Mostrar mensagens com a etiqueta Quito Pereira - contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quito Pereira - contos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

TEXTO DO QUITO PEREIRA

A VALSA DOS PATINADORES ...

Naquele ano e naquele dia de outono, a Mata Nacional do Choupal foi brindada com as primeiras chuvas. Uma chuva miudinha que fazia subir no ar o cheiro da terra molhada e um aroma mais intenso a eucalipto.

Naquele quarto largo de  janelas amplas e paredes brancas, batalhava-se pela vida. A parturiente, cansada, tentava dar à luz a sua criança. Então ele, o pai, preocupado, tomou uma decisão. Subir o Choupal a pé em direção à cidade de Coimbra, na procura de um médico  que assistisse ao nascimento de quem  teimava em não querer sair do ventre de sua mãe.

A arfar, chegou à cidade. E, por indicações de gente solidária com o drama, bateu ao ferrolho de um médico. O clínico,  de cabelo grisalho, ouviu o pedido de socorro. Ficou pensativo, quase relutante em partir. Afinal, naquele fim dos anos quarenta do século passado, a Mata do Choupal era um arrabalde sombrio da cidade. Um talefe nas margens do Mondego e do mundo. Mas decidiu partir, levando ao seu lado num velho Ford, um pai aflito. 

Guiando devagar e aos solavancos, evitando as poças de água do caminho de terra batida e de pontes de madeira que eram pulos entre braços do rio, os dois homens chegaram junto ao cais das angústias. A futura mãe ganhou um ânimo novo, ao ver ali uma luz ao fundo do túnel do seu sofrimento. Em mangas de camisa e tendo como ajudante a Maria José, mulher de baixa estatura e rosto trigueiro, mãe de um pai ancioso, o parto difícil teve um fim feliz. Com a criança de pequeno porte de cabeça para baixo e presa pelos pés, o médico deu-lhe um açoite nas nádegas e o menino chorou num vagido sofrido.

Então o médico, de óculos na ponta do nariz, olhou melhor o nascituro débil e escanzelado e teve a frase proscrita - minha senhora, o seu rapaz não presta para nada. Talvez uma forma dilacerante de expressar o seu desagrado, por ter sido quase coagido a deslocar-se àquela casa plantada no coração da Mata nas margens do Mondego. Com o valor dos seus préstimos no bolso, despediu-se numa saudação soturna,  rodou o Ford de proa virada para a cidade e, de novo evitando as poças de água, aos solavancos partiu.

Num alguidar com água morna, a Maria José lavou com cuidado e desvelo o seu pequeno neto. Depois, aconchegou-o na cama junto de uma mãe depauperada do esforço de horas heroicas. A criança foi deitando corpo com o leite da vaca que o Vale todos os dias trazia numa pequena vasilha de alumínio, já que o leite materno tinha secado dos seios exauridos daquela mãe-coragem. Batia à porta de mansinho e, de boné na mão num sinal de respeito e cortesia, saudava a Maria José que, junto à lareira, o pequenito enrolado num cobertor no seu berço de madeira ­- feito na carpintaria da Mata com os materiais recolhidos nas margens do Choupal e  oferecido pelos seus trabalhadores - mexia com uma colher de pau o café que borbulhava nas brasa da lareira num aroma enleante e divino. O menino em suave repouso, era filho primogénito da Mata e dos assalariados daquele pulmão de Coimbra, que também o adotavam como seu.

A frase terrível do médico sobre aquele menino, ficou gravada para sempre como um ferro em brasa num coração de mãe. Talvez uma premonição na Ata dos Livros da Vida. Com o amor de mãe, de pai, da Maria  José e do José António - o avô, o menino aprendeu a amar a natureza. E a respeitá-la. E a ouvir, de janelas abertas de par em par e na grafonola de cor verde-escuro, a "Valsa dos Patinadores" que invadia a Mata nos seus acordes, uma obra de Émile Waldteufel tão ao gosto do avô José António, que tinha na música entre choupos, plátanos e eucaliptos, a moldura dourada que lhe adoçava a existência de uma imaculada vida.

Kito Pereira (Contos da cidade)

 

domingo, 28 de junho de 2020

UMA MEMÓRIA ...





Bairro Marechal Carmona ...

