terça-feira, 5 de maio de 2020

O LODO E AS ESTRELAS - Parte 4

PARTE 1
http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-1.html#comment-form
PARTE II
https://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-2_22.html#comment-
form
PARTE III
http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-3_29.html#comment-form




Telmo Ferraz

Naquela comunidade isolada a solidariedade não era palavra vã. O afastamento de tudo, fazia os residentes unirem-se em laços de amizade. Naquele templo de solidão havia uma cidade viva. Trabalhavam as máquinas de dia e de noite. E os “Euclides”, os gigantescos camiões que desciam e subiam as ladeiras ingremes. Naquele cenário grandioso e avassalador, mais pereciam pequenas formigas laboriosas. E enquanto os trabalhos decorriam, a escola dava aulas às crianças. No recreio brincavam, dando um toque de felicidade a uma paisagem agreste. E havia as festas. Eram então contratados conhecidos artistas da época, de que Amália Rodrigues terá sido figura maior. A igreja do padre Telmo trazia o conforto espiritual necessário em terra de crentes. E a piscina com os seus professores de natação a alegria da criançada. Mas, no meio deste carrossel de aventura, havia os outros – os tais – mais aventureiros que vinham à procura do desconhecido e que pagavam no corpo e a angústia da alma o trabalho precário e uma pobreza nos limites. Aqui fica, para terminar, mais dois momentos do livro de Telmo:


ELE E A MANHÃ

Veio antes do sol vir. Abri. Lábios grossos, olhos redondos e um pouco saídos, cabelo desgrenhado. Um manto de gelo nos campos. As árvores amochadas. Filtrado pelos zimbros, o sol começou a despontar. Frio e trémulo o braço estendido.
- Entre.
- Sou plantão duma caserna. Ganho trinta escudos. Tenho mulher e três filhinhos na terra. Não tenho dinheiro para pagar esta receita …
Quando se retirou, fiquei  olhando no lençol de gelo os sinais escuros dos seus passos tímidos.

1O de Janeiro de 1957

MAIS UMA BARRAGEM

O Manuel Nogueira foi para Miranda. Vive na cabana de uma vinha. O António Martins também. Fez uma barraca com quatro paus e umas sacas de papel.
A Companhia fez lá um bairro grande. Encheu-se logo ! Há meses o acampamento começou a levantar. O velho Ford do Laranjeira não tem descanso. Vai e vem. Dentro da cabina, a ninhada: na carroceria, colchões velhos e tábuas afumadas.
O bando vai… eu vou também.
Miranda tem Sé!
Miranda tem castelo !
O bando dominou as ruas!
Os bairros romperam as muralhas !
A fúria do trabalho !
Outra vez o princípio!
Mais uma barragem!

3O de Setembro de 1958

Aqui ficaram mais umas pinceladas do livro de Telmo. A saga das barragens de Portugal. Em nossas casas, no simples gesto de ligar o interruptor da luz, há uma longa história por detrás. Um passado de martírios de centenas de heróis anónimos de um país que é o nosso.
Quito Pereira   
  

5 comentários:

  1. Vidas difíceis que sempre houve e... Continua a haver!

    ResponderEliminar
  2. E assim se completa a leitura do livro de Telmo, que em boa hora o Quito nos proporcionou através de 4 episódios,sobre a construção da barragem de PICOTE.
    OBRIGADO QUITO

    ResponderEliminar
  3. Olá Amigos.
    Faço minhas as palavras da Celeste Maria.
    Gostei de ler a construcão das barragens e voltei a minha meninice tinha uns 12 anos visitei a Barragem do Castelo do Bode fiquei deslombrada...passados anos numa conversa disse que maravilha a Barragem do Castelo do Bode Um homem que na altura tinha uns 50 anos me disse menina é verdade mas lá no fundo está a terra aonde eu cultivava as batatinhas a Esposa disse mas recebeste o dinheiro que compramos outro terreno... mas aquele foi onde eu nasci.
    Um Abraço

    ResponderEliminar
  4. Interessante esse livro. Boa escrita e fácil leitura.

    ResponderEliminar