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segunda-feira, 25 de maio de 2020

OS FRESCOS ...


 …


a sobrevivência vinda do céu ...

Alguns dos que combateram em África, sabem o significado da palavra “frescos”. Sobretudo aqueles que, como eu, estiveram em zonas remotas, na linha de fronteira com o antagonista. Durante uns longos dezoito meses de uma comissão de mais de dois anos, vivi perto de um covil de guerrilheiros e de abelhas assassinas. Por vezes, nessas zonas despovoadas, faltava a comida. Arroz era o prato de luxo para quem não tinha mais nada para digerir.  Então, nesses momentos, avançavam os “frescos”, que mais não era que comida lançada do ar em paraquedas por aviões da Força Aérea. A nossa sobrevivência alimentar tornava-se sempre um reboliço com a chegada dos géneros alimentícios tão necessários. Uma manobra perigosa, que requeria muita atenção pelo peso dos enormes caixotes que batiam no chão com violência, apesar de virem seguros por paraquedas. Com o entusiasmo, os soldados num impulso queriam invadir a zona onde caíam os “frescos”, mas logo eram contrariados pelos seus superiores para que não sucedesse qualquer acidente grave. E, realmente, na nossa Base de Canjadude nunca sucedeu. Em determinado dia, indo de Bissau para o Gabu, aconteceu – me viajar num avião que ia lançar os “frescos”. O paquiderme voador levantou voo, para mais tarde escancarar uma rampa na cauda do aparelho para essa função de lançamento. Por desdita minha, fiquei no último banco lateral a escassos passos do abismo, juntamente com dois paraquedistas que empurravam a mercadoria borda fora. Eles, pelo sim pelo não, iam equipados para a eventualidade de caírem do avião juntamente com a mercadoria. Foram duas longas horas às voltas, abastecendo vários aquartelamentos no mato, com a aeronave por vezes a inclinar-se e eu agarrado ao banco a olhar o abismo, mesmo que preso por um cinto de segurança. Mas tudo correu bem. Foi mais uma experiência na minha vida militar. O hilariante nesta história, foi o dia em que um avião sobrevoou a nossa base para lançar os víveres. Apesar de bem acondicionada, geralmente e com o impacto no chão, nunca sobrava nem um ovo para fazer uma omeleta. Mas naquele dia foi pior, porque os enormes paraquedas e respetiva carga caíram em cima de cerca de cento e cinquenta metros de arame farpado da vedação do aquartelamento que ficou destruída, bem como toda a estrutura de suporte. E ele, o capitão Gil, de punhos cerrados para o ar como se os pilotos o ouvissem num português que me escuso a reproduzir, a dizer furioso mais ou menos isto:

- Imbecis,  já não basta partirem os ovos e ainda me estragam o arame farpado …

É claro que o verbo “estragar”, é apenas um vocábulo demasiado brando para o português vernáculo que foi dito em irritado desespero...
Q.P.   

quinta-feira, 19 de março de 2020

QUATRO CONTOS E UMA VACA ...