O Bairro Marechal Carmona foi um Tempo. Um tempo passado de recordações presentes. Olho a floresta de betão de prédios anónimos, de bombas de gasolina e de catedrais de consumo num corre – corre da vida dita moderna. Ali, aquele espaço agitado de carros, poluição e de buzinas estridentes, também já foi uma catedral. Uma outra catedral de uma liturgia de silêncio e de silêncios. Naquele espaço alargado, morava um pinhal – o Pinhal de Marrocos. Não sei a proveniência do nome, mas sei que tinha a identidade própria de um lugar quase de culto de todos os que habitavam as casas singelas de um bairro com nome de marechal. Nos dias de primavera e de verão, o pinhal ganhava um novo fôlego e uma nova vida. Debaixo das árvores se namorava e se faziam juras de amor. Debaixo das árvores se estudava para exames em tempo de exigência escolar. E debaixo das árvores se sonhava e se faziam versos arrebatados e sonhadores. E também havia a casa modesta da Maria, que tratava dos seus animais no jeito atarefado. Lá longe, um longe que era tão perto, havia uma mina de água. Uma mina mesmo a propósito para as nossas aventuras de infância. Uma caverna que nos fazia sonhar com os contos escritos pelo punho de Enid Blynton. Penetrar na mina era uma aventura. Por vezes, o espaço era amplo e permitia andar em pé. De outras vezes, era necessário rastejar, até ao gozo supremo de se chegar a um local amplo a que batizámos de “sala do trono”. O percurso levava cerca de cinco minutos a fazer. Sempre que demandávamos a mina, fazíamos um pacto de silêncio, para que os nossos pais não soubessem pela sua absoluta reprovação. Chegávamos a casa com os calções sujos de terra e lama e os joelhos esfolados de rastejar pela galeria. E dois açoites no rabo, eram irrelevantes na suprema glória de mais uma aventura no Pinhal de Marrocos. A aplaudida Enid Blynton, teria certamente muito orgulho em nós. Pela sua pena inspirada, certamente que eu e os meus pares teríamos hoje um lugar de destaque na literatura mundial.
Quito Pereira            

terça-feira, 16 de junho de 2020

O BELENENSES DO PALVARINHO ...





Naquela tarde de verão, Irene percorria a pé a estreita fita de alcatrão que ligava Salgueiro do Campo à povoação de Palvarinho. Com o sol a pino, parei o carro junto dela e ofereci-lhe uma boleia. Reconheceu-me da farmácia e aceitou. Naqueles quatro quilómetros deu para conversar, e lá me foi dizendo que durante vinte e sete longos anos tinha trabalhado numa pastelaria de Belém. E no Palvarinho a deixei e parti. Pelo caminho fui meditando naquele percurso de vida daquela minha companheira de viagem na sua simplicidade, que de uma simpática e pequena aldeia da Beira – Baixa um dia partiu para a grande metrópole, e em como foi parar lá para as bandas do Restelo. E que ligação haveria com os famosos pasteis de nata de Belém. Porém, por um blog sabemos muitas coisas. E eu, que vou oferecendo a minha colaboração a um outro Rafael, que tem um espaço de convívio da aldeia onde passei parte da minha vida, fiquei a saber alguma da minha curiosidade e as peças começaram a juntar-se. Um habitante do Palvarinho de nome Artur, fundou uma pastelaria em Belém, onde se confecionavam os famosos bolos. E ela – a Irene – para lá foi trabalhar. Curiosa também da razão de todo o Palvarinho vestir de azul e o seu povo ser Belenenses ferrenho. De novo o nome de Artur vem à baila, agora como dirigente que foi do Clube da Cruz de Cristo. O grupo amador da aldeia veste de azul, e os equipamentos para a prática desportiva vinham das camisolas e chuteiras já usadas pelo clube de Lisboa em épocas recuadas. Aquele apego da aldeia ao Belenenses, valeu aos seus habitantes em tempo remoto, conviveram com alguns do grandes jogadores do Belém que ali se deslocavam propositadamente, a convite da aldeia mais azul de Portugal. E, como amor com amor se paga, o Belenenses assumiu o grupo desportivo da aldeia como sua filial. Duas figuras públicas são referência do Palvarinho. A artista Rita Pereira que ali tinha os seus  avós que tive o prazer de conhecer, e o falecido locutor Henrique Mendes, ele também um simpatizante fervoroso da camisola azul do Restelo.
Quito Pereira       

sábado, 6 de junho de 2020

ANDAR NA LUA ...





Buzz Aldrin ...

O homem era franzino e arrebatado. Chefe de um serviço público, não tinha grande vocação para a função. Só estava bem onde não estava e aquele martírio de estar atrás de uma secretária atafulhada de papéis punha-o doente. Decididamente, gostava de liberdade. Dotado de uma mente febril, em tudo arranjava um caso. Talvez por isso fosse olhado de sobrancelha franzida pelos seus inferiores hierárquicos, que achavam que ele era chefe mas pouco. No fim do dia, um funcionário entrava no seu gabinete com um molho de documentos na mão para ele assinar – coisa enfadonha. Então o chefe que era pouco, nem se dava ao trabalho de ler o que assinava. Ia tudo de cruz e pouco se importava com as matérias mais relevantes. Vivia num mundo de ilusão, para quem já tombava para as seis décadas de vida. E naquele ano de 1969, deu-se um acontecimento histórico à escala global. Na corrida à lua entre americanos e russos, foram os homens de Nixon que venceram. E a Apolo 11 lá partiu com Armstrong e os seus pares em direção ao cobiçado satélite da Terra. A aventura mexeu com o engenheiro de profissão travestido e investido na função de chefe. Não havia dúvida, a viagem espacial dera - lhe volta ao miolo. Devorava tudo o que era jornal regional ou nacional e perante os funcionários enfadados, dava explicações técnicas daquela corrida espacial com o à vontade de um perito da NASA. E quando a Apollo já gravitava em redor da lua, o homem dos pensamentos arrebatados passou a noite a olhar para o satélite natural da Terra. E de manhã, quando entrou no Serviço Público, disse na sua mente delirante que tinha visto a nave com as suas luzes cintilantes em órbita à volta do pequeno planeta, agora à mercê dos americanos. Decididamente, aquele chefe andava sempre na lua.
QP   

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O BOMBO ...





amigos inseparáveis ...

