quinta-feira, 30 de novembro de 2017

LEMBRANÇAS ...

Aqui se cozeu o pão da sobrevivência em tempos remotos. Também as tijeladas, em dias de festa na aldeia. Agora tudo morreu. Já só resta o silêncio. E as grilhetas que nos acorrentam às lembranças. O passado esfumou-se no trote do cavalgar dos dias e o futuro também partiu. Restará apenas a esperança, que um dia debaixo dos escombros deste velho forno de lenha, sobreviva um pedaço de história que não deixe perecer os costumes e as memórias de um povo.
Quito Pereira. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ANIVERSÁRIO DA IDA A LUA-Reposição de 21 de Julho de 2010 -Texto de RUI FELÍCIO


 Era domingo.Durante todo o dia a rádio ia noticiando a chegada do homem à Lua… A célebre frase do astronauta afirmando que o passo que acabara de dar em solo lunar era um passo de gigante para a humanidade, era escutada repetidamente nos pequenos transístores que nos mantinham ligados ao mundo.


Claro que não havia televisão na Guiné e, mesmo que houvesse, jamais seria vista em Samba Cumbera, pequena tabanca onde a luz nos era fornecida através de garrafas de cerveja cheias de petróleo, nas quais se embebiam torcidas de desperdício que, depois de acesas, nos enchiam os pulmões de fuligem e fumo.

Mas nos confins da mata, longe de toda a civilização, a importante notícia precisava de ser partilhada e divulgada... Os soldados se encarregariam de o fazer à sua maneira, junto das bajudas.Por mim, preferia meditar sobre o assunto, silenciosamente... Afinal os nossos avós jamais imaginariam que alguma vez o homem pudesse chegar à Lua, apesar de Júlio Verne, o visionário do século anterior, já o ter previsto…

E, longe das mais modernas evoluções da ciência e da tecnologia, os naturais da Guiné que nasciam e morriam na sua aldeia da selva sem nunca sairem do pequeno perímetro onde viviam, muito menos sonhariam com essa utópica possibilidade de o homem chegar à Lua.

Como muitas vezes fazia, depois de jantar, sentei-me numa cadeira de fula, onde descansava semi deitado, olhando o céu, nessa noite muito limpo e estrelado…Bem alto, a luz branca da lua, em quarto crescente, derramava-se pela orla da floresta e pelos cones de capim dos telhados das tabancas, desenhando sombras fantasmagóricas pelo terreno limpo do centro da aldeia.

E mantive-me assim deitado, o olhar fixo na lua, tentando perscrutar o mais pequeno sinal da presença do homem que eu sabia estar ali vagueando, em qualquer lugar do Mar das Tempestades…

Não sei quanto tempo assim me mantive, absorto, atento e quieto… Despertei e voltei à realidade com a voz do meu simpático amigo Samba, Chefe da Tabanca de Samba Cumbera, que me perguntava se podia sentar-se a meu lado, para o qual arrastara uma cadeira semelhante à minha…

Era um homem de grande cultura árabe, que conhecia muito da história do islamismo, que sabia com um estranho rigor a exacta direcção de Meca, que lia e escrevia árabe, que conhecia em pormenor toda a história dos Fulas e da razão de ser da sua permanência na terra da Guiné… Para onde, dizia, foram empurrados em sucessivas lutas tribais com os seus rivais Mandingas…

As nossas conversas eram normalmente muito agradáveis e, posso dizer, sempre aprendi mais com ele do que ele comigo…Temos a tendência e o preconceito de avaliar os outros, pelos nossos parâmetros e pela nossa cultura, catalogando-os de bárbaros e analfabetos só porque não têm o conhecimento e a instrução, medidos pelos nossos padrões.

Aprendi que no meio daquela gente, existiam homens com conhecimento mais vasto e aprofundado que muitos dos nossos soldados… O Samba era um deles…Perguntou-me porque estava tão pensativo e quieto… Respondi-lhe que aquela noite era muito especial para o mundo, porque estava se passando algo que nunca antes tinha acontecido…

Franziu o rosto, comentando que, pelo meu ar, não devia ser coisa boa… Sorri, dizendo-lhe que era exactamente o contrário…E, embora sabendo de antemão a resposta, perguntei-lhe apenas como forma de iniciar a revelação do que estava acontecendo:
- Sabes que neste preciso momento um homem como nós caminha na lua que está ali em cima diante dos nossos olhos?

