Mostrar mensagens com a etiqueta Quito Pereira - Fábulas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quito Pereira - Fábulas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

UMA FÁBULA DOS TEMPOS MODERNOS ...





Era uma vez um galinheiro. Um grande galinheiro. Tão grande, que teve que se expandir. Já lá não cabiam tantos galos de crista soberba e reluzente. E as dezenas de galarós sabidos, que comiam milho que se fartavam e prestavam vassalagem ao galo de nome retumbante. Naquele galinheiro, havia também outros animais de asa: patos e frangos depenados. Esses, não comiam nada. Só lá deixavam o milho, sabe-se lá com que sacrifício …

Um dia, o galo – mor que supervisionava todos os galinheiros do quintal, teve um sobressalto. Pressentiu lá do alto do seu poleiro, que algo não ia bem no reino do grande galinheiro. Chamou então o galo de crista reluzente e, cacarejando forte, disse - lhe:

- Vais continuar no grande galinheiro, mas vou lá pôr um galo da minha confiança a tomar conta do milho …

Grande decisão. Porém, o galo – mor, que supervisionava os galinheiros do reino, cometeu a imprudência de deixar lá continuar o galo de crista luzidia. Foi o drama. O manhoso galo, num passe de magia, travestiu-se de raposa e comeu as galinhas todas do galinheiro. Saciado e a ostentar as suas coloridas e luxuosas asas, disse de sua justiça:

- Estou a ficar velho e alquebrado, o melhor é pôr-me ao fresco e descansar no meu poleiro de cristal …

Na grande capoeira, agora virada do avesso, foi preciso tomar providências. Limpou-se o galinheiro da escória de cheiro pestilento e tranquilizou-se todos os frangos depenados, patos crédulos e incrédulos e pintos em agonia, assegurando o galo – mor, que o milho deles estava bem guardado.

Quem ainda não apareceu nesta história foi o lobo. O lobo mau - dizem uns. Relativamente mau - dizem outros. E muito bonzinho – dizem ainda outros. Mudo e quedo, o lobo anda lá pelos fundos do reino, a praticar surf nas ondas frescas que enrolam na areia. E é por isso é que isto é uma fábula dos tempos modernos.

E agora, como em todas as fábulas que se prezam para meninos de jardim – escola, aqui vai a moral deste conto de encantar :

Enrolados andam os portugueses, a esmagadora maioria dos portugueses, a moirejar honestamente a vida inteira, para juntar uns míseros grãos de milho no fundo da capoeira. Resta apelar à Providência Divina que  proteja – a todos os cidadãos de boa vontade - os bens. Oremos pois, todos numa só voz: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.  

Mas que trampa de fábula ….

Quito Pereira