Era uma vez um bombo. Um bombo muito bonito e redondinho. Um bombo colorido que vinha suceder a outro bombo, que tinha desaparecido misteriosamente nas voltas e reviravoltas de uma romaria. Ficou muito choroso o dono do bombo. E não descansou enquanto não arranjou um novo amigo. Lá pelas bandas da Estrela, resolveu o assunto e veio a correr mostrar o novo instrumento aos seus compadres da viola e do cavaquinho. O grande paradoxo é que o Castelão fartava-se de bater no bombo que não se queixava de violência doméstica. Tanto o homem de Penela bateu no bombo, que um dia lhe rebentou a pele. Ficou de novo choroso com pena do seu rico bombo e o bombo também chorou e em lágrimas agarraram-se a chorar um ao outro. Então o Castelão, que tinha um amigo a viver lá palas bandas da Serra, pediu ao Choupalino se lhe levava o bombo para ser tratado na clínica de Lavacolhos. Dito e feito e num dia de calor abrasador, o pajem do Castelão chegou à nova e mui formosa cidade do Fundão onde tinha o cirurgião à sua espera. Ele, com um ar entendido, mirou o paciente e disse que a doença era grave, mas tinha cura. Com o bombo às costas rodou para Lavacolhos e o pajem do Castelão para Castelo Branco e tinto. Dias depois a boa nova: o paciente estava curado e era preciso ir lá busca-lo. Com o coração aos saltos, o pajem de novo rumou à mui nobre cidade do Fundão, onde pagou os honorários ao cirurgião e se selou uma amizade encostados ao balcão do clube desportivo lá do sítio a virar copos de vinho do barril e a comer azeitonas da Beira – Baixa. Dias depois, na Rua Infante Santo, o pajem depositou o bombo renovado nas níveas mãos do Castelão que dava vivas de contente. O pajem, aos pulos, foi pelas ruas do bairro a anunciar a boa nova e foram todos muito felizes para sempre.
FIM

sábado, 7 de março de 2020

A HISTÓRIA BREVE DE UM ASSASSINO ...






(foto net)
Este é um episódio real de um homem que aterrorizou Portugal. Porém, foi em época remota, anos cinquenta do século passado, pelo que a narrativa pode padecer de alguma imprecisão. O homem em questão chamava – se António Pessoa e era natural da zona de Carapinheira do Campo, uma localidade compreendida entre Coimbra e a Figueira da Foz. Deambulou por Portugal inteiro, errante, com especial incidência no centro do país e dele se dizia ter alegadamente assassinado por motivos fúteis catorze pessoas. Porém, este número de vítimas carecia de confirmação. O homem, que durante longo período de tempo sempre conseguiu fugir às autoridades, de assassino virou quase lenda aos olhos de uma população aterrorizada e que até lhe atribuía crimes que não cometeu. Vivia - se num reino de fantasia e até havia quem jurasse a pés juntos que o criminoso teria assistido ao funeral da mãe empoleirado no ramo de uma árvore, sem que a polícia ou qualquer popular o tivesse avistado. Naquele tempo, a Polícia Judiciária não tinha naturalmente os meios de que dispõe hoje e teve grande dificuldade na sua captura. Inclusivamente, foi distribuída pela população do país, com especial incidência nos camionistas, o retrato do temível Pessoa e de uma particularidade que tinha - além de baixa estatura, arrastava uma perna, uma disfunção motora que não passava despercebida. Um dia, constou que se encontrava escondido na Mata do Choupal  e foi uma preocupação em Coimbra. O Mestre Florestal e a mulher, que viviam isolados numa casa no fundo da Mata, porque os filhos já tinham partido para as suas vidas, passaram por momentos angustiantes, com a casa fechada a sete chaves e a pistola distribuída inerente à função, pousada no travesseiro do leito. A Mata foi batida exaustivamente pelo Mestre e Guardas Florestais e outros agentes na procura de vestígios, mas mais uma vez era falso rumor. Mas um dia a sorte do criminoso mudou. Um camionista, ao passar numa estrada secundária alentejana, viu um homem de baixa estatura e andando com dificuldade pela berma da estrada. Alertado que estava fixou – o bem e suspeitou ser o homem procurado. Mais à frente, alertou as autoridades de uma povoação próxima, que foram verificar e nem queriam acreditar que a suspeita era fundada. O homem mais procurado de Portugal era realmente aquele. Montado o cerco, rápido foi capturado sem oferecer resistência. Mais tarde veio para a Cadeia Penitenciária de Coimbra a aguardar julgamento. Na primeira sessão, o portão de ferro do Palácio da Justiça de Coimbra rebentava de populares a aguardar a chegada do criminoso. Uns, porque queriam fazer justiça pelas próprias mãos. Outros, porque queriam ver com os seus próprios olhos aquela lenda negra. A chegada da carrinha – celular não foi pacífica. A polícia fez um cordão de segurança para que o preso não fosse agredido. Porém, no meio da confusão, um popular conseguiu ficar cara a cara com o facínora e chamou-lhe assassino. António Pessoa olhou – o então friamente tentando fixar-lhe o rosto e disse: “estás marcado, quando eu sair da prisão ajustamos contas”. Em grande burburinho, o preso entrou então cercado pela polícia em tribunal. Foi condenado a uma pesada pena de prisão. Um dia saiu, já debilitado. Toda a sua agressividade se tinha diluído no tempo de cárcere e rumou à terra – natal – Carapinheira do Campo. A sua chegada não trouxe qualquer alvoroço na população. Os mais idosos, que o conheciam dos seus terríveis crimes, quiseram distanciamento. Os mais novos, que não sabiam do seu passado, ignoraram-no. Surpreendente sim, foi ter conseguido trabalho na extinta empresa de camionetas de transporte de passageiros “Moisés Correia de Oliveira” ali sediada e hoje extinta, onde com um pano na mão e uma mangueira lavava camionetas. Diz quem o conheceu, que era cordato e nunca levantou qualquer problema. Quem não soubesse, jamais desconfiaria de um homem que trouxe o país num sobressalto. Um dia morreu, sem que merecesse do “Diário de Coimbra” qualquer nota de rodapé. Afinal já tinham passado muitos anos sobre os factos que o jornal coimbrão acompanhou, com especial relevo no relato dos acontecimentos à porta do Tribunal de Coimbra.
QP
    

