quarta-feira, 26 de abril de 2017

UM TAL PIMENTEL ...





 Não me calem as memórias ...
Hoje tenho que saudar Abril. Hoje tenho que saudar a felicidade de não ver os meus filhos partir para a guerra. Porque eu parti para a guerra.    

Trago ainda comigo as chagas de tempos proscritos. Não amordacem a alma dos que viajaram para um horizonte incerto. Não passem uma esponja por cima da dor e do sofrimento, como quem limpa de um quadro negro da escola, uma frase incómoda ou desadequada. 

Nós, os que sofremos na carne a guerra crua, exigimos que nos respeitem. Somos passado. Mas também somos presente.


Não me calem as memórias. Porque Abril é presente mas também é passado. O passado que Abril livre me permite recordar em letras disfarçadas de palavras, sem ter ninguém a meter o nariz no meu atormentado pensamento. A esventrar a intimidade do meu sentir. A devassar os meus ideais sonhadores.


Naquele dia de Páscoa, nas margens de um rio  Corubal largo e tranquilamente sinistro, um simples tiro deu origem a um bombardeamento violento. Nós, na margem poente, não tínhamos aquele potencial de fogo que vinha da outra margem. A coberto de uma mata cerrada e deitados no chão, conseguimos confundir o inimigo impiedoso.


Para mim, aquele era o dia do Juízo Final. Pensei que a minha existência terminara ali, naquele fim de mundo de árvores frondosas, abelhas em fúria e capim. Naquela Guiné de mil perigos e mil mistérios.


Os soldados, os que acreditavam na Proteção Divina, erguiam as mãos aos céus pedindo a Graça de continuar a viver. Das transmissões móveis, pedimos aviões em lancinante grito de socorro. E foi do Céu que chegou o milagre, cerca de trinta minutos depois que pareceram séculos.


Uma formação de dois caças Fiat, troaram por cima de nós. O comandante daquela pequena esquadrilha de aviões identificou-se pela rádio e disse em tom seguro e tranquilo de voz:


- Tenham calma, sou o Major Pimentel e vamos tirar-vos daí …


O bombardeamento sobre o inimigo foi pesado. 

Deitados, sentíamos o chão a saltar, como se fosse um tremor de terra, apesar do inferno ser agora sobre o antagonista . Colunas densas de fumo negro e denso, erguiam-se no céu em espiral, resultantes da vegetação a arder. Depois, quando as bocas de fogo inimigas se calaram, os aviões picaram sobre o local e a rajadas de metralhadora vomitadas dos caças , varreram tudo. Depois, apenas o silêncio. E eles, os nossos salvadores, depois de se certificarem em voos rasantes que a missão estava cumprida, partiram rápido e em silêncio.


Regressámos exaustos e todos, sem feridos nem baixas.


Não sei quem é o Major Pimentel. Hoje, provavelmente, também já pertencerá à geração grisalha. Tal como o piloto do outro caça. Ambos fazem parte da minha tribuna de heróis sem rosto. 

Os dois pilotos, talvez hoje nem tenham consciência de que muitos de nós lhes devemos a vida. Estou – lhes grato. A eles e à Força Aérea. Profundamente grato.


Sempre que celebro Abril, não o faço no calor das ruas. É no meu lar, na minha intimidade e envolto em pensamentos dispersos, que recordo aquele momento de êxtase coletivo. 

Mas, antes desse Abril libertador, antes de um aclamado Salgueiro Maia e muitos outros terem protegido o nosso viver coletivo, já eu tinha alguém que se cruzou comigo e me protegeu debaixo das suas asas, não numa alegoria, mas no rigor das palavras e que me permite ter hoje ao colo o meu irrequieto e amado neto. 

