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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO-CAMINHEIRO DA BOTA CANSADA-DE QUE FIZ PARTE DRANTE ALGUNS ANOS

 

Apula aí e aprende!

 

Quem caminha sem destino, só pode mesmo sentir prazer em cada passo que dá. E é essa a magia do caminhar. A beleza dos caminhos não está na chegada; está no percurso. É no percurso que as coisas aparecem, que as curvas se desmontam em novas imagens que nos esperam logo ali e que as histórias se desenrolam nas telas da natureza. 

Mas cada história precisa de atores  e cada ator precisa das suas falas, falas essas que desfilam assuntos que vão das tripas de Deus aos gatos que mexem nas panelas, como dizia o castelhano do Auto da Índia.

Foi exatamente num dos caminhos sem destino que nos achámos em Vale Longo do Côa, hoje Valongo, e noutros tempos também conhecidos como “Tamanquinhos”,  numa terra de moleiros. 

O ligeiro cansaço começava a fazer-se sentir quando decidimos entrar e abancar no café/tasca da Associação Cultural da aldeia. À falta de necessidade de café, propuseram um Favaios fresquinho..Não que a sede fosse muita, mas ainda não tínhamos almoçado. Havia uma só mesa longa, onde toda a gente se sentava e quem senta à mesma mesa é amigo e não há outra maneira de dizer as coisas.

- Então, o que andam a fazer? A caminhar?

- Sim, viemos dar uma volta e ver a ponte de Sequeiros. Muito bonita.

- Ai é. Sabe que foi por ela que os franceses passaram e deram cabo aí de tudo. Mas o povo  recolheu-se aqui debaixo de uns barrocos e coube lá toda a gente. Depois de os franceses se terem ido embora, a última pessoa a sair chamava-se Maria e disseram-lhe de fora:  “Anda Maria que já só há um!” Então ficou conhecida aquela gruta como Lapa de Maria.  Os de fora pensam que é uma coisa religiosa, mas não é nada disso.

Metia conversa como se nos conhecêssemos há anos. Tinha nos olhos a cor de cada ano vivido e o sorriso era franco. Confessou a alcunha dos habitantes, conhecidos por “tamanquinhos”, pois noutros tempo faziam-se na aldeia as solas dos tamancos e das socas, a partir dos paus de amieiro, abundantes nas margens do Côa. Lembrei-me de quando usava também os tamancos comprados na feira de Lamego e das estratégias que o meu pai usava para lhes dar mais vida. Para que durassem nos pés da canalhada, pregava-lhes uns pneus por baixo e à frente punha umas testeiras feitas de lata recortada de embalagens de azeite, fixadas por brochas arredondadas. Mesmo assim, usar uns tamancos  tão catitas não era muito confortável e não nos deixavam jogar à bola, porque uma canelada com socas ou uma trivela com as testeiras perfurantes eram sempre de evitar. 

Outra cara resolveu ensinar-nos palavras que só ali se usam. Com gestos e explicações detalhadas falaram-nos do verbo “apular”, apanhar um objeto que vai pelo ar; falaram-nos de ir tomar banho em “pelo” e da diferença subtil entre “pulo” e “salto”. Explicou ainda por que razão esta terra era conhecida por terra de moleiros, evidências que se estendem pela margem esquerda do rio, uma miríade de moinhos de construção que nunca tinha visto. 

Mais adiante entrou um casal que também se sentou à mesa. Vivem em Penamacor, mas vêm à aldeia no fim-de-semana. Também conversaram como se fôssemos família. Ao sabermos que éramos de Lamego, mas a viver em Coimbra, debitaram os segredos de casa, dos familiares que já trabalharam por lá e do filho que hoje vive na Polónia, mas que tirara o curso de Economia em Coimbra. Nunca tinham visto nem ouvido que tanto se jantasse na cidade do Mondego. Pois eram jantares de curso, jantares do carro, jantares disto e daquilo… enfim, um abuso de jantares. Mas achavam piada. Lembrei-os de que daqui a quinze dias seria a festa de Aranhas e acharam estranho que soubéssemos dela. Explicámos que costumámos ir lá com a Bota  e ficou combinado que nos procurariam no dia.

Precisávamos de continuar a andar e levantámo-nos para irmos pagar a despesa. Quando perguntei quanto era, disseram que já estava pago. Nem valeu a pena reclamar. Não conseguimos saber quem foi, pois tantos olhares se riram.

- Atão a gente ia deixar as visitas pagar? Nem pensem.

Restou-nos agradecer e prometer voltar, porque nos pertence voltar aonde nos tratam bem. É destas curvas do caminho que falava.

Antonino Silva

domingo, 9 de junho de 2024

OS DENTES DO SISO TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO SILVA

OS DENTES DO SISO

       Quando eu era mais jovem, num outro espaço mais próximo do Douro e mais rural, era comum ver na feira de Lamego, e nas romarias da região, uma horda de mendigos e pessoas com deficiências físicas, aos quais chamavam, chãmente, aleijados.  Com o título, designavam-se todos aqueles a quem as maleitas de nascença ou causadas pela vida tinham marcado indelevelmente. Mas, o mais desconcertante, é que eu ficava com a impressão estranha de que os aleijões eram males que vinham por bem, pois, onde os via, não faltavam pessoas a darem-lhes moedas, a pagarem um copo ou um prato de comida. Parecia que a deficiência física era uma forma de amealhar recursos e, confesso, chegava a sentir inveja.

      Hoje compreendo o quão errado estava e compreendo, também, que, numa altura em que o apoio social do estado era miserável, cabia aos conhecidos, amigos e outros tantos, ajudar quem tinha menos e não conseguia trabalhar como qualquer um. 

     Porém, havia outras pessoas que conseguiam fazer da diferença uma vantagem. Nas culturas antigas, muitas vezes, uma deficiência era entendida como um sinal divino, uma predestinação para grandes feitos, uma espécie de marca para os eleitos. Cabia a cada um saber tirar o máximo proveito, sem charlatanices nem peditório à caridade alheia. 

     Era esse o caso do Carriço. Nunca lhe tinham visto um sorriso e de falas era homem de coisa pouca. Quando falava, emitia uns sibilos estranhos, como se estivesse a compor as melodias das palavras com um assobio fino e discreto. Quando ria, mais parecia um trejeito de face sem despegar os lábios e, quando comia em público, ninguém lhe via a cor da língua.

     Vivia sozinho, solteiro inveterado, que as mulheres eram, para ele, a causa dos males do mundo. Se, com uma singela maçã, a primeira mulher tinha condenado toda a humanidade, seria preciso muito menos para qualquer moça da freguesia dar cabo da vida de um homem. Assim, era arredio a compromissos e, que se saiba, nunca tinha namorado.

     A sua modesta casa – se podemos chamar-lhe assim, a quatro paredes e duas águas de telha várzea – ficava na subida para o Dondelo, na altura já bem fora do povo.

     Tinha uma burra que o levava a toda a parte, até à cidade, quando necessário fosse. Mas onde o animal se revelava mais útil era na subida da Quelha, quando o dono, quase sem sentidos pela borracheira construída durante as tardes de domingo, na taberna do Peliqueiro, mal tinha forças para se encavalitar na jumenta, a qual, dócil e rotineiramente o deixava mesmo à porta do casebre e se ia recolher à loja.  Esse era, aliás, o único vício que se lhe conhecia. De resto, era honesto e trabalhador, andava ao dia nas quintas da aldeia e quando o inverno pedia pousio e não havia trabalho na lavoura, ia ele até às vinhas do Pinhão, virar valados nas surribas para as vinhas novas.

     Como era de poucas palavras, foi granjeando a fama de homem sisudo, com um pouco de adivinho e um pouco de vedor. Muita gente lhe pedia que marcasse poços e minas, com o manuseio magistral da forcada, ou da vara feita de um galho de castanho ou de giesta. Nunca falhara um só que fosse. Às vezes os veios é que corriam mais fundos e obrigavam a um maior trabalho e investimento, mas a água estava sempre lá.

