quarta-feira, 2 de março de 2022
ESTRELA DO MAR - LAGOS Texto de Kito Pereira
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
VACINAS E UTOPIA - Texto de Kito Pereira
sábado, 4 de dezembro de 2021
O CAMIONISTA Texto de KITO PEREIRA
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
| GABU - antiga |
A DOCE AMÉLIA …
Apareceu-nos no Gabú, vindo das altas terras da Guarda. Trazia nos ombros as divisas de furriel e cedo deu nas vistas pela sua gabarolice. Cabelo quase rapado, usava camisa justa de manga curta, de onde sobressaíam dois braços peludos, que mais pareciam dois troncos. Quer nas tertúlias do bar ou nas noites escuras da tabanca, a conversa do Almeida era sempre a mesma: a sua apetência por saias. Gabava-se de na Guarda ser um galã, e que nos bailes da região, destroçava corações. Um dia, numa passagem por Bissau, enquanto bebia uma “imperial” no café do Bento, reparei numa fotografia caída no chão. Apanhei-a. Era o jovem rosto de uma mulher. Olhei-a com curiosidade e logo me apercebi de uma verdade que não merecia contraditório: a miúda era feia como a noite dos trovões !!!. Tinha um rosto comprido e um queixo de rabeca, um nariz adunco e era ligeiramente estrábica. Meti então a fotografia na carteira, enquanto na minha mente se começou a formar uma ideia maquiavélica. Chegado ao teatro de guerra e num recanto escuro do Bar, convoquei o alferes Beirão e o furriel Mimoso para uma conversa. E foi ali, sentados numa mesa que esboçámos a conspiração. O Beirão era da Guarda, e estava a poucos dias de ir de férias a Portugal. E a ideia peregrina era esta: o alferes levar a fotografia da rapariga, e remetê-la depois numa carta arrebatadora e apaixonada, endereçada ao Almeida para a Guiné. Analisámos a “canalhice” ao pormenor. A letra tinha que ser feita por mão feminina, e era preciso um remetente. Enquanto o Mimoso franzia a sobrancelha de tanto pensar, o Beirão resolveu de imediato o problema. Estou a vê-lo, alto e careca, pálido como uma vela de estearina e uma voz grasnada, a dizer: “ … a carta escreve a minha irmã … e o remetente pode ser mesmo o lá de casa …”. Com afinco e reboliço, debruçamo-nos então a escrever o teor da missiva, comigo à cabeça do pelotão. A Amélia do Amparo - assim baptizámos a miúda – dizia-se “vítima” de uma paixão arrebatadora pelo Almeida, e que tinha “revolvido o mundo” para saber do paradeiro do seu amado. Bem, a carta ficou um Mimoso mimo. Agora, já só faltava a irmã do Beirão copiá-la. Dias mais tarde, o alferes partiu de férias, levando no bolso um rascunho redigido por três trafulhas. E a fotografia. Depois, foi só aguardar, pacientemente, que a carta da “doce Amélia” chegasse. Como chegou. Após a correria na procura do nosso correio, eu e Mimoso encostámo-nos a um frondoso embondeiro, no meio da parada. E pelo sorriso triunfante do Almeida, percebemos que o Beirão tinha cumprido, na íntegra, a espinhosa missão. Regressámos então ao abrigo, enquanto o Almeida, sentado num tronco de árvore, devorava a arrebatada mensagem, com os olhos fora das órbitas. Minutos depois entrou na nossa toca, triunfante, a acenar com a fotografia na mão, e a dizer fora de si: “ … eu sabia… eu tinha a certeza … que ela estava louca por mim …óh malta… você nem imaginam o “marmelanço” que foi num baile de anos de uma amiga minha … ela toda derretidinha … vou já escrever-lhe !!!...”. E escreveu. Só que nunca houve retorno das inflamadas cartas do Almeida, como era óbvio. O destino era o caixote do lixo, em casa do Beirão. Mas o nosso “pinga-amor”, nunca deu o braço a torcer. Quando chegava a avioneta do Correio, percebíamos na cara dele o seu desencanto e o ar crispado…
O ano passado, lá para os lados de Fátima, os militares que durante várias décadas passaram pelos trilhos do Burmeleu e do Chéche, resolveram encontrar-se num almoço. Tinham decorrido quase quarenta longos anos. No repasto, apenas reconheci dois ou três militares daquele tempo e do meu tempo. E o Almeida. Ficou à minha frente, na mesa. Com um sorriso seráfico, fui perguntando se ele tinha casado com a “doce Amélia”. Disse-me que não, mas que quando regressou de vez a Portugal, ainda tinha andado “enrolado” com ela. Tanto tempo decorrido após o regresso da guerra, o Almeida continua com a mesma prosápia. Este ano, haverá, certamente, novo convívio. Espero não ficar na mesa dele. É que já não tenho paciência - não tenho mesmo - para o recomeçar da verborreia …
Kito Pereira.
