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quarta-feira, 2 de março de 2022

ESTRELA DO MAR - LAGOS Texto de Kito Pereira

ESTRELA DO MAR 

                                                                                                                                       Lagos . São seis e trinta de um sereno amanhecer. “Estrela do Mar”, embarcação de pequeno calado, dobra a barra e faz-se ao largo. Ao leme, Mestre Florival, rosto sulcado pelas rugas que o mar esculpiu, samarra pelos ombros, um boné companheiro de tantas fainas descaído sobre os olhos calmos e experientes, com que observa o oceano palmo a palmo. Rotina de todos os dias. Uma hora de viagem. Ao longe, lá ao longe, a silhueta esfumada de Portimão, enquanto a rede vai descendo sob o marulhar das águas e o “toc-toc” ritmado do motor, batendo lá no fundo da traineira. Hora a hora, o Sol vai subindo no horizonte. Uma enorme bola de fogo, que cobre com a sua luz generosa, um mar de prata. É tempo de refeição. É tempo do farnel, que se come com o religioso ritual de todos os dias: o pedaço de pão, o canivete com que se corta a fatia de queijo, o gole de vinho retemperador para a pesada tarefa que se segue – o erguer das redes. Foi boa a pescaria do Mestre Florival. No rosto moreno, a alegria do esforço compensado, na lotaria que o mar amiudadamente lhe reserva. O fim da faina, quando o sol já se deita no regaço do mar. A satisfação do regresso a casa. De partilhar com a sua companheira de labuta do caldo fumegante que ela, no sobressalto do caminhar pela vida ao sabor das marés, vai preparando na ânsia de o ver pisar terra firme. À noite, ao serão, numa roda de amigos, o velho baralho de cartas batido no tampo da mesa gasto pelo Tempo, o cigarro barato a pender - lhe dos lábios, Mestre Florival fala deste ou daquele exemplar mais corpulento içado na rede, ou, quem sabe, do António José, que desapareceu ali mesmo ao virar da barra, sem que ninguém lhe pudesse acudir. Os outros ouvem, num silêncio magoado, irmanados na dor e comungando do mesmo pensamento legado pelos seus antepassados… O mar dá. O mar tira. Mar pão. Mar cão.                                                             KITO PEREIRA

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022


                                                                                                                                                                                                                          A QUINTA DOS PASSARINHOS     
                                                                                                                                                        Imaginem – se num dia de sol. Corram pela velha estrada de Portimão e, quando divisarem ao longe o alvo casario de Lagos e passando o bairro do Chinicato, virem à direita. É provável que se vejam sobrevoados por alguma máquina voadora de pequeno porte, a planar sobre o aeródromo da cidade. Depois, lá mais à frente, virem por um caminho estreito e particular – é a ali a Quinta dos Passarinhos. Um oásis de paz no Sargaçal, naquela década de setenta do século passado. Era pertença de uma velha inglesa aristocrata, que vivia sozinha e bebia chá pelas cinco horas da tarde debaixo de um caramanchão bordado de flores, com uma mesa de ferro e cadeiras a condizer ricamente trabalhadas. Gostava de bebidas espirituosas que sorvia em pequenos tragos, enquanto ouvia a algazarra das cigarras em tempos de primavera e verão. Um dia, já com provecta idade, a velha inglesa morreu. Os sobrinhos, que lá por Londres ouviam as badaladas do Big Ben, logo esvoaçaram como abutres na procura de vender a quinta e de dividir o dinheiro. Com a pressa de ver tilintar nas suas bolsas o vil metal, aceitaram um preço que mesmo não sendo irrisório, era ao alcance de bolsas mais remediadas. Um familiar meteu-se na aventura. Vivendo na zona e sem que aparecesse um qualquer concorrente direto, viu-se a tratar das hortas e dos animais que se passeavam pela quinta. E dos passarinhos que chilreavam num assomo de felicidade. E foi assim que um dia entrei no feudo do meu primo de mala na mão. Ali se passaram tardes de glória com o Manuel que também era da glória, assim era o seu nome – Manuel da Glória. Era comandante dos bombeiros de Lagos, e no fim dos lautos banquetes debaixo do caramanchão da pretérita Senhora súbdita de Sua Majestade, empanturrados até ao cocuruto do estômago, fumava – se e contavam – se anedotas a cálices de Vinho do Porto. Foram tempos exaltantes. Um dia, quando a idade já não lhe permitia tomar conta da quinta, o oásis de paz mudou de dono. Nunca mais lá passei. Hoje, provavelmente, terá nascido um qualquer empreendimento de luxo. Mas para trás ficou uma história de uma bandeira inglesa que foi arreada do mastro para dar lugar à bandeira nacional verde - rubra. Porém, é bem provável que o dinheiro estrangeiro talvez tivesse tomado de assalto e de novo da Quinta dos Passarinhos de saudosa memória. Já não ouvirei o chilrear dos pássaros daquele passado. Agora só o presente da massificação e o mar azul que, fiel ao meu sentir, ontem como hoje me abraça.                                          Kito Pereira

