Mostrar mensagens com a etiqueta Encontro com a Arte-Daisy. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Encontro com a Arte-Daisy. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de abril de 2018

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ENCONTRO COM A ARTE..

...alguém sabe o que é isto?
  Sequência da construção... que acho que continua!
São abelhões... 
 2ª camada....
   fotos de Daisy Moreirinhas

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

sábado, 26 de março de 2016

POSTALINHO DE SALAMANCA

Procissão da Confraria de La Vera Cruz. Boa Páscoa. Beijinhos e abraços da Daisy e do Alfredo Moreirinhas



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

COIMBRA-BAIRRO NORTON MATOS

Rafaelito, tirei a fotografia no Domingo, quando fomos mostrar o Penedo à nossa amiguinha Giulia. Há muitos anos que lá não ía... e surpreendeu-me o Bairro "afogado" numa floresta de pedra!
Beijinho.
Daisy


Obrigado Daisy

terça-feira, 24 de março de 2015

ENCONTRO COM A ARTE-POR TERRAS DE MONTEMOR-O-VELHO...

...Manhãs do Samambaia-Almoços de domingo
EREIRA
EREIRA
CASTELO DE MONTEMOR

Fotos de Daisy 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUEM TEM BOA MEMÓRIA?

Pergunta a Daisy...Um Dèjá vu... Pequenina, tornou-se grande!!!!Onde?


Foto Daisy

sexta-feira, 25 de julho de 2014

COIMBRA - MARGEM ESQUERDA DO MONDEGO

Onde está o tal de Centro de Congressos que tapa o Mosteiro?
Esta é para o Paulo Moura
Daisy
nota do ADMCâmara  de  Coimbra  aprova  transformação  de  igreja  em  centro  de  artes - ver mais  em  comentário

segunda-feira, 24 de março de 2014

ENCONTRO COM A ARTE - Fotografia

Abençoada chuva que, esta manhã, embelezou as minhas orquídeas !



foto DAISY


domingo, 23 de março de 2014

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ENCONTRO COM A ARTE

CONTOS
da Daisy


--------------------------------------------------------------------------- 



Quanto custou? Ora, barato ou caro… dinheiro em notas ou em moedinhas reluzentes, mesmo sem sol a bater nelas… preço!… Não, a questão não é propriamente essa…
E o agente olha-me com ar desconfiado, direi mesmo, enojado-compadecido. Raios! Eu sei que não sou beleza por aí além. Até sei que o meu aspecto de velho vagabundo não é por demais agradável às pessoas que tomam duche quente todos os dias e que têm um escravo para se curvar, a limpar o chiqueiro que fizeram. Eu até sei, palavrinha, mas… mas nojo? Tomei banho, sim senhor; tomei… (pensando bem, talvez já nem me lembre, que esta cabeça já anda pelo outro mundo há muitos anos…) …E compaixão? Oiça lá: não há por aí tanta rapaziada nova agarrada a um cajado? Na minha idade, usar muleta não é nada de admirar. Que eu até já estou na terceira idade, naquela da esfinge do Édipo… Pena? De ninguém, ouviu? Ter pena é degradante; não para os outros, mas para o próprio, que se julga, assim, superior!…
Não senhor, não era pelo preço. Que as coisas, a partir de certa altura, habituando-nos nós a elas como a entes de família, deixam de ter preço. Mas…e se fosse? E se fosse caro, hem? Admirava-se? Vá, diga! que admiração?… Até podia ser bom. Por ter as calças remendadas e o casaco coçado… não poderia ter um bom chapéu? Ah, o meu chapéu!… Não, não senhor, não estou a chorar coisíssima nenhuma, que chorar já não posso. O meu chapéu, homem? Era velho. Era, era… era velho! E depois? Não, não estou a gritar. Eu é que sou um pouco surdo… e preciso de me ouvir. Quando a gente já não se ouve, é muito triste…
Preto? Que preto?… Branco. Branquinho, branquinho. Bem… um pouco sujo. Tinha medo de o estragar… e um chapéu daqueles!…
Eu não choro, não, mas… o meu chapéu?
Não senhor, não quero nada ficar aqui. Para quê? Eu só queria o meu chapéu…
Mas, oiça, não me mande para ali esperar. Que eu já sei como são essas coisas… A senhora boazinha está lá? Pois deixe-a estar. A ela mais o caldinho e o pão, pois. Que coma, que coma, que eu fome não tenho. Eu só quero o meu chapéu. O meu rico chapéu…
Que lhe interessa? Tenho onde dormir, pois tenho. E também não passo fome, já lho disse… Para que está com histórias… se eu só quero o meu chapéu…
Pronto, não há remédio: perdi-o mesmo. Meu grande mariola, estavas farto cá do velho, não era? Cansaste-te de me tapar a careca!... Também tu, não é? Mas olha que me desgostaste. Falar com o meu chapéu não é o mesmo que falar com uma pessoa… e eu até gostava de falar contigo, de conversar. Afinal, sais-te igual, igualzinho, aos outros… Que isto de saturação encontra-se ao virar de todas as esquinas. Também tu saturaste, pois foi? Como os outros. É que, no fundo, tinhas de ter qualquer coisa de humano, para eu gostar de falar contigo. Só que, se eu soubesse, não te tinha dado tanta atenção. Mas faz pena, faz pena…
Não senhor, não preciso. Eu sei ir sozinho para casa.
Adeus, minha senhora, pode ir embora também, que hoje já não deve vir ninguém para comer a sopinha. Venha amanhã, que velhos inválidos e com juízo perdido não faltam por aí. Eu estou bem… só perdi o meu chapéu. Qualquer dia até perco o dinheirito lá do meu catraio. E perco, depois a enxerga e a bucha. Ora, mas perder por perder… até me custou mais o chapéu, o ingrato, que se esqueceu de tudo o que lhe mostrei em todos estes anos… é tudo uma ingratidão!


