sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
REVISTA DE IMPRENSA - COIMBRA DIÁRIO DAS BEIRAS-SUGERIDO POR PAULO MOURA
quinta-feira, 4 de janeiro de 2024
REVISTA DE IMPRENSA - DIÁRIO DE COIMBRA - ENTREVISTA DO PRESIDENTE DO CNM - JOÃO RAFAEL NOVA POSTAGEM
sábado, 3 de setembro de 2022
«Salatinas» - Artigo de Rafael Vieira e fotografias de Mário Canelas para a revista digital Coimbra Coolectiva
Por que é que devíamos todos saber quem são os salatinas de Coimbra
«Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
(…)
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas».
Excerto de poema de Ruy Belo
A Alta de Coimbra já foi outra, teve outros quarteirões, outras casas e ruas. Num impulso de rápida modernização, o Estado Novo pôs em marcha o plano para uma nova cidade universitária, o que implicou o derrube de casas, colégios e igrejas, a demolição de quarteirões inteiros a partir de Abril de 1943, obrigando à saída forçada de centenas de famílias, um historial de desenraizamento que importa contar, a história dos salatinas.
Ladeira do Castelo, actual Calçada Martim de Freitas
Os salatinas eram aqueles nascidos na Alta, sem distinção, comenta Ricardo Figueiredo, nascido na Alta em 1936. Alguns dos descendentes de salatinas reclamam também para si o nome. Eduardo Albuquerque, um dos historiadores responsáveis pela Cooperativa Rebobinar, esclarece que era um termo que servia para designar os habitantes da Alta, surgido «da bravura da gente de Coimbra que ajudou D. Afonso IV na Batalha do Salado (1340)».
Apontam-se outras origens do nome, umas mais remotas do que outras e fala-se também dos chibatas, que seriam os oponentes dos salatinas. Acima da Sé Velha ficava o Bairro Alto, Latino ou salatino; abaixo o bairro chibata, que incluiria o Arrabalde, a Baixa. O Quebra Costas servia de fronteira, local de despique e batalhas entre os dois grupos. A etimologia e até os limites da Alta são fluídos, juntam-se ainda os futricas e as tricanas, os termos não são definitivos, diluíram-se com os anos; sobrou o nome de salatinas para celebrar a população deslocada da Alta.
Construíram-se bairros para alojar estas famílias, o de Celas, o da Fonte do Castanheiro e o Marechal Carmona, que se viria a chamar de Norton de Matos, entre outros, construídos apressadamente e sem grande esmero qualitativo. Construídos em 1946, em zonas ermas afastadas da cidade, Celas e Fonte do Castanheiro permanecem como os bairros sociais mais antigos de Coimbra, neles ecoam tradições e memórias da última geração de salatinas e seus descendentes.
Memórias de Salatinas
Maria de Lurdes Dias, a quem todos tratam por Milu, recebe-nos na Associação de Moradores do Bairro de Celas (AMBC), da qual é tesoureira. Nasceu há 86 anos na Rua dos Militares, na Velha Alta, ao lado do Hospital dos Lázaros. «Eu era telefonista, tinha centenas de números na cabeça, mas a memória já não é o que era», desculpa-se, apesar dos detalhes de que se recorda, que acompanham a sua vivacidade.
«Foi no tempo de Salazar. Ele entendeu que devia fazer a cidade universitária naquele sítio e, quando este Bairro [de Celas] ficou concluído, puseram uma camioneta à frente da casa das pessoas [na Alta] e fizeram um ultimato. Isto aqui era um deserto, o caminho era em terra, quando chovia era só lama, ouviam-se apenas os passarinhos. Formou-se aqui uma grande família, toda a gente se ajudava».