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

VACINAS E UTOPIA - Texto de Kito Pereira

VACINAS E UTOPIA … 
                                                                                                                                                                   Nesta tragédia mundial de um vírus potencialmente perigoso, vou ouvindo as mais dispersas opiniões de especialistas em saúde e nem sempre coincidentes. A semana passada, o Diretor da Organização Mundial de Saúde dizia na sua voz pausada que era preciso vacinar toda a Árica para assim se erradicar o vírus do planeta. Esta convicção vem ao arrepio de muitas outras opiniões de especialistas que afirmam que o vírus ficará endémico e teremos que conviver com ele. Vacinar todo o continente africano foi pretexto para eu regressar a um passado já remoto da minha presença como militar miliciano na Guiné – Bissau. Por lá deambulei por mais de dois anos e conheci várias tabancas. As tabancas são a mais genuína afirmação do povo africano na sua essência. Durante largo tempo da minha comissão por aquelas terras, convivi diariamente com a Tabanca de Canjadude. Um aglomerado populacional significativo num planalto extenso. A Base militar que ali se encontrava, servia de apoio a toda a população e não apenas a militares. Diariamente, muitos civis – homens, mulheres e crianças – procuravam apoio médico e muito especialmente de enfermagem numa casa que o exército português construiu para o efeito. Tinha dois enfermeiros permanentes e um médico que periodicamente vinha do Gabu. No dia em que o país se tornou independente e o exército português partiu, todo o apoio às populações se extinguiu. E todas os edificios, incluindo os bairros de reordenamento militar foram destruídos. Alguém que comigo ali combateu e de espírito aventureiro, resolveu demandar Canjadude agora no seu estatuto de turista e o que viu deixou-o desapontado. Percebem-se os ventos da História e o grito de independência. Mais difícil será compreender a destruição de infraestruturas que seriam uma mais - valia para as populações. Os residentes distribuídos por tribos, estão agora num novo patamar de subsistência. São povos esquecidos, vivendo nos locais mais longínquos e servidos por caminhos pedregosos e de mau acesso, a que vulgarmente se chama “picadas”. Um longo calvário para lá se chegar a não ser por via aérea, caso as pequenas pistas para aviões de pequeno porte ainda existissem o que não será o caso. Canjadude é apenas um ponto minúsculo na imensidão de todo o Continente africano. Mas poderá dar para perceber que o desejo do Diretor da Organização Mundial de Saúde Dr. Tedris Adharom em vacinar todos os milhões de africanos é certamente uma utopia e um problema aparentemente sem solução.                                        Kito Pereira