A reacção foi inesperada e contrária a tudo o que eu teria imaginado:
- Alfero! Não é um homem como nós, não! É o profeta Maomé que, juntamente com Alá dali nos vigia a todos, para nos proteger, nos ensinar o caminho justo e para nos castigar quando dele nos desviamos…

E prosseguiu:
- Como é possivel que homem grande e instruído como o Alfero, só hoje soubesse isso? Não entendo mesmo!...

Pensei durante uns segundos se devia argumentar, puxar dos meus galões de homem civilizado, e demonstrar-lhe a minha suposta superioridade, provando-lhe que não era nada daquilo que ele dizia. Desisti de o fazer…

Afinal, ambos nos estávamos alimentando de sonhos… e, cada um à sua maneira, sentíamo-nos felizes pela beleza insubstituível de um luar africano em noite calma e límpída…Independentemente de quem lá estava caminhando naquele momento…

Rui Felício,
Ex-Alferes Mil Inf,
3º Gr Comb
CCAÇ 2405
(Dulombi, Guiné, 1968/70)

P.S. - Passados dias, com a chegada de um jornal de Lisboa, mostrei-lhe as fotografias do astronauta pisando a Lua. E, então expliquei-lhe o que realmente se tinha passado naquela noite… Pelo seu ar meio trocista, ainda hoje não sei se o convenci… Mas como ele também não me convenceu que por lá andavam Alá e o Maomé, ficamos quites, cada um na sua... em paz!

ANIVERSÁRIO

MARIA DO ROSÁRIO OLIVEIRA LOPES DA COSTA

                          MIMI

29-11-1946

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!












segunda-feira, 27 de novembro de 2017

ENCONTRO COM A ARTE - FOTOGRAFIA

    Lajedo do Pai Mateus e Sacas de Lã - PARAÍBA-BRASIL

    Fotos de Alberto Lopes
    (Bétinho do nosso tempo do Bairro, Rua A-residente no Brasil)

Ver mais em:
https://www.tripadvisor.pt/Attraction_Review-g2577795-d4022861-Reviews-Lajedo_de_Pai_Mateus-Cabaceiras_State_of_Paraiba.html#photos;geo=2577795&detail=4022861&ff=252797212&album

domingo, 26 de novembro de 2017

CURIOSIDADES ...FIM DE FÉRIAS...

FIM DE FÉRIAS

Situação: O fim das férias.

Ano 1964:

Depois de passar 15 dias com a família atrelada numa caravana puxada por um Fiat 600 pela costa de Portugal, ou passar esses 15 dias na praia do Castelo do Queijo, terminam as férias. No dia seguinte vai-se trabalhar e os miúdos para as aulas. 
Ano 2017:
Depois de voltar de Cancún de uma viagem com tudo pago, terminam as férias. As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão, seborreia e caganeira.


Situação: Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno.

Ano de 1964
Não se passa
 nada.


Ano 2017: As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão e caganeira.

Situação: O Pedro está a pensar ir até à mata depois das aulas, Assim que entra no colégio mostra uma navalha ao João, com a qual espera poder cortar uns ramos e fazer uma fisga.

Ano 1964:
O professor vê, pergunta-lhe onde se vendem daquelas navalhas, e mostra-lhe a sua, que é mais antiga, mas que também é boa.

Ano 2017: A escola é encerrada, chamam a Polícia Judiciária e levam o Pedro para um reformatório. A SIC e a TVI apresentam os telejornais desde a porta da escola.


Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas.
Ano 1964
Os companheiros animam a luta, puxam por eles, e o Carlos ganha. Apertam as mãos e acabam por ir juntos jogar matrecos.
Ano 2017: A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência escolar. O Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI insiste em colocar uma equipe de reportagem à porta da escola a apresentar o telejornal, mesmo debaixo de chuva.

Situação: O Jaime não pára quieto nas aulas, interrompe e incomoda os colegas.

Ano 1964: Mandam o Jaime falar com o Director, e este dá-lhe uma bronca de todo o tamanho. O Jaime volta à aula, senta-se em silêncio e não interrompe mais.


Ano 201
7:
Administram ao Jaime umas valentes doses de Ritalin. O Jaime parece um zombie. A escola recebe um apoio financeiro por terem um aluno incapacitado.