     Quando a vida lhe corria bem, no aconchego das mantas ou ao calor da lareira nas noites frias de inverno, ele, então, sorria e até dava gargalhadas, mas sozinho, porque nessa altura ninguém via a falta daqueles dois dentes por onde o ar passava e a fala saía, sibilina. 

     Os dentes que lhe faltavam eram o segredo da sua sabedoria, se por sabedoria entendermos o comedimento. Não eram os dentes do siso, mas eram os dentes do juízo.

Antonino Silva


quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

CANTAR AS JANEIRAS

 Levante-se daí, senhora!


As tradições da quadra do Natal e das celebrações adjacentes no tempo são diversas e as suas origens perdem-se no tempo. Quando damos conta, estamos envolvidos nelas e participamos porque lhes achamos piada ou porque nos motivam de forma bastante para o fazermos.


Desde que me conheço como rapazote, sempre participei no cantar das janeiras e dos reis, sem questionar a origem nem a razão desses rituais. Tudo me parecia simples, castiço e satisfatório. Com familiares e amigos, com ou sem instrumentos, íamos pelas quintas e lugares da freguesia a cantar versos que anunciavam as novas do nascimento, que desejavam boas festas e vida próspera no ano que se iniciava, que antecipavam a chegada dos reis do oriente e outras notícias mais. 


Mas a parte mais interessante era aquela em que desfiávamos a lista dos pedidos das dádivas pretendidas. Mesmo conhecendo a escassez dos recursos económicos da família do lavrador ou habitante do local, não éramos nada parcos naquilo que elencávamos. Desde as nozes, mais acessíveis, até às moedas, mais escassas, tudo era descriminado, para evitar que os louvados se desculpassem com a falta de sugestões do que nos podiam dar. Não seria por falta de imaginação que a oferta não pingaria.


Porém, antes do rol dos pedidos, havia sempre um adoçar de vontades por via do elogio da beleza das filhas e da esposa do dono da casa, da virtude e honra da família e do caráter magnânimo do patriarca.


De lá de dentro acendia-se uma luz (alegria suprema e sinal de que fôramos ouvidos) e havia uma porta que se abria.  Recordo-me das hierarquias da apresentação: o pai abria a porta e a mulher espreitava atrás dele. Mais atrás, de mão dada com um irmão mais velho ou agarrados à saia da mãe, viam-se os mais pequenitos, curiosos com a música e estranhos por verem tanta malta à porta.

Então trocavam-se votos de bom ano, às vezes perguntavam o que queríamos. A boa educação e a falsa modéstia levavam-nos a dizer que apenas tínhamos ido dar as boas festas, mas a verdade é que a imaginação já estava a ver uma chouriça cortada na chaminé ou uma taleiguinha de figos secos para apeguilhar o vinho tratado ou o anis que noutra casa seria oferecido.


Eram noites longas, geralmente frias, e terminávamos em casa de um de nós, com os pés cansados e molhados, para se proceder à divisão da coleta. Pouco ou muito, tudo contava e nunca ninguém foi catalogado por dar oferta escassa ou não dar nada. 


Hoje, olhando para esta tradição, vejo muito mais do que aquilo que acontecia na altura. Podemos imaginar uma tentativa de repor uma certa ordem na gestão da fortuna de uns e de outros. O tom laudatório dos cantos dá a ideia de que estes eram cantados pelos pobres às famílias ricas, aproveitando as vontades mais amolecidas pelo espírito da quadra. O elenco dos bens a ofertar apela à abundância e a umas certas mãos-largas que os pobres não teriam.


Como exemplo das considerações feitas acima, deixo-lhes uma das mais completas composições que conheço sobre as janeiras:


“Boas festas, Santas festas,/ 

está a alva a arruçar. /

Venha-nos dar as janeiras,/ 

que temos muito que andar.


Senhora que está lá dentro,/ 

linda rosa encarnada,/

mande a moça à salgadeira/ 

dar esmola avantajada.

Uma chouriça para mim/ 

outra para o meu camarada. /


Dê-nos figos do sequeiro,/ 

a bola do tabuleiro, 

Uma peça de fumeiro,/ 

ou da burra do dinheiro. /


Se lhe custar a dar isso,/ 

as castanhas do caniço.


A sua adega tem vinho,/ 

de beber nos pode dar./ 

Tem porco na salgadeira,/

 já não falta que trincar.


Levante-se daí, senhora,/ 

desse banquinho de prata,/

venha-nos dar as janeiras,/

que está um frio que mata.” 


Por isso, levantem-se daí, senhores, e tenham um ano de 2024 muito feliz.

Prof Antonino Silva





segunda-feira, 20 de novembro de 2023

MERQUEM, FREGUESES, MERQUEM - TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO SILVA


MERQUEM, FREGUESES, MERQUEM

Se há uma coisa que ainda nos faz recuar no tempo, essa coisa é a ida a uma feira, daquelas ainda cheia de casticismo, com ponteados de lembranças de outros tempo. Se nós crescermos e as coisas se mantiverem iguais, a distância faz com que as delícias dessas memórias saibam mais doces, ao mesmo tempo que o sabor original não se perdeu.
Aconteceu-me este verão uma coisa assim. Já há vários anos que não ia à feira de Lamego, uma das maiores feiras da região do Douro Sul, que se realiza, imaculadamente, cada quinta-feira do ano, exceto se coincidir com o Natal ou o Ano Novo. Na avenida ou no largo da feira, ela acontece, porque é um ponto de encontro sem igual, nesta cidade e nos povos da região.
Desta vez percorri o espaço e olhei para a multidão com um olhar mais distante, mais velho – assumo – e talvez mais atento. Mais do que uma vez, passou pela minha mente um Souk de Marraquexe, com a confusão de pessoas e vozes, embora com menos coloridos e menos cheiros. A polifonia cultural, o enxame de vozes e a mistura de interesses despertaram-me uma análise mais sociológica destes locais de encontro. Não sou, curiosa e contraditoriamente, uma alma perdida por feiras; porém, é exatamente esse desamor que me permite falar desapaixonadamente do que mais me marcou nesse dia de agosto.
Ao percorrer o quase meio quilómetro da rua por onde a feira se alarga, encontrei mais gente da minha aldeia do que numa semana de permanência no povo. Vi amigos emigrados, vi colegas de escola, vi mancebos que me acompanharam nas sortes, enfim…vi quem já não via há muito. Por cada passo que se dá, temos de cumprimentar, trocar palavras que são muito mais do que de circunstância, saber novidades, saber de quem nasceu, de quem casou e de quem partiu. Não há jornal que se lhe substitua.
Entretanto, de um lado e outro, debaixo dos toldos que se encontram por cima para fazerem o túnel de sombra que nos protege do estiolar de agosto, ouvem-se pregões que nos levam ao passado. Mais acima, a camionete com duas colunas em alto som debita os êxitos da moda, com alinhamentos de reggaetón nos braços de uma quizomba, enquanto o Quim Barreiros se perfila nos dedos do Dj improvisado. Entretanto, enquanto a música não acaba, o vendedor atende um cliente que tem um Opel Corsa antigo, apenas com leitor de cassetes, e que lhe pede, pelas alminhas, que lhe arranje uma cassete do Marante, porque o tinha visto, em julho, nas festas da Sra. da Saúde, em Moimentinha. De nada vale ao vendedor mostrar-lhe que já não tem tal tecnologia áudio, porque o fã incondicional dos Diapasão não desarma: “Ó santinho, procure lá nas caixas, que alguma coisa há de haver.”
Subimos mais um pouco e percebemos que temos de ter algum sangue frio nas paragens que fazemos. Se o nosso olhar cai nuns sapatos ou numa almotolia, é certo que do lado de lá vem um “Escolha, freguês, veja o que é bom! Como quer o sapatinho? E a almotoliazinha, é para usar ou para enfeite?” E nós, como que apanhados em crime flagrante, lá temos de alinhavar uma esfarrapada resposta “Nada, nada. Estava só a ver…”. Estas trocas sem sentido vão sendo compensadas por muitas outras plenas de sucesso e com compras e vendas pelo preço certo, sem necessidade de tentar acertar se é acima ou abaixo.
E enquanto a manhã vai passando, enquanto o olhar vai zigzagueando e os frangos de churrasco vão assando nas brasas das barracas de comes e bebes, alguns pregões deliciam quem os queira ouvir. É o senhor gordo que, sentado numa cadeira de praia, apregoa as meias a cinco euros dez pares; é a jovem ciganita imaculadamente maquilhada que apregoa sapatilhas da “Ardidas”, enquanto a mãe mostra as ”langeris compradas diretamente da fábrica Triuuuumfooo” e o pai, do outro lado da via, só pede aos fregueses que lhe merquem as varinhas mágicas de marca “Filipes”. Em voz gritada num timbre mais agudo sai lá ao fundo o melhor pregão do dia: “Ó freguesas! venham ver meias-calças da léguins! Há p’ra magras, gordas e entremeadas!”
Se uma pessoa não tem cuidado e juízo, vem de lá carregado de coisas baratas, das quais necessita tanto quanto um careca de um pente. É por isso que vou lá poucas vezes e, sempre que vou, levo mais olhos que ouvidos e dinheiro, mas já decidi que, na próxima, não vou levar é a carteira. Assim, tal como Ulisses, poderei ver tudo e ouvir os cantos das sereias, sem que de lá venha mais pobre.
Novembro de 2023