sábado, 4 de dezembro de 2021

O CAMIONISTA Texto de KITO PEREIRA

                                                   O CAMIONISTA…




 Aquilo não era uma camioneta, era um transatlântico! Grande, ocupava toda a berma da faixa de rodagem, mesmo em frente à Farmácia “Vaz Pereira”. Ele, o camionista de pesados, desceu vagarosamente daquele castelo com rodas e a coxear entrou no Café “ Portas da Serra”. Então, perguntou se ainda havia almoço e disseram-lhe que não, que a cozinheira já tinha ido embora. Mas ofereceram-lhe uma sandes de chouriço - era o que havia. Ele, o motorista de pesados, lá foi dizendo que um simples pão não lhe amainava a fome. Depois, lá se foi queixando, de garrafa de cerveja na mão: - Ando com azar, fui mordido por um cachorro no Castelejo. Saí da camioneta e o rafeiro veio direito a mim e filou-me numa perna … logo agora que fiz uma surpresa à minha mulher e comprei dois bilhetes de avião para o Funchal a festejar o nosso aniversário de casamento … E continuou o monólogo: - O Senhor aí, que é da Farmácia, diga-me lá se o antibiótico que trago neste saco pode ser tomado com vinho … pode … não pode ? Vou folheando o “Correio da Manhã” que estava colocado em cima do balcão e vou lendo distraidamente as presumíveis trafulhices de um autarca lá do norte e atiro-lhe: - Não sou médico, mas sempre ouvi dizer que não se deve beber vinho enquanto se toma um antibiótico … - Não?! … então o Senhor acha que eu vou passear com a “patroa” para a terra do Jardim, para beber água do “Fastio” ? … tenha lá santa paciência mas isso é que não, eu tenho que beber, pelo menos, dois copinhos de tinto, um almoço e outro ao jantar … Fico a olhar lá para fora, a admirar o tabuleiro da abentesma com rodas. Ele, o motorista de pesados, diz-me de já fez um milhão de quilómetros ao volante do paquiderme. Sem acidentes, gaba-se … Despedi-me dele e parti. Mas fiquei a pensar naquela prosa da água do “Fastio”. Não cheguei a perceber se ele se estava a referir ao líquido propriamente dito ou se era uma alfinetada mordaz ao monarca da ilha. Acho que vou viver o resto da minha vida confrontado com este dilacerante dilema … Kito Pereira

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

 

GABU - antiga

A DOCE AMÉLIA …

Apareceu-nos no Gabú, vindo das altas terras da Guarda. Trazia nos ombros as divisas de furriel e cedo deu nas vistas pela sua gabarolice. Cabelo quase rapado, usava camisa justa de manga curta, de onde sobressaíam dois braços peludos, que mais pareciam dois troncos. Quer nas tertúlias do bar ou nas noites escuras da tabanca, a conversa do Almeida era sempre a mesma: a sua apetência por saias. Gabava-se de na Guarda ser um galã, e que nos bailes da região, destroçava corações. Um dia, numa passagem por Bissau, enquanto bebia uma “imperial” no café do Bento, reparei numa fotografia caída no chão. Apanhei-a. Era o jovem rosto de uma mulher. Olhei-a com curiosidade e logo me apercebi de uma verdade que não merecia contraditório: a miúda era feia como a noite dos trovões !!!. Tinha um rosto comprido e um queixo de rabeca, um nariz adunco e era ligeiramente estrábica. Meti então a fotografia na carteira, enquanto na minha mente se começou a formar uma ideia maquiavélica. Chegado ao teatro de guerra e num recanto escuro do Bar, convoquei o alferes Beirão e o furriel Mimoso para uma conversa. E foi ali, sentados  numa mesa que esboçámos a conspiração. O Beirão era da Guarda, e estava a poucos dias de ir de férias a Portugal. E a ideia peregrina era esta: o alferes levar a fotografia da rapariga, e remetê-la depois numa carta arrebatadora e apaixonada, endereçada ao Almeida para a Guiné. Analisámos a “canalhice” ao pormenor. A letra tinha que ser feita por mão feminina, e era preciso um remetente. Enquanto o Mimoso franzia a sobrancelha de tanto pensar, o Beirão resolveu de imediato o problema. Estou a vê-lo, alto e careca, pálido como uma vela de estearina e uma voz grasnada, a dizer: “ … a carta escreve a minha irmã … e o remetente pode ser mesmo o lá de casa …”. Com afinco e reboliço, debruçamo-nos então a escrever o teor da missiva, comigo à cabeça do pelotão. A  Amélia do Amparo -  assim baptizámos a miúda – dizia-se “vítima” de uma paixão arrebatadora pelo Almeida, e que tinha “revolvido o mundo” para saber do paradeiro do seu amado. Bem, a carta ficou um Mimoso mimo. Agora, já só faltava a irmã do Beirão copiá-la. Dias mais tarde, o alferes partiu de férias, levando no bolso um rascunho redigido por três trafulhas. E a fotografia. Depois, foi só aguardar, pacientemente, que a carta da “doce Amélia” chegasse. Como chegou. Após a correria na procura do nosso correio, eu e Mimoso encostámo-nos a um frondoso embondeiro, no meio da parada. E pelo sorriso triunfante do Almeida, percebemos que o Beirão tinha cumprido, na íntegra, a espinhosa missão. Regressámos então ao abrigo, enquanto o Almeida, sentado num tronco de árvore,  devorava a arrebatada mensagem, com os olhos fora das órbitas. Minutos depois entrou na nossa toca, triunfante, a acenar com a fotografia na mão, e a dizer fora de si: “ …  eu sabia… eu tinha a certeza … que ela estava louca por mim …óh malta… você nem imaginam o “marmelanço” que foi num baile de anos de uma amiga minha … ela toda derretidinha … vou já escrever-lhe !!!...”. E escreveu. Só que nunca houve retorno das inflamadas cartas do Almeida, como era óbvio. O destino era o caixote do lixo, em casa do Beirão. Mas o nosso “pinga-amor”, nunca deu o braço a torcer. Quando chegava a avioneta do Correio, percebíamos na cara dele o seu desencanto e o ar crispado…