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
SEM SINAL …
Quis fazer penitência. Nesta romaria entre cafés e restaurantes, muitos têm sido os elogios ao peixe fresco. E a Baco, materializado em vinho, cerveja e aguardente da rija. A Baco até se fazem brindes à Sua saúde, como se a Divindade romana não fosse imortal. Com o fígado a protestar, fiz uma jura que ia fazer uma cura de Águas de Espiche. Levei a peito a intenção até a campainha da porta da rua tocar freneticamente. Abri e dei com um Coronel de Artilharia com cara de poucos amigos. É o meu vizinho do mesmo piso, aqui do 6º Frente. Irritado, perguntou – me se eu tinha “sinal” na televisão nos nossos canais TDT. Disse – lhe que também não e até acrescentei que desconfiava das operadoras do Cabo a querer vender serviços, ou seja, a fazer sabotagem numa linguagem muito militar. Num jogo de cortesias, mandei – o entrar. Bom conversador e Engenheiro formado no Instituto Superior Técnico com alta nota, enveredou pela carreira militar. Sentados a olhar o mar, falou-me orgulhoso das suas origens transmontanas e do lema “antes quebrar que torcer”. Relembrou o seu tio bragantino que naquela época remota dos anos 50 do século passado, resolvia as querelas à paulada. Confidenciou – me que falava corretamente o dialeto mirandês e diverti – me com algumas traduções. Também lhe falei do meu humilde e obscuro passado das armas em África, e das minhas míseras divisas milicianas em contraponto com os galões doirados dele. Então pediu – me que falasse mais alto, porque a rapaziada de Artilharia com o ribombar dos canhões está toda surda. Uma franqueza que só lhe ficou bem.
Depois falou – me das Unidades Militares que comandou e,
nesta jogo de amabilidades, convidou – me para a casa dele, que era na porta ao
lado e lá fomos logo em compungida procissão. E foi aí que a minha jura de
negar naquele dia Baco, caiu por terra. Quando dei por mim, tinha um copo na
mão a fazer brindes ao presente e ao futuro. E lá se despejou a garrafa.
Voltei para o meu refúgio depois de mais um caloroso aperto
de mão ao meu vizinho militar, pedi desculpas a mim próprio e acabo solenemente
de prometer que farei uma trégua vinícola. A menos que o “sinal” da televisão
desapareça outra vez e a campainha da porta toque de novo, com o meu amigo
Coronel de novo irritado e acabarmos outra vez o dia de copo na mão. E a clamar
por vingança e justiça a tiros de artilharia …
Kito Pereira
segunda-feira, 12 de abril de 2021
RAIZES Texto de Kito Pereira
RAÍZES …
Penamacor, no interior da Beira Baixa, foi um penedo sombrio
na vida de Rui Felício. Várias foram as vezes que falou no assunto e do degredo
que foi essa sua experiência na juventude. Momentos difíceis, mas que a
frescura da idade ultrapassou, para hoje, no folhear das páginas do livro de
memórias, relembrar, se calhar com uma inquietante saudade, mais um momento
pardo da sua vida militar. Mas talvez o jorrar da fonte de água límpida da
Aldeia do Bispo, lhe traga à boca um sabor a mel. Quando um coração no zénite
da pujança, partiu à desfilada, alvoraçado com a saia rodada de alguém que tinha como missão ensinar as crianças a
juntar as letras e as palavras. E a brincar com a fantasia dos números em
complexas combinações para a mente daqueles pequenos seres de palmo e meio.