Situação: O Luis parte o vidro dum carro do bairro dele. O pai caça um cinto e espeta-lhe umas chicotadas com este.

Ano 1964:
O Luis tem mais cuidado da próxima vez. Cresce normalmente, vai à universidade e converte-se num homem de negócios bem-sucedido.

Ano 2017:
Prendem o pai do Luís por maus-tratos a menores. Sem a figura paterna, o Luís junta-se a um gang de rua. Os psicólogos convencem a sua irmã que o pai abusava dela e metem-no na cadeia para sempre. A mãe do Luís começa a namorar com o psicólogo. O programa da Fátima Lopes mantém durante meses o caso em estudo, bem como o Você na TV do Manuel Luís Goucha.


Situação: O Zezinho cai enquanto praticava atletismo, arranha um joelho. A professora encontra-o sentado na berma da pista a chorar  e abraça-o para o consolar.

Ano 1964: Passado pouco tempo, o Zezinho sente-se melhor e continua a correr.

Ano 2017: A professora é acusada de perversão de menores e vai para o desemprego. Confronta-se com 3 anos de prisão. O Zezinho passa 5 anos de terapia em terapia. Os seus pais processam a escola por negligência e a professora por trauma emocional, ganhando ambos os processos.
A professora, no desemprego e cheia de dívidas, suicida-se atirando-se de um prédio. Ao aterrar, cai em cima de um carro, mas antes ainda parte com o corpo uma varanda. O dono do carro e do apartamento processam os familiares da professora por destruição de propriedade. Ganham. A SIC e a TVI produzem um filme baseado neste caso.


Situação: Um menino branco e um menino negro andam à batatada por um ter chamado 'chocolate' ao outro.

Ano 1964:
Depois de uns socos de parte a parte, levantam-se e vai cada um para sua casa.
Amanhã são amigos.

Ano 2017: A TVI envia os seus melhores correspondentes. A SIC prepara uma grande reportagem dessas com investigadores que passaram dias no colégio a averiguar factos. Emitem-se programas documentários sobre jovens problemáticos e ódio racial. A juventude skinhead finge revoltar-se a respeito disto. O governo oferece um apartamento à família do miúdo negro.


Situação: Fazias uma asneira na sala de aula.

Ano 1964:
O professor espetava-te duas valentes lambadas bem merecidas. Ao chegar a casa o teu pai dava-te mais duas porque 'alguma deves ter feito'
Ano 2017:
Fazes uma asneira. O professor pede-te desculpa. O teu pai pede-te
desculpa e compra-te uma Playstation 4.


Enviado por José Afonso




  

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ENCONTRO COM A ARTE - FOTOGRAFIA

   Ponte Pedro/Inês em noite de fogo de artifíco- Festas Rainha Santa-2017
   Foto de Helena Pego Pinto

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

CULTURA - ENRIQUECENDO A LÍNGUA PORTUGUESA

Antes que estraguem por completo a língua portuguesa nada melhor do que recordar um pouco a beleza que ela tem. 
          
                                                                                                                    

       O QUE É UM PALÍNDROMO?

SABE O QUE É UM PALÍNDROMO?
NÃO?!
Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.

Exemplos: OVO, OSSO, RADAR. O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido:

SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.

Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões...

ANOTARAM A DATA DA MARATONA

ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA

A DROGA DA GORDA

A MALA NADA NA LAMA

A TORRE DA DERROTA

LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL

O CÉU SUECO


A  C
ARA RAJADA DA JARARACA


O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR


SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ
 E já agora

E sabe o que é tautologia?

É o termo usado para definir um dos vícios, e erros, mais comuns de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso ' subir para cima ' ou o ' descer para baixo ' . Mas há outros, como pode ver na lista a seguir:
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido

- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes
minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta - de sua livreescolha
- superávit
positivo
- todos foram unânimes
- conviver
junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a
última versão definitiva
-
possivelmente poderá ocorrer
- comparecer
em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo

- a seu critério pessoal pessoal
- exceder em muito .

Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, ' surpresa inesperada ' . Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.
Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.

Gostou?