Os tempos cinzentos passados em África são um rio de memórias. Alguns querem à força esquecer aquele passado. Outros porém, como é o meu caso, vou revisitando momentos e chego à conclusão que a minha experiência com africanos naquela zona perdida junto ao Boé foi enriquecedora em certos aspetos. Afinal, outras gentes e outras culturas. Hoje lembrei-me do Vitor Baldé que era de etnia fula. Caiu de paraquedas no meu grupo de combate. Cedo me apercebi que era manhoso na sua relação comigo e com os seus camaradas de armas todos de etnia fula. O Baldé se pudesse escusar-se a qualquer trabalho fazia-o sem pudor, empurrando para cima de outros o que lhe estava distribuído. Um dia veio ter comigo com um ar sonso, pedindo-me autorização para ir ao Gabu buscar a noiva. Disse-lhe que naquele dia a coluna militar que se deslocava a Nova Lamego buscar alimentos era da responsabilidade de outro grupo de combate pelo que tinha que aguardar a nossa vez de viajar. Ele,  choroso e a torcer as mãos, suplicava-me para ir e eu acabei por ceder, com uma séria desconfiança de que ele me estava a enganar naquele negócio. Sim, porque o casamento era um negócio entre o noivo e o pai da noiva e que se resumia nisto: toma lá a rapariga e dá cá o dinheiro e um qualquer bem acordado entre as partes. Então o Baldé partiu, tendo eu previamente pedido autorização ao comandante da coluna militar para ele seguir com o grupo, o que me irritou ainda mais por pressentir estar a ser ludibriado. Já tarde, a coluna regressou à base carregada de mantimentos. Eu, deitado na minha cama no abrigo a ler um “Diário de Coimbra” que me tinha chegado da Metrópole pelo correio, ouvi o ronco dos motores. Fiquei de alerta e já de faca afiada para pedir justificações ao meu soldado que era um autêntico primor em manha. De repente, ele desce a escada do meu abrigo e apresenta-se. Fico a olhar para ele e a pergunta era sacramental: então e a noiva? Está  lá fora – respondeu - me. Então vai busca – la que eu quero vê – la, disse-lhe ainda desconfiado. Mas enganei-me. A rapariga entrou a medo e com um sorriso humilde. Fiquei a olhar para os dois, contristado por ver aquele negócio que envolvia a venda daquela jovem pelo pai. Sem que nada eu lhe tivesse perguntado, o Baldé adiantou-me que a noiva lhe tinha custado quatro contos e uma vaca. Foram embora em paz, embora me parecesse que ela não estava infeliz naquela sua nova realidade de bajuda casada.
Outras gentes. Outros costumes. Outras culturas. Outras civilizações.
Q.P.     

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

OS BAIXINHOS DO DULOMBI ...





Tabanca do Dulombi

Tenho uma família militar há mais de quarenta anos. Uma amizade forjada na guerra e em tempos de dificuldades e de perigo iminente. Porém, passado esse tempo que já olhamos à distância, nunca me passou pela cabeça ser convidado para, de um forma simbólica, fazer parte de um grupo de antigos combatentes que tal como eu demandou terras da Guiné. Intitulam-se “Os Baixinhos do Dulombi” e foram e continuam a ser uma Companhia de Caçadores que há muito  baixou as armas. A arma é agora a amizade fraterna entre todos. Porque a amizade, a lealdade e essa indómita vontade de se sentirem unidos, é mais forte que o troar de um canhão.

Aceitei com prazer este convite de “pertencer” a este grupo. Visitando as fotografias da Companhia, encontrei nelas o que naquela época de guerra era comum – a entreajuda e a camaradagem que foi apanágio de todas Companhias e Batalhões que partiram para África. Mas isso não chegava para me sentir integrado noutro grupo de antigos militares. É que o chamamento foi - me endereçado pelo meu amigo Rui Felício e que eu jamais recusaria. Numa observação atenta, também o Victor David que bem conheço e por quem igualmente nutro grande apreço. Porém, este convite do meu amigo que assentou praça na Ericeira, deixou-me a pensar do motivo do convite e encontrei a explicação – sendo a Companhia formada por elementos de elevada estatura física de que o Rui Felício e o Victor David são bons exemplos, foi essa a razão do convite, não tenho qualquer dúvida. É que eu, modéstia à parte, tenho 2. 15 de altura e para quem não saiba – incluindo o Felício e o Victor – fui a estrela cintilante dos Chicago Bulls da NBA e era o rei dos “afundanços” lá da trupe.
Um abraço, Rui !
QP         

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

NATAL EM ARMAS ...