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A RESPOSTA SURPREENDENTE ...






ondas debruadas a branca espuma ...

Avançado mar adentro, aquele hotel é uma pérola ancorada no Atlântico. Pelo menos para mim, que ali vejo o lugar ideal para descansar e divagar em pensamentos dispersos. Abrir a janela pela manhã, ouvir a voz do oceano ali mesmo à frente dos meus olhos, em ondas que se enrolam debruadas a branca espuma que me revigoram o espírito. Passear pelo hotel e cumprimentar os funcionários que já me conhecem. Sempre a palavra amável que gostamos de ouvir. Quando se quebra a relação protocolar entre empregado e cliente e vamos ouvindo histórias de vida. De quem fala de fadiga e da vontade de ir a casa lá para os lados de Fernão Ferro, depois de uma semana de trabalho. Ou de quem se prendeu de amores por uma mulher no continente australiano e dos filhos que a companheira lhe deu. Também os utentes do hotel numa babilónia de línguas. São portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e alemães, estes com a curiosidade de na sua esmagadora maioria terem já uma idade simpática. E se de manhã os pequenos – almoços são um reboliço ordeiro e mesas fartas das mais variadas iguarias e manjares, por contraste, os fins de tarde no bar ali a olhar o mar são sempre de silêncio e tranquilidade. Uma música de fundo e uma luz mortiça convidam a uma bebida e a uma leitura. E, na televisão, alguns vão olhando as incidências de um qualquer evento desportivo e nem o jogo de um clube muito popular de Lisboa e de Portugal de vermelho vestido a medir forças com um grupo do norte, retira a calma de quem de forma civilizada vê um jogo de futebol. Depois há os outros, os que não se interessam pelo pular de uma bola e continuam enfronhados num jornal de referência nacional. E aquele homem já de certa idade, que todos os dias ali aparecia com a sua companheira e falavam em surdina chamou-me a atenção. Aquela cara não me era estranha e cheguei a confundi-lo com um antigo advogado de Coimbra. Naquele princípio de noite, enquanto alguns olhavam um qualquer jogo do campeonato de futebol, aconteceu ficarmos em pequenas mesas juntas, sem que nem a ele nem a mim interessasse a contenda. Inevitável que a proximidade me deu azo a perguntar-lhe, pedindo-lhe que me relevasse o atrevimento, se não tinha sido advogado em Coimbra. Então, tive uma resposta surpreendente. Sabe – disse-me – de facto fui advogado, juiz, psicólogo, médico e tive também outras profissões. E perante a minha perplexidade acrescentou …  fui ator de teatro, pelo que é provável que a sua confusão é de me ter visto em programas de televisão onde trabalhei vários anos. Depois, de novo se afundou na leitura do seu jornal e eu após ter bebido um sumo refrescante, despedi-me dele com um aperto de mão que selou um conhecimento ocasional, mas com a certeza de um gosto em comum – aquele refúgio do nosso contentamento à beira – mar plantado.
QP          

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O HOMEM DA SALEMA ...




Salema 

O café é pequeno e acolhedor. Tem muito de familiar e os clientes conhecem-se todos uns aos outros. No verão, a clientela cresce pela chegada dos turistas e eu, pelos anos que já o frequento, pois o estabelecimento fica no sopé do meu lar algarvio, subi há muito ao estatuto de vizinho. A Nice, pequena e ladina, sempre que todas as manhãs me vê entrar de jornais debaixo do braço, logo diz do alto do seu metro e quarenta e três de altura:” vai uma torradinha, ó vizinho?”. Sim e é sempre assim. Então gira à vida e com enorme paciência vai atendendo turistas apressados e espanhóis inseguros nas suas preferências, que pedem isto para logo desistirem e pedirem aquilo.  Um purgatório !