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DA MULHER QUE POSOU PARA O BUSTO DA "República"

A mulher invulgar que deu o rosto à República


Em 1910, uma jovem de 16 anos serviu de modelo para o Rosto da República ao escultor Simões de Almeida, sempre sob o olhar atento da mãe. Chamava-se Hilda Puga e a sua vida foi plena de aventuras. O Expresso conta-lhe a história de uma mulher invulgar, que sobreviveu a dois cancros, esteve casada dois meses, foi rica mas teve tornar-se costureira para sobreviver e morreu no dia em que celebrou 101 anos

Até 1970, Hilda Puga andava nos bolsos de todos os portugueses. Era dela o rosto das moedas de 5 escudos e de 50 centavos, fruto do serviço patriótico que prestou muitos anos antes, quando a República foi instaurada, em 1910. Ela, que "até era profundamente monárquica, muito católica e reacionária", recorda o neto, Nuno Maia, 50 anos, "aceitou o pedido do escultor Simões de Almeida por amor ao país." Hilda tinha 16 anos, e trabalhava numa camisaria na R. Augusta, na Baixa de Lisboa. Estava a fazer uma entrega quando se cruzou com o escultor, que lhe achou graça e a convidou para ser sua modelo
Como Hilda era menor de idade, Simões de Almeida teve de pedir autorização à mãe dela, que lhe impôs duas condições: a primeira, ela própria teria de estar presente nas sessões - que duraram duas horas, durante um mês; e a segunda era que a filha teria de posar vestida. Foi esta, aliás, a razão que levou Hilda Puga a só falar abertamente deste episódio depois dos 90 anos... É que o busto de Simões de Almeida mostra uma mulher de amplo decote, e Hilda jura "que só tinha desabotoado um botão da camisa..."

Este poderia ser um episódio de relevo na vida de muita gente, mas para Hilda foi apenas um numa vida cheia de aventuras e reviravoltas. Nas primeiras está, por exemplo, uma viagem de barco de meses até ao Amazonas. Nas reviravoltas da vida estão a perda do pai e a passagem de menina rica a costureira. 

DE LISBOA PARA BELÉM DO PARÁ

O pai de Hilda, Tomás Garcia Puga, era um homem abastado, proprietário da fábrica de tijolos da praça de Touros do Campo Pequeno (Lisboa). Apaixonou-se pela empregada, com quem viveu a vida toda e de quem viria a ter cinco filhos – mas o ato de amor custou-lhe o corte de relações com a família de origem, que nunca aceitou uma união tida como "inferior". Um revés nos negócios obrigou Tomás Puga a vender a fábrica. Atraído pelo Eldorado da borracha no Novo Mundo, em finais do século XIX, ruma a Iquitos, na Amazónia peruana, onde ergue um armazém geral. A vida corre bem, tanto que, passados poucos anos, Tomás chama a família toda. Numa longa viagem de mais de três meses, de "vapor, barco e piroga", Hilda, a mãe e os quatro irmãos rumam de Lisboa até Belém do Pará  


Passaram-se três anos felizes na Amazónia, até que Tomás Puga adoece com beriberi, uma avitaminose provocada por deficiência de vitamina B1. O médico dita a sentença: Tomás tem de regressar a um clima temperado, sob pena de morrer. A família Puga embarca de novo, de regresso a Lisboa – mas o chefe de família não aguenta a viagem e morre a bordo, ao largo de Cabo Verde. O funeral é feito no mar. À chegada à Lisboa, sem o sustento da família, esperava-os a miséria.

Foi a educação dos anos de desafogo financeiro, que proporcionou aulas de piano, costura e bordado, que permitiu à mãe e às irmãs Puga sobreviverem. Hilda dedicou-se à costura – nunca deixou de costurar, a vida toda. "Fê-lo diariamente até aos 96 anos", conta o neto - "lençóis, toalhas, fardas de empregada, crochet", e ocupava-se muito em leituras. Mas a vida ainda lhe reservaria outros desafios


Ainda antes dos 30 anos, Hilda teve um primeiro cancro de mama, que o pai do médico Gentil Martins retirou. Na mesma altura, casou-se, com um jornalista – foi a última das irmãs a fazê-lo. Mas também aqui não teve sorte, permanecendo casada escassos dois meses. Arremessou um candeeiro à cabeça do marido, e, apesar de muito católica, pediu o divórcio em 1932 (ainda antes da Concordata ser assinada em Portugal), somando para si mais um estigma social: o de mulher divorciada.