O ano passado, lá para os lados de Fátima, os militares que durante várias décadas passaram pelos trilhos do Burmeleu e do Chéche, resolveram encontrar-se num almoço. Tinham decorrido quase quarenta longos anos. No repasto, apenas reconheci dois ou três militares daquele tempo e do meu tempo. E o Almeida. Ficou à minha frente, na mesa. Com um sorriso seráfico, fui perguntando se ele tinha casado com a “doce Amélia”. Disse-me que não, mas que quando regressou de vez a Portugal, ainda tinha andado “enrolado” com ela. Tanto tempo decorrido após o regresso da guerra, o Almeida continua com a mesma prosápia. Este ano, haverá, certamente, novo convívio. Espero não ficar na mesa dele. É que já não tenho paciência - não tenho mesmo - para o recomeçar da verborreia …

Kito Pereira.

        

 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

 

SEM SINAL …

Quis fazer penitência. Nesta romaria entre cafés e restaurantes, muitos têm sido os elogios ao peixe fresco. E a Baco, materializado em vinho, cerveja e aguardente da rija. A Baco até se fazem brindes à Sua saúde, como se a Divindade romana não fosse imortal. Com o fígado a protestar,  fiz uma jura que ia fazer uma cura de Águas de Espiche. Levei a peito a intenção até a campainha da porta da rua tocar freneticamente. Abri e dei com um Coronel de Artilharia com cara de poucos amigos. É o meu vizinho do mesmo piso, aqui do 6º Frente. Irritado, perguntou – me se eu tinha “sinal” na televisão nos nossos canais TDT. Disse – lhe que também não e até acrescentei que desconfiava das operadoras do Cabo a querer vender serviços, ou seja, a fazer sabotagem numa linguagem muito militar. Num jogo de cortesias, mandei – o entrar. Bom conversador e Engenheiro formado no Instituto Superior Técnico com alta nota, enveredou pela carreira militar. Sentados a olhar o mar, falou-me orgulhoso das suas origens transmontanas e do lema “antes quebrar que torcer”. Relembrou o seu tio bragantino que naquela época remota dos anos 50 do século passado, resolvia as querelas à paulada. Confidenciou – me que falava corretamente o dialeto mirandês e diverti – me com algumas traduções. Também lhe falei do meu humilde e obscuro passado das armas em África, e das minhas míseras divisas milicianas em contraponto com os galões doirados dele. Então pediu – me que falasse mais alto, porque a rapaziada de Artilharia com o ribombar dos canhões está toda surda. Uma franqueza que só lhe ficou bem.

Depois falou – me das Unidades Militares que comandou e, nesta jogo de amabilidades, convidou – me para a casa dele, que era na porta ao lado e lá fomos logo em compungida procissão. E foi aí que a minha jura de negar naquele dia Baco, caiu por terra. Quando dei por mim, tinha um copo na mão a fazer brindes ao presente e ao futuro. E lá se despejou a garrafa.