Naquela manhã, o café estava cheio de clientes. Sentado numa mesa, eu lia distraidamente  um jornal. Então, entrou um rapaz magro, já na casa dos trinta anos bem medidos. Tinha um rosto pálido que sobressaía no colarinho da sua camisa negra. Um cabelo preto afogado em gel dava – lhe um ar de bailarino de tango.  Após verificar que a minha mesa tinha uma cadeira vazia foi educado – pediu licença depois de já estar sentado. Sem rodeios, disse-me que eu era parecido com um primo dele. Afinal, pretexto para conversar e quebrar o gelo da indiferença. Com um pastel de nata à frente, foi mexendo em ritmo rápido a colher com que adoçava o café com o açúcar em pacote que a Nice diligentemente lhe tinha posto no pequeno pires que sustentava a chávena com a bica a escaldar. Depois, sem fôlego, foi-me dizendo que, apesar de novo, já era homem de muito mundo. Viveu na África do Sul e depois veio para Espanha, onde conduziu um camião por estar legalmente habilitado para o fazer. Em jeito de queixume, disse-me que trabalhava muito para lá do horário normal sem qualquer compensação monetária ou um simples agradecimento. Despediu-se e regressou ao seu Algarve, onde alugou uma casa grande na pequena povoação da Salema, na rota de Sagres. Com o dinheiro amealhado, foi compondo o seu ninho, comprando mobília para se sentir confortável. Então, a conversa azedou com o senhorio, que lhe falava constantemente num aumento de renda. Pensou então em sair da aldeia  e na cidade de Lagos procurou novo ninho. Foi difícil, com preços proibitivos que não podia pagar. Finalmente, conseguiu um pequeno estúdio que estava dentro do seu orçamento. Mas ficou agora o drama do que fazer à mobília da casa da Salema. Quis vender o que tanto lhe tinha custado a ganhar fora de fronteiras ou fazendo biscates de eletricista, que era do que sobrevivia. Mas só lhe apareceram interessados nos seus haveres oportunistas, dispostos a levar tudo por dez reis de mel coado. Mas o homem da Salema vai resistindo aos abutres. Depois bebeu a bica num sopro e engoliu o pastel de nata que lhe encheu a boca toda e partiu, certamente a pensar como vai resolver o problema de ter mobília a mais para casa a menos, ou seja, como é que vai conseguir meter o Rossio na Rua da Betesga.
QP        

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

DOIS CAMINHOS ...





Era um homem solitário. Vivia sozinho, num quarto sombrio e acanhado da cidade. Todos os dias subia a calçada a passo, olhos fixos no chão, meditabundo. Por detrás de uma secretária passava os dias, escondido por entre uma pilha de papéis. Apesar do seu modo de ser introvertido, todos os companheiros de trabalho gostavam dele. Aquele sorriso brando, a ligeira vénia com que saudava os colaboradores, granjeavam-lhe simpatia. Engenheiro de profissão, nunca a sua voz se alterou, em acesa discussão com ninguém. Era cordato por natureza. Mas tinha um mistério. Todos os dias – todos os santos dias – depois da hora de encerramento do escritório, fechava-se num compartimento a sete - chaves. Foi assim, durante seis meses. Um dia, confidenciou a um amigo, o que tanto intrigava a todos. Num fim de tarde, convidou o companheiro de trabalho a visitar a sala onde se encerrava até ao cair da noite. E foi ali, que lhe revelou o seu sonho: construir um barco. Em cima de um estirador, repousavam réguas, esquadros, transferidores, compassos, lápis, borrachas e canetas. Além de revistas da especialidade. Debruçado sobre a prancha de madeira, com a ponta do lápis riscando sobre o papel, dava azo à sua imaginação. Depois, regressava ao quarto modesto, onde, pela internet, contactava o mundo. Foi assim que conheceu Regina, brasileira do Estado do Ceará. No início, trocaram apenas palavras de circunstância. Um dia, ela revelou-se-lhe e falou-lhe de amor. Incitava-o a ir ter com ela. Que o receberia de braços abertos e beijos ardentes. E aquele homem introvertido e solitário, via abrirem - se - lhe na vida dois caminhos: ficar na terra onde nasceu, agora que estava a um passo da reforma, ou viajar para os braços da sua amada. Numa noite mal dormida, teve um impulso: partir, levando na bagagem o desejo ambicionado. O esboço acabado do barco confortável que tinha projetado e queria agora mandar construir. E onde, com ela, passaria a viver, galgando as ondas da extensa costa do Brasil. A vertigem de uma gôndola de paixão e uma cabana. Um delírio de amor. A roçar as seis décadas e meia de vida, moveu influências para passar à reforma. Conseguiu. E um dia, com uma mala na mão, cheia de ilusões e de esperanças, partiu. Mas, rapidamente, aquela ode de desejo se desvaneceu. A Regina, era ainda uma adolescente insegura, muito mais nova que ele. Foi mútuo o desencanto. Pouco ou nada conviveram. Durante muitos meses, vagueou por terras de Vera Cruz. Ao telefone, confidenciava ao amigo que se sentia muito só, não conhecendo ninguém, num país que não era o seu. Voltou. Há dias, encontrei-o numa rua da cidade. Sempre o sorriso afável e cordato. Confidenciou-me, que agora vive num Lugar minúsculo, encravado entre montanhas, no interior da Beira Baixa. Numa singela propriedade que tem, convive com as abelhas, o seu outro amor. De máscara e fumigador na mão, vai tratando dos cortiços e das colmeias, com um olhar vago, perdido de desencanto. A pensar, certamente, na utopia que foi aquele barco de um amor infeliz, que um dia naufragou irremediavelmente e para sempre, ao largo de Copacabana.
Q. P.             