Os salatinas recriaram a sua Alta no Bairro de Celas: o centro do bairro recebeu a estátua de São João Evangelista, que coroava o topo do Colégio dos Lóios, situado diante da Sé Nova e que albergava o Governo Civil à época das demolições. Baptizaram as ruas com nomes de ruas desaparecidas da Alta: Borralho, Cozinhas, Marco da Feira, Forno, Castelo. Duas ruas cometem a proeza de se duplicarem: a Rua Larga e a dos Estudos existem tanto na Alta como no Bairro de Celas. Do Hospital dos Lázaros, que se localizava onde está agora o Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, salvou-se um portão, colocado no muro do IPO. Nele pode ler-se, desenhado a ferro forjado: «Hospitaes da Universidade». Objectos salvos dos escombros e toponímia para reconstituir uma vida perdida, um pequeno mundo circular de cem pequenas casas geminadas, com o Largo de São João como centro.
Milu continua: «Foi muito triste virmos para aqui. Muitas pessoas morreram com saudades, houve um senhor que se matou com desgosto, o Senhor Colaço. O meu tio Eurico ficou muito doente, sempre que ia [à Alta] chorava, um dia até desmaiou. Tenho muitas saudades da Alta, vivi lá pouco tempo, mas era muito bonita. Quando era miúda corria tudo a pé, quando ia para a escola da Boa Vista (ao lado da Casa da Escrita), era muito cabrita». E recorda-se de personagens coloridas do imaginário coimbrão, do Formiga, da Ana da Venda, do João Lambufa, «sempre bêbado, que a protegia».
Ricardo Figueiredo viveu no Bairro de Celas até 1962, do qual conta: «Bons tempos. Reproduzia-se a vivência da Alta. Já nos conhecíamos». Da Alta, recorda-se «do companheirismo, num mundo tão diverso. [Davam-se] filhos de uma sociedade com níveis muito diferentes, que se encontravam na rua, na escola pública, na catequese, no Largo da Feira [dos Estudantes], no Jardim do Leão». O Leão a que se refere é o monumento a Camões, muito importante no ideário salatina. Monumento nómada, estava originalmente colocado num largo em frente da Porta Férrea, repousou décadas ao lado do Instituto Justiça e Paz e foi colocado finalmente na Manutenção.
Para os Bairros de Celas e Fonte do Castanheiro foram os salatinas de menores posses. Já para o Norton de Matos foram, conta Milu, «aqueles que tinham empregos melhores, ou cursos, enfermeiros, escriturários, etc.», já que a renda era o dobro da praticada nos restantes bairros, o que se reflectia também nos equipamentos e na infraestrutura.
Fernando Ribeiro, presidente da AMBC – Associação de Moradores do Bairro de Celas, que também nasceu na Alta, conta: «Este bairro tem tradições com tendência a acabar, como a Feira dos Lázaros, que era uma tradição da Alta transportada para aqui; também as Fogueiras (de São João). As visitas que iam ver os doentes no Hospital dos Lázaros compravam brinquedos e lambarices nas bancas que estavam cá fora e levavam aos doentes. A tradição [da Feira dos Lázaros] continuou na Alta, mas aqui este ano não aconteceu. Disseram-me que as pessoas que pertencem ao Grupo Folclórico [que organiza a Feira] já têm uma certa idade, que dá muito trabalho. Se a AMBC tiver ideias de fazer Fogueiras é preciso licenças para o som. Como o Bairro de Celas foi circundado de unidades hospitalares, fazer aqui barulho levanta problemas. Isto desanima as pessoas, tudo tem tendência a acabar. Os salatinas estão a ir embora, ainda há uns dias faleceu uma senhora. Estamos a desaparecer».
Milu percorre com o olhar uma galeria de fotografias que preenche a parede da Associação: «Estas caras vieram todas para aqui. Primos e tios. Eu sou a última geração da Alta, quando eu morrer vai-se tudo».
Filhos da Alta
No Bairro da Fonte do Castanheiro, com quase uma centena de casas aninhadas na encosta do Vale da Arregaça, resta apenas uma salatina. Fernando Coelho, Presidente da Associação de Moradores do Bairro, não se considera salatina, porque não morou na Alta, nasceu já no Bairro. Para ele, a «vida no bairro era uma vida solidária, completamente diferente daquilo que temos hoje, mais individualista. Se uns faziam broa, iam levar a broa aquele e àquela. Havia essa entreajuda, porta aberta, característica de uma aldeia. Tudo mudou. As pessoas que estão agora no bairro já não têm nada a ver com os desalojados da Alta».
