sexta-feira, 1 de abril de 2011

AS NOITES PARDAS ...

... Canjadude se chamava, aquele local de degredo ...
De novo encalho nas memórias de um rochedo sombrio. Lá do alto, vislumbravam-se alguns quilómetros em redor. E era dali que, com o vaguear da vista, percorríamos o horizonte, à procura dos perigos infinitos. Canjadude se chamava, aquele local de degredo. Eram vinte quilómetros de picada em terra batida, desde a antiga Nova Lamego. Quando a noite descia sobre a Base e cobria tudo de um manto negro, era hora de recolher às valas. Barricados, horas a fio, víamos desfilar a noite. Porque a escuridão, podia ser o início de todos os tormentos. O descampado, estendia-se à frente dos nossos olhos e, mais ao longe, muitas árvores de médio porte. E uma palmeira robusta, a apontar ao céu, a destoar na paisagem. Relembro: “ … ao meu lado está o Furriel Bizarro, de S. João do Campo, pequena povoação perto de Coimbra. A Lusa - Atenas, foi a palavra - talismã, para um estreitar de amizade. Agachados na vala, conversamos em surdina. Porém, a noite amplia os sons, e vamos ouvindo o tagarelar dos outros camaradas de armas. O Bizarro, arrasta com ele um problema de amor. Apaixonou-se. Foi num baile, lá para os lados de Alfarelos. Uns cabelos negros e longos, uns olhos grandes e uma saia rodada, que nas reviravoltas da dança deixava ver a perna bem moldada, puseram-no a invocar os Favores de Cupido. “… A miúda não me sai da cabeça…” – dizia -me. De cócoras, com a cabeça quase ao nível do chão, acende um cigarro com o isqueiro. Ali, todos os cuidados são poucos, e qualquer pequena chama, vista de longe, pode referenciar a nossa posição. E um pequeno erro, pode significar a vida. Estende-se então na vala, de barriga para o ar, travando com prazer o fumo do cigarro. E voltava à carga: “…quando for de férias, tenho que a ir procurar, nem que o diabo tussa …” – dizia-me com férrea convicção. Findo o cigarro, de novo se coloca em posição de observação. Estamos agora ombro a ombro, a vasculhar as esquinas da noite, por entre as luzes mortiças do arame farpado. De repente, diz-me: “…está ali uma coisa a mexer…”. Quase se me seca a garganta, e pergunto: “… onde …? ”… “… porra, Pereira… ali … junto à palmeira ... !!! ”. Franzo o nariz e apuro a vista, mas não vejo nada. De repente, parece que algo se mexe, e digo-lhe, batendo cotovelo contra cotovelo: “ …se calhar tens razão … pode ser um animal bravio … ou os gajos !!!...”. O Bizarro pega então na metralhadora, e diz-me, determinado: “ …vou mandar para lá uma rajada …”. Baixo-lhe o cano da arma, e respondo em jeito de admoestação: “ … ‘tás maluco pá, depois a malta desata num arraial de fogo difícil de controlar…!!! ”. Utilizo então no telefone de campanha, e falo com o Barros, comandante da Companhia. A ordem vem curta e seca: “…nada de tiros. O Baca Embaló, que mande uma única granada de bazuca para o objectivo...”. Minutos depois, o africano está ao pé de nós. Veio de surpresa, com a arma ao ombro, embrulhado no silêncio das trevas. Digo-lhe então, em tom imperativo, com o suor a acudir-me ao queixo, daquela humidade pastosa e febril: “… Baca, atira na direcção da palmeira …” . Pelos “rádios” de campanha, já a Companhia está avisada do tiro de bazuca. O Baca, com um joelho assente no chão, faz então fogo. A bazuca é uma arma mortífera, porque mata por dois lados. Pela frente, e pelo jacto de lume que sai pela retaguarda. Por escassos momentos, ouvimos o sibilar do projéctil. Depois, o som cavo da explosão no destino. Ouve-se o piar espavorido de um pássaro fugidio, a rasgar a noite. Por segundos, ficamos expectantes. Apuramos o ouvido. Ao longe, apenas o eco do rebentamento, que se vai diluindo gradualmente pela planície de todas as angústias. E de novo o silêncio. Quando o Sol desponta para um novo amanhecer, arrastando consigo um manto escarlate, é a descompressão. O regresso ao crepitar da vida. Os horizontes esbatidos, tornam-se agora nítidos. E, no relatório do dia, depois de cuidadoso reconhecimento ao local, apenas a pequena observação de que não se encontraram quaisquer vestígios de guerrilheiros. Era rebate falso. Também se fez menção ao uso de uma granada de bazuca. E de uma palmeira rachada ao meio …” Q.P.