sábado, 26 de agosto de 2023

GENTE CHEIA DE ONTEM - TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO SILVA!

 Gente cheia de ontem

O respeito devido a uma geração que reconstruiu o mundo no pós-guerra deveria ser, julgo, um dado consensual e adquirido por todos. No entanto, muito daquilo que vemos, ouvimos e lemos não aponta nesse caminho.

Na realidade, as pessoas seniores que hoje têm noventa e muitos mais anos são os filhos de uma Europa devastada e de um Planeta que se revolveu numa guerra à escala global. Pela primeira vez, a guerra não reconhecia fronteiras e, desde o Atlântico ao Pacífico a espécie encarregou-se de destruir o que tinha feito até então. Mas foi essa mesma espécie que, dos escombros fumegantes e das cinzas reconstruiu um mundo de nações unidas e lhes deu uma carta de direitos.

O mundo em que hoje vivemos é uma obra concetual dessa geração que se está a findar. A sua obra deixa-nos inquisitivos e um pouco perplexos. O que poderíamos nós fazer que se aproximasse um pouco da sua tarefa épica?

Em sentido inverso, olhando sobre o ombro para o que se conhece, reparamos que os idosos são vistos como matéria gasta, alguém que não produz e apenas consome recursos de uma sociedade, ela própria, consumista. As faltas de respeito correm uma escala de indiferença, desde aqueles que, socialmente, são desfavorecidos, até pessoas ditas cultas. Não devemos procurar apenas nas franjas marginais da sociedade os casos de maus tratos a idosos; há palavras e ações que ofendem também nas outras classes. Um dos casos mais recentes é a subliminar mensagem da Comissão de Trabalhadores da RTP que recusa a participação de Marçal Grilo no Conselho Geral Independente da estação pública, chamando-lhe “Ex-ministro octogenário”, como se a idade fosse um empecilho.

Quão distantes estão dos preceitos clássicos da herança de uma vida longa e vetusta, plena de sabedoria e experiência, tão necessária à gestão da coisa privada e da coisa pública. Às vezes parece, mas não são inócuas as palavras "senador" e "senado". Os senadores da república seriam aqueles que eram o garante da experiência e consequente obra onde assentava a imutável certeza de que o património de um estado iria ser transmitido à geração seguinte, sem atropelos nem incertezas.

Na Dedicatória d’Os Lusíadas, Camões soube tão bem tipificar o modelo de governante que queria para o jovem rei D. Sebastião: de tenro gesto (rosto jovem), mas com a competência de um adulto e a sabedoria de quem sobe ao Eterno templo, um velho, portanto. Talvez Camões se tenha enganado e a sabedoria do rei não fosse assim tão justificada, mas as palavras do épico saem de uma conceção honesta e habitual de que a velhice era um tesouro acumulado de sabedoria. 

Nós, por cá, vamos tendo exemplos acabados disso: Eduardo Lourenço e Rui Nabeiro são dois casos felizes de senadores respeitados; mas há tantos outros de quem ninguém fala, não quer falar e tenta, mesmo, esconder ou ignorar. Ao fazê-lo, esta nova geração esquece que os idosos são pessoas com tanto ontem que por mais amanhãs que ela viva, nunca lhes chegará aos calcanhares.

Antonino Silva


domingo, 18 de junho de 2023

BEIJAR AS PEDRAS TEXTO DO PROFESSOR ANTONONO SILVA

 BEIJAR AS PEDRAS

As paisagens naturais que foram sendo modificadas pelo homem acabam sempre por, de uma forma ou de outra, emergir de tempos a tempos, fazendo valer as memórias daquilo que foram. Parece mesmo que há uma teima intrínseca de não deixar à vontade humana os troféus de uma batalha que nunca foi perdida. 

Lembremo-nos, por exemplo, das estradas que, deixando de ser usadas, muito rapidamente são reocupadas pelos tapetes de vegetação que antes aí existiam ou dos rios que, modificados no seu curso, em tempos de cheia, regressam ao leito que sempre foi seu. Em alguns casos, essa remontada é inócua, mas noutros a lei da natureza leva consigo vidas e bens, que nunca deveriam ter estado ali. 

No parque do Gerês/Xurés, a barragem do Alto Lindoso pôs travão ao curso do rio Lima, constituindo um recurso precioso para aproveitamento energético e também para reserva de água doce, tão escassa em muitos meses do verão. No ano de 2022, a cota da barragem desceu assustadoramente e deixou à mostra as ossadas de casas e aldeias ribeirinhas bem como os esqueletos das árvores que compunham o verde da galeria ripícola deste rio.

Aceredo foi um dos casos mais mediáticos e mais visitados no ano passado. Milhares de pessoas se dirigiram à aldeia habitualmente submersa e fotografaram os detalhes de uma vida que foi e os objetos de memórias dos outros. O rio, ao subir, foi-se fazendo mar, mar de angústias e de saudade para aqueles a quem foi negado o direito de ficar. Nunca o abandono forçado do lar foi coisa boa: há sempre uma parte que vai e outra que fica e, dizem eles, os expulsos, que nunca mais foram os mesmos. Talvez um dia tudo se esqueça, mas, por ora, estão ainda bem vivas as pessoas que tiveram de partir na década de ’70.

Havia uma multidão de curiosos visitantes que tudo fotografavam, que percorriam as antigas ruas da aldeia então cobertas por uma fina patina de lodo, que passavam as mãos pela água da fonte, ainda funcional, e espreitavam o motor ferrugento do Ami 8, deixado para trás na mesma loja onde agora descansa, à espera das leis da química que noutra coisa o convertam. Havia sorrisos e gargalhadas, fotos em pose e selfies para memória futura e conversas despreocupadas, tão circunstanciais como as de quem visita a Feira Popular nas festas de verão.

Mas nem todos se sentiam assim. Havia uma mulher, vestida de negro, que descia do miradouro com passos hesitantes, não se sabe se pela idade, se pela emoção, que fotografava tudo com o olhar. Onde os outros viam ruas enlameadas, ela via ruas cheias de vida, de crianças, jovens e adultos, ouvia as conversas dos vizinhos e parecia-lhe escutar o cláxon do peixeiro que às quartas passava com o peixe fresco. Seguia com o rosto pétreo e o olhar fixo num alpendre que divisava na curva, depois do moinho. Passou a mão na água que caía da fonte e viu assente nos ferros o caneco de aduelas que tantas vezes levara à cabeça para a cozinha da sua casa, que era já depois da curva.

As paredes estavam lavadas pelo tempo, nuas,  todo o estuque das divisões se tinha ido e grande parte das madeiras de suporte repousava entre a lama do piso inferior. Ali via ela as paredes interiores com barro caiado, os quadros da sala de comer, as imagens do Sagrado Coração de Jesus e Sagrado Coração de Maria em caixilhos de vidro com molduras de espelho vermelho e a mesa, ao centro da sala, com os bancos corrido à volta, onde os filhos e o marido se sentavam. Sentiu o frio dos invernos húmidos da montanha e as sombras dos dias quentes; gritou com os pequenos que fugiam para o rio, lá em baixo, para saltarem do amieiro mais alto, estatelando-se na água do açude. Era tudo tão vivo… tudo tão presente!

