CONTOS
da
Daisy
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A TERESINHA
— A «Lissa» é feia?
A Teresinha olha-me, os olhos
muito grandes, risonhos, lançando para o ar a pergunta, ùnicamente para me
despertar a atenção.
— Não é.
— Pois não.
Amanhã, vou dizer-lhe que o
detesto. Falar-lhe, bem de frente, e reproduzir-lhe exactamente, o que me vai
na cabeça. Não tenho ciúmes. Sinto-me, simplesmente, despeitada. A Luisa não é
feia. Não é. Pelo contrário, é bastante, bonita. Mas a Luisa não é para ele. E,
daí, talvez seja.
— A «Lissa» é má?
— É! — gritei.
A pequenita encolheu-se e parou
de mexer a cadeira-baloiço. Ficou muito calada, pasmada e assustada e, como a
medo, atirou:
— Olha a tua «moneca»... — e
apontou a boneca velha em cima da cama.
— Não ma emprestas?
Entreguei-lha e afaguei-lhe a
cabecinha fazendo-lhe voltar o sorriso.
Ali estava eu, sem ter dormido
sequer um minuto, enquanto o menino se retemperava, estirado, das forças que a
Luísa lhe havia feito perder, toda a noite. Não gosto da irmã dele. Há qualquer
coisa nela que me faz lembrar... lembrar... por Deus, porque hei-de matutar
sempre na mesma coisa? Mas não cabe em mim pensar ou não pensar... E, sem
querer, volto a ver a mesma cena, recuo uma dezena de anos e dirijo- -me à
biblioteca, de laços azuis a prender as tranças loiras, a saltitar, contente.
De novo abro aquela porta, ansiosa por me sentir estreitada nos braços do pai,
que vem de viagem. Da mesma maneira, abro a boca e não digo nada, e fico
especada, à entrada: o pai e... aquela mulher!... Eu mal a vi quase não tive
tempo de a fixar, porque ele se pôs à frente, porque ele tentou balbuciar algo,
e eu o abandonei, fugi, sem saber que juízo fazer... Mas aquele rosto... a cara
da irmã do Chico, que eu nunca vira...
Não quis ser malcriada, mas a
repulsa que ele me causou, foi mais forte.
— Tu ontem «fotes» à festa...
Eu ontem fui à festa. A Teresinha
também o sabe. Fui à festa, e vim cedo. Zanguei-me com o Chico. Ele não gostou
e... voltou à namorada antiga... A Luísa é má. Mas eu amo-o. E não me interessa
mais nada, não me interessa...
Olho a pequenita, na minha
frente, mas, a pouco e pouco, vou deixando de a ver. Fixo um ponto
indeterminado, vejo os olhos dele, iracundos, e oiço-o balbuciar:
— Que tem a minha irmã que te
desagrada? É a minha família. Não existe, para mim, mais ninguém além dela.
Criou-me desde miúdo, como uma mãe. Não te compreendo. Quis apresentar-te,
agora que ela regressa. Quis fazer-lhe sentir que o seu lugar ia ser ocupado
por ti. E manténs-te calada toda a tarde, mal respondes ao que ela te pergunta,
e dizes-me, agora, que não te agrada!...
— Não quis ferir-te, Chico.
Acredita, disse-to para me desculpar...
— Tens de concordar que foste
bastante antipática!
— Perdoa... não posso continuar
aqui...
— O quê?!
— Não quero magoar-te, Chico.
Porque havemos de discutir? Só tu me interessas.
— A minha irmã faz parte de
mim... Não posso viver com uma pessoa que detesta aquela que me criou. Podia
ser minha mãe... podia ser tua mãe...
Minha mãe... Mas ele não sabia...
mas ele não sabe...
E eu não quero... eu não posso
voltar a vê-la. O meu inconsciente acorda e... eu sofro.
— ‘Tás a chorar...
— Estou?
— Estás... Queres a tua boneca?
— Não, Teresinha...
— Eu sabia.
— Sabias?
— Pois. Sabes?... ‘Tive em casa
do Chico. Ele também está muito «tiste»...
— e inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas, como a querer dizer que
uma coisa implicava a outra.
— «Fisseste»-lhe mal??...
— Mal?
— Sim. Ele disse que tu és má...
Mas tu és bonita...
O telefone tocou. A Teresinha
estendeu a mão. Balbuciou um «’tá» muito triste, ouviu e, depois, estendeu-me o
auscultador, risonha:
— É o Chico...
E, do outro lado do fio:
— A Teresinha, a filha da tua
mulher-a-dias, esteve cá... Olha, querida, queria dizer-te... queria dizer-te
que a minha irmã parte, de novo, para o Brasil, com o marido... Amo-te. Não me
abandones. Já vou aí.
23 de Janeiro de 1969