Não tornou a casar-se, e nunca teve filhos – mas criou como tal uma sobrinha, Emília, que lhe chamaria sempre "mamã". Aos 60 anos, Hilda teve um cancro na outra mama, e mais tarde, retirou outro tumor, na barriga. Cegou ainda de um olho, o esquerdo. A tudo isto sobreviveu. Com a costura, sustentava a mãe e filha "adotiva". Até que esta se casou, em 1957. Após 3 anos de vida em comum com Emília e o marido, optou por ir para um lar, aos 77 anos. Estava muito habituada ao seu espaço, e custava-lhe ter de prescindir da sua liberdade.                                                                    

Onze anos mais tarde, sofreu o maior de todos os golpes: Emília morria, de cancro de mama. Hilda remeteu-se à clausura total, no lar, não saindo de lá durante uma década. Foi preciso nascer o primeiro sobrinho neto para tornar a passar o Natal em família. Em 1991, parte uma perna e cai à cama. Nessa altura, o seu maior problema era "não poder costurar". Dois anos depois, falece, aos 101 anos. Morria o rosto da República, cuja implantação se assinala esta quarta-feira

DE KATIA DELIMBEUF

terça-feira, 21 de novembro de 2017

COIMBRA- ESTÁTUA DE LUIS CAMÕES


                                              
A nossa Baixa de Coimbra…Agora e sempre

Histórias da nossa cidade…


O Largo do Leão! Assim denominado por via do leão de bronze que fazia parte integrante do monumento a Luis de Camões, outrora no Largo defronte da casa do poeta Eugénio de Castro e depois relegado para um recanto ajardinado no seguimento da mata do Jardim Botânico, mesmo à ilharga da empena do antigo CADC, hoje Instituto de Justiça e Paz. O leão de bronze não possui testículos. A ausência de tão importante apêndice anatómico constitui para muitas gerações de estudantes motivo de chacota e de mote de gozo aos caloiros. Quando no principio dos anos quarenta o camartelo iniciou a destruição da  Alta, o monumento a Luis de Camões foi removido. O leão de bronze foi para o Pátio da Inquisição e anos depois para o átrio exterior da entrada da Associação Académica, no Palácio dos Grilos. No início da década de sessenta, após o novo edifício da AAC ter sido inaugurado, o leão de bronze foi transladado para um recanto do jardim, onde permaneceu até à reabilitação do monumento a Luis de Camões no local onde hoje se encontra, ao fundo da AV. Sá da Bandeira.”
Faltam os dois versos dos Lusíadas, esculpidos em bronze no pedestal da estátua, sem os quais não se compreende a castração do animal esculpido em bronze.
“Melhor merecê-los sem os ter/Que possuí-los sem os merecer.


(excerto do livro:” Com Paulo Quintela, à mesa da tertúlia” – Cristóvão de Aguiar
Partilhado de Pinto dos Santos Toni

domingo, 19 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

OBSERVANDO O MONDEGO AO ATRAVESSAR A CIDADE...

...e tentando compreender a DRAGAGEM das areias...
As máquinas são visíveis, uma junto à ponte da Santa Clara, que vai ligar por tubagem a uma outra abaixo da ponte Pedro e Inês, donde sai tubagem que ou vai ligar a outra máquina(que não se vê) ou talvez a uma das margens do rio onde vazarão as areias! Será assim?
Uma pergunta: sai areia e água? O mais natural é que sim! Mas senhores com esta seca a água não vai fazer falta?Ou será que retorna ao rio?
Que sabe?

AS IMAGENS COLHIDAS DURANTE A OBSERVAÇÃO!



 





sexta-feira, 17 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O TI ' JOÃO E UM TEMPO QUE FOI ...