Naquela casa fora feliz, criara os seus filhos e tivera a sua rede social; hoje, já viúva e com os filhos bem na vida, não conseguia sentir-se completa. Só neste dia, só nesta manhã de domingo ela sentia que um círculo se fechava. Queria partir, mas partir em paz. Sem que ninguém a visse, subiu o alpendre e abeirou-se das pedras da entrada de casa, abraçou-as uma por uma e pediu-lhes desculpa por ter fugido.

PROSESSOR ANTONINO SILVA

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

ENVELHECER,POORQUE SIM,...MAS COM SABEDORIA TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO

Envelhecer, porque sim, …mas com sabedoria.


Numa obra clássica, De Senectute, Cícero compôs uma tese magistral sobre a velhice e a sabedoria de envelhecer. Num diálogo aberto de um Catão idoso e os jovens Lélio e Cipião, desenha-se uma bússola para guiar a vivência da juventude e da velhice de modo harmonioso, diluindo aquilo que hoje se chama “conflito de gerações”. Na mesma obra já se afloram as formas inconvenientes de velhice e de juventude, coisas a evitar numa vida feliz.


Mas os tempos são outros. Os avanços médicos e farmacológicos levam-nos muito longe ¬– talvez demasiado longe – e as pirâmides etárias viram-se invertidas no mundo dito mais desenvolvido. Por outro lado, a saúde do corpo não é, frequentemente, acompanhada pela saúde da mente e uma parte da nossa vida pode já não ser um equilíbrio desejável entre corpo e mente. As demências, esquecimentos, perdas de referências são cada vez mais frequentes. Amamos os nossos e queremos tê-los connosco a vida inteira, pais e avós, mas, às vezes, quando os olhamos nos olhos, eles já não estão lá. 


Há, felizmente, casos de perfeita harmonia e o ato de envelhecer é um exercício de sabedoria e de testemunho de uma vida cheia. Era esse o caso do João das Quintãs, um velhote dinâmico, de olhos azuis, intensos, tão azuis como o céu que há 92 anos o cobria. Naquele fim de manhã quase corria pela “Tomboreira”, saltando as pedras traiçoeiras que outrora tinham dado nome ao caminho. Entre Moimentinha e o Lar de Arneirós iam uns bons oito quilómetros, feitos a pé, estivesse chuva, estivesse sol.


O que o levava lá era a outra parte de si, a mulher, que, há anos, estava internada no lar. Ela tinha começado por pequenos esquecimentos, perdas de rotinas do quotidiano e acabara, mais tarde, por não reconhecer nada do mundo. Esquecera-se de como se comia ou bebia, de todas as rotinas e, mais triste, de quem era aquele homem que sempre a amara. Para o João das Quintãs, esse fora o grande esquecimento que o prostrara, como num luto, e o levara a pedir à senhora da Casa do Povo para arranjar um lugar no Lar. Por amor, decidira que era melhor que a sua mulher tivesse quem olhasse por ela do que tê-la em casa, em condições menos próprias. Claro que poderia pedir aos filhos, mas como poderiam eles vir todos os dias, da cidade, tratar da mãe?


Todos os dias, depois do almoço, chegava ao lar e ficava sentado com ela, num canto da salinha, pegando-lhe nas mãos e perguntando: “sabes quem sou eu?” Ela respondia da mesma forma, ou seja, nada respondia, permanecendo apática e sem reação. Ele, então, começava a falar-lhe de quando se conheceram, das brincadeiras “zuratas” de infância, quando se punham a azangar as escaleiras da barroca de uma vez só, mergulhando de cabeça no lodo, ficando todos sujos. Muitas vezes, as mães, com um fueiro, faziam-nos correr à sua frente, para lhes meterem juízo na cabeça, mas tinha sido esta loucura cúmplice que os aproximara e se mudara em amor para a vida toda. Ele falava e falava; para ela, nada deveria fazer sentido, não reagia e os olhos continuavam cinzentos e sem brilho.


Então, lá voltava ele à liça, com mais histórias comuns, como quando, depois de casados, tinham decidido ir para a Quinta do Monte, sem quase nada de seu para além de um jerico trôpego, um cobertor surrado e uma muda de cama que cobria a humilde cama, encostada à parede do lagar, para evitar as goteiras de chuva que caiam por toda a casa. E saltava no tempo para o nascimento dos primeiros filhos, as obras na casa, a chegada dos dias bons, a vinda dos netos. Mas ela…nada. Os olhos nada diziam, a boca não esboçava o mínimo trejeito.


Um certo dia, começou, por nada mais ter que conversar, a falar na chuva, do cheiro da terra, do arco-íris e do sabor das maçãs e, então, pareceu que tudo mudava de cor. Ela olhava para ele e sorria… e os olhos brilhavam. Quando ele se calava, tudo voltava ao mesmo. 

O João da Quintã percebeu, então, que, se queria tê-la, por breves instantes, junto de si, havia que saber chamá-la. Por essa razão, enquanto descia a “Tomboreira” já ia alinhavando a conversa dessa tarde: iria falar-lhe toda a tarde de cores, aromas e sabores. 

Professor Antonino Silva

Setembro 2022


domingo, 7 de agosto de 2022

A ESPERANÇA É O QUE CADA UM QUISER...PELO PROFESSOR ANTONONO SILVA

A esperança é o que cada um quiser.


Para grande parte das crianças do ensino público, este mês de junho é a passagem de um estado a outro, com mudanças substanciais. Num determinado dia do mês, deixam o stresse das últimas avaliações e da escola e passam a um estado de, ainda que efémera, beatitude e ledice das chamadas férias grandes. Cada criança vivê-las-á a seu modo, mas é certo que muitas delas vão recuar aos anos de ontem e recuperar hábitos que só em casa dos avós põem em prática.

O Alexandre é um desses felizardos que salta nas esferas do tempo com a mesma facilidade com que a pena se deixa arrastar pelo vento. Desde que começara o terceiro período, o cachopo, à noite, na cama e antes de adormecer, magicava como é que a havia de fazer. Provavelmente precisaria de paus e de arames, mas não podiam ser coisas muito duras de trabalhar. O avô não ia deixá-lo usar a “blancandequer” que tinha pendurada na loja, pois a máquina podia magoá-lo na empresa; por outro lado, os arames tinham de ser bem macios. Lembrou-se de que, uma vez, o avô lhe tinha dito que o arame queimado era bom e se dobrava bem.

Com o projeto calado na mente, cada noite em que observava o teto do quarto ainda pejado com umas estrelas fluorescentes que vinham do tempo de bebé, a sua mente divagava, parecia-lhe que as formas voavam ao redor da cabeceira e que o seu projeto ganhava corpo e dimensão, como num holograma que se lembrava de ter visto num filme do Tom Cruise. 

Mal acabaram as aulas, foi um ver se te avias a escarafunchar a paciência do pai e da mãe para o levarem para a aldeia, para casa dos avós. Só ele sabia a razão de tanta pressa, pois nem os pais nem os avós o sabiam tão afetuoso quanto isso para ter, assim, tanta vontade de os ir ver. E tinham razão: mal saltou do jipe do pai, o Alexandre raspa a cara por cada um dos mais velhos, com um impessoal “olá vó, olá vô”, e correu para trás de casa, em direção ao ribeiro, onde havia um renque de sabugueiros que considerava ideais para o que queria fazer.

Depois do almoço, quando os adultos foram dormir a sesta, lançou mãos à obra: foi à gaveta da cozinha e tirou uma faca, e dos arrumos do avô tirou um alicate corta-arame, uma sovela de sapateiro e um pequeno rolo de arame queimado. Agora sim, a coisa ia dar certo! Correu até à margem da ribeira e cortou umas hastes jovens de sabugueiro que talhou em pequenos troços. Sentou-se à sombra e, pacientemente, foi furando cada pauzinho e inserindo os arames também cortados que, com muito cuidado, dobrava em cada uma das pontas. A obra crescia e, para ele, não havia nada mais perfeito. Com mais um ou dois dias de trabalho, o projeto estaria terminado e, então, chegaria o grande dia.

