Um aroma Divinal ...
Escura e fria era a noite. O inverno no seu esplendor. Em
movimento lento, o velho carro balançava ao sabor das curvas dos caminhos. Tudo
era silêncio. Apenas a fraca visibilidade dos faróis, dava alguma vida aos
recantos escuros e inertes do povoado.
Nada nem ninguém. Apenas nesta ou
naquela casa modesta, uma luz acesa era pronúncio de gente.
Noite agreste. Muito agreste. Uma chuva miudinha salpica o
vidro do pequeno automóvel e as escovas limpa-vidros, gastas pelo tempo, não me
permitem uma visão clara do percurso.
Sozinho, vou convivendo com a solidão. O meu pensamento
vagueia por longe, como querendo soltar-se das amarras da minha desesperança.
Lentamente, muito lentamente, chego ao meu destino. Uma
cortina negra de xisto e granito, aperta-me por aquela garganta estreita.
Guio
com cuidado. Procuro uma luz que me ilumine, que me leve a um porto de bonança.
Paro no adro da igreja. Aconchego a gola do casaco e saio
para a rua. É um labirinto de vielas, iluminadas por candeeiros mortiços. A
chuva persistente inunda-me o rosto e ali, ali naquela casa, está o meu
destino.
Na porta, do lado de fora, a chave. Entra quem quiser. Entra
quem vier por bem. Entrei.
A sala é escura e, da cozinha rústica, vem um clarão
desmaiado. À lareira, uma idosa, de rosto sereno e enrugado. Absorta nos seus
pensamentos, aquecendo os pés na lareira, onde pontificava uma panela de ferro
preto, a mulher sorvia um caldo de uma malga gasta pelo tempo e pelo uso. Da
panela, subia um aroma prodigioso e Divino de uma sopa substancial, feita com
couves e feijão.
Depois olhou-me e não ficou surpreendida. Conhecia-me e, do
alto dos seus quase noventa anos, sabia que eu ia levar o remédio para as suas
dores e padecimentos.
Por momentos, fixou-se na minha face molhada. Percebeu, sem
esforço, que eu estava gelado do corpo e da alma. Então, em gestos calmos como
que cumpre um ritual, foi ao velho louceiro e procurou uma velha malga. Foi à
panela e retirou uma porção de sopa. E, em silêncio, estendeu-me o caldo fumegante.
Não tive coragem de dizer que não. Nem de negar a cortesia,
como mandam as regras da boa educação.
Sentei-me então junto dela, num tropêço de cortiça, com a
malga da sopa entre os joelhos. Debruçados, saboreámos lado a lado, aquele caldo
de afetos.
Depois, parti. Reconfortado de corpo e da alma. Agora, a
tempestade rugia. Pinheiros e oliveiras, dobravam-se de dor à minha passagem,
dançando ao sabor do vento.
Porém, a noite espessa, tinha agora um rosto mais
brando. Tão brando, como o sorriso da aldeã, com quem tinha compartilhado um
momento mágico de amizade e solidariedade. Os sentimentos simples da gente
simples.
Naquela noite, de regresso ao meu cais de abrigo, no labirinto
dos meus pensamentos, descobri que tinha feito uma trégua breve com a solidão.
Quito Pereira