O Mimoso era um homem introvertido. Refém dos seus misteriosos pensamentos falava pouco. O seu distanciamento para com os camaradas de armas daquele pequeno aquartelamento lá para os lados do Gabu fizeram dele uma ilha - uma ilha de solidão. Tão estranho comportamento abriu um fosso no relacionamento com a pequena comunidade militar do leste da Guiné. Alguns deitavam-se a adivinhar. Uns diziam que era feitio, outros talvez um desgosto de amor. Naquele dia, já próximo da época natalícia, o Cleto teve um azar. Numa vinda ao Gabu num camião militar, um buraco na estrada fez o monstro dar um enorme solavanco. O Cleto, displicentemente sentado em cima de um guarda – lamas, foi cuspido violentamente da viatura. Perdeu os sentidos e de imediato foi providenciado o transporte para o Hospital de Bissau, o que só veio a acontecer no dia seguinte por via aérea. O mal não era de monta e, cinco dias depois, estava de regresso ao aquartelamento. Para além de um forte hematoma na testa, o Cleto trazia um pé engessado e deslocava-se com grande dificuldade de muletas. Passava muito tempo no seu catre, dizendo mal da sua desdita. Na noite de Consoada, o João Cleto estava desmoralizado. A evolução do seu estado de saúde não se fazia sentir. Recusou a companhia dos amigos para a ceia de Natal e ali ficou no seu abrigo subterrâneo, a coberto do fogo inimigo que poderia aparecer da escuridão do capim. Naquele silêncio, meditando sobre aquela noite tão especial, viu com surpresa abeirar-se dele o Mimoso com o seu porte avantajado. Ficou expectante. Afinal o camarada era o tal companheiro que não procurava a amizade de ninguém. Então o transmontano, que trazia debaixo do braço um embrulho de papel grosso, sentou-se junto dele. Cuidadosamente abriu a encomenda que exalava o cheiro dos belos enchidos que a família lhe tinha enviado daquele pedaço de Portugal, para que o Mimoso tivesse o aroma e os sabores da sua terra de origem em época natalícia. Fez então menção de dividir aquela merenda com o camarada agora debilitado de corpo e de alma. O João Cleto não teve coragem de recusar o convite para aquela ceia surpreendente e improvisada. Então, tendo como testemunhas as estrelas cintilantes que polvilhavam o céu que se via pela vigia do abrigo, os dois homens comeram pausadamente e conversaram em ameno convívio, honrando a noite mágica do Deus Menino.
Q.P.
    