8 comentários:

  1. A bazuca mata para dois lados...
    O cigarro aceso vê-se a Kms de distância...
    Bastaram estas imagens para me sentir na vala ao lado do Quito.
    No silêncio da noite africana, qualquer pequeno ruído punha-nos os sentidos alerta, o corpo retesava-se, as têmporas latejavam, a saliva amargava como fel, a garganta secava, as mãos enclavinhavam-se na arma...
    Antes disso, escutei deliciado a descrição da miúda de Alfarelos, o doce aperto de um coração apaixonado.
    Sentimentos díspares, que se misturavam no omnipresente desejo do regresso e que nos marcaram para sempre.

    Obrigado Quito pela forma perfeita como sabes descrever os sentimentos.

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  2. Mais um episódio de guerra contado pelo Quito que nos transporta em imaginário para estas terras da Guiné!
    Estamos a ver a vala, o Bizarro de barriga pró ar a dar as fumaças e o que lhe passa pela cabeça na lembrança do baile onde se enamorou da moça que tiveste "a ousadia" de imaginar para proveito próprio das pernas bem torneadas do amor do Bizarro!
    Nestas alturas os favores do Cupido são magnânimos!
    E nos sustos dos ruidos essas imagens devem desaparecer e só voltam quando tudo se acalma!
    Imagino eu!

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  3. Comparar esta vossa experiência de vida à minha recruta no Lumiar e resto da tropa em Coimbra...

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  4. Tive o previlégio de fazer a minha tropa na aviação e não participei na guerra em Africa.
    Pelo que leio posso avaliar a marca que deixou para sempre em todos os que lutaram na Guiné, Angola ou Moçambique.
    São vivências que se não esquecem, como se fosse aquela tatuagem que se quer arrancar e que permanecerá para sempre colada à pele...

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  5. Tal como o Abílio, "safei-me" desse pesadelo chamado guerra colonial.
    A experiência que tive com armas limitou-se a uma divertida manhã na carreira de tiro na Ota, onde despejei umas rajadas de G3 e uns cartuchos de Walter.
    Tive muita sorte mas conheço muito bem os malefícios da guerra que tanto castigou a nossa geração.
    Felizmente, neste caso, o inimigo do Quito era apenas uma palmeira e o medo. Sim, medo, porque só os inconscientes não tinham medo. Ou diziam que não tinham...
    Um abraço para o Quito e obrigado por mais este excelente texto.

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  6. E andam uns malucos à bazucada aos pássaros e ainda dizem que a Pensão Portas é pequena!
    Isto digo eu,que de guerra já nem me lembro...
    Lembro-me que,em operações,nunca acendi um cigarro durante a noite.Durante o dia,às vezes,cedia ao vício...
    Um abraço.

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  7. Meu caro,
    Tempos que passaram e não esquecerás,transmitido com a tua escritura.
    Um abraço.

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  8. atuapele nunca acendeu um cigarro durante a noite.
    EM OPERAÇÕES, a minha pele nem de noite nem de dia!
    Juro mesmo.

    A propósito, o nosso 31 está a arribar em grande formatura. Não tarda nada a voltar a ser o 13.
    Um abraço para todos ( dele, 31 ), e , já agora, porque nem custa nada nem imposto paga, mais um abraço deste murcom.

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