Voltei para o meu refúgio depois de mais um caloroso aperto de mão ao meu vizinho militar, pedi desculpas a mim próprio e acabo solenemente de prometer que farei uma trégua vinícola. A menos que o “sinal” da televisão desapareça outra vez e a campainha da porta toque de novo, com o meu amigo Coronel de novo irritado e acabarmos outra vez o dia de copo na mão. E a clamar por vingança e justiça a tiros de artilharia …

Kito Pereira      

segunda-feira, 12 de abril de 2021

RAIZES Texto de Kito Pereira

 


RAÍZES …

 

Penamacor, no interior da Beira Baixa, foi um penedo sombrio na vida de Rui Felício. Várias foram as vezes que falou no assunto e do degredo que foi essa sua experiência na juventude. Momentos difíceis, mas que a frescura da idade ultrapassou, para hoje, no folhear das páginas do livro de memórias, relembrar, se calhar com uma inquietante saudade, mais um momento pardo da sua vida militar. Mas talvez o jorrar da fonte de água límpida da Aldeia do Bispo, lhe traga à boca um sabor a mel. Quando um coração no zénite da pujança, partiu à desfilada, alvoraçado com a saia rodada de alguém que  tinha como missão ensinar as crianças a juntar as letras e as palavras. E a brincar com a fantasia dos números em complexas combinações para a mente daqueles pequenos seres de palmo e meio.

Todos, sim, todos, passámos por estes momentos. Fosse numa aldeia distante ou no bulício de uma cidade, houve sempre uns olhos que se cruzaram com os nossos e, no ímpeto da juventude, nos fez sonhar em dias e noites de exaltação, quando descobríamos em nós, com entusiasmo, uma escondida veia poética, por vezes ridícula porque, parafraseando Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa … “todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam ridículas, se não fossem cartas de amor” …

Mas há as raízes. As raízes daqueles que nasceram naquele rincão da Beira Baixa. É o caso de um advogado meu conhecido. É sempre na praia que o encontro. De mãos atrás das costas, meditabundo, vai olhando o mar. Farto de leis, decretos-lei, portarias e despachos, o João vê no mar algarvio, o remédio para a rotina e o cansaço. Mas é lá, muito mais a norte, que vai ao encontro das suas raízes. Gosta da sua terra – Penamacor. Gosta das suas gentes e dos bocados de terra que os antepassados lhe legaram. Gosta da casa que herdou e que reconstruiu com amor e um dia me mostrou com orgulho.

O Lemos era transmontano. Num momento de aflição, salvou o alferes num momento que poderia trazer ainda mais graves consequências, do que aquela espécie de deportação.  Mas não me admirou. As gentes daquela zona de Portugal, são amigas e solidárias. Mas o inverso também é verdadeiro. No momento de uma ofensa grave, ninguém os queira como inimigos.

Mas é de raízes que estamos a falar. Recordo aqui e agora, aquele casal com dois filhos que vive em Miranda do Douro. Terra pequena e singela, encostada a Espanha, paraíso de feirantes, que atravessam a velha ponte de pedra sobre o Douro ao fim de semana, para vender as suas roupas, tecidos e atoalhados. É ali, naquela cidade, que um dia os conheci. Falam o mirandês com orgulho, carregando nas palavras que lhes brotam dos lábios, com a força interior de quem, pela deslocalização geográfica, se habituou a viver sozinho. Confidenciaram-me que é no sul do país, que gostam de gozar as férias. Por isso correm Portugal de lés a lés, na procura do mar brando e reconfortante que a sua terra não tem. Mas, na hora do regresso, quando ao longe já se divisam as duas torres - sineiras da Sé de Miranda do Douro, perpassa neles um frémito de emoção. É ali que vive, numa redoma de vidro bem vigiada o Menino Jesus da Cartolinha, imagem muito venerada pelos povos da região. Então, com alegria, regressam à sua minúscula cidade, para mais um ano de expectativas e canseiras. Mas jamais, jamais mesmo – como me disseram com determinação - se sentiriam felizes noutra terra. Raízes …

Kito Pereira            

 

domingo, 7 de março de 2021

LEVASTE A CHUVA NOS BOLSOS...