Um anónimo, um tal Pimentel que, naquele dia foi Deus na forma como O queiram interpretar, apesar de na escala da nossa sociedade terrena ser, apenas e só naquela época distante, um distinto Major da Força Aérea Portuguesa. 
Quito Pereira  



13 comentários:

  1. Coragem é sofrer e sobreviver ao medo.
    Todos estes anos passados sobre o 25 de Abril que nos libertou da mordaça do Estado Novo, não esquecerei a espúria definição de coragem que António Barreto, que foi ministro da Agricultura e autor da famosa Lei Barreto e hoje acomodado num confortável e bem remunerado gabinete da Fundação Manuel dos Santos, Senhor do Pingo Doce.
    Disse então o inefável “revolucionário de pacotilha”, vogando na onda oportunista da subita libertação popular, que coragem era a daqueles que, como ele, recusaram combater na guerra colonial, fugindo para a Europa livre.
    Disse ainda que a culpa de a guerra se ter prolongado era dos que, em vez de fugirem como ele, tinham acedido a fazê-la colaborando com Salazar e com os proceres do regime.
    O que ele não disse é que, oriundo de familia da alta burguesia, o tal Barreto se instalou a expensas dos pais endinheirados num caro colégio suiço onde estudou.
    Coisa que a esmagadora maioria de nós não podia fazer.
    E também não disse, porque não sabia, que o 25 de Abril foi paulatinamente gerado na formação de mentalidades e consciências que os milicianos iam incutindo nos soldados, na sua maioria analfabetos e sem compreenderem os motivos da guerra que eram obrigados a fazer.
    Consciências adquiridas no sofrimeto da mata e que enformaram e explodiram em apoio total logo no prióprio dia 25 de Abril de 1974.
    -----
    O esplendido depoimento do Quito Pereira trouxe-me à memória o local onde sofri, naquele belo mas fatidico rio, o mesmo medo que ele tão bem descreve e o desgosto de ali ter visto perecerem para sempre onze dos meus soldados.
    O mesmo medo que me fez apertar o coração noutros locais onde o ruido da metralha, o sangue, o cheiro a polvora nos entravam pelos ouvidos, pelas narinas, pela boca.
    Felizmente que o 25 de Abril que desejávamos chegou e se mantém o seu espirito.
    O mesmo que me permite hoje, sem peias, dizer ao tal Barreto e a muitos outros como ele, que a coragem não se mede no conforto de um exilio dourado...

    Rui Felicio

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    1. Apreciei muito este teu comentário à postagem do Quito.
      É depoimento fabuloso e que devia ser lido por todos aqueles que "foram heróis e condecorados por terem fugido da guerra e portanto desertores"", para viverem em exilios dourados" e deixaram no terreno os seus camaradas, " que por obras valorosas, se foram da lei da morte libertadno, mais que permitia a força humana...."

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    2. Rui, não reparei no teu comentário e só agora é que o li. O texto do Quito é excelente, já o disse e este teu comentário é extraordinário. Fiquei a conhecer melhor o merdas do Barreto. Se ele queria ser herói só tinha que se recusar a fazer o serviço militar, era preso e aguentava na cadeia. Dizer que é herói servindo-se do dinheiro e posição do papá, ninguém de bom senso chama a isso de heroísmo, trata-se, isso sim, de cobardia é oportunismo.
      Obrigado Rui pelo teu comentário.

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  2. Um texto narrativo ao melhor estilo dos que o Quito tem escrito.
    Um tempo de guerra impiedosa que só os que não "fugiram" tiveram que suportar!
    Ainda bem que o tal de Pimentel não foi desses covardes, pois sentiam que da sua acção como militar da força aérea podiam sobreviver muitos dos camaradas que no terreno enfrentavam uma guerra, dificl, cheia de armadilhas e muitas privações!
    Já outros textos o Quito escreveu sobre este tema e em todos eles trespassa este sentimento da dor que é suportar uma guerra em condições de vida ou de morte!
    Mas felizmente esse tormento para muitos teve um fim e o regresso às famílias, o que não aconteceu com os que tombaram na luta e voltaram às também às familias mas sem poderem contar os momentos que por lá passaram. Honremos as suas memórias