26 de Julho de 1973


terça-feira, 24 de setembro de 2013

ENCONTRO COM A ARTE


  CONTOS
  da
  Daisy
              .............................................................................................






Toda a gente tem uma história. E a dele, dizia, era curta. Costumava contá-la assim:
— Nasci, vivi, morri.
Era assim que ele a contava. Mas para lá daquelas três palavras, escondia-se a verdadeira razão por que tudo lhe era indiferente, por que se considerava morto. E não queria recordá-la. Quando o inconsciente lhe mostrava o menino a correr pelos campos em flor, ofuscava a imagem com o véu que o álcool lhe fazia erguer ante os olhos da alma. E não via. Melhor, fingia não ver, porque, na realidade, todos os dias, como um pesadelo, aquelas e outras das cenas da sua vida lhe passavam no espírito como num "écran".
— Nasci…
O menino corria, corria pisando os malmequeres silvestres, na relva do lameiro. O perdigueiro seguia-o e adentanhava-lhe os calcanhares, a brincar.
O menino era feliz.
— Vivi…
A tia velha pegou na carta e rasgou-a, zangada. O rapaz via e chorava por dentro.
— "Quando eu for maior…"
— Vivi…
O rosto da rapariga brilhava, havia algo nela de irreal. Brincava, gaiteira, com os sentimentos dele que lhe confessava, inocentemente, que a amava. A rapariga brincava… A tia velha gritava…
O rapaz "maior" ouvia a tia velha gritar. Que gritasse. Mas a tia velha sabia. A tia velha, porque era velha, sabia tudo. E, como amiga que era, gritava. Mas o rapaz "maior" não era velho… Que gritasse. E ela gritava. E ela gritava sempre.
A rapariga-que-tinha-algo-de-irreal, brincava. E o rapaz, que já não era rapaz, que era homem, não brincava e sabia o que queria. Mas a rapariga brincava… e ria, e moçava.
Moçou sempre, na mesma proporção, em que a tia velha gritava.
E o rapaz-homem cansou-se. E abandonou a repariga-do-rosto-que-brilhava.
A tia velha já não gritava.
Veio outra rapariga, e outra, e outra, mas nenhuma delas tinha o rosto-que-brilhava, nenhuma delas tinha algo-de-irreal. E o rapaz-homem cansou-se novamente.
— Vivi…
Procurou outra vez a rapariga-de-rosto-que-brilhava. E a tia-velha voltou a gritar. E o menino-rapaz-homem começou também a gritar… com a tia velha. E a tia velha calou-se. Nunca mais gritou… Mas a rapariga-que-tinha-algo-de-irreal, continuava a troçar, a troçar. A rapariga-do-rosto-que-brilhava, por fim, parou de rir, e disse-lhe francamente:
— Detesto-te.
E o rapaz-homem, que já tinha sido menino, quis voltar a sê-lo, quis correr pelos campos em flor, com o perdigueiro atrás… Mas não pôde, continuou a viver porque… veio outra rapariga, e outra, e outra…
— Morri…