Todos, sim, todos, passámos por estes momentos. Fosse numa
aldeia distante ou no bulício de uma cidade, houve sempre uns olhos que se
cruzaram com os nossos e, no ímpeto da juventude, nos fez sonhar em dias e
noites de exaltação, quando descobríamos em nós, com entusiasmo, uma escondida
veia poética, por vezes ridícula porque, parafraseando Álvaro de Campos,
heterónimo de Fernando Pessoa … “todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam
ridículas, se não fossem cartas de amor” …
Mas há as raízes. As raízes daqueles que nasceram naquele
rincão da Beira Baixa. É o caso de um advogado meu conhecido. É sempre na praia
que o encontro. De mãos atrás das costas, meditabundo, vai olhando o mar. Farto
de leis, decretos-lei, portarias e despachos, o João vê no mar algarvio, o
remédio para a rotina e o cansaço. Mas é lá, muito mais a norte, que vai ao
encontro das suas raízes. Gosta da sua terra – Penamacor. Gosta das suas gentes
e dos bocados de terra que os antepassados lhe legaram. Gosta da casa que
herdou e que reconstruiu com amor e um dia me mostrou com orgulho.
O Lemos era transmontano. Num momento de aflição, salvou o
alferes num momento que poderia trazer ainda mais graves consequências, do que
aquela espécie de deportação. Mas não me
admirou. As gentes daquela zona de Portugal, são amigas e solidárias. Mas o
inverso também é verdadeiro. No momento de uma ofensa grave, ninguém os queira
como inimigos.
Mas é de raízes que estamos a falar. Recordo aqui e agora,
aquele casal com dois filhos que vive em Miranda do Douro. Terra pequena e
singela, encostada a Espanha, paraíso de feirantes, que atravessam a velha
ponte de pedra sobre o Douro ao fim de semana, para vender as suas roupas,
tecidos e atoalhados. É ali, naquela cidade, que um dia os conheci. Falam o
mirandês com orgulho, carregando nas palavras que lhes brotam dos lábios, com a
força interior de quem, pela deslocalização geográfica, se habituou a viver
sozinho. Confidenciaram-me que é no sul do país, que gostam de gozar as férias.
Por isso correm Portugal de lés a lés, na procura do mar brando e reconfortante
que a sua terra não tem. Mas, na hora do regresso, quando ao longe já se
divisam as duas torres - sineiras da Sé de Miranda do Douro, perpassa neles um
frémito de emoção. É ali que vive, numa redoma de vidro bem vigiada o Menino
Jesus da Cartolinha, imagem muito venerada pelos povos da região. Então, com
alegria, regressam à sua minúscula cidade, para mais um ano de expectativas e
canseiras. Mas jamais, jamais mesmo – como me disseram com determinação - se
sentiriam felizes noutra terra. Raízes …
Kito Pereira
domingo, 7 de março de 2021
LEVASTE A CHUVA NOS BOLSOS...
LEVASTE A CHUVA NOS
BOLSOS …
Numa manhã de maio partiste para o Sono Eterno. Mereces esse
sono reparador pela tua alma inquieta e inconformada. Viveste num planeta que
não era o teu e numa galáxia que não era a tua, aprisionado pelas grilhetas de
uma sociedade que não te compreendia nem
te compreende. Vestiste na vida o preto carregado do luto. O luto do teu ser
atormentado. Derramaste pelos livros de poesia que escreveste o sentir da tua
rima negra. O desencanto e a descrença que se visitam e revisitam página a
página naquele labirinto de emoções pardas em que nos perdemos como náufragos
na procura de um porto de abrigo que não vislumbramos. Morremos contigo e
sentimo-nos levados pela tua mão pela diáspora do Universo e do Eterno.
Não te conheci nesta vida José António, mas queria. Queria
muito. Queria falar-te do teu pai. Queria dizer-te quanto ele significou na
minha infância Choupalina. Queria envolver-te a ti e a ele num abraço fraterno.