sábado, 4 de maio de 2019

O ÁGUIAS DE OURO





Foi numa tarde de Abril que cheguei a uma cidade que não conhecia. Tinha uma estação de caminhos de ferro e uns carris que desapareciam nas planícies de ninguém. O comboio era modesto e desconfortável, com apenas duas carruagens que balançavam ao sabor de uma paisagem de solidão. Recordo, que ao chegar ao meu destino, a composição parou em grande chiadeira. Comigo desembarcaram apenas um outro militar e um padre e, da outra carruagem, mais três passageiros que, apressados e cansados da viagem, arrastavam as suas malas. Dentro da estação e do lado esquerdo, estava um homem anafado e de camisa azul que, do lado de lá da vidraça, vendia bilhetes aos passageiros que não havia. A seu lado, um pequeno rádio portátil que trazia notícias de outros mundos e assim se diluía o tempo no marasmo dos dias. Passado aquele breve momento de agitação, a gare ficava de novo refém do silêncio da planície. Depois, na conquista da cidade, o empedrado dos passeios levava - nos a uma praça ampla, que no verão era batida por um sol impiedoso. E uma feira semanal, onde os tendeiros vendiam a sua mercadoria regional aos poucos turistas que apareciam. Realmente, naquela época recuada, Estremoz era terra de militares. De cidadãos fardados de verde, a receber instrução para partirem para as três frentes de guerra. A hospitalidade das gentes esbatia - se na sombra da tragédia de uma pequena cidade simpática, a quem foi imposto o anátema de bastidores da guerra. Na verdade e no meu caso, Estremoz foi apenas o prefácio de um livro de muitas privações, sofrimentos e dramas, que duraram mais de dois anos em África. Ali, naquela praça apelidada de Rossio, existia e existe um Café de nome apelativo - Águias de Ouro. Era próximo do Regimento de Cavalaria e lugar de encontro de oficiais e sargentos milicianos. Recordo o estabelecimento escuro e amplo, com mobiliário pesado e sombrio. As mesas eram de tampo castanho e as cadeiras desconfortáveis, como se aquele local de lazer e convívio fosse uma espécie de extensão do quartel. Mas era ali que tentávamos aliviar as nossas penas, sempre que as folgas permitiam sair dos muros do velho Convento datado do século XIII e adaptado a fins militares. Mas nem sempre o “Águias de Ouro” era a nossa carta de alforria. Por vezes, aparecia por lá um Coronel de Cavalaria que, do alto dos seus galões, fazia alarde da sua autoridade para deslumbrar meia dúzia de clientes que ocupavam as mesas na troca do preço de um café pelo fresco da ventoinha gigante que girava no teto a agitar as tardes de calor. Ele, o tal Coronel, comandante do meu e nosso batalhão quase de partida para África, era pouco ou nada estimado pelos seus inferiores. Havia um fosso inultrapassável entre ele e os seus comandados. Vaidoso, exibia as suas fitas vermelhas e amarelas a pender da boina como símbolo da Arma de Cavalaria. As botas altas de equitação e um pequeno bastão compunham o personagem, que não tinha pejo em interpelar um qualquer militar sobre o aprumo do fardamento ou até de um corte de cabelo menos cuidado. Desconhecia aquele oficial superior, que um líder se impõe  sem se impor. Flui dele uma natural liderança,  que não se conquista a golpes de autoritarismo.   Ficou para sempre na nossa retina a positividade do capitão da companhia que passou à reserva como general e que, passadas tantas décadas, com ele continuamos a conviver. Um homem que nos chefiou e foi respeitado até hoje pelas suas qualidades como nosso comandante em tempo de guerra e pelas suas qualidades humanas intrínsecas. Mas é naquele baluarte de café e restauração, que ainda repousam algumas das minhas memórias alentejanas. Hoje, sei que o “Águias de Ouro” lá continua na Praça do Rossio. Não sei se já mudou de mobiliário. Nem tão pouco sei se a ventoinha avantajada do teto do Café ainda gira ou se o ar condicionado matou aquela relíquia do passado. O que sei é que aquele bastião de memórias pardas resistiu ao tempo, e que a cidade readquiriu o seu carisma e a tipicidade de um Alentejo que encanta pelo perfume e pela melancolia das suas planícies e dos seus sobreirais, que o odor fétido da guerra não matou.
QP           

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

NOS BASTIDORES DA GUERRA ...



Tavira  - Homenagem ao soldado ...

