domingo, 7 de agosto de 2022

A ESPERANÇA É O QUE CADA UM QUISER...PELO PROFESSOR ANTONONO SILVA

A esperança é o que cada um quiser.


Para grande parte das crianças do ensino público, este mês de junho é a passagem de um estado a outro, com mudanças substanciais. Num determinado dia do mês, deixam o stresse das últimas avaliações e da escola e passam a um estado de, ainda que efémera, beatitude e ledice das chamadas férias grandes. Cada criança vivê-las-á a seu modo, mas é certo que muitas delas vão recuar aos anos de ontem e recuperar hábitos que só em casa dos avós põem em prática.

O Alexandre é um desses felizardos que salta nas esferas do tempo com a mesma facilidade com que a pena se deixa arrastar pelo vento. Desde que começara o terceiro período, o cachopo, à noite, na cama e antes de adormecer, magicava como é que a havia de fazer. Provavelmente precisaria de paus e de arames, mas não podiam ser coisas muito duras de trabalhar. O avô não ia deixá-lo usar a “blancandequer” que tinha pendurada na loja, pois a máquina podia magoá-lo na empresa; por outro lado, os arames tinham de ser bem macios. Lembrou-se de que, uma vez, o avô lhe tinha dito que o arame queimado era bom e se dobrava bem.

Com o projeto calado na mente, cada noite em que observava o teto do quarto ainda pejado com umas estrelas fluorescentes que vinham do tempo de bebé, a sua mente divagava, parecia-lhe que as formas voavam ao redor da cabeceira e que o seu projeto ganhava corpo e dimensão, como num holograma que se lembrava de ter visto num filme do Tom Cruise. 

Mal acabaram as aulas, foi um ver se te avias a escarafunchar a paciência do pai e da mãe para o levarem para a aldeia, para casa dos avós. Só ele sabia a razão de tanta pressa, pois nem os pais nem os avós o sabiam tão afetuoso quanto isso para ter, assim, tanta vontade de os ir ver. E tinham razão: mal saltou do jipe do pai, o Alexandre raspa a cara por cada um dos mais velhos, com um impessoal “olá vó, olá vô”, e correu para trás de casa, em direção ao ribeiro, onde havia um renque de sabugueiros que considerava ideais para o que queria fazer.

Depois do almoço, quando os adultos foram dormir a sesta, lançou mãos à obra: foi à gaveta da cozinha e tirou uma faca, e dos arrumos do avô tirou um alicate corta-arame, uma sovela de sapateiro e um pequeno rolo de arame queimado. Agora sim, a coisa ia dar certo! Correu até à margem da ribeira e cortou umas hastes jovens de sabugueiro que talhou em pequenos troços. Sentou-se à sombra e, pacientemente, foi furando cada pauzinho e inserindo os arames também cortados que, com muito cuidado, dobrava em cada uma das pontas. A obra crescia e, para ele, não havia nada mais perfeito. Com mais um ou dois dias de trabalho, o projeto estaria terminado e, então, chegaria o grande dia.

Foi na manhã de São João que o Alexandre subiu à leira da Barroca. Ele sabia que eles andavam por lá, pois todos os anos era a mesma coisa e não falhavam. Este ano não seria diferente e, pela primeira vez, teria o seu, sem ajuda de nenhum adulto. 

Os seus olhos brilhavam com a felicidade antecipada e nos seus olhos repousava a crença de quem é criança e acredita que o mundo é bom. Nada se faz por mal e tudo se faz porque sim. Nada tinha o sabor do irremediável e o sol que o cobria derramava o ouro sobre algumas ervas secas que ela saberia usar para a sua tarefa. Mas, antes, havia que apanhar uns rebentos de serradela, pois o bicho teria de comer quando tivesse fome.

Escolheu um talo flexível de junça meio seca e puxou as calças para cima. Tinha de se ajoelhar, não havia outro remédio.  Com os cotovelos e os joelhos fincados no chão, procurou o rasto e introduziu a haste de junça no buraco. Repetindo a tradição centenária que tinha aprendido com o avô, começou a cantilena:

     “Gri-gri-gri

     Sai cá fora, c'a tua mãe 'tá aqui

     C'uma faca d'algodão

     Que te cheg'ó coração-”

E vai por aí fora, repetindo, até que saiu do buraco o mais belo grilo trovador, que ele, imediatamente, meteu na gaiola e o qual, nessas férias grandes, seria o seu maior amigo nas noites de verão em casa dos avós.