Mas sei que é impossível, pois tal como tu também ele partiu. Partiu cedo
quando ainda muito tinha a esperar da vida. Afinal a morte dos homens comuns, que
partem anónimos no rasto da cauda luminosa de um cometa. Mas tu Zé António, nunca
viveste amarrado ao cais da nossa existência opaca. Apenas emprestaste a este
mundo o corpo que assinalava a tua presença física, passeando por aí absorto e
ausente, trazendo contigo a chuva nos bolsos. Porque o teu espírito e a tua
alma nunca pisaram esta nau terrena do conformismo do nosso penar. A chuva que
levaste nos bolsos, talvez seja uma fonte de lágrimas. Lágrimas da tua
impotência em mudar o mundo, de vivermos em sociedade nas asas de um sonho
sempre inacabado. Sabes – ou talvez não
– quanto a tua família honrada e leal significou no meu passado remoto. Talvez
por isso, quando te li e reli, senti a necessidade de falar contigo estejas
onde estiveres. Foste para mim uma grande surpresa na genialidade da tua poesia.
O Cantar de um Homem culto e superior, desenraizado e distante, que é só
privilégio de todos os pensadores geniais. E que melhor forma terei para te
homenagear, do que navegar nessa barca de desconforto e de solidão interior,
remando contigo no alvoroço das tuas palavras cor da cinza - “ são horas de me
erguer e caminhar fora do túmulo das palavras no segredo desse lugar único em
que a escuridão da noite parece eterna claridade”.
Abraço – te, José António.
Kito Pereira
domingo, 21 de fevereiro de 2021
IR Á GUERRA...PARTI E VOLTEI...Tento cumprir as instruções governamentais de ficar em casa no meu estatuto de reformado.
IR À GUERRA …
Um dia parti e um dia voltei. Voltei da guerra e vim são e
salvo. Agora regressei de novo à guerra. Tenho a desvantagem de não conhecer o
inimigo e desconfio em cada esquina do meu semelhante que se cruza comigo. Tento
cumprir as instruções governamentais de ficar em casa no meu estatuto de
reformado. Mas as necessidades mais básicas como a alimentação e medicamentos,
fazem-me pisar o campo de batalha. Tal como os lobos que descem ao povoado na
procura de comida, é preciso partir. Como outrora eu ajustava as cartucheiras,
a ração de combate e a metralhadora, agora ajusto a máscara, ponho os óculos na
cara e calço umas luvas descartáveis. Meto o carro no subterrâneo do
Supermercado. Entro no elevador e toco no botão com a ponta da chave do
automóvel. Depois, pego num carrinho para acomodar as compras e começa o
pesadelo. Mas onde raio encontro a embalagem da manteiga magra? Eu ia jurar que
os ovos estavam ali !!!
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar um
pacote de arroz “Carolino” ?
- Olhe, o Senhor vai por este corredor, depois vira à
esquerda, depois à direita e 10 metros à frente, outra vez do lado esquerdo
encontra a prateleira dos “arrozes”.
E o caminhante que sou eu, lá vai a empurrar o carro das
compras com cara de penitência. Maldita lista de compras que nunca mais acaba,
ainda me falta a prateleira das hortaliças mas eu desconfio que sei onde é e
até acertei, estou orgulhoso comigo mesmo.
- Óh menina …desculpe … onde posso pesar esta curjete ?
- O Senhor esta confundido, isso não é uma curjete é um
pepino …
E agora … como encontrar os sumos de laranja do Algarve?
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar os
sumos de laranja do Algarve?
- Óh Senhor … olhe-os aí mesmo em frente do seu nariz…
Resmungo, ajeito a
máscara no nariz e prossigo a Via Sacra. Caraças, que isto agora vai complicar
– se ainda mais. Eu sei lá onde é que estão os rolos de papel higiénico e o
detergente para a máquina de lavar louça???!!!.
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar o
papel higiénico?
- Olhe, aqui não de certeza, que o Senhor que está encostado
à vitrina dos congelados …
- Então e o detergente da loiça ? …
- Olhe é exatamente no sítio oposto, tem que ir ao outro lado
do supermercado...
E isto tem tudo para continuar a correr mal e acho que nem
com uma bússola encontro a lixivia. Admito que estou esgotado, levo o carro das
compras numa correria, pago a mercadoria à pressa à menina vestida de verde que
é muito simpática e desço ao subterrâneo na procura do meu meio de transporte.
Atiro com as compras para o porta – bagagens e confiro o papel amarrotado que
tiro do fundo do bolso das calças e que me foi dado em casa e … upssss …
esqueci -me dos iogurtes e do queijo fatiado !!!