Na Rua das Fogueiras faziam-se as Fogueiras, reminiscências da Alta. «Isto era um ermo», continua Fernando Coelho, «não tínhamos acesso a nada. Íamos para a escola na Rua dos Combatentes, tínhamos transporte apenas [em frente ao Colégio de] São Teotónio, tínhamos que ir a pé».
Se muitos salatinas escaparam às dificuldades monetárias e lograram sair destes bairros, noutros, as questões sociais ecoam após uma primeira e segunda geração, fazendo reviver assimetrias económicas bem vincadas na Alta antes da sua destruição.
Fragmentos
Nádia Duarte concluiu o curso de Arquitectura no Brasil, prosseguiu os estudos ao ingressar no Mestrado de Design e Multimédia na Universidade de Coimbra e interessou-se por documentar os salatinas do Bairro de Celas. «Surgiu essa curiosidade: e se as pessoas [desalojadas da Alta] ainda estão por aí? Nunca ninguém as ouviu, são setenta anos calados, é muito tempo». Nádia registou depoimentos de salatinas, alguns já entretanto desaparecidos, «emocionavam-se, porque muitos casos foram traumáticos, o deixar a casa da Alta, as memórias. Na sua inocência, comparavam o que têm agora, com aquilo que tinham na Alta».
Nádia doou a sua interessante recolha documental, «Fragmentos», à Associação Tarrafo. Nela, adivinham-se sensibilidades profundas em relação à perda de um chão e à usurpação da identidade de lugar. Na mesma altura, o designer Joaquim Borges materializou a Alta de Coimbra pré-1942, aliando a recriação material à recolha imaterial de Nádia [ver marcador em cima].
O Bairro de Celas despertou diversos outros interesses, como o de Sara Silva, que desenhou as casas do Bairro, o que originou uma exposição e um projecto de livro para colorir, que não avançou por indisponibilidade financeira da Câmara Municipal de Coimbra. «[Os moradores] receberam-nos com entusiasmo, como se fossemos família».
Canção do barbeiro
Tiago Rodrigues Martins é professor de música e o Presidente da Associação Artística e Cultural Salatina, não muito distante da Fonte do Castanheiro. Criada em 2016 por um grupo de pessoas que se juntava na extinta Escola de Música da Fundação Inatel, esta é uma associação para pessoas adultas.
Na altura da escolha de um nome para a associação, Tiago conta que «achámos interessante os salatinas, porque, metaforicamente, está relacionado com o aparecimento da nossa associação. O povo salatina é um povo que foi obrigado a sair do local onde estava, o nosso surgimento deve-se um pouco a sair do sítio onde estávamos. Depois, a nossa actividade rainha: a música. Na sua génese, o povo salatina tem raízes culturais fortíssimas; foi naquele local da Alta que existiu a primeira “escola de música” de Coimbra. Os senhores barbeiros da Alta, quando não cortavam cabelo, tocavam guitarra portuguesa. Eram locais sociais, tal como agora os cafés, e quando as tesouras não trabalhavam, ouvia-se uma guitarra a tocar. E claro, um som de uma guitarra a tocar, alguém está a ouvir, e se está a ouvir está a aprender. Davam-se ali aulas de forma informal, estava a existir música. A associação vive dessa actividade rainha, que é a música».
É uma continuidade musical que representa e dignifica a tradição musical salatina, além de que membros da direcção são salatinas e há grande proximidade entre a associação e a comunidade do Vale da Arregaça.
Pierre Marie recorda também o papel do Centro de Recreio Popular do Bairro de Celas, então com o nome de Centro de Trabalhadores de Celas, como um «palco bastante importante nos anos 80 e 90, no desenvolvimento do rock em Coimbra». Mais um nó a desatar da relevância musical destes bairros.
Continuidades e sugestões
Fernando Coelho acha que «a vivência na Alta coimbrã devia ser salvaguardada. Numa fase inicial, havendo material, seria interessante enveredar por uma exposição».