Maldito comboio. Maldito comboio de forçados, como em tempos passados. Maldita gente que nos fez caminhar a passo e em filas de dois pelo ventre de Lisboa, em direção ao Barreiro em rota para o Algarve. O povo de Lisboa, estático nos passeios, olhava-nos em silêncio, contristado. E nós ali, em passo lento, a beber daquela humilhação. Depois o comboio. O tal comboio. Apinhados como gado e mochilas pelo chão. E um Inácio qualquer, capitão de carreira, o chefe da manada, a passear pelos corredores da composição na vigia daquele mar de fardas verdes. Tinha pouco que vigiar. O cansaço físico e psíquico a apoderar-se de nós, fazia com que muitos soçobrassem ao sono. Cabeças pendentes no ombro dos camaradas de armas e as bocas disformes e babadas em cenário grotesco. A noite a apoderar-se do Alentejo e, naquelas retas sem fim, a composição gemia sobre o carril, como num choro de finados. Num solavanco, o comboio parou. São três horas de uma madrugada sem rosto, e exaustos entrámos naquele quartel velho de camaratas amplas e frias. Das camas em ferro ordenadas em duas filas em enorme corredor, nem um cobertor de agasalho. Apenas enxergas queimadas por fósforos nas pontas, na cata de piolhos. O resultado foi dormirmos vestidos e transpirados, E eu, nem as rudes botas descalcei dos pés, por causa do frio. Mas nada era feito ao acaso. Nada era inocente. Era preciso refundir a alma mesmo dos mais brandos. Incutir-lhes um espirito belicista e de desconforto e de revolta antes de partirem para África. Depois, as correrias loucas pela Atalaia , a espingarda às costas que parecia pesar toneladas. E a semana de campo, como acepipe de um cenário de guerra. Acampados lá para os lados de Barranco do Velho, em noites de breu. Numa noite, numa noite de breu, fiquei debaixo de uma figueira, abandonado, apenas com um rádio de campanha. Cumpria um turno e vigiava o inimigo que não existia. De repente, caiu uma enorme bátega de água e uma trovoada que iluminava os céus. Ali fiquei, tenso e molhado até aos ossos, sempre na expectativa de que um raio me atingisse naquele ermo. Quando amanheceu, apareceram para me vir buscar. O miliciano prometido para me render, não apareceu. Era apenas um embuste. E ele, um tal major, largo de galões mas estreito de caráter, a pressionar-me mais uma vez, para que eu lhe pagasse um blusão de cabedal que lhe tinha sido furtado. Eu seria então responsável por tudo, na vilania do seu pensamento, por estar de serviço ao acampamento num dia pretérito. Mas o casaco apareceu, por esquecimento dele numa tenda, e veio dirigir-se a mim. Vinha no passo gingão que era seu timbre, num discurso formal e formatado na lógica militar. Não teve a hombridade de tirar os galões e, de homem para homem, reconhecer o erro. Por isso não lhe aceitei as desculpas e remeti -me a um silêncio reprovador e rosto fechado. Enfrentei-o mesmo do alto dos seus galões. Olhou-me nos meus olhos frios e zangado partiu. Daquele inferno, valeu a noite em que sete de nós nos perdemos numa missão noturna, de mapa da região e uma pilha na mão. Uma porta aberta, um pequeno clarão na noite e o conforto de uma taberna. E ela, a velhota de avental, condoída com aquele nosso destino, a oferecer-nos vinho tinto e pão com chouriço. Ela, que vou batizar de Almerinda porque não lhe conheci o nome, não tinha galões de major. Mas trazia nos ombros curvados, a pompa de um general de muitas estrelas. De general da fraternidade e da solidariedade. Quanto ao tal militar, lembro - me bem do seu nome e da ofensa. Omito – lhe agora, deliberadamente, o respeito da patente, mas ficou-me uma reflexão para a vida - nunca o luzidio brilho de uns galões, são passaporte que baste para a grandeza de um caráter.
Q.P.              


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

NAQUELA NOITE ...



 (foto net)
Debaixo do grande embondeiro, olhávamos a mata. Há muito que a noite caíra e ao longe, de uma forma difusa, só o porte das palmeiras sobressaía num horizonte de silêncios. Apenas a espaços, o grito longínquo de algum macaco e o piar das aves noturnas. E nós, soldados, ali estávamos, olhando as esquinas do infinito no vasculhar de todos os perigos. Então, num ápice, uma série de estrondos ao longe. Era sons cavos, que pareciam nascer das entranhas da Terra. Rápido e pelas comunicações, logo soubemos que era um ataque com morteiros ao quartel de Dara. Depois, veio uma ordem superior para partir. De tentar cortar a retirada ao inimigo. De lhe infligir a desforra. Sob um céu semeado de estrelas, fomos tragados pela noite. Por picadas estreitas e uma abóbada de breu, apenas os passos perdidos das nossas botas de caminhantes forçados. Passo a passo, em marcha lenta por vezes e acelerada por outras. Na frente da coluna, um africano que conhecia o terreno palmo a palmo. Voltas e mais voltas naquela floresta de inferno, o cantil da água a balançar no cinto e o dedo crispado no gatilho da metralhadora. E eles, os malditos mosquitos, a comerem-nos a cara, sedentos do nosso suor, naquela noite de labirintos traiçoeira e morna. De repente, da frente veio uma ordem para parar. Acocorados no chão, o coração a bater a descompasso, escutávamos a noite. Então o nosso pisteiro, ajoelhado no chão, observou atentamente o trilho. Experiente, estudou as pegadas, que logo reconheceu serem frescas. Conseguiu até concluir que o grupo inimigo teria passado ali há cerca de vinte minutos. Nós, graduados, reunimos e em surdina naquele palco de sombras, cedo chegámos à conclusão que seria missão impossível encetar uma perseguição naquela terra de ninguém. Ele, o grupo agressor, caminhava agora para o Boé, a sua zona de conforto. E nós, de arma aperrada e viajando pela noite de todos os medos, regressámos à nossa Base. Chegámos ilesos, mas feridos na nossa autoestima a pisar o vermelho. Naquela noite, mandaram - nos para a boca do lobo. Se houvesse refrega e infligíssemos baixas no inimigo, patentes militares sem rosto e sem nome recolheriam os louros da vitória. Se alguns de nós caíssem, tombariam anónimos. Apenas as lágrimas das famílias. Apenas a saudade dos amigos. Apenas os rostos fechados dos camaradas de armas.