Antonino Silva

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ANIVERSÁRIO-TONINHO RAMOS

ANTÓNIO AUGUSTO O. RODRIGES RAMOS
 

05-08-1944

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!

terça-feira, 2 de agosto de 2022

ANIVERSÁRIO ROSINHA REIS

ROSA REIS PINTO

02-08-1946

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!
 

sexta-feira, 29 de julho de 2022

MAS É VERDADE, PORQUÊ? Pelo Professor Antonino Silva

 

MAS...É VERDADE, PORQUÊ?

É curioso como, na linguagem humana, um dos pilares essenciais que a erigem é a suposição de verdade daquilo que se diz ou que se escuta. Já imaginaram quão estranho seria se, para cada asserção proferida, tivéssemos de aferir tudo com critérios de verdade ou mentira? No mínimo, seria desgastante e, na maior parte dos casos, os atos discursivos perderiam toda a eficácia.

Pensemos nas conversas em família, nos momentos pedagógicos, nas transações quotidianas. Por exemplo, quando fôssemos ao café, o empregado teria de aferir se o nosso pedido seria verdade ou não; por nossa vez, quando perguntássemos o preço, poderíamos duvidar se seria ou não mesmo aquele valor. “São 80 cêntimos” – diz o homem. “Tem a certeza?“ – perguntamos nós, enquanto nos questionamos se ele está a falar verdade ou mentira. Felizmente, repito, não é assim que a verdade funciona e, se não é assim, convém esclarecer como é. 

 Há duas maneiras de configurarmos o conceito de verdade. Há aquela verdade que é demonstrada, porque é necessária, e existe a verdade baseada na presunção da mesma a partir da autoridade. Como exemplo do primeiro tipo de verdade, temos a verdade matemática. O que garante as verdades em matemática é a demonstração. As verdades são fundamentadas em demonstrações e são verdades necessárias, são algo que está dentro da própria declaração de verdade e nós tiramo-la lá. Obviamente, haverá estruturas axiomáticas que suportam esta demonstração das verdades. Veja-se o teorema de Pitágoras. Vai ser eternamente verdadeiro na base axiomática em que foi construído e pode ser demonstrado sempre e em toda a parte.

Já na vida quotidiana, a grande maioria das verdades que nós temos é baseada no critério da autoridade. Nós acreditamos em algo porque uma autoridade (a mãe, um professor, um livro) o disse um dia. Na realidade, delegamos em outrem o dever de ter verificado a verdade e, por isso, confiamos. Começamos cedo: começamos com o pai e a mãe, com os professores... Neste modelo baseado na(s) autoridade(s), algo é verdade porque alguém diz que é. 

 O que não poderá haver é duas verdades, ou melhor, não pode haver verdades alternativas. As mentes é que configuram modelos que tornam verdade aquilo que o não é. Nos dias de hoje, é uma crueldade verificarmos que as supostas autoridades são também exemplos de transmissão de mentiras, manipulando, distorcendo e apresentando pseudociência. Basta ver a comunicação social tão distinta sobre a guerra, as supostas verdades das religiões, as experiências científicas que não o são ou não provam nada. Tudo isto frutifica porque somos propensos a aceitar o que vemos, lemos e ouvimos como sendo verdades e pouco mais fazemos do que aceitar. Quem primeiro nos chegar é que assenta arraiais no nosso entendimento e assim ficamos.

 Nós próprios, agentes educativos, exigimos que nos seja atribuído esse crédito da verdade, apoiando-nos também nos manuais, na investigação e nas aprendizagens que fizemos a montante. Se os alunos duvidassem, recusando, de cada uma das asserções feitas pelos professores em sala de aula, não seria possível ensinar nem aprender, porque, acreditem, aquilo de novo que o professor transmite, em termos de conteúdos, é muito próximo de nada, de um zero redondo. Dito de outra forma, os conteúdos programáticos que são lecionados durante um ano, são a repetição daquilo que outrem disse e nós passaremos aos alunos. Quase tudo é verdade baseada em autoridades e só uma margem muito pequena é adição do professor. Não falamos aqui, obviamente, das competências a desenvolver, pois aí outro galo canta e a qualidade pode revelar-se.