Kito Pereira
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
ERA UMA VEZ UM COLÉGIO TEXTO DE KITO PEREIRA
ERA UMA VEZ UM COLÉGIO
Era uma vez um colégio. Um colégio na bela Coimbra. Ali,
passando os Arcos do Jardim, subíamos a Rua de Tomar e, do lado esquerdo
daquela artéria, entrava-se por um portão largo para uma casa de traça
escorreita e de dois andares. Outrora casa de habitação, o edifício tinha
subido de estatuto e era agora forrado de um nome aristocrático – Dom João de
Castro. O Colégio era composto por professores e alunos. Os professores –
alguns – refugiados de perseguição política e do doutor Salazar, que lhes não
permitia lecionar no ensino público. E era num colégio particular que os
docentes angariavam a sua subsistência. Entre eles, Teles Grilo e Fernando
Queiroz.
Dos alunos, era mais difícil falar. Nunca um aluno aplicado,
dedicado às matérias e civilizado, foi objeto de notícia. E desses, o Dom João
de Castro tinha um leque razoável deles. E também havia os outros. Faltosos,
cábulas, incultos, irritantes e truculentos. E começar a pensar neles é como
quem está a desfiar as Contas de um Rosário. Um tal Queiroz, que dava ares de
intelectual e que trazia numa pasta misturado com compêndios maltratados,
revistas de mulheres nuas de duvidoso gosto. O
Lourenço, que tinha uma vaga ideia que a Revolução Francesa tinha sido uma
guerra muito sangrenta. O Toni, que era especialista em arraiais de pancadaria
nas noites de Coimbra. E um tal Cunha, protagonista de uma rocambolesca cena na
pequena esquadra de polícia que havia ao cimo da Rua Alexandre Herculano, junto
ao colégio das raparigas e com o mesmo nome. Um piropo infeliz a uma jovem
donzela pelo tal Cunha, e da queixa que a aluna logo fez ao sentinela da
esquadra, valeu que viesse um piquete de guardas junto à Associação Cristã da
Mocidade uns metros abaixo e que um grupo de nós – incluindo eu – fossemos
todos a gancho para a esquadra.
Alguém foi a correr dizer ao Dr. Teles Grilo que um grupo de
alunos estavam detidos na Esquadra da Alexandre Herculano. E ele, que apesar do
seu feitio meio conflituoso era um bom homem, lá foi com a sua gabardina até
aos pés e a mortalha do cigarro pendurada ao canto dos lábios, tentar resolver
o problema. Entrou de supetão na esquadra, deu de caras comigo e de dedo à
frente do meu nariz acusou – me:
- Óh miúdo andas sempre metido nestas confusões !!!
Eu, que nunca tinha brigado com ninguém ou desconsiderado
quem quer que fosse.
Com falinhas mansas, o Grilo tentava convencer o Chefe da
esquadra:
- Sabe Senhor Chefe … isto é gente nova … é preciso termos
alguma condescendência … eu quando chegar ao colégio chamo – os à pedra …
Por essa altura, o Cunha que tinha sido o responsável pelo
incidente e era conflituoso que baste, fungava pelo nariz parecia um touro
enraivecido. O que é certo que o Dr. Grilo conseguiu os seus intentos. Tivemos ordem
de despejo. Saiamos em rebanho e o truculento Cunha que liderava a manada, saiu
primeiro e foi barrado à saída pela sentinela que não sabia da súbita decisão
do Chefe da esquadra. E perguntou de maus modos:
- Onde é que o Senhor pensa que vai?
E o Cunha não está com meias medidas – dá um estalo no
polícia …
Assim como saímos, voltámos a entrar na esquadra. Mais que
uma cena da vida real, aquilo parecia um filme de desenhos animados. Mais
negociações, o Dr. Teles Grilo agastado a desfazer-se em mil desculpas até que
o chefe da esquadra ditou a douta sentença:
- Podem ir embora mas ( e apontou para o Cunha) … aquele
senhor fica cá.
E ficou. Detido, se calhar metido num calabouço e, num
pequeno exercício de imaginação, estou a vê-lo a comer ao almoço e de colher na
mão, feijão carrapato numa marmita de lata para lhe arrefecer os ânimos ...