Já para Nádia Duarte, seria «um sonho para mim se outros estudantes pudessem pegar [na recolha de testemunhos], fazer um laboratório disso, usar a infraestrutura do cinema. Também porque é um trabalho urgente, porque as pessoas estão a desaparecer. Seria interessante reunir biblioteca de livros relacionados, seria um bom apanhado histórico, devia haver uma exibição permanente, pelo menos. Na época eu queria continuar com o documentário. Havia pessoas que estavam a favor da mudança. Era uma ditadura, às vezes não dava para perceber se as pessoas eram a favor ou contra, estavam formatadas para se conter».
Para Filipe Sampaio, «a preservação da tradição da cidade e da Alta, passa pelo transmitir conhecimento e abrir esse mesmo caminho para que este não se perca. Para mim, ser salatina é um orgulho, tenho pena e algum ressentimento por viver numa cidade que parece esquecer os seus habitantes, e que dá mais valor aos que passam por cá três ou cinco anos, e que na sua maioria nem sequer cá ficam ou voltam a visitar. Os que cá estão têm saudade dos que já partiram, sejam tempos ou pessoas. Eu tenho saudades dos meus amigos, familiares e tradições que cada vez mais se ignoram, há muita coisa que poderia ser feita para manter a memória dos salatinas, a sua cultura e tradição, mas poucos são os que estão interessados nisso. A CMC tinha a obrigação de manter viva essa chama, ao incentivar convívios, espectáculos, exposições, entre outros eventos e iniciativas, mas parece evidente que não há nem haverá no futuro próximo qualquer tipo de interesse nisso».
Artigo de Rafael Vieira
Fotografias de Mário Canelas - livro «Coimbra Através dos Tempos»
para a revista digital
quinta-feira, 23 de dezembro de 2021
REVISTA DE IMPRENSA DIÁRIO DE COIMBRA .NATAL EM COLMAR
Artigo publicado em 20/12/21 no DIARIO DE COIMBRA. Sonho de Natal em Colmar, contado na minha cidade natal.
terça-feira, 23 de junho de 2020
REVISTA DE IMPRENSA - JORNALDE SÃO PAULO-BRASIL.
Sugerido pelo amigo Jorge Castro,que escreveu....
Porque gostamos de Portugal, com todos os seus incontáveis defeitos e virtudes, tiques, manias e idiossincrasias, medos imensos e coragens desmesuradas, partilho, hoje, convosco, um texto divulgado pela Associação 25 de Abril e da autoria de Ruth Manus, advogada e professora universitária brasileira que escreve num Jornal de S. Paulo (Brasil) e no Observador (Lisboa).
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TEXTO
«Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas:
Ingratidão e pessimismo.
Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui - embora me pareça que muitos nem percebam.
Não estou dizendo que Portugal seja perfeito.
Nenhum lugar é.
Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém.
Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente.
Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.
Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses.
Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém.
Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata.
Os ingleses aprenderiam tudo do zero.
Bacalhau e pastel de nata ?
Não.
Estamos falando de muito mais.
Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.
Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam.
Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima.
Saber que o porco é alentejano, que o vinho do Porto é do Douro.
Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.
O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses.
A história da quinta do avô, as origens transmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó.
O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos.
E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.
O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afeto que têm os portugueses.
De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem.
O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político.
Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal .
Os portugueses - de direita ou de esquerda - não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.
Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos.
Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.
Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de abril para celebrar.
Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia.
Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.
Todo idioma deveria conter afeto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal transporta .
Gosto de ser chamada de “ miúda“.
Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de “ putos “.
Gosto do uso constante de diminutivos.
Gosto de ouvir ” magoei-te ? ” quando alguém pisa no meu pé.
Gosto do uso das palavras de forma doce.
O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses, embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse seu país do que costumam ter.
Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las.
A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.
O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe.
Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos.
Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece.
Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.
Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.» (fim de citação)
Vamos, então, digo eu, tentar conservar esta maneira única de estar no mundo e na vida, não por razões turísticas mas por nós mesmos, que tanto o merecemos, pela nossa causa, pela nossa cultura. Sejamos, pois, alegre e confiadamente, Portugueses.
segunda-feira, 9 de março de 2020
REVISTA DE IMPRENSA- CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS- FOTOGRAFIA
sábado, 17 de agosto de 2019
REVISTA DE IMPRENSA-JORNAL "O PÚBLICO" "HÁ 50 ANOS, O BOBBYZÉ QUERIA IR À AMÉRICA"!!!