Foi na manhã de São João que o Alexandre subiu à leira da Barroca. Ele sabia que eles andavam por lá, pois todos os anos era a mesma coisa e não falhavam. Este ano não seria diferente e, pela primeira vez, teria o seu, sem ajuda de nenhum adulto. 

Os seus olhos brilhavam com a felicidade antecipada e nos seus olhos repousava a crença de quem é criança e acredita que o mundo é bom. Nada se faz por mal e tudo se faz porque sim. Nada tinha o sabor do irremediável e o sol que o cobria derramava o ouro sobre algumas ervas secas que ela saberia usar para a sua tarefa. Mas, antes, havia que apanhar uns rebentos de serradela, pois o bicho teria de comer quando tivesse fome.

Escolheu um talo flexível de junça meio seca e puxou as calças para cima. Tinha de se ajoelhar, não havia outro remédio.  Com os cotovelos e os joelhos fincados no chão, procurou o rasto e introduziu a haste de junça no buraco. Repetindo a tradição centenária que tinha aprendido com o avô, começou a cantilena:

     “Gri-gri-gri

     Sai cá fora, c'a tua mãe 'tá aqui

     C'uma faca d'algodão

     Que te cheg'ó coração-”

E vai por aí fora, repetindo, até que saiu do buraco o mais belo grilo trovador, que ele, imediatamente, meteu na gaiola e o qual, nessas férias grandes, seria o seu maior amigo nas noites de verão em casa dos avós.

Antonino Silva

 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

OBRIGADO PROFESSOR ANTONINO ANTONINO - HOJE ESTA CRÓNICA TEM MAIS SENTIDO

 Hoje esta crónica tem mais sentido. 


Muito bem haja e muito obrigado!

Depois de mais uma visita aos vales e montes que me viram nascer, para cumprir mais um dever com os que já partiram, o regresso é sempre uma hora e meia de reflexão sobre o visto, o ouvido e o pensado. Pensámos neles e agradecemos-lhes o muito que nos deram. Por outro lado, o ouvido começou a rodopiar na mente, levando a refletir sobre o bem haja muito ouvido na minha aldeia e, raramente, o obrigado. Veio-me ao vórtice do pensamento a frase várias vezes dita perante um obrigado: ‘Eu não fui obrigado; fiz isso porque quis’, sugerindo o menosprezo desta forma de agradecimento e, até, que poderá ser indelicada. Ora nada é menos verdade do que isso.

Na verdade, em bom português, deve dizer-se obrigado ou obrigada, segundo a pessoa que agradece, incluindo as formas plurais, e não aquele ou aquela a quem se dirige. E a explicação é simples: Obrigado é a forma de agradecimento mais compromissiva, a mais profunda, que cria um vínculo com quem nos fez o favor.

S. Tomás de Aquino elabora, no ato de agradecer, 3 níveis distintos, do mais superficial para o mais profundo. As línguas que melhor conhecemos dão conta desses 3 níveis. 

No primeiro deles encontramos o simples ato de reconhecer que alguém nos fez um favor. Para reconhecer é necessário pensar, razão por que, no inglês, se usa a forma thank, etimologicamente evoluída de think (pensar) e o alemão danke, também verbo evoluído  de denken. Agradecer, neste caso, é reconhecer e pensar em alguém que nos fez o bem.

No nível intermédio temos o desejo de querer bem ao outro que nos fez o favor. Usam estas formas línguas como o castelhano gracias, o francês merci,  o italiano grazie ou o português bem haja. Independentemente das intenções que queremos colocar no ato de agradecer, linguisticamente não estamos a dizer mais do que ‘Desejo que alguém o/a favoreça com  coisas boas (as graças, as mercês, o bem). A forma portuguesa é bem explícita ao usar o conjuntivo presente do verbo ‘haver’ com sentido de’ ter’ e com valor desiderativo: ‘Que tenha bem’. 

No nível mais profundo e mais envolvente da gratidão só conheço uma língua que o verbaliza: o português. Quando dizemos obrigado, na realidade estamos a vincular-nos com uma dívida que fica. No livro do deve e do haver, temos um saldo negativo, uma dívida de gratidão que não precisa de entrar na economia do ‘fazes agora e eu pago-te depois’, pois tão simplesmente a palavra (muito) obrigado é o sinal do reconhecimento pelo favor, o desejo do bem e o garante do compromisso. A forma bem haja, por muito que nos custe, não é tão rica quanto a forma obrigado, apesar do casticismo que acarreta e do sentido de profundo respeito que nós, os beirões, lhe queiramos associar.

Ao nível da pragmática, observamos que é muito frequente aquele menosprezo de que falei, porque alguns falantes distraídos usam obrigado quase como uma simples interjeição, sem as concordâncias e esvaziando-o de sentido (como o inglês thanks), e a existência de uma frase como bem haja/hajam parece-nos ser mais sentida. Um dia poderá ser assim, mas ainda não o é. Por isso, muito obrigado!

Prof. Antonino Silva


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

QUERO VER-TE VOAR Texto do Professor Antonino Silva

 Quero ver-te voar


O mundo, para alguns, é quadrado e, como tem cantos, essas pessoas sentem-se perdidas por lá, como se a vida as tivesse varrido e esquecido. Nós, os do mundo redondo, às vezes vemo-los a tentarem encontrar o centro, à procura do seu lugar na normalidade. Felizmente, muitos conseguem fazê-lo consigo mesmos e com quem os rodeia, a família e amigos. Estes são os vencedores da desventura, os bravos que conseguem marcar o seu fado e trocar as voltas a um destino fatalista.

O mundo é, porém, redondo para muitos de nós, onde as ordens não se trocam, onde expressões de amor de pais e filhos são naturais, onde as amizades vingam com a mesma naturalidade e certeza com que as sementeiras dão colheita e o granjeio dá frutos. É quase uma felicidade natural ter os braços de um pai ou mãe que acolhem, aqueles abraços que são tetos e as palavras que são cartilhas e sabem a bolos de aniversário. Quem tem a sorte de ter crescido nestes ninhos sente, na infância, que tudo parece certo e seguro e que nada tem o sabor do irremediável. E mais tarde, quando algo nos falha, quando as pessoas se vão e as lembranças se diluem, continuamos a observar que tudo esteve bem e as horas bateram certas, as boas e as más, conforme seria correto. 

A Cidália Sanona era uma das pessoas varridas para um canto do mundo. A pobreza extrema em que ela e o marido viviam parecia condenar à morte qualquer sonho, qualquer sorriso ou vontade. Tinham um  filho único, o Avelino, pequenote bem guixo, de olhos grandes e cabelo loiro espetado e cortado  pelo pai, às escaleiras, com a navalha da enxertia recebida num saco de adubo da Nitratos Agran. O amor era inversamente proporcional às posses materiais da família. Não tinham terras, não tinham casa e viviam numa loja de divisão única, paga com um dia de trabalho por semana na quinta do Chões, gente de posses da aldeia. O soldo dos restantes dias era para comprar o pão e poucas coisas mais com que se alimentavam. 

Com 6 anos, o Avelino entrou na escola primária, que funcionava numa sala velha da quinta da igreja e em cujo sobrado havia buracos quase tão grandes como os corpitos franzinos que perto deles se sentavam. Se o jeito para os estudos estivesse em relação direta com a pobreza, ninguém daria um grão de arroz pelo sucesso do cachopo; todavia, era nele que o professor Duarte via a centelha mais viva da vontade de aprender. A sua lousa era uma metade aproveitada de uma outra, que se partira e tinham deitado fora, e o petiz embrulhava-a com um pano grosso de lã, protegendo-a contra qualquer acidente. Nos caminhos para a escola, menino ouvia os cheiros, tocava os sabores e via os sons do mundo como nenhum outro.

