sábado, 9 de maio de 2020

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA



A Rosa chegara da eira bem cedinho
Pois vieram os saltimbancos à aldeia 
Embora não gostasse de ver a capeia
Não faltava ao circo ou a um bailinho

Foi encher o cântaro num afogadilho 
Varreu a casa, preparou a chaminé
Puxou  o lume sob a panela tripé
Que mantivera com os carolos do milho

Deitou água na bacia do lavatório
Endireitou bem o espelho para ela
Abriu o sorriso ao ver a imagem dela
Ter cara alegre era mesmo obrigatório

Destrançou o seu cabelo cor de carvão
Encharcou o pente de osso na bacia
E alisou com ele o melhor que podia
As madeixas que ia amparando na mão

Depois traçou o risco muito direitinho
Dividindo metade para cada lado
Que deixou primorosamente entrançado
Com um ágil e habilidoso  jeitinho

E, como qualquer moça ainda solteira
Formou um arco com as tranças, no ciminho,
Que fixou com duas ganchas e um ganchinho
Fez as ondas, à frente,  à sua maneira

Enfeitou-as com duas travessas castanhas
Com pedrinhas, tais diamantes a brilhar,
Ainda,  se foi a mirar e remirar
Mas fazia umas caretas tão estranhas!

Enfiou o vestido novo aos godés
Tinha um tom amarelo, muito clarinho,
Apertou-lhe o fecho lá atrás com jeitinho
E calçou os tamanquinhos novos nos pés

Agarrou o lenço que estava guardado
Passou-o sobre os ombros com galhardia
Lia-se -lhe no rosto tamanha alegria
Sabia que ia conquistar narmorado

 De Georgina Ferro

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