                                                                                                4 de Setembro de 1969 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

ENCONTRO COM A ARTE

                 CONTOS
                da
               Daisy

__________________________________________________________
          NO HOSPITAL

A velha entrou, com as duas mulheres atrás. Ligeira como uma rapariga, foi até ao fundo da sala e voltou, para se sentar no banco, junto à porta.
— Não vale a pena. Não podemos lá ir sem “ela” dar os papeis…
Tinha modos de criança, e o rosto enrugado possuía algo de meigo.
— Esperemos… “Ela” não demorará, tia Ferreira…
A mulher gorda, com aspecto de mais velha do que a outra acompanhante, consolou-a assim, meio risonha.
A velha olhou os outros doentes à espera, e murmurou, com ar aborrecido:
— Tanta gente…
Muita gente. E era sempre assim, desde que viera da terra para ali, para se curar. Saía lá da enfermaria, para fazer os exames… e encontrava a sala cheia, sempre.
— Há tanta gente doente…
E os olhos, húmidos, miravam tudo.
— Mas eu sou um velha “carcaça”. Não presto para nada… Inda que os novos se tratem… mas eu… eu não me curo, não. Já sou muito velha.
— Ora, ora, a tia Ferreira tira agora um “retrato”, vai ficar toda bonita e vai ver que já está boa e já se pode ir embora para a sua terra.
— Para a terra…
O pensamento voava-lhe. As esperanças de novo lhe vinham. Os olhos húmidos ficavam-lhe secos e a cara de menina-velha tomava vida.
Havia de ir para a terra. Havia, sim senhora! Ora ora, que estava ela com aquelas lamechices? Também, ela não era velha por aí além, que diabo! Diabo. Diabo, não! Não devia falar nele!... Pensar só em Nosso Senhor. Isso! Em Nosso Senhor e na Virgem… naquela lá da capela… na dos anjinhos aos pés… como se chama ela? O senhor abade é que sabia! Ora, era a Virgem!... Só há uma, porquê chamar-lhe tantos nomes? Pois, então, não falar do diabo — t’arrenego! — falar em Deus, na Virgem e nos santinhos… — e em seu Manel, sempre solteirinho, mas que havia de casar. Ai, havia, havia! Quando viesse lá das Franças… E ela havia de ver! Havia de curar-se! Havia! O “retrato” havia de ficar bonito, pró senhor doutor lhe dizer que já faltava pouco… Havia… havia…
— Mas é preciso a gente não respirar para ficar bem, não é?...
— Temos de encher os pulmões…
— Ah… e depois não se respira, não é?
— Pois é.
— Então é assim que farei!
E ficou-se, num mutismo que deixava adivinhar um mundo de pensamentos na cabeça baixa, de olhos no chão.
Aconchegou a túnica de flanela, o hábito do hospital, e disse, como se falasse consigo mesma:
— Pobre diabo, que nem saia tens…

27 de Julho de 1972


terça-feira, 11 de junho de 2013

ENCONTRO COM A ARTE

CONTOS
                                da
                               Daisy
                ----------------------------------------------------------------------------------------