    Menina Dos Olhos Tristes
    José Afonso

    exibições22.550
    Menina dos olhos tristes
    o que tanto a faz chorar
    o soldadinho não volta
    do outro lado do mar
    Vamos senhor pensativo
    olhe o cachimbo a apagar
    o soldadinho não volta
    do outro lado do mar
    Senhora de olhos cansados
    porque a fatiga o tear
    o soldadinho não volta
    do outro lado do mar
    Anda bem triste um amigo
    uma carta o fez chorar
    o soldadinho não volta
    do outro lado do mar
    A lua que é viajante
    é que nos pode informar
    o soldadinho já volta
    está mesmo quase a chegar
    Vem numa caixa de pinho
    do outro lado do mar
    desta vez o soldadinho
    nunca mais se faz ao mar
    "

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  3. Meus amigos, estes vossos testemunhos deixam-me em pele de galinha, deixam-me emocionada, deixam-me me com sentimento de gratidão e de admiração!
    Bravos!!!
    Tristeza pelos que secumbiram, feliz pelos que estão entre nós, todos fazendo a nossa História.

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  4. Aqui, também cabe repetir:

    Não se esqueçam o mês de Abril!
    Jamais se esqueçam, que a partir daí se abriu...
    A porta para o "Dia da Liberdade"!
    Jamais se esqueçam daqueles dias de muitos...
    Submetidos a um regime ditatorial,
    Dias que não vos deixaram saudades.
    Apenas lembrem-se de dias assim,
    Como alerta para evitarem tamanha
    ... Crueldade!

    (Eu)

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  5. "CONTINUAÇÂO DO POEMA DE JOSÉ CARLOS ARY DOS SANOS

    Foi então se bem vos lembro
    que sucedeu a vindima
    quando pisámos Setembro
    a verdade veio acima.

    E foi um mosto tão forte
    que sabia tanto a Abril
    que nem o medo da morte
    nos fez voltar ao redil.

    Ali ficámos de pé
    juntos soldados e povo
    para mostrarmos como é
    que se faz um país novo.

    Ali dissemos não passa!
    E a reacção não passou.
    Quem já viveu a desgraça
    odeia a quem desgraçou.

    Foi a força do Outono
    mais forte que a Primavera
    que trouxe os homens sem dono
    de que o povo estava à espera.

    Foi a força dos mineiros
    pescadores e ganhões
    operários e carpinteiros
    empregados dos balcões
    mulheres a dias pedreiros
    reformados sem pensões
    dactilógrafos carteiros
    e outras muitas profissões
    que deu o poder cimeiro
    a quem não queria patrões.

    Desde esse dia em que todos
    nós repartimos o pão
    é que acabaram os bodos
    — cumpriu-se a revolução.

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  6. CONTINUAÇÂO DO POEMA DE ARY DOS SANTOS

    Porém em quintas vivendas
    palácios e palacetes
    os generais com prebendas
    caciques e cacetetes
    os que montavam cavalos
    para caçarem veados
    os que davam dois estalos
    na cara dos empregados
    os que tinham bons amigos
    no consórcio dos sabões
    e coçavam os umbigos
    como quem coça os galões
    os generais subalternos
    que aceitavam os patrões
    os generais inimigos
    os generais garanhões
    teciam teias de aranha
    e eram mais camaleões
    que a lombriga que se amanha
    com os próprios cagalhões.
    Com generais desta apanha
    já não há revoluções.

    Por isso o onze de Março
    foi um baile de Tartufos
    uma alternância de terços
    entre ricaços e bufos.

    E tivemos de pagar
    com o sangue de um soldado
    o preço de já não estar
    Portugal suicidado.

    Fugiram como cobardes
    e para terras de Espanha
    os que faziam alardes
    dos combates em campanha.

    E aqui ficaram de pé
    capitães de pedra e cal
    os homens que na Guiné
    aprenderam Portugal.

    Os tais homens que sentiram
    que um animal racional
    opõe àqueles que o firam
    consciência nacional.

    SEgue e termina...a seguir

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  7. CONTINUAÇÃO

    NÃO TERMINA...
    CONTINUA

    Os tais homens que souberam
    fazer a revolução
    porque na guerra entenderam
    o que era a libertação.

    Os que viram claramente
    e com os cinco sentidos
    morrer tanta tanta gente
    que todos ficaram vivos.