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

VERDADES DE LA PALICE ...





 Prenúncio de morte, prenúncio de sorte ...

É uma rua singela que desce para o mar. Uma rua empedrada, que vem do alto da muralha e se espreguiça morro abaixo. De ambos os lados, nas margens da rua, que se vai estreitando em forma de funil, muitas lojas. São espaços pequenos de modesto comércio. Mas lojas coloridas e festivas, de todo o género de mercadoria e poder de compra da bolsa de cada um. No cimo da rua, do lado esquerdo, está um Café. Dentro do Café, está sentado um homem. Esse homem sou eu. Naquela pequena mesa tão a meu gosto, estão mais três cadeiras. Duas delas não estão vazias. Ali, em pesado silêncio, sentam-se Duas Memórias. A Memória de dois amigos de tempo de férias, que partiram para o Infinito em escasso espaço de tempo – o Eduardo Castro e o Jorge de Sá Couto. Eram ambos do norte. Não os esquecerei. Na cadeira que resta, senta-se o dono do Café, quando o estabelecimento está vazio. Falamos de tudo e de nada e eu vou olhando o pulsar da rua. A senhora de idade simpática que passeia o seu cão pela trela. O casal inglês que conduz o carrinho de bebé. Ela é pequena e bonita. Ele é alto, traz uma tatuagem numa perna, um brinco numa orelha e os braços vermelhos deste sol enganador de maio. Um sol que arde sem se ver. E a jovem asiática que, de calções curtos, mochila às costas e mapa turístico na mão, vai de cabeça erguida tentando decifrar os mistérios da cidade. Naquela tarde, o Zé Manel está sentado a meu lado a olhar a rua do meu conforto. Então, como gaivotas, um grupo de turistas de idade jovem, pousa na pequena esplanada. O Zé Manel levanta-se, pega na bandeja e vai apontando os pedidos daqueles clientes de ocasião. É um vai - vem de bandeja, com cervejas, sumos, torradas, bolos e sandes. Comem e bebem como se não houvesse amanhã e eu vou olhando o semblante do meu amigo, que ferve em pouca água e parece começar a ficar irritado com tanta exigência. Depois, com os estrangeiros naquele festim de gula, vem sentar-se novamente junto de mim. Para lhe amenizar o desconforto, vou-lhe lembrando aquela máxima de que “à medida que vamos comendo, vamos perdendo o apetite”. Uma jocosa verdade de La Palice, como que fazendo-lhe perceber, que ao bando de gaivotas de papo cheio, já só lhes resta pagar a conta e partir. Não me enganei. Entre cantigas e risos, desceram a rua felizes. O Zé Manel, agora já folgado e para surpresa minha, disse que também me ia contar uma história de La Palice, afiançando – me ter acontecido. Foi buscar um café para ele, misturou-lhe uma pitada de adoçante e narrou – me este acontecimento que se perde no Tempo:


- Havia em Lagos, um pescador chamado Manuel. Era pobre e ia para a faina no seu pequeno barco a remos. Um dia, olhando o mar sereno, dobrou a barra e aventurou-se mais do que devia. Então, uma corrente traiçoeira foi levando o pequeno batel para o largo. Bem remou o Manuel em desespero, mas em vão. Horas depois e sem comunicação, estava ao largo de Sagres. A esperança de o barco bater contra as rochas desvaneceu-se, com a corrente a levá-lo ainda mais mar adentro. Cansado, rendeu-se e meditava agora que o mar que tinha sido seu modo de vida, era agora seu prenúncio de morte. Puxado cada vez mais para o lugar de ninguém, viu-se na rota dos grandes navios e a sorte ajudou-o. Um cargueiro avistou-o e rapidamente procederam à recolha do náufrago. Exausto e em hipotermia, foi levado para a enfermaria do navio, onde forneceu todas as informações que lhe pediram. Mais tarde, já com a capitania de Lagos avisada, uma corveta da Marinha Portuguesa resgatou o Manuel e trouxe-o para terra. No cais, tinha muitos amigos da faina à espera dele, de lágrimas nos olhos. E a mulher, que para ele correu de braços abertos e que em pranto lhe disse:

- Manuel … Manuel … foi Deus que te salvou …

E ele, ainda de olheiras fundas e rosto sofrido, abraçou – a com carinho e respondeu – lhe ao ouvido e em surdina:

- Não mulher … não foi Deus que me salvou … quem me salvou foi um cargueiro norueguês …

Q.P.         
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O ANTÓNIO MALUCO ...