LEVASTE A CHUVA NOS BOLSOS …

 

Numa manhã de maio partiste para o Sono Eterno. Mereces esse sono reparador pela tua alma inquieta e inconformada. Viveste num planeta que não era o teu e numa galáxia que não era a tua, aprisionado pelas grilhetas de uma sociedade que não  te compreendia nem te compreende. Vestiste na vida o preto carregado do luto. O luto do teu ser atormentado. Derramaste pelos livros de poesia que escreveste o sentir da tua rima negra. O desencanto e a descrença que se visitam e revisitam página a página naquele labirinto de emoções pardas em que nos perdemos como náufragos na procura de um porto de abrigo que não vislumbramos. Morremos contigo e sentimo-nos levados pela tua mão pela diáspora do Universo e do Eterno.

Não te conheci nesta vida José António, mas queria. Queria muito. Queria falar-te do teu pai. Queria dizer-te quanto ele significou na minha infância Choupalina. Queria envolver-te a ti e a ele num abraço fraterno. Mas sei que é impossível, pois tal como tu também ele partiu. Partiu cedo quando ainda muito tinha a esperar da vida. Afinal a morte dos homens comuns, que partem anónimos no rasto da cauda luminosa de um cometa. Mas tu Zé António, nunca viveste amarrado ao cais da nossa existência opaca. Apenas emprestaste a este mundo o corpo que assinalava a tua presença física, passeando por aí absorto e ausente, trazendo contigo a chuva nos bolsos. Porque o teu espírito e a tua alma nunca pisaram esta nau terrena do conformismo do nosso penar. A chuva que levaste nos bolsos, talvez seja uma fonte de lágrimas. Lágrimas da tua impotência em mudar o mundo, de vivermos em sociedade nas asas de um sonho sempre inacabado. Sabes – ou talvez não  – quanto a tua família honrada e leal significou no meu passado remoto. Talvez por isso, quando te li e reli, senti a necessidade de falar contigo estejas onde estiveres. Foste para mim uma grande surpresa na genialidade da tua poesia. O Cantar de um Homem culto e superior, desenraizado e distante, que é só privilégio de todos os pensadores geniais. E que melhor forma terei para te homenagear, do que navegar nessa barca de desconforto e de solidão interior, remando contigo no alvoroço das tuas palavras cor da cinza - “ são horas de me erguer e caminhar fora do túmulo das palavras no segredo desse lugar único em que a escuridão da noite parece eterna claridade”.

Abraço – te, José António.

Kito Pereira      

domingo, 21 de fevereiro de 2021

IR Á GUERRA...PARTI E VOLTEI...Tento cumprir as instruções governamentais de ficar em casa no meu estatuto de reformado.

 


IR  À GUERRA …

 

Um dia parti e um dia voltei. Voltei da guerra e vim são e salvo. Agora regressei de novo à guerra. Tenho a desvantagem de não conhecer o inimigo e desconfio em cada esquina do meu semelhante que se cruza comigo. Tento cumprir as instruções governamentais de ficar em casa no meu estatuto de reformado. Mas as necessidades mais básicas como a alimentação e medicamentos, fazem-me pisar o campo de batalha. Tal como os lobos que descem ao povoado na procura de comida, é preciso partir. Como outrora eu ajustava as cartucheiras, a ração de combate e a metralhadora, agora ajusto a máscara, ponho os óculos na cara e calço umas luvas descartáveis. Meto o carro no subterrâneo do Supermercado. Entro no elevador e toco no botão com a ponta da chave do automóvel. Depois, pego num carrinho para acomodar as compras e começa o pesadelo. Mas onde raio encontro a embalagem da manteiga magra? Eu ia jurar que os ovos estavam ali !!!

- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar um pacote de arroz “Carolino” ?  

- Olhe, o Senhor vai por este corredor, depois vira à esquerda, depois à direita e 10 metros à frente, outra vez do lado esquerdo encontra a prateleira dos “arrozes”.

E o caminhante que sou eu, lá vai a empurrar o carro das compras com cara de penitência. Maldita lista de compras que nunca mais acaba, ainda me falta a prateleira das hortaliças mas eu desconfio que sei onde é e até acertei, estou orgulhoso comigo mesmo.

- Óh menina …desculpe … onde posso pesar esta curjete ?