…se eu fosse uma ave, voava para aí. Oi!
Maria-perdida perdeu-se de vez. Olhou para as águas; cismou em querer dançar no manto transparente. E dançou.
Tinha olhos-de-águas-negras-de-lagos-profundos. E fingia que não sabia o que havia no fundo dos lagos. E dizia. E pedia.
…se eu fosse ave, voaria sobre os lagos. E fingia-me de gaivota, para poder mergulhar. E, sempre no fingimento, procuraria o peixe, bem lá no fundo; só para ver, para saber. E deixava  o peixe viver… e saberia.
Mas como não sou ave, nem eu nem Maria-perdida, nunca poderei voar para aí e dizer-lhe "Maria-perdida, não perdeste tudo, que os homens só obtêm de nós o que nós lhes queremos dar…"
Maria-perdida, perdeu-se uma vez, por um sonho. Que os sonhos valem mais do que a realidade, quando a realidade é a dos outros e não a nossa. Que o sonho ajuda a viver e a realidade mata. Mas o sonho da Maria-perdida não era sonho, mas máscara de Carnaval usada durante todo o ano. Que o sonho desfez-se, tentando enganar na sua máscara-desmáscara. E do sonho a fingir o Carnaval que já fora e não era, nasceu uma nuvem escura-escura, salpicando a voracidade de quem tem fome de todos os contactos, tingindo-se de vermelho de sangue sem-dono-e-com-todos-os-donos. Do sonho, nasceu pesadelo de horas perdidas.
Maria-perdida mergulhou de vez no lago de águas profundas. E como não era ave, ficou-se no fundo. Para saber tudo. Para ver tudo. Para esquecer tudo.
…se eu fosse uma ave, voaria para aí. Mas não pousaria, sequer, no rochedo grande e despido que cresce do lago. Ignorá-lo-ia, a ele que teima em impor-se às águas que o cercam. E que se impõe… que as águas humilhadas, se vão sumindo.
           …se eu fosse ave, voaria para aí, para contemplar Maria-perdida-perdida-de-vez,
No seu corpo feito pedra do rochedo que continua a crescer, no meio do lago.

21 de junho de 1973


terça-feira, 16 de abril de 2013

ENCONTRO COM A ARTE



CONTOS
da
Daisy

                ......................................................................................................................






A velha entrou, com as duas mulheres atrás. Ligeira como uma rapariga, foi até ao fundo da sala e voltou, para se sentar no banco, junto à porta.
— Não vale a pena. Não podemos lá ir sem “ela” dar os papeis…
Tinha modos de criança, e o rosto enrugado possuía algo de meigo.
— Esperemos… “Ela” não demorará, tia Ferreira…
A mulher gorda, com aspecto de mais velha do que a outra acompanhante, consolou-a assim, meio risonha.
A velha olhou os outros doentes à espera, e murmurou, com ar aborrecido:
— Tanta gente…
Muita gente. E era sempre assim, desde que viera da terra para ali, para se curar. Saía lá da enfermaria, para fazer os exames… e encontrava a sala cheia, sempre.
— Há tanta gente doente…
E os olhos, húmidos, miravam tudo.
— Mas eu sou um velha “carcaça”. Não presto para nada… Inda que os novos se tratem… mas eu… eu não me curo, não. Já sou muito velha.
— Ora, ora, a tia Ferreira tira agora um “retrato”, vai ficar toda bonita e vai ver que já está boa e já se pode ir embora para a sua terra.
— Para a terra…
O pensamento voava-lhe. As esperanças de novo lhe vinham. Os olhos húmidos ficavam-lhe secos e a cara de menina-velha tomava vida.
Havia de ir para a terra. Havia, sim senhora! Ora ora, que estava ela com aquelas lamechices? Também, ela não era velha por aí além, que diabo! Diabo. Diabo, não! Não devia falar nele!... Pensar só em Nosso Senhor. Isso! Em Nosso Senhor e na Virgem… naquela lá da capela… na dos anjinhos aos pés… como se chama ela? O senhor abade é que sabia! Ora, era a Virgem!... Só há uma, porquê chamar-lhe tantos nomes? Pois, então, não falar do diabo — t’arrenego! — falar em Deus, na Virgem e nos santinhos… — e em seu Manel, sempre solteirinho, mas que havia de casar. Ai, havia, havia! Quando viesse lá das Franças… E ela havia de ver! Havia de curar-se! Havia! O “retrato” havia de ficar bonito, pró senhor doutor lhe dizer que já faltava pouco… Havia… havia…
— Mas é preciso a gente não respirar para ficar bem, não é?...
— Temos de encher os pulmões…
— Ah… e depois não se respira, não é?
— Pois é.
— Então é assim que farei!
E ficou-se, num mutismo que deixava adivinhar um mundo de pensamentos na cabeça baixa, de olhos no chão.
Aconchegou a túnica de flanela, o hábito do hospital, e disse, como se falasse consigo mesma:
— Pobre diabo, que nem saia tens…