 Voltando à asserção da verdade no ato pedagógico, a pequena margem que nos afasta do zero absoluto é o fator dinâmico do conhecimento, da criação do saber. E não duvidem de que hoje se asseveram verdades que há 100 anos não o eram, porque alguém, um dia, se desviou da aceitação cega daquilo que lhe disseram. Aprender com duvidar é, muitas vezes, teimar na desconfiança e permite questionar as verdades feitas. Assim se vai mudando o paradigma e a ciência. De hoje para amanhã parece pouco ou nada, mas, olhando para séculos atrás, mudamos de uma verdade que afirmava que a terra era plana para uma outra que afirma que ela é redonda. E na medicina? O que seria se não se tivesse aprendido com duvidar? Neste campo não é preciso olhar para séculos pretéritos; basta olhar para a década recente. São tratamentos que se provam ineficazes, são patologias que, afinal têm outras causas que não as inicialmente diagnosticadas, enfim, é um rol de inovações e avanços que ocorrem, só porque alguém resolveu colocar em causa a verdade das autoridades.

 Por todas estas razões, considero que o papel de quem educa é, obviamente, veicular saberes e técnicas para criar competências; contudo, é necessário temperar cada verdade com um pouco do sal da dúvida, para que os alunos aprendam a questionar, progredindo, desenvolvendo espírito crítico e tomando nas mãos as sementes daquilo que nos faz humanos: aprender duvidando.

 

Junho de 2022

Antonino Silva

quinta-feira, 28 de julho de 2022

NOTÍCIA TRISTE

FALECEU

JORGE MANUEL  MORATO

(Praça de Ceuta-Bairro Norton de Matos)

O seu corpo encontra-se na Capela Mortuária da Igreja de São José(Nova) a partir das 17 horas de hoje dia 28.

Sexta Feira dia 29 de Julho pelas 11H30 será celebrada missa de Corpo Presente seguida de funeral para o Crematório Municipal de Coimbra-Taveiro

Encontro de Gerações envia a toda a Família 

os mais sentidos pêsames!
 

ANIVERSÁRIO - TERESA BELO SOARES

TERESA BELO SOARES

28-07-1944

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!
 

domingo, 24 de julho de 2022

ANIVERSÁRI- ANA MARGARIDA PINTO

ANA MARGARIDA PINTO

            ANAGUI

24-07-1950

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITOS PARABÉNS!

PARABÉNS!
 

ANIVERSÁRIO - ZECA NEVES

MARIA JOSÉ NEVES

24-07-1943

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações"  deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!
 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

COIMBRA- FONTE DOA AMORES - TEXTO DE RUI FELÍCIO

A FONTE DOS AMORES

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo o doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito;

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.


Camões, Os Lusíadas, Canto III

 

A história trágica dos amores de Pedro e Inês de Castro, quase sete séculos depois, continua a povoar o imaginário popular, entrelaçando lenda com factos reais. Não só em Portugal como no mundo inteiro.

William Shakespeare, mais de 250 anos depois, ficcionou e escreveu o drama dos amores de Romeu e Julieta, baseando-se num conto italiano.

Os de Pedro e Inês, porém, são uma realidade histórica, que o povo emoldurou com alguns enredos imaginários, esbatendo a trama política que conduziu ao assassínio e preferindo destacar a ignomínia de D. Afonso, em contraponto ao profundo amor do seu filho pela bela Inês.

A Fonte dos Amores ainda hoje preservada num idílico recanto da Quinta das Lágrimas, na margem esquerda do rio Mondego e a dois passos do antigo Paço de Santa Clara, é visita quase obrigatória do roteiro turístico de quem passa por Coimbra.

Diz a lenda que o tom avermelhado que tinge a água do regato, provém do sangue jorrado do peito de D. Inês após o seu assassinato.

Todos sabemos que essa cor sanguínea é reflectida de uma rara espécie de algas que ali têm subsistido ao longo dos séculos, mas a tragédia, quando junto à fonte nos quedamos e nela meditamos, tolda-nos a razão e preferimos acreditar na lenda.

Arrepia estar naquele local e recordar o caso único da coroação póstuma, perante toda a Corte, daquela que só foi Rainha de Portugal depois de morta.

O romantismo de Coimbra vem de longe...


Rui Felício