O professor Duarte viu a criança por dentro e, em dezembro, quis falar com a mãe. “É que o seu filho é muito inteligente e é uma pena andar aqui a marcar passo. Se o deixasse ir fazer exame especial a Lamego ali pelo Natal, ela passava para a 2ª em janeiro e em outubro já iria para a 3ª, ou seja, faria duas classes num ano”. Os ouvidos de mãe ouviam com gosto, mas o que o professor disse depois angustiou-a: ”…mas terá de frequentar a 2ª classe em Lamego, não aqui”. E agora? Como é que haviam de arranjar? Como iria para a cidade? Com que roupas? Não dava, senhor professor, não dava!

Como o professor dava aulas de tarde na cidade, prometeu que o levava e trazia, mas pouco mais podia fazer. Por isso, a Cidália Sanona nem dormiu. No dia seguinte falou com o marido e prometeram a si mesmos que se descalçariam de tudo para poderem dar asas ao filho, porque seria ele quem os colocaria de novo num mundo redondo, sem cantos de miséria.

Assim foi: o Avelino acabou o liceu na cidade e veio para Coimbra, onde se formou em Direito, voltando já homem para a cidade do Douro como excelso advogado. Foi sempre o melhor entre os seus pares, respeitado e afamado conselheiro. 

Os pais, esses, sem deixarem de trabalhar, mal o filho se estabeleceu, encontraram o centro do mundo, sob a abundância da sua capa que, nos dias de vento, batia como as asas que os pais lhe tinham dado quando de tudo se descalçaram.

Antonino Silva


sábado, 23 de janeiro de 2021

EM BUSCA DO QUE FALTA - TEXTO DO PROF ANTONINO SILVA

 Em busca do que falta


Por mor da segurança e medo daquilo que não dominamos e desconhecemos, estamos capazes de abdicar de uma boa dose da nossa liberdade. Muitos acederam à liberdade como um direito adquirido pelo qual não houve mister de lutar. Faz parte do nosso entendimento que aquilo que não nos custou a ganhar também não custa tanto a perder e é por isso que aceitamos um certo compromisso entre o sermos livres e o estarmos seguros.

Olhando para trás, revejo outras formas de liberdade das quais abdiquei por causa de recompensas imediatas de bem-estar. Éramos ganapos que saíamos em bando para a Quinta da Livração, para o Sr. do Calvário ou para o Monte a guardar as ovelhas que, em rebanho, se iam juntando nos locais de pasto e por aí passariam o dia, fizesse frio ou calor, estivesse sol ou chuva.

Enquanto as ovelhas pastavam e pensativas ruminavam, o que haveríamos nós de fazer? Havia que jogar à bola – um dos filhos do Dominguinhos tinha uma bola de catchu, roçada e quase com o pipo à mostra, que fazia as fantasias da cachopada – rolar pneus ou, ainda, enrolar alguma barba de milho, com a qual fazíamos ares impantes de manganões, com cigarros na beira da boca. Às vezes aprimorávamos os artifícios do fumo e fazíamos cachimbos de cana e canudos de esferográficas, que em tudo se pareciam ao cachimbo do Pai Tomás.

As mães não gostavam muito dos jogos de bola ou de corridas de pneus nas leiras, porque cada um de nós só tinha umas botas ou uns sapatos a cote e se fossem esbeiçados ou se as solas saltassem havia que os mandar para o sapateiro – quando havia dinheiro – ou dar uns pontos com arames, o que era o mais frequente. Por outro lado, neste segundo caso, a nossa tristeza era maior, porque, com pontos de arame nos sapatos, éramos proibidos de jogar, para não furarmos a bola na primeira trivela que disparássemos. A opção era jogarmos descalços, mas os danos nos dedos grandes eram consideráveis.

Longe de casa, tínhamos momentos altos no momento da merenda – nome pomposo que dávamos ao que seria o almoço. Era mais eficaz dar-lhe o nome de merenda, porque esta é sempre possível de partilhar, enquanto que o almoço é uma refeição mais egoísta, que cada um costuma comer do seu prato. Por isso mesmo, tudo o que se comia fora de casa era ‘a merenda’ – como que por antonomásia – e com esse nome sabia muito melhor. Merendar era muito mais divertido e livre do que almoçar, pois todos comiam de tudo e do que todos levavam. Provavam-se coisas que em casa não havia e amiúde se trocavam sardinhas por sandes de geleia e sandes de carne gorda por pão com marmelada. Ninguém perdia e todos ganhavam.

Mas o ponto alto dos dias de fim de verão era a caça dos cachaporros. Não me perguntem qual será o nome verdadeiro, mas posso atestar-vos, depois de aturada investigação, que são uma espécie de tubérculos com o formato das trufas brancas que nascem nas raízes de uma planta da família das apiáceas (aipo, salsa, cenoura, cherovia, umbelífera ou cicuta, por exemplo). O nome poderá ter a ver com o feminino cachaporra, um porrete ou cacete para bater. Contudo, esta incerteza quanto à existência ou não do termo, não tira nada à felicidade de, após escavarmos cerca de um palmo, encontrarmos o tal cachaporro de tamanho variável. Alguns eram do tamanho de uma avelã, mas havia outros maiores do que uma batata da semente, quase do tamanho de um nabo. O sabor era agridoce e só se comia depois de rasparmos a casca com uma pedra ou um canivete. Tinham um aspeto barroco e irregular e comíamo-los crus.

Em casa, as mães avisavam para termos muito cuidado e não comermos demasiados, pois podiam fazer mal. Aliás, lembro-me de a minha mãe lhes chamar “comida de sapos”, não sei porquê. A sabedoria que se herdava deveria saber que, muito provavelmente, sendo uma planta da mesma família que a cicuta, haveria por ali alguma toxina de que não conviria abusar. Desconheço a razão, tal como desconhecia na altura. Essa ignorância feliz dava-lhe todo o sabor.

Podia agora alargar a lista dos marcadores de felicidade e tamanha liberdade. Poderia falar da ida às sanchas, da apanha do rosmaninho, dos primeiros revólveres com fulminantes e dos arcos de flechas feitos com vergas de castanho e canas de foguetes. Podia, mas não o farei, pois cada um deles é uma marca indelével de tamanha liberdade que nunca precisou, na altura, de ser trocada pela segurança. Não nos sentíamos inseguros, por isso a felicidade media-se na liberdade que tínhamos. E como éramos livres!

O tempo passou e cada um de nós pediu ao tempo segurança. Segurança nos estudos, nas relações, na profissão e na família. Por cada bocadinho de segurança que o tempo nos deu, levou-nos outro tanto de liberdade e não vale a pena pedir ao tempo que no-la devolva, porque ele já lá vai e não olha para trás.

Texto do Professor Antonino Silva


terça-feira, 29 de outubro de 2019

CABEÇAS DE PREGOS, OU DAS VANTAGENS DE FAZER EM VEZ DE DIZER


 Quantas vezes julgamos que umas palavras amigas e outras tantas palavras sensatas são suficientes para curar uma alma ou um coração aflito? Quantos de nós não estimam a palavra certa, na altura certa, para nos traçar novos rumos e nos mostrar outras cores na paleta da vida?
  
  Decerto, serão muitas as vezes e serão muitas as pessoas que se reveem no dito, mas a verdade é que são também muitos os casos em que uma ação certeira é muito mais importante do que todas as palavras do mundo.
                                                                                                             No Monte, bem nos limites da freguesia, deu-se um episódio em que o gesto foi tudo e as palavras não serviram de nada. Eram casos desavindos, de vizinhanças enciumadas por causa das águas e dos animais no pasto. Mais do que uma vez, o Maltês envolvia-se com o Ti Francisco por dá cá aquela palha e tudo porque os ódios eram antigos e não havia convivência possível entre os dois vizinhos. 

  O Ti Francisco era um solteirão convicto, que vivia em casa do irmão, na quinta das Secárias, pagando com o seu trabalho intermitente a hospedagem que este lhe dava. Tinha um jeito especial para junguir (não se conhecia jungir, a palavra correta) as vacas e aparelhar a égua sempre que era preciso ir a Lamego. Tinha um ar bem-disposto, um pouco namoradeiro, mas sempre cordial para todos. Só com o vizinho é que cultivava um ódio de estimação.  