O português que se “vingou” por não ter ido a Woodstock
Magda Cruz (Texto)
Marco António
15 de Agosto de 2019, 13:08
Corria o ano de 1969, um ano particularmente conturbado na história dos Estados Unidos da América. Os americanos estavam envolvidos numa guerra no Vietname, o povo mostrava-se contra o conflito armado e, com forma de contestar, forma-se um cartaz de música com notas pacíficas. Assim, nasce o festival Woodstock, que para muitos é hoje é o mais icónico festival de música de sempre.
Do outro lado do oceano estava José Oliveira a pedir o passaporte de urgência. Queria ir a Woodstock. “A música faz parte do meu ADN”, conta José ao podcast Histórias de Portugal. Agora, José vive em França, mas nos anos 60 era a partir de Coimbra que acompanhava a música americana – apesar de o pai não apoiar uma vida assente nessa arte. “Nunca precisei da Califórnia para ser um beach boy”, brinca José, em conversa com Brian Wilson, dos Beach Boys . Quando era novo, José guiava até à Figueira da Foz e Mira para passar o Verão e faltava às aulas para “ir ver as francesas”, num acto muito rock’n’roll. Por isso, o português ficou estupefacto por saber que Brian, com uma casa em Malibu, mesmo em cima da praia, não metia os pés a areia há mais de dez anos.
Esta é apenas uma das passagens da vida de José que ficou marcada pela música. Olhamos para essa juventude para perceber melhor a história de quando este conimbricense se cruza com Woodstock. Quando tinha 17 anos, o Verão era um ritual e a guitarra ia sempre com José – mesmo não tendo banda. Nessa época sagrada, a viola era-lhe indispensável. Chegaram a metê-lo no Conservatório, mas “o rock’n’roll e as miúdas não podiam esperar”. Tal como cantava o vocalista dos Doors, Jim Morrison, José queria o mundo e queria-o já.
A notícia de que ia acontecer um “megafestival” chegou a Portugal - e aos ouvidos de José – 15 dias antes da abertura de Woodstock. Estamos, portanto, em julho de 1969. José tinha 21 anos e o chamamento do rock não podia ser ignorado. Havia que atravessar o Atlântico. Correu para o Palácio da Justiça, para tirar o passaporte, mesmo sem saber que bandas iam tocar. Foi-lhe dito que devido à guerra no Ultramar não era possível sair do país e com a idade de José era estranho não ter sido chamado para o exército. Semanas depois, chega uma carta para que se apresente nas Caldas da Rainha. Em vez de sair pronto para seguir viagem até Nova Iorque, acaba destacado para serviço militar em Luzo, no leste de Angola. A missão tinha passado de “engatar” turistas francesas para impedir “a invasão do inimigo, das pessoas que metiam lá minas.” Isto em 1971. Woodstock já lá ia – ou será que não?
No ano seguinte, 1972, chega uma circular: “Quem tocasse um instrumento devia se apresentar no hotel Luso para um verdadeiro casting”. O hotel era, naquela altura, requisitado pelos oficiais e foi então que José Oliveira mostrou aquilo de que era capaz. “Contrataram-me para viola ritmo de um conjunto”, conjunto esse de que ficou encarregado de formar. Ao fim-de-semana, o grupo voltava ao Hotel Luzo e tocava para os oficiais. A banda tocava também em clubes da cidade e, depois de uma viagem de avião, davam concertos na selva, “para militares isolados no mato”. José conta ao podcast Histórias de Portugal: “No momento de escolher o nome do grupo, vinguei-me.” O nome da banda? Woodstock. Não foi ao festival, o festival foi até ele.