27 de Julho de 1972






sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ENCONTRO COM A ARTE


CONTOS
da
Daisy

…………………………………………………………………



A TERESINHA


— A «Lissa» é feia?
A Teresinha olha-me, os olhos muito grandes, risonhos, lançando para o ar a pergunta, ùnicamente para me despertar a atenção.
— Não é.
— Pois não.
Amanhã, vou dizer-lhe que o detesto. Falar-lhe, bem de frente, e reproduzir-lhe exactamente, o que me vai na cabeça. Não tenho ciúmes. Sinto-me, simplesmente, despeitada. A Luisa não é feia. Não é. Pelo contrário, é bastante, bonita. Mas a Luisa não é para ele. E, daí, talvez seja.
— A «Lissa» é má?
— É! — gritei.
A pequenita encolheu-se e parou de mexer a cadeira-baloiço. Ficou muito calada, pasmada e assustada e, como a medo, atirou:
— Olha a tua «moneca»... — e apontou a boneca velha em cima da cama.
— Não ma emprestas?
Entreguei-lha e afaguei-lhe a cabecinha fazendo-lhe voltar o sorriso.
Ali estava eu, sem ter dormido sequer um minuto, enquanto o menino se retemperava, estirado, das forças que a Luísa lhe havia feito perder, toda a noite. Não gosto da irmã dele. Há qualquer coisa nela que me faz lembrar... lembrar... por Deus, porque hei-de matutar sempre na mesma coisa? Mas não cabe em mim pensar ou não pensar... E, sem querer, volto a ver a mesma cena, recuo uma dezena de anos e dirijo- -me à biblioteca, de laços azuis a prender as tranças loiras, a saltitar, contente. De novo abro aquela porta, ansiosa por me sentir estreitada nos braços do pai, que vem de viagem. Da mesma maneira, abro a boca e não digo nada, e fico especada, à entrada: o pai e... aquela mulher!... Eu mal a vi quase não tive tempo de a fixar, porque ele se pôs à frente, porque ele tentou balbuciar algo, e eu o abandonei, fugi, sem saber que juízo fazer... Mas aquele rosto... a cara da irmã do Chico, que eu nunca vira...
Não quis ser malcriada, mas a repulsa que ele me causou, foi mais forte.
— Tu ontem «fotes» à festa...
Eu ontem fui à festa. A Teresinha também o sabe. Fui à festa, e vim cedo. Zanguei-me com o Chico. Ele não gostou e... voltou à namorada antiga... A Luísa é má. Mas eu amo-o. E não me interessa mais nada, não me interessa...
Olho a pequenita, na minha frente, mas, a pouco e pouco, vou deixando de a ver. Fixo um ponto indeterminado, vejo os olhos dele, iracundos, e oiço-o balbuciar:
— Que tem a minha irmã que te desagrada? É a minha família. Não existe, para mim, mais ninguém além dela. Criou-me desde miúdo, como uma mãe. Não te compreendo. Quis apresentar-te, agora que ela regressa. Quis fazer-lhe sentir que o seu lugar ia ser ocupado por ti. E manténs-te calada toda a tarde, mal respondes ao que ela te pergunta, e dizes-me, agora, que não te agrada!...
— Não quis ferir-te, Chico. Acredita, disse-to para me desculpar...
— Tens de concordar que foste bastante antipática!
— Perdoa... não posso continuar aqui...
— O quê?!
— Não quero magoar-te, Chico. Porque havemos de discutir? Só tu me interessas.
— A minha irmã faz parte de mim... Não posso viver com uma pessoa que detesta aquela que me criou. Podia ser minha mãe... podia ser tua mãe...
Minha mãe... Mas ele não sabia... mas ele não sabe...
E eu não quero... eu não posso voltar a vê-la. O meu inconsciente acorda e... eu sofro.
— ‘Tás a chorar...
— Estou?
— Estás... Queres a tua boneca?
— Não, Teresinha...
— Eu sabia.
— Sabias?
— Pois. Sabes?... ‘Tive em casa do Chico. Ele também está muito «tiste»...   — e inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas, como a querer dizer que uma coisa implicava a outra.
— «Fisseste»-lhe mal??...
— Mal?
— Sim. Ele disse que tu és má... Mas tu és bonita...
O telefone tocou. A Teresinha estendeu a mão. Balbuciou um «’tá» muito triste, ouviu e, depois, estendeu-me o auscultador, risonha:
— É o Chico...
E, do outro lado do fio:
— A Teresinha, a filha da tua mulher-a-dias, esteve cá... Olha, querida, queria dizer-te... queria dizer-te que a minha irmã parte, de novo, para o Brasil, com o marido... Amo-te. Não me abandones. Já vou aí.