 a remendar as malhas do Destino ...
(foto net)
É ali, naquela varanda da Rua do Adro, que desfio mais um Rosário de memórias. Quanta saudade, quanta emoção, ao olhar aquela calçada estreita de pedras alvas e do casario branco e atarracado de terraços geométricos e singelos. Venham comigo. Desçamos a rua e acolá, naquela velha porta de madeira, batamos. Lá dentro, sentado num banco, está o António Maluco. Nasceu em Lagos e em Lagos mora. Do mar vive e sobrevive. Com o oceano casou, quando ficou sozinho, no dia em que a mulher partiu para a longa viagem do Eterno. Agora, é o mar e apenas o mar, a sua paixão. E o seu sustento. O cigarro pendente dos lábios, o fiel companheiro. Vergado sobre a grossa agulha, vai remendando as malhas com que voltará à faina. O António Maluco é homem de poucas falas. Tem uma voz gutural e embrulhada, que lhe sai dos lábios aos tropeções. Desde os verdes anos, que carrega aos ombros a alcunha de “maluco”. É assim que o povo lhe chama. Mas, na realidade, o seu nome é Pacheco – António Pacheco. Porém, valha a verdade, pouco se importa. Maluco é a sua coroa de glória. Relembra os dias de juventude, quando jogava a bola de trapos nos campos da Atalaia e a peleja acabava sempre em zaragata. O Pacheco tinha mau perder e o seu feitio travesso, valeu-lhe o distinto nome. Agora que a vida se aproxima do cais, tem apenas como adversário o mar. Mas é uma história de amor. Mesmo nos dias de suestada, a casca de noz com que se aventura a colher o seu sustento, está abençoada por Éolo. A brisa, por vezes forte, que substitui a bonança, sempre o empurrou para um porto de abrigo. Também a Fé, materializada numa Imagem de Nossa Senhora de Fátima, que daqui vejo em cima de um armário sombrio da acanhada cozinha. Partamos e deixemos o António Maluco a remendar as redes do seu Destino. Reparem como o seu rosto se ilumina num sorriso magoado, agora que vamos partir, Registem como tira o boné de forma educada em jeito de cortesia. Porque o António Maluco, que também se chama Pacheco, transporta nas veias a sensibilidade e os acordes de quem dedilha com os dedos macerados, a harpa dourada da sinfonia dos heróis.
Q.P.    

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A FRONTEIRA ...




 finito e infinito ...

Não tenho o culto dos mortos. Não corro nem nunca corri para aqueles espaços tétricos que são o ancoradouro da vida. Mas eis-me aqui, neste estranho paradoxo de, numa terra distante, ultrapassar o portão de ferro que me abre as goelas para a única certeza da vida. Ali, naquele pequeno morro, percorro campas e olho fotografias entre flores vivas e coloridas. Também por entre pedras tumulares de mármore de grande aparato, ou simples montes de areia, como se os que povoam este mundo terreno, queiram ainda fazer a patética distinção entre os herdados e os deserdados da vida. Deambulo errante por entre carreiros estreitos e vejo caras que me são familiares. Paro junto à última morada de um homem simples com um nome também tão singelo quanto foi a sua vida – apenas Francisco António. Ali fiquei, a olhar a sua fotografia por entre os cravos de uma jarra, porque hoje é dia de finados. E recordei a sua oficina de bater sola e do calçado dos fregueses pendurados em cavilhas espetadas na parede. E das vezes em que, por amizade, me engraxava os sapatos e me contava inocentes anedotas. Deixei quem tinha de deixar na intimidade de uma prece e saio daquele local. Lá fora, no cocuruto daquele pequeno monte, tenho uma vista privilegiada sobre a aldeia. Num dia morno, o Tempo parece que se escoou pelo fundo de um funil. Uma a uma, contei as onze badaladas do relógio que habita o alto da torre da Junta de Freguesia, que domina todo o povoado. Partir por ruas estreitas ladeadas de oliveiras, com num qualquer conto Bíblico. Depois, despir o luto institucional, como se o vazio da ausência tivesse data marcada. Sacudir aquela penumbra da alma na mesa de um restaurante da cidade albicastrense. Com os empregados que me conhecem há muitos anos, os sorrisos, as picardias do pontapé na bola ou a escolha do prato a degustar. E ele, o dono, lá apareceu de boné desportivo na cabeça, a falar-me de um tinto italiano de eleição a um preço exorbitante. Tremi de susto, mas o italiano de Verona logo me pôs à vontade. E prometeu-me que, na sua companhia, provarei aquele néctar dos deuses. E eu, neste dia de velório a roçar a espiritualidade, vou acreditar que beberei daquele vinho tão especial. Até lá, limitei-me a saborear um fino vinho branco que me fez despir a capa escura de um dia soturno, para relançar a vontade de viver. E de derrubar a fronteira mística e mítica entre o finito e o infinito.
Q.P.           

sábado, 28 de julho de 2018

CRÓNICA DO SUL ...