A ida à primeira edição de Woodstock, o festival, já não podia ser salva. A pergunta a fazer agora é a mesma que tinha Marco António, autor do Histórias de Portugal: o que soube José sobre o festival americano? As notícias demoravam a chegar, “então Portugal, havíamos de ser os últimos a ser informados”, ri-se José. Tudo o que José sabia sobre música fora-lhe ensinado pelo programa Em Órbita, da Rádio Clube Português, um programa que, diz José, não se limitava a passar as músicas, formava os ouvintes para conhecer a história dos grupos. Não foi a partir deste programa predilecto de José que soube das vivências em Woodstock, esse foi o papel de algumas publicações francesas: “O que me chegou foi que aquilo era um movimento pacifista, que lutava contra a violência, contra a guerra do Vietname.”
“Era como se lá estivéssemos”
Em Woodstock não tocaram apenas bandas conhecidas. José recorda-se de um guitarrista cujo nome, hoje, não passa ao lado de ninguém: Jimi Hendrix. De calças de ganga à boca-de-sino, lenço rosa à volta da cabeça e com as franjas da camisola a abanar enquanto da sua guitarra eléctrica branca saía o hino americano, diante de quase meio milhão de pessoas, estava Jimi. Purple haze ficou “cristalizada” na memória de muitos festivaleiros. Ao recordar isso, José conta o que disse aos amigos, quase de um fôlego: “Não fomos lá, mas era como se lá estivéssemos. Então nós em Mira, já andávamos com as francesas, tínhamos amor livre. Não precisávamos de Woodstock.” A banda que formam enquanto destacados em Angola era na onda do festival: de contestação.
É também nas revistas francesas que José vê as imagens do festival: “A primeira imagem que vi foi aquela capa do disco, daquele casal embrulhado no cobertor, e aquela malta toda no chão – essa foi uma imagem que nos tocou muito.” A presença de uma multidão em Woodstock explica-se rápido: a organização do festival viu que tanta gente queria entrar que anunciou que o festival passaria a ser grátis. Nos dias 15 e 18 de Agosto, o recinto da quinta de cerca de 240 hectares (o suficiente para mais de quatro mil campos de futebol) seria aproveitado para “três dias de paz e música”.
José estava ainda em Portugal enquanto se fazia história: “Foi a partir daí, de Woodstock e do festival de Altamont [Altamont Speedway Free Festival, 1969] que a indústria, o rock, mudou.” Estes dois festivais “abriram as portas para o hard rock”. José, um dos membros da então banda homónima do festival “fora de série” que era Woodstock, relata que as editoras se aperceberam da "mina de ouro" que estava nos outros estilos de música, géneros por explorar.
Em breve as editoras de músicas trariam cá para fora os discos. “Eu tinha de os adquirir.” José não ficou a “ruminar” no facto de ter sido impedido de ir ao festival. Já se tinha vingado ao baptizar a banda diante dos militares, mas a “vingança” não ficava por aí. “A partir do momento em que comecei a ter os discos na mão – o Mad Dogs & Englishmen, de Joe Cocker; o da Janis Joplin – outro sonho começou a desenvolver-se na minha cabeça, em que disse: tenho de me aproximar destes gajos. Esta vai ser outra vez a minha vingança em relação à minha malta amiga.” Enquanto essa malta tocava, incluindo o irmão, José “era o gajo que transportava os amplificadores, não curtia da mesma maneira.” Era a sua vez de se destacar. Como Marco António, autor do Histórias de Portugal, diz no episódio, “Passou a curtir de outra [maneira] – até melhor, talvez. Sem o estrelato, mas sempre perto do estrelato.”
O que fez José? É preciso ouvir o episódio do podcast Histórias de Portugal - de Saudade e Outras Coisas:
No ano em que se celebra os 50 anos de Woodstock, não haverá festival. A edição histórica que contava com um cartaz de estrelas – e que tinha também a presença de músicos que actuaram no primeiro Woodstock - foi cancelada. Isto, no início deste mês, cerca de duas semanas antes da data do festival.
podcast Histórias de Portugal
Artigo de Magda Cruz e Marco António na Ípsilon
Entrevista em audio
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
REVISTA DE IMPRENSA - DIÁRIO DE COIMBRA SOBRE BAIRRO NORTON DE MATOS
NOTA do Diário de Coimbra sobre a reprtagem" ESPECIAL" BAIRRO NORTON DE MATOS
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