Os degraus do abrigo subterrâneo que se descem. A metralhadora que se encosta junto ao leito. O cantil da água que se bebe sofregamente, antes de recolhermos ao nosso catre de ferro. O suor que escorre do queixo para o peito desnudado. A ventoinha do teto que não deixa de girar a tentar sacudir o calor doentio. A boa noticia que nos chega, que em Dara os nossos militares não tinham sofrido qualquer baixa no bombardeamento. Então, cansados, os sete homens que ocupávamos aquele abrigo saudámo - nos num novo renascer e fechámos a luz para dormir. Menos o Delfim que, com o auxílio do seu pequeno candeeiro de cabeceira que debitava um clarão mortiço, ficou sentado na cama a ler a Bíblia.
Q.P.         

sábado, 20 de outubro de 2018

MARIEMA ...





 (foto net)

Que estranha sensação esta, a minha, de insistir em recuar na Máquina do Tempo ! Fecho os olhos e deixo-me sucumbir pelo arrastar dos dias pretéritos. De vaguear, ao sabor de um passado distante. Que estranhos sonhos estes, os meus, que me levam na vertigem das asas plúmbeas, ao encontro do sofrimento! Mas, de novo, lanço âncora na memória e regresso aos verdes anos da minha juventude. De uma juventude despreocupada. Um dia, caí numa cilada, e arrastei a minha existência por um longínquo país africano. Guiné se chamava e chama. Prendi-me de amores, quando lá cheguei. Não por uma mulher. Mas pela explosão das cores. Por aquele Templo de manhãs resplandecentes, que me embriagavam os sentidos. Quando o sol subia na vertical da bolanha, inundando a mata de uma claridade generosa. E as tardes, clamorosas de calma e serenidade. E, ao lusco - fusco, quando as estrelas já quase se desenhavam no Céu, o majestoso perfil dos embondeiros, esculpidos contra a abóbada imensa de um céu escarlate. E era ali, sentado debaixo da copa de uma frondosa árvore, que eu ouvia os cânticos africanos, que ecoavam pela floresta. O som dos batuques e o movimento ritmado do amassar da mandioca no pilão. Aquela simbiose única, entre o perfume dos costumes ancestrais de um povo e a bola de fogo incandescente que descia na linha do horizonte e fazia qualquer ente pensar que estava às portas do paraíso. Mas não. Havia a guerra. A maldita guerra. Omito recordar. Não quero falar de homens, como se de feras se tratasse. Quero falar de paz. Quero falar de justiça. Quero falar de solidariedade. Quero falar de fraternidade. Quero falar de amor. Quero falar de Mariema. Era a minha lavadeira. Quinze anos de idade, talvez. Olhos grandes e pele cor de púrpura. Rápida no pensamento, fulminante na palavra. Apareceu-me no primeiro dia em que pisei terras do Gabu. Falava alto e gesticulava muito. Oferecia-se para me lavar a roupa. Aceitei. E, pelas imaculadas tardes, lá vinha ela, os olhos fixos no chão, de alvo lençol à cabeça, onde trazia cuidadosamente acondicionado, o meu trajar. No corpo, o tecido colorido que lhe moldava o porte esguio. Pressentia-lhe no rosto, a tortura de uma vida de labuta. Numa terra onde tudo se regateava, nunca discuti o valor do seu labor.  Por vezes, por brincadeira, questionava o preço que sempre lhe pagava. Apenas para ouvir a justeza dos seus argumentos. A sagacidade do seu raciocínio. A inocência do seu olhar. A Mariema foi um terno caso de amor. Um caso de amor fraterno. Ainda tenho por ela hoje uma comovida lembrança. Foi a minha diva de África.