    Os tais homens feitos de aço
    temperado com a tristeza
    que envolveram num abraço
    toda a história portuguesa.

    Essa história tão bonita
    e depois tão maltratada
    por quem herdou a desdita
    da história colonizada.

    Dai ao povo o que é do povo
    pois o mar não tem patrões.
    – Não havia estado novo
    nos poemas de Camões!

    Havia sim a lonjura
    e uma vela desfraldada
    para levar a ternura
    à distância imaginada.

    Foi este lado da história
    que os capitães descobriram
    que ficará na memória
    das naus que de Abril partiram

    das naves que transportaram
    o nosso abraço profundo
    aos povos que agora deram
    novos países ao mundo.

    Por saberem como é
    ficaram de pedra e cal
    capitães que na Guiné
    descobriram Portugal.

    E em sua pátria fizeram
    o que deviam fazer:
    ao seu povo devolveram
    o que o povo tinha a haver:
    Bancos seguros petróleos
    que ficarão a render
    ao invés dos monopólios
    para o trabalho crescer.
    Guindastes portos navios
    e outras coisas para erguer
    antenas centrais e fios
    dum país que vai nascer.

    Mesmo que seja com frio
    é preciso é aquecer
    pensar que somos um rio
    que vai dar onde quiser

    pensar que somos um mar
    que nunca mais tem fronteiras
    e havemos de navegar
    de muitíssimas maneiras.

    No Minho com pés de linho
    no Alentejo com pão
    no Ribatejo com vinho
    na Beira com requeijão


    Continua

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  8. Continuação e FIM

    e trocando agora as voltas
    ao vira da produção
    no Alentejo bolotas
    no Algarve maçapão
    vindimas no Alto Douro
    tomates em Azeitão
    azeite da cor do ouro
    que é verde ao pé do Fundão
    e fica amarelo puro
    nos campos do Baleizão.
    Quando a terra for do povo
    o povo deita-lhe a mão!

    É isto a reforma agrária
    em sua própria expressão:
    a maneira mais primária
    de que nós temos um quinhão
    da semente proletária
    da nossa revolução.

    Quem a fez era soldado
    homem novo capitão
    mas também tinha a seu lado
    muitos homens na prisão.

    De tudo o que Abril abriu
    ainda pouco se disse
    um menino que sorriu
    uma porta que se abrisse
    um fruto que se expandiu
    um pão que se repartisse
    um capitão que seguiu
    o que a história lhe predisse
    e entre vinhas sobredos
    vales socalcos searas
    serras atalhos veredas
    lezírias e praias claras
    um povo que levantava
    sobre um rio de pobreza
    a bandeira em que ondulava
    a sua própria grandeza!
    De tudo o que Abril abriu
    ainda pouco se disse
    e só nos faltava agora
    que este Abril não se cumprisse.
    Só nos faltava que os cães
    viessem ferrar o dente
    na carne dos capitães
    que se arriscaram na frente.

    Na frente de todos nós
    povo soberano e total
    que ao mesmo tempo é a voz
    e o braço de Portugal.

    Ouvi banqueiros fascistas
    agiotas do lazer
    latifundiários machistas
    balofos verbos de encher
    e outras coisas em istas
    que não cabe dizer aqui
    que aos capitães progressistas
    o povo deu o poder!
    E se esse poder um dia
    o quiser roubar alguém
    não fica na burguesia
    volta à barriga da mãe!
    Volta à barriga da terra
    que em boa hora o pariu
    agora ninguém mais cerra
    as portas que Abril abriu!

    F I M

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  9. Olha, eu em Cabinda dirigia um jornal, o Pongo! e do outro lado a partir de Banga estava PEPETELA. Ele fez uma grande romance (Mayombe) e eu tenho para aqui papeis que vocês nem imaginam

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  10. Um texto extraordinário!... Felizmente, livrei-me de tamanho inferno. Em Tavira, mesmo sem saber se seriamos mobilizados para a Guiné, todos os da minha especialidade conheciam de cor o mapa da Guiné e já pensávamos em Gabú, Bafatá e Catió.
    Compreendo que seja impossível esqueceres esses anos ali passados.
    Abraço.

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