Derramado sobre a cadeira do meu conforto, olho o jornal. Apenas olho, porque as notícias cansam de repetitivas. Atiro com o diário para a cadeira do lado e observo os barcos aparcados na Marina. São barcos grandes e pequenos para todos os gostos e bolsas. Mas há os outros. Os que são o sustento de muita gente ligada ao turismo. São coloridos e festivos, artisticamente engalanados para atrair veraneantes em passeio pelas grutas ou olhando ao largo o prazer de conviver com golfinhos irrequietos. Ou ainda aqueles que gostam da pesca de cana das espécies graúdas de alto mar, de contornos especializados. Os mais simples é vê-los chegar e partir, de coletes de cor amarela ao pescoço para prevenir qualquer incidente no oceano. Vão e vêm como as marés. Chegam de boné na cabeça e a pele vermelha congestionada e abrasada deste sol algarvio. Estou absorto neste desfile de gente tão diversa portuguesa e estrangeira, quando uma menina de braço tatuado se acerca de mim. Pergunta-me gentilmente o que pretendo beber. Escolho um sumo da boa laranja algarvia. A cerveja fica para depois, quando lhe pedir o almoço. É ali, com a minha consorte, que por vezes atracamos também a nossa nau de afetos com a cidade - marinheira. Olhar aquela parafernália de mastros emaranhados e de bandeiras ao vento, e ver ao longe mas também ali tão perto a cidade histórica, que é nosso refúgio em diferentes épocas do ano.


Almoçamos ao ritmo do veleiro que parte. Vai lento, talvez a meditar no esgrimir de argumentos com as ondas e a espuma alva destes dias de verão. Enquanto a minha companheira vai folheando uma revista, percebo que ela não tem pressa. Como já são muitos anos de tarimba, se não me acautelo vou passar a tarde a olhar para montras num entrar e sair de lojas do meu enfado. Tenho então que tomar uma decisão e tomo – atiro com as chaves do carro para cima da mesa e exclamo numa amabilidade imperativa: encontramo-nos em casa!


Parto. Percorro a calçada deambulando entre tendas de roupa e dos mais diversos artigos. No largo que é sala de visitas, cumprimento o Sebastião de Cutileiro e penetro numa dependência bancária, em busca duma máquina automática e dos euros do meu contentamento. Vã e rápida ilusão. Os vikings que assolaram a cidade raparam tudo. Digo entre dentes algo de vernáculo de acordo como meu estado de espírito e volto para o sol castigador que inunda o largo. Ponho-me a meditar naqueles dois quilómetros sempre a subir até chegar a casa sob um sol a pino e olho a praça de táxis da minha salvação. Nova ilusão. Os vikings tinham tomado os táxis todos de assalto e já só me resta esperar. Enquanto aguardo sentado num pequeno banco de jardim, olho o carrossel inerte e sem sorrisos de criança. Apenas os tigres, os cavalos e as girafas se riem, a aguardar os seus pequenos clientes de um mundo de ilusão. Ao lado, africanos tentam vender todo o tipo de mercadoria espalhada em mantas pelo chão. São vestidos femininos, estatuetas em madeira, carteiras de senhora, relógios e braceletes de aspeto apelativo que ostentam nos dedos grandes e esguios, naquela improvisada ourivesaria de rua.  As suas túnicas coloridas, largas e compridas, lembram-me os mistérios de África. Nos seus olhos grandes e expressivos, encontro a paciência e a sabedoria de quem sabe esperar. Porém, é uma bizarra figura que me atrai a atenção. É um homem magro, de aspeto mal cuidado e rosto envelhecido. De estranho, é que dorme profundamente sentado em cima do selim de um cangalho de bicicleta, os pés nos pedais e braços cruzados sobre o peito. Para remediar aquele equilíbrio instável, tem o ombro esquerdo apoiado no tronco de uma árvore. Fico a olhar aquele inusitado quadro, até que acontece o provável: a bicicleta resvala e arrasta consigo o homem que desamparado bate com violência com a cabeça no chão. Grande alarido entre os africanos que, antes de mim, já o tentam socorrer numa roda de solidariedade. Combalido, o pobre homem agarra a cabeça com as mãos num esgar de dor. Lentamente vai recuperando até que, para surpresa minha, volta a montar na bicicleta e, de olhar vazio, fica a ver escoar-se o Tempo e a Vida. Dos turistas que observavam aquele momento, ninguém se mexeu. De todos, lembro aquele homem gordo de bochechas afogueadas, que se lambuzava com um gelado que com o calor lhe escorria pela camisola estampada com um musculado e enérgico Super Homem - fraco Super Homem.


Entro no táxi e digo ao motorista onde quero ficar. Indico - lhe com precisão o local e à guisa de conversa, vou dizendo que há muitos anos conheço a cidade. A conversa não é inocente. Quero que ele entenda que eu não sou um turista acidental a deambular pela urbe em passeio forçado ao sabor do rodar do taxímetro e dos euros. E assim, pelo caminho mais curto, cheguei ao meu porto de abrigo.


Agora, a coberto da canícula e de janela da varanda aberta de par em par vejo o  mar e o céu azul, onde as gaivotas voam em círculo no seu jeito caraterístico de comunicar entre elas em tempo de acasalamento, enquanto vão riscando o céu em coreografias sublimes numa dança flutuante ao sabor de um Tempo e de um Vento que não se esgota na sua rota intemporal.  


Logo, mais logo, quando a noite lacobrigense chegar, as ruas medievais enchem-se de forasteiros das mais diversas origens, perante a indiferença de um Infante vestido de bronze e sentado num pedestal erguido em pedra alva, a olhar o mar que lhe traçou o Destino e a História. É o seu mar. É o meu mar.

Q.P.