23 de Janeiro de 1969

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENCONTRO COM A ARTE

CONTOS
da
DAISY
_____________________________________________

OS OLHOS PRETOS DO PROFESSOR DE FRANCÊS

        Abrandou a corrida. Acabou por parar, cansada, e sentou-se no chão. Doíam-lhe os pés. Descalçou as sandálias e poisou-as na erva fresca do lameiro.
        - Eh! Que faz aí?
        Agarrou nas sandálias e recomeçou a correr. Porque é que fugia? O lameiro era do avô. Quem poderia aborrecê-la por estar em terra que lhe pertencia? Mas fugia.
        Tropeçou num buraco cheio de água, e estatelou-se, ao comprido, com a cara a roçar o chão e a erva verde a entrar-lhe pela boca. Mas era bom estar assim. Estendeu os braços, comprimiu o corpo de encontro à erva, aconchegou a face, sentindo a humidade começar a penetrar-lhe através do vestido.
        Já não fugiria mais. Havia de ficar ali. Estava-se tão bem!...E, além do mais, nem ela própria sabia porque fugia… porque era?
Começou, mentalmente, a reconstruir o sucedido.
        O novo professor de francês tinha sido convidado a passar o dia lá em casa. Ela nunca reparara muito nele; nem tão-pouco, simpatizava muito com o gaulês; era do tipo de francês muito loiro, muito branco… como não gostava dele, não se interessava pelas aulas. No fim do período, as notas foram para casa, mandadas pelo director do colégio. O avô ralhou. A mãe ralhou. Até a Matilde ralhou! Depois, todos queriam resolver o problema,  cada um à sua maneira, claro. Zangaram-se, berraram, em suma, exaltara-se até ao último grau, sem calmamente, indagarem porque é que ela não estudava. A mãe meteu-se no carro e partiu nesse mesmo dia para Vila-Real: a culpa era do professor que não devia ter habilitações para ensinar as crianças: iria falar com ele. Não voltou nesse dia. Nem no outro. Três dias depois, chegou a casa, muito contente, feliz mesmo. Ralhou com ela. Que já sabia que era ela que não estudava, que a culpa não era nada do M. d´Alencourt, que ela precisava era de dois açoites. Não lhos deu. Subiu ao quarto, indiferente ao avô que gritava:
      - E foi preciso tanto tempo para descobrires isso? Nem um telefonema nos fizeste!...
        A mãe não ouviu. Continuou a subir as escadas. Parou ao fim do primeiro lance, debruçou-se no corrimão:
      - O Pierre d´Alencourt vem cá passar o dia. Convidei-o. É de muito boas famílias e deve ser interessante manter relações com eles. Matilde!... Manda preparar qualquer coisa muito especial para o almoço!
        E o M. d´Alçencourt veio. Muito loiro, muito branco, um riso aberto mostrando a dentadura alva. Os lábios eram finos e desapareciam completamente quando  escarancava a boca num sorriso. Não de foi embora nesse dia. Ficou. E outro. Acumulava-a de atenções.
        Sentiu uma mão sobre o ombro direito. Depois, outra sobre  o esquerdo e alguém a levantou.
       - Alors, que está aqui a fazer?
      Desprendeu-se bruscamente e recomeçou a correr.
     - Eh, espere! Não lhe faço mal. Que tem, Joaninha? –
       Parou, de repente.
    - O meu nome é Joana Maria!
    - Ora, é apenas uma rapariguinha. Joaninha ainda lhe fica muito bem… Oiça, já sei que não gosta de mim. Agora, que estamos aqui, juntos, sozinhos, quer explicar-me porquê?
       Afagou-lhe docemente a mão. Sorria e os olhos pretos ficaram, pela primeira vez, em evidência. Porque é que não gostava dele? Os olhos brilhavam, muito redondos., tão bonitos!...
      -Mas eu gosto de si, M. d´Alencourt!...
      Gostava? Deu-lhe um beijo na face. Picou-se na barba. Recusou, mas estendeu-lhe, de novo, a mão que ele apertou com força.
     -Chama-me, então, simplesmente, Pierre. Vamos ter com a sua mãe?
     -Vamos, Pierre.
             18 de Março de 1971
desenho de Zé Penicheiro