Kito Pereira
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
UM TEXTO MUITO DEVOTO … Por KITO PEREIRA
UM TEXTO MUITO DEVOTO …
Eu pecador me confesso. Sou um devoto do leitão. Do leitão da
Bairrada, entenda-se. A culpa foi do meu amigo Rainho, que cedo me meteu nas
lides porcinas. Lá, na catedral da Bairrada, encontrei o meu porto de abrigo. É
no “Típico” da Dona Etelvina que vou rezar. Vou em compungido recolhimento,
benzendo-me já arrependido do meu pecado da gula. As funcionárias da casa que
ali trabalham, já me conhecem de ginjeira. Com um sorriso sarcástico,
perguntam-me se quero comer pescada cozida. E eu, no meu estatuto de cliente
ofendido, lá lhes vou dizendo que pode ser a deslavada pescada e para beber que
me sirvam um pacote de leite “Gresso”, de penitência. Modéstia à parte, eu acho
que merecia uma estátua na Mealhada. Não uma estátua equestre, mas montado em
cima de um porco, com uma faca e um grafo em cada mão e um guardanapo ao
pescoço, por causa das nódoas da gula. Um dia subornei o meu filho Gonçalo para
as lides e fiz mal. Também amante do garfo e da faca, cedo ficou mais devoto
que eu. Não foram precisas muitas lições de catequese para ficar beato. Tão beato
que uma noite em que a Académica jogava em Aveiro num jogo que não podia perder
– a sina do costume – lá fomos em romagem com mais um batalhão de aficionados
do pontapé na bola. Então aconteceu uma coisa rara – marcámos um golo . Um tal
Gyano, que andava em Coimbra a tirar o curso da universidade da vida, deu uma cabeçada
na bola que só parou no fundo da baliza dos de lá e ganhámos o jogo. No
regresso e com a alegria, fomos os dois a correr para a Mealhada já noite
adentro, com os ponteiros de relógio a bater a meia-noite. Lá chegados, o
entusiasmo esmoreceu. Tudo fechado e até nos apeteceu chorar. Andámos a bater
de porta em porta, até que encontrámos um restaurante que nos recebeu e,
sozinhos na sala espaçosa, demos azo aos nossos apetites porcinos. Pelo
exposto, admito que os leitores estejam inclinados de que eu mereço mesmo uma
estátua na Mealhada. Já agora, exijo também uma rua com o nome do meu filho,
que eu cá nestas coisas de religião sou um pai muito atento e extremoso …
Kito Pereira
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
O GALINHEIRO...
O GALINHEIRO …
Anda por aí um vírus ditador que me tolhe a liberdade. Farto
de notícias e da dança e contra - dança de informações, a mente foge-me para o
passado. Começo a navegar nas margens da minha sanidade mental e hoje
lembrei-me de um galinheiro. Um galinheiro é uma prisão onde vivem as galinhas
menos afortunadas. Porque as outras, as do campo, têm o sabor da liberdade, a
depenicarem nas couves do vizinho sem ter que comer daquela ração de rápido crescimento.
Pois, realmente a conversa está estranha e só continua a ler quem quiser. Mas, de
facto, há dias lembrei - me de um galinheiro em África na minha Base militar –
Canjadude. Se era um galinheiro especial ?. Era. Mas eu conto:
- O Azevedo era cabo com a especialidade de enfermeiro. Com a
boina às três pancadas na cabeça e os calções da farda a descaírem-lhe no
traseiro, não era propriamente um exemplo de aprumo militar. E tinha a
felicidade infeliz de gostar de vinho. Infeliz porque teve alguns dissabores.
