rir, só de
pensar na imagem do militar deitado na cama de um hospital, com a cabeça
envolta em ligaduras como um queijo - amanteigado da Serra da Estrela e uma
perna em gesso pendurada numa roldana com um peso na ponta. Vingança de
mancebos.
Como se já não bastasse, ainda havia o Neiva. Era furriel nortenho e
tinha uma linguagem de catequese, como está bom de ver. Um dia, sendo o almoço
batatas com espinhas de peixe, tudo tão seco como as lixas que se vendiam na
loja de ferragens do Alírio Costa, a rapaziada queixou-se que o saboroso pitéu
não tinha molho.
Chamámos o Neiva e protestámos. O sargentão miliciano
calou-se, pegou na terrina, foi a uma torneira e encheu - a com água e ficou
tudo a boiar. Pregou com a baixela no centro da mesa e disse na maior das
calmas:
- Reclamação atendida, agora já tem molho …
Ficámos a fixá-lo com um olhar de cólera e o Mimoso, que era
do Porto e tinha um feitio nada mimoso, rosnou entre dentes a sentença:
- Quando apanhar lá fora este chavelhudo, em Santa Catarina
ou ao pé dos Clérigos, rebento-lhe com o focinho e mato o gajo...
Se o Mimoso o matou, nunca cheguei a saber. Mas não me consta
que a fotografia do Neiva, tenha aparecido na página de necrologia do “Comércio
do Porto”.
Quito Pereira