Quito Pereira              

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O EMPREITEIRO ...



Fio de prumo ...

Já aqui vos disse um dia, que fui chamado ao abrigo do capitão da Companhia de Canjadude, que fez de mim professor à força. Pois, uma força interior que me pôs na frente uma turma de crianças que nem sabia as cores. Pegava num lápis da “Viarco” encarnado e perguntava aos meus interessados alunos:

 - Que cor é esta ?

 A resposta vinha cruzada de várias direções. Uns diziam amarelo, outros  azul e outros ainda, verde. Verde ficava eu, mas sobrevivi. Porém, todos passaram a saber escrever rudimentarmente o nome. E a saber as cores. E igualmente que, um mais um é igual a dois. Para que conste.

Cada vez que o Capitão Gil me chamava ao abrigo dele, ou vinha pontapé ou canelada …

 - Furriel Pereira, como está liberto dos trabalhos da escola, vai ficar à frente do reordenamento militar, ou seja, construir as duas casas que ainda faltam do lote de oito a concluir para os nativos, que o Alferes Paulo acabou a comissão e vai para a metrópole  …

 -  Óh capitão, eu ?! … mas eu nem sei o que é um fio de prumo !!!

-   Olhe, faça as paredes a olho, que vai dar ao mesmo !   

Eu explico: reordenamento militar, era construir casas para a população da tabanca de Canjadude. Os de Lisboa, na sua sapiência, queriam fazer dos africanos europeus à força. Deixavam de viver nas suas cubatas, para passar a habitar em casas de adobe com chapas de zinco como telhado.  Com o calor africano, as casas muito rudimentares de dois compartimentos, sem água, sem luz ou sanitários, eram uma sauna que dava para assar frangos lá dentro. Habituados aos seus costumes ancestrais, toda a gente recusou as novas habitações. E eu, no cumprimento da minha espinhosa tarefa, lá me dediquei à minha missão de engenheiro e empreiteiro de ocasião. Chegava junto das casas, recuava dez passos, fechava um olho e com o outro observava a esquadria e, por vezes, a casa até parecia que tinha o rigor do fio de prumo e dizia cá para mim de contentamento:

- Acho que esta vivenda vai ficar um luxo de habitação …

 O trabalho de fazer os adobes, era serviço de escravo. Numas formas retangulares em madeira, colocava-se terra misturada com água. Tirava -se a forma e o adobe em formato de tijolo, secava durante vinte e quatro horas e ficava mais rijo que um penedo. Era esgotante e eu, quando o calor começava a apertar, dizia aos sacrificados africanos:

- Vamos para a sombra descansar e beber água, que isto aqui não é a prisão de  Alcatraz …

O problema é que não havia interessados nas casas. Mesmo gratuitas que eram. Exceto um, o homem mais abastado da tabanca, que tinha todos os sinais exteriores de riqueza inerentes a um afortunado da vida. Uma espécie de túnica azul ricamente trabalhada na zona do peito, um gorro na cabeça, uns óculos de sol, uma bicicleta e um rádio portátil aos berros, do tamanho de uma mala de viagem, que dava música que se ouvia até no palácio do Governador em Bissau, davam - lhe o estatuto. Negociante nato e com faro para pechinchas, logo se apercebeu que as requintadas moradias não tinham interessados e veio ter comigo para eu lhe vender com indisfarçada cobiça, as vivendas ao preço da uva mijona. Respondi-lhe que não e que nem sequer era parte interessada no negócio. Ele, surpreso, perguntou-me então:

- Mas o senhor furriel, não é o empreiteiro da obra ???

Respondi:

- Não, sou apenas o capataz, para fechar negócio o Senhor tem que se dirigir ao Palácio de São Bento, em Lisboa …

Q.P.