  Houve um dia em que a discussão foi tão azeda que envolveu ofensas à memória de ambas as famílias e o Maltês cantou uma série de salmos insultuosos que ofenderam fundo a consciência do seu rival. Este, despeitado pela afronta, foi para casa e começou a preparar a dose da vingança que lavaria a honra ofendida. Eram tempos em que o sangue lavava e mandar os maldizentes para debaixo da terra era coisa de homem. 
                                                                                                            Com método, pegou espingarda de carregar pela boca, uma carabina ainda da guerra peninsular, usada na caça, reforçou a onça de pólvora negra e, desconfiando da eficácia do chumbo miúdo neste tipo de necessidades, pegou num monte de pregos ferrugentos e pôs-se a cortar-lhes as cabeças com a talhadeira em cima da safra. Com elas preparou a dose para vazar o Maltês. 

  O irmão, avisado, disse da sua discordância e avisou que seria a desgraça de todos. O Maltês, mais dia menos dia, teria a sua paga e a vida se encarregaria de o castigar. Mas nada feito: as palavras sensatas e corretas não o demoviam e queria à viva força atirar-se ao caminho da casa da quinta do Maltês, para o esperar a meio da manhã, quando regressasse para o almoço. Perante tal teimosia, o irmão recomendou, então, que almoçassem eles também antes, e só depois se veria o que fazer
.   
 Nada convencido nem vencido, o Ti Francisco achou que não seria pelo facto de adiar por algumas horas a sua vingança que haveria diferença, até porque quanto mais fria, mais bem servida ela seria.  E foram almoçar. 
                                                                                                            Só que a cumplicidade do irmão e da cunhada funcionava muito bem nestes momentos e não foi necessário mais nada do que um ligeiro olhar e aceno de cabeça para ela pegar na arma e a esconder no forro da casa, carregada como estava. 
                                                                                                            Sem meios, o Francisco teve de desistir da sua empresa e o mundo escreveu os destinos. Por uma outra razão, o Maltês envenenou-se dois dias depois com 605 forte, vindo a morrer de forma horrível ao fim do quarto dia de agonia e a arma com as cabeças de pregos nunca foi disparada, por medo de rebentar
.                                                                                                            Acho que ainda anda lá por casa da nossa família, a enfeitar a parede de um dos corredores

Antonino Silva

domingo, 7 de julho de 2019

CONTOS ANTIGOS - SERRA DE CAMBA


Há duas semanas passei pela A24, no troço que liga Bigorne a Lamego, e recordei-me de quando não havia ali estrada alguma e, para passar essa parte da serra, era preciso conhecer bem os carreiros que permitiam atalhar a pé, evitando grandes voltas. Hoje, a autoestrada é uma cicatriz na crista do monte e quem lá passa não conhece muitos dos dramas que ali se viveram. Um deles foi-me contado pelo meu pai, nascido e crescido num vale dessas serras. Os montes da Camba, na serra da Póvoa, eram lugares de lendas e fontes de exagero. De lá vinham as nuvens carregadas que se condensavam na serra de Montemuro e antes de chegarem à zona de Melcões largavam tudo quanto tinham, abrindo barrancos onde cabiam carros de bois. Quantas vezes a quinta do Pereiro viu ir com a enxurrada o milho de mais de 50 taleigos e, como não há ida sem vinda, viu chegar a fome que levou muitos da aldeia à procura de trabalho nas quintas do Pinhão.
                                                                                                                                                            Era uma serra de magia, que escondia muito do outro lado. Para alguns rapazes, escondia as belezas prometidas das moças casadoiras de Pretarouca ou de Peixeninho. O Zé Claro não era exceção: tinha caídos de amores pela Rosália de Peixeninho e, como fiel amoroso, todos os domingos atravessava, então, a serra da Camba e um pouco depois da hora de almoço estava já no largo da igreja, onde as moças se reuniam, e ele, disfarçando menos do que ela, conseguia chegar à fala num intervalo de desatenção da mãe, pelos vistos já ensaiado em casa. A cachopa gostava dele e à mãe não desgostava, até porque ela tinha mandado a Meijinhos um primo almocreve que, a título de querer trocar umas taleigas de pão por duas cestas de fruta, tinha sabido do rapaz quanto era necessário. Soubera que ele era trabalhador, amigo dos pais e responsável pela educação das irmãs mais novas. Com isso tudo, a mãe da Rosália sabia que ele era uma boa cepa onde deixaria a filha enxertar os frutos da vida e a sobrevivência da família. Por isso mesmo é que fingia as distrações para o Claro acertar as coisas com a moça.
                                             
      Os domingos dos dias grandes ofereciam uma tarde larga em que os apaixonados se viam e falavam por algumas horas. Por vezes havia bailes de concertina ou de gaita de beiços e muitas vezes ela foi autorizada a dançar com ele. Dançando num pé e falando noutro chegaram então a compreender o mundo de coisas mais sérias e falaram do futuro, dos filhos que teriam, dos campos que o Zé Claro cavaria e das cepas de vinho que o pai dela lhe deixaria colher. Casariam no outro verão, por alturas das festas de S. Tomé
                                                                                                                                                             Veio o outono e o inverno, as tardes pequenas chegaram, e depois das 3 horas de caminho até Peixeninho, poucas horas restavam de enleio, pois no regresso teria de contar outras três, parte delas já de noite. E se de noite todos os gatos são pardos, no caso dele eram os lobos que uivavam do mesmo modo. Domingo após domingo, sentia o coração pequeno quando, depois da ponte de Reconcos, tinha de passar os montes da Camba e, então, começar a descer para a sua aldeia. Parecia também que cada domingo os lobos uivavam mais perto. Até parecia que havia fome na serra e isso tornava-os afoitos. Apesar disso, confiava na navalha que levava no bolso da samarra e também no pau de cana-da-Índia, com uma lâmina no topo e um coto de metal pesado e inteiriço na base, que era capaz de abrir a cabeça a um boi

.         Assim, quando, naquele início de noite de neve e frio a matilha o acossou já na descida da Portelada, subiu num penedo e, com a navalha numa mão e batendo com o cajado nas pedras de seixo para fazer faíscas, foi resistindo quanto pôde.


      A imaginação dos que cá ficam quando falam dos que partem é sempre benevolente e laudatória. Por isso, quando na segunda, de madrugada, o povo partiu à sua procura e apenas lhe encontrou os pés dentro dos sapatos, algumas pessoas afirmavam que o coitado lutara bravamente e com a vara tinha feito tantas faíscas que até parecia que tinha trovejado nos montes da Camba