Um enfermeiro embriagado é algo de nada aconselhável para um paciente. Muito
menos em teatro de guerra. Mas aquele ermo de mundo e de solidão convidava à
bebida. E ele emborcava daquele vinho que mais parecia uma purga, fazia um
esgar e lamentava-se:
- Só na minha terra é que bebo do bom …
Mas bebia. Bebia por vezes mais do que a conta, até que o
comandante da Companhia se irritou e um dia, agastado com os vapores alcoólicos
do Azevedo, meteu o dedo indicador à frente do nariz do enfermeiro e rezou-lhe
assim :
- Se voltas a beber
vinho meto-te no galinheiro …
Realmente não disse prisão. Porque presos estávamos nós. Mas
ninguém levou aquilo a sério. Porém, não foi preciso esperar muito tempo para
ver o Azevedo de novo a torcer a voz. Então, deu-se o impensável. O Barros, furioso, pegou no enfermeiro por um braço e
com ele aos zigue – zagues e aos tropeções, meteu - o no galinheiro juntamente
com as galinhas e galos de crista soberba. E nós, graduados, lá fomos pressionar
o capitão como os jogadores de bola que rodeiam o árbitro a contestar um
penalty. Queríamos o Azevedo fora do galinheiro, enquanto o enfermeiro de nariz
vermelho como um pimentão berrava agarrado à rede da cerca:
- Tirem – me daqui ou acham que tenho cara de frango ?
Tirámos. Mas durante cerca de duas horas conviveu com a
população residente, de onde sobressaía um vistoso peru. Então, ofendido com o
comandante da companhia por achar que ele punha em causa a sua competência nas
lides da enfermagem, dizia no refeitório dos soldados e fora de si:
- Quando eu voltar para o Porto, ele vai ver se eu não tiro
logo um curso de Medicina …
Kito Pereira
sábado, 26 de dezembro de 2020
VENTO NOTURNO
VENTO NOTURNO
Pela estrada asfaltada e de mau piso, rumar à Praia da Luz.
Um bastião de luz e de cor. De casas brancas de chaminés trabalhadas e de uma
praia de mar azul. Também uma singela capela de altar dourado e um pensamento –
Maddie MacCann. Lembrar uma menina e um drama. Olhar do lado esquerdo uma banca
de velas elétricas que se acendem pelas moedas dos visitantes. Meter o dinheiro
na ranhura e ver quatro ou cinco lâmpadas tomarem vida em memória da criança
inglesa. Depois rumar ao Forte. Almoçar olhando o horizonte e o promontório de
Sagres escondido por entre a neblina, talvez ele muito cioso no resguardo seu
Infante de outras épocas, um homem do mundo e de outros mundos – novos mundos. O vinho que se bebe, o brinde de copos que se
tocam num olhar ao futuro. Depois regressar. Percorrer outros caminhos ao
cantar das cigarras. Olhar a cidade deserta pela canícula deste estranho verão.
E logo, ao declinar da tarde, os pequenos barcos de brancas velas recolhem ao
porto depois de um dia de lazer. E outros, no ganha – pão dos simples, partirão para a faina. Ficam
estáticos no horizonte, apenas denunciando a sua presença pelas trémulas luzes
que mais não são que pequenos pontos no regaço do oceano. Quando a noite se
fechar sobre a cidade, os Ventos do Infante tomarão conta da urbe de avenidas
largas e vielas estreitas de origem medieval e de forasteiros que se aventuram
na procura de um bar aberto para um convívio de gentes de várias nacionalidades.
Fechar a janela ampla e ouvir o sibilar do vento a roçar-se fagueiro pela
persiana como um gato a acariciar as pernas do dono. É o vento noturno,
intemporal e propriedade de uma das mais belas cidades do nosso Portugal –
Lagos.
Kito Pereira
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
À CONVERSA COM OS AMIGOS - TEXTO DE KITO PEREIRA
À CONVERSA COM OS
AMIGOS …
Vivemos um estranho tempo. Um tempo de reclusão voluntária, a
conselho do governo e das autoridades sanitárias. Balançamos entre a ansiedade
e estados de alma, crentes no rigor científico, mas desconfiados do
supermercado de vacinas que prometem meter a vida mundial de novo nos carris. E
eu, defronte de um teclado, alimento-me de palavras e de frases que me espantem
os maus espíritos. E hoje, e mais uma vez, lembrei terras de África. Lá, em
Canjadude, deixei uma prestação da minha vida terrena. Naquele planalto vivi. Um
planalto com vários penedos de grande porte. Um deles era tão grande e
majestoso, que tínhamos um posto de vigia lá no alto. Dali, víamos toda a bolanha,
a espiar um qualquer movimento suspeito que nos fizesse pensar que o inimigo
andava por perto. A tal rocha, tinha na sua base uma enorme cavidade, quase uma
gruta, onde por artes da engenharia do desenrasca, se fundou um chiqueiro onde
habitavam porcos pretos para consumo da base. Mas apenas para nós europeus, uma
vez que os militares africanos se privavam de carne de porco por a sua religião
não o permitir. Curioso recordar, que as rações de combate dos africanos
traziam como refeição conservas de galinha, ao invés dos outros enlatados que
eram de porco e intragáveis. A carne vinha quase crua e mal cozinhada, só
faltava o porco grunhir de dentro da lata. Mas havia sempre a ocasião em que
tínhamos direito a carne de porco sem ser de conserva. No dia da matança do
porco, era sempre uma festa. Porém, eu e os outros graduados, fugíamos para o
nosso abrigo, para não sermos cúmplices daquele ato primitivo e bárbaro do
abate do animal. Porém, havia sempre cinco ou seis soldados que se dispunham a
ajudar o João na matança do suíno. O João era o nosso cozinheiro. Era gordinho
e atarracado, tinha umas bochechas rosadas e um sorriso doce e prazenteiro.