 Dança da tranca
(foto net)
Olhamos a Sé Catedral na sua estrutura em cantaria granítica e penetramos no seu interior. É um templo Renascentista e Barroco, erigido na época medieval, remontando aos séculos XIII ou XIV. Austero e na penumbra, tem como chão a laje fria que lhe confere a solenidade do culto. Ao fundo, o altar e a talha dourada abrangente que, associada a uma luz coada e difusa, dá ao enquadramento um toque profundo de misticismo.
Sair daquele lugar religioso e sermos confrontados com um sol fagueiro e desmaiado. Porém, a manhã está fria e há uma aragem saudável que nos tonifica o rosto. Em frente à Catedral reconstruída no século XVIII pela mão do Bispo da Guarda Dom Martin Afonso de Melo, olho o velho e simples casario, habitado por gente modesta. As casas, de um único piso, parecem cosidas umas às outras. Em cada casa, olha-se uma porta fechada e uma janela singela. E em cada janela, um vaso de flores garridas. Ou um gato negro e pachorrento, a olhar o movimento da rua e dos carros naquela orquestra ritmada do som dos pneus a rolar na calçada bem conservada e limpa. Percorro com os olhos aquela carreira de casas baixas e, do lado nascente, olho uma pequena entrada de portadas verdes. É ali a taberna do Ti’ João. Um pequeno espaço escuro de mobiliário exíguo. Uma mesa tosca de tampo redondo, duas cadeiras em madeira e uma prateleira em vidro por detrás do balcão, de onde sobressaem rótulos coloridos de garrafas de vinhos licorosos, algumas de feitio artístico. O balcão é velho e gasto pelo uso. Na parede branca e nua, junto à única mesa do estabelecimento, nenhum quadro pendurado na alva caliça impregnada da humidade visível pelos foles dispersos espalhados como hematomas que sobressaem da parede estalada de sulcos, maltratada e velha. Apenas um pequeno autocolante redondo de publicidade a uma marca de cerveja, quebra a monotonia da degradação. Por detrás do balcão está um homem baixo e atarracado. Tem uma cara redonda, uns olhos grandes e umas bochechas bem vincadas que lhe emolduram o rosto. Uma voz calma e pausada, medindo sempre cada palavra, moldam-lhe o caráter que respira franqueza e bonomia.
Ser taberneiro é profissão vulgar. Tão vulgar como a dignidade de quem assim labuta pela batalha da vida. Mas ele – o Ti´João - não é um cidadão qualquer. Será, quiçá, o homem que na Beira Baixa mais sabe da arte do folclore. Um saber empírico é certo, mas um saber de experiência feito, que o leva a ser respeitado nos meios daquela atividade popular. Conheci-o quando dirigia o Rancho Folclórico de Juncal do Campo. Sentado de lado, eu via os ensaios e reparava na forma diligente e a entrega daquele homem a uma paixão da sua vida – a dança de raiz popular. Ensaiava o grupo quatro, cinco ou seis vezes, ou as vezes que fosse necessário. E eles e elas, os tocadores e dançadores, também dando com generosidade tudo o que tinham de si, para tentarem roçar a perfeição nas danças de roda, nas contradanças, ou na dança da tranca esgrimida por um único par, homem e mulher, à volta de uma simples vara de madeira pousada no chão. Trata – se de uma dança frenética e de destreza, em que o par dança alternadamente por cima da vara sem que lhe possa tocar com os pés, para no fim saírem ambos a bailar. Esta dança tem reminiscências românicas, havendo na Escócia danças do mesmo tipo. Geralmente, esta dança da tranca é muito apreciada pelos povos sempre que o grupo se desloca pelo país. Daí todo o empenho nos ensaios, porque sabiam que o ensaiador ali na sua frente, era homem cordato mas exigente, que sempre lembrava que quando o grupo saía fora de portas, era como se fosse embaixador da Beira Baixa. Apesar daquela atividade lúdica, todos interiorizavam que havia uma responsabilidade e um patamar de exigência e seriedade que era necessário e obrigatório respeitar. Algumas vezes o Ti’ João me disse, em tom de desabafo, que tinha os seus detratores. Afinal, aquela inveja mesquinha tão ao gosto de Portugal e transversal a uma sociedade por vezes perversa e doente.
Há dias estive na capital da Beira Baixa. Percebi que as portadas verdes da tasca do João se tinham fechado para sempre. Jamais saberei se viverá de uma magra reforma da segurança social, ou se a sua avançada idade lhe ditou o fim da existência terrena. Mas sempre recordarei aquelas suas conversas versando  o tema  folclore, enquanto o cliente lhe pedia um “traçado”, que mais não era que um copo de vidro baço, em que o vinho tinto se misturava com uma pequena porção de gasosa, que o Ti’ João media meticulosamente e a olho, como se estivesse nos laboratórios de um qualquer hospital - trabalho científico. Mas sempre com o rigor que pôs na arte da dança popular, vivendo e assumindo a sua condição de homem simples e bom que foi ou ainda será, na sua avançada idade. Que ainda esteja entre nós, é esse o meu sincero desejo. E de todos o que o estimam e o respeitam também.
Quito Pereira