Antonino Silva-Coimbra

terça-feira, 21 de maio de 2019

DO SER AO PARECER VAI UMA LARGA JORNADA

Do ser ao parecer vai uma larga jornada
                                                                                                                                                                 A vida moderna exige de nós um conjunto de comportamentos que, em princípio, correspondem a outras tantas atitudes que lhes subjazem. Geralmente, os comportamentos apropriados revelam atitudes corretas e aqueles que estranham ou escandalizam têm por debaixo atitudes impróprias de boa pessoa. Contudo, algumas vezes, determinados comportamentos (entendo por comportamento a face visível, observável da existência passível de julgamento) têm subjacentes atitudes bem diversas, quase como se entre o ser e o fazer houvesse uma larga jornada. Imaginemos aqueles seres humanos altruístas que, para salvarem um seu semelhante de uma situação de escravatura, tirania ou xenofobia, tivessem de assumir comportamentos parentemente iguais aos dos opressores para, disfarçadamente e sem denunciarem as suas intenções, poderem atingir o seu objetivo. A história tem diversos destes casos e a literatura engendra outros com o mesmo propósito: provar que a avaliação de um comportamento pode ser baseada em falácia e em falibilidades.
                                                                                                                                                              Nas vidas mais simples isso também acontece e vem-me à ideia um episódio que o meu pai me contava. Na aldeia encravada num das encostas da serra do Montemuro, havia uma família bem pobre cujos filhos eram subtilmente apontados e rejeitados nas brincadeiras da escola e noutras brincadeiras de rua, só porque não eram ricos nem remediados. No recreio, os outros meninos lanchavam o que a mãe lhes preparava e eles não; mas tinham aprendido a não ‘ougar’ e, para sofrerem menos, afastavam-se, continuando a brincadeira e afirmando que não tinham fome. Por desconfiança e acusando-os de pobretanas os outros começaram a evitar brincar com eles e, como lhes diziam as mães, a afastarem-se de gente que “nem pão tem para comer” e que mais tarde ou mais cedo lhes iria pedir parte da merenda. Isso magoou profundamente as crianças e, por amor delas, a mãe, que via os meninos tristes sem terem deixado de ser pobres. Então, o génio de mãe resolveu divorciar o ser do parecer e fez a promessa aos filhos de que não seria por aquilo que comiam que seriam estigmatizados.
                                                                                                                                                                 A partir de então, fosse ou não em épocas de maiores dificuldades económicas e de carestia, quando os filhos brincavam com tantos outros meninos no largo do cruzeiro, na descida para o Fojo, dirigia-se-lhes, recomendando-lhes que fossem merendar a casa, porque tinha deixado na mesa pão com uma iguaria qualquer. Aquilo que os seus pares ouviam elevava-os na sua consideração e a integração no grupo era cada vez mais consensual: quem tem petiscos para comer é porque não é pobre e não vai pedir. As brincadeiras decorriam então felizes para todos.
                                                                                                                                                          Visto assim de longe, o comportamento desta mãe, diremos nós, assentava numa mentira e seria, por isso, reprovável, pois aquilo que exteriorizava era um caso claro de exibicionismo; mas talvez não seja assim, porque, após a chamada da mãe, os meninos iam saltitantes para casa e, chegando lá, encontravam na mesa o habitual prato de sopa pobre que, duas ou três vezes ao dia, comiam e sabiam que, mesmo assim, tinham de dar graças a Deus por não passarem fome. Eles sabiam que os outros meninos com quem brincavam, esses sim, tinham nas mesas pão com marmelada, geleia e queijo, mas, para eles, aquela sopa era o pão com presunto que, devido à atitude da mãe, lhes dava o livre acesso ao mundo da brincadeira e da igualdade.

Texto de Antonino Silva

segunda-feira, 6 de maio de 2019

QUEIMA DAS FITAS

A propósito
Se soubesse no que a coisa ia dar, não teria vindo.

Há um pequeno livro de Fernando Assis Pacheco que retrata a vida de um emigrante galego na Cidade de Coimbra, na segunda década do século passado.
Chama-se, a obra, Trabalho e Paixões de Benito Prada e acedi-lhe através de um volume da coleção Livros RTP, na edição nova.

O livro encerra em si todas as carateristcas da literatura picaresca, aquela  literatura em que o herói assume a sua condição humana plena e as peripécias da história são exatamente os eventos menos prestigiantes, aqueles que nos fazem realmente humanos e não semideuses. Sendo Benito Prada imigrante e galego numa cidade de ilustração, permite ao autor focalizar internamente, pelos olhos do estrangeiro, aquilo que de mais estranho a nossa cidade apresenta: uma divisão inconcebível, aos olhos de uma república democrática, em pleno século XXI, entre os futricas e os estudantes.

É evidente que a cisão entre os dois mundos foi mudando de cor, mas continua a existir. A divisão sociológica e geográfica que prevaleceu até meados do século XIX não desapareceu de todo. Até então, aos estudantes estava reservada a cidade dos estudos dentro do espaço das couraças e cuja porta de Almedina era cerrada no cair do sol. Se um aluno fosse apanhado fora do seu domínio pela guarda real, era imediatamente preso e entregue à guarda académica, que o colocava umas horas ou uns dias na prisão, nos calabouços da biblioteca Joanina. Mas no convívio diurno, o estudante era rei e senhor de uma cidade que existia para o servir e quase tudo lhe era permitido, perdoando-se-lhe a boémia e o excesso.

E hoje, como se vive essa coexistência? Se é verdade que o mundo estudantil e o futrica convivem no mesmo espaço urbano, será que sociologicamente essa convivência é pacífica?. Perguntem isso mesmo aos residentes da alta, especialmente aos vizinhos da Sé Velha, perguntem às vendedeiras do mercado quando lhes assaltam a banca para roubar o nabo, perguntem ao dono da tasca no dia do cortejo da latada ou da queima, que prefere fechar  para não ter de ver os estudantes a sair pela porta sem pagar o consumo.
Isto tudo a propósito de um comentário breve ouvido a um pai de família num dos cortejos académicos. Esse pai, que tinha vindo ver o desfile onde o seu rebento desfilaria em cima do carro - um fitado portanro- ao ver o estado em que o filho se encontrva, embebedando-se exaltadamente, apenas pôde dizer:"se soubesse que a festa era esta futrica, tinha pensado duas vezes antes de vir".

Por Antonino Silva,

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

MILAGRE DE NATAL

Milagres de Natal

Para haver um milagre é preciso coisa pouca: quem o faça e quem dele receba a graça. Não querendo perorar sobre o conceito, caio num caminho mais modesto de afirmar que os milagres acontecem todos os dias aos olhos de uma criança que tem anseios ou de um pai e marido que espera por dias melhores.  

Só mesmo um milagre poderia acontecer para que aquele Natal fosse Natal, pelo menos para que, naquela casa, os dias tivessem a cor, o cheiro e os sons do Natal. O médico trazia a mulher desenganada e remetera-a para o Porto, para o Hospital da Prelada, onde uma cirurgia de recurso poderia prolongar-lhe os dias. Eram pobres e, ainda jovens, já tinham oito filhos que consumiam os parcos recursos que a quinta lhes fornecia. 

Com a mulher internada, lá longe, ele tentava que aquele dia de consoada fosse, ainda assim, uma evocação dos dias felizes e, com a cumplicidade das filhas mais velhas, asseara o canto da cozinha onde a mesa negra de castanho envelhecido acomodava toda a família. Pusera a toalha de linho que a mulher guardava ciosamente para os dias de festa e nesse dia cada um comeria do seu prato e não dos pratos de partilha que geralmente ocupavam o centro da mesa. A couve de Natal fumegava num dos potes, enquanto no outro acabavam de cozer as batatas com bacalhau.
Os mais cachopos procuravam o brilho dos dias felizes, mas faltava-lhes a mãe que tinha aqueles abraços galinha, que os confortava em todas as situações. Seria uma triste noite de consoada, uma triste manhã de Natal e outros tristes dias se avizinhavam.  O médico tinha dito que não passaria do inverno e que seria melhor deitar os corações ao largo.

Quando se sentavam à mesa, ouviram bater à porta: decerto alguma vizinha a pedir um fio de azeite ou uma pitada de sal para o tempero da ceia, coisas que só podiam ser compradas na venda, que a esta hora já estaria fechada. Ele foi abrir e viu à sua frente o rosto da mulher, pálida, mortiça, envolta num xaile de lã que a abrigara do frio desde o apeadeiro da Ermida até à aldeia. Abraçou-a e os filhos acorreram em bando a beijar a mãe, que os abraçava a todos, com um coração em forma de mãos. Como era possível a mãe estar aqui? Então não estava no hospital?
– Pois sim, deveria ser isso, mas o doutor disse que estou bem melhor e que já não é preciso ser operada.

A cachopada celebrava a presença da mãe, uns em silêncio, outros em lágrimas de felicidade e a consoada foi feliz como não era há anos. Nessa noite ninguém se deitaria antes de ser Natal e à luz do candeeiro de petróleo jogou-se ao Rapa, ao “par ou pernão” com os confeitos, ouviram-se cânticos de Natal no velho rádio sintonizado na Emissora Nacional e até foi bebido vinho do Porto com as fritas de botelha e as orelhas-de-abade. Só um milagre explicava tamanha alegria.

Quando se foram recolher, explicou ao marido que estava por um fio e que o médico desistira, primeiro do que ela. A vida estava a esgotar-se e que muito lamentava a tristeza que via nos olhos do homem da sua vida.
– Deixa lá, – disse-lhe ele, com a voz embargada – hoje foste milagre para oito!

Antonino Silva