segunda-feira, 25 de maio de 2020

OS FRESCOS ...


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a sobrevivência vinda do céu ...

Alguns dos que combateram em África, sabem o significado da palavra “frescos”. Sobretudo aqueles que, como eu, estiveram em zonas remotas, na linha de fronteira com o antagonista. Durante uns longos dezoito meses de uma comissão de mais de dois anos, vivi perto de um covil de guerrilheiros e de abelhas assassinas. Por vezes, nessas zonas despovoadas, faltava a comida. Arroz era o prato de luxo para quem não tinha mais nada para digerir.  Então, nesses momentos, avançavam os “frescos”, que mais não era que comida lançada do ar em paraquedas por aviões da Força Aérea. A nossa sobrevivência alimentar tornava-se sempre um reboliço com a chegada dos géneros alimentícios tão necessários. Uma manobra perigosa, que requeria muita atenção pelo peso dos enormes caixotes que batiam no chão com violência, apesar de virem seguros por paraquedas. Com o entusiasmo, os soldados num impulso queriam invadir a zona onde caíam os “frescos”, mas logo eram contrariados pelos seus superiores para que não sucedesse qualquer acidente grave. E, realmente, na nossa Base de Canjadude nunca sucedeu. Em determinado dia, indo de Bissau para o Gabu, aconteceu – me viajar num avião que ia lançar os “frescos”. O paquiderme voador levantou voo, para mais tarde escancarar uma rampa na cauda do aparelho para essa função de lançamento. Por desdita minha, fiquei no último banco lateral a escassos passos do abismo, juntamente com dois paraquedistas que empurravam a mercadoria borda fora. Eles, pelo sim pelo não, iam equipados para a eventualidade de caírem do avião juntamente com a mercadoria. Foram duas longas horas às voltas, abastecendo vários aquartelamentos no mato, com a aeronave por vezes a inclinar-se e eu agarrado ao banco a olhar o abismo, mesmo que preso por um cinto de segurança. Mas tudo correu bem. Foi mais uma experiência na minha vida militar. O hilariante nesta história, foi o dia em que um avião sobrevoou a nossa base para lançar os víveres. Apesar de bem acondicionada, geralmente e com o impacto no chão, nunca sobrava nem um ovo para fazer uma omeleta. Mas naquele dia foi pior, porque os enormes paraquedas e respetiva carga caíram em cima de cerca de cento e cinquenta metros de arame farpado da vedação do aquartelamento que ficou destruída, bem como toda a estrutura de suporte. E ele, o capitão Gil, de punhos cerrados para o ar como se os pilotos o ouvissem num português que me escuso a reproduzir, a dizer furioso mais ou menos isto:

- Imbecis,  já não basta partirem os ovos e ainda me estragam o arame farpado …

É claro que o verbo “estragar”, é apenas um vocábulo demasiado brando para o português vernáculo que foi dito em irritado desespero...
Q.P.   

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