Gostava de comer mas era racional na alimentação. Tudo tinha que ser
aproveitado porque, naquele fim do mundo, não era grande a abundância.
Geralmente, o João quando se decidia por matar porco fazia-o ao sábado. E nós a
esfregar as mãos de contentamento, a suspirar por uma costeleta do animal bem
suculenta e apetitosa com batatas fritas e um ovo a cavalo. Mas o João, naquela
sua veia de racionalidade gastronómica e irritante, no domingo sequente e ao
almoço, mandava para a mesa o focinho do porco, com os pezinhos e as orelhas do
bicho, tudo acompanhado com grão – de - bico que, de tão duro que era,
carregado numa espingarda matava pardais nos telhados. E nós, o que nos
apetecia mesmo era correr a tiros de bazuca com o João cozinheiro, que nos
destruía os sonhos de uma exaltante refeição dominical. Porém, nos dias
seguintes, lá tínhamos direito a umas refeições melhoradas, onde a carne de
porco era rainha com sabor a saudade e a Portugal.
Kito Pereira
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
ENCONTRO COM A ARTE - TEXTO DE KITO PEREIA
TOLDOS …
O Outono entrou silencioso e banhado de sol neste rincão
algarvio. As praias, despidas das multidões dos meses de verão, parecem ser
agora o lugar ideal para momentos de reflexão e diálogos com o mar. Sentados à
sombra de um toldo e recostados numa espreguiçadeira, dá para perceber que os
veraneantes têm agora outro registo. Gente de idade mais avançada, que vão
passeando pela praia de forma despreocupada e se sentam à mesa dos restaurantes
degustando o peixe escalado tão ao gosto dos algarvios. Os empregados de mesa,
já não andam numa roda vida. Esforçam-se pela eficiência e até dá por vezes para
trocar opiniões com os clientes. Lá em baixo, no areal, os toldos brancos e
listados de azul já são poucos. E a mulher de rosto com rugas de muito mar, vai
cobrando o seu aluguer e das espreguiçadeiras dos que estão dispostos a pagar
pouco mais de sete euros por seis horas de ociosidade. E ela, nos seus calções
brancos como a espuma do oceano, vai calcorreando a areia naquela que é a
profissão da sua vida. E, pelo fim da tarde, a azáfama de recolher e enrolar os
toldos e empilhar os colchões das espreguiçadeiras, que o mar amistoso pode de
noite mudar de cara e roubar os adereços que são o seu ganha-pão. Lá para meio
de Outubro, os apoios de praia ficarão fechados numa arrecadação, à espera de
um novo ano e esperança de melhores dias. E ela, a mulher de calção branco e
cara de muito mar, irá para lá da fronteira, na rota de um país de muitas
montanhas geladas, recebida nos braços da sua família emigrante que a acolherá.
Na mala, levará saudades e emoções. Também a secreta vontade de um trabalho
sazonal na Suiça do seu encanto, que lhe permita juntar mais uns euros no fundo
da gaveta, até ao dia de regressar ao areal da praia da sua vida e de novo
montar os seus toldos riscados de azul. E de poder abraçar o mar generoso que é
o seu pão com sabor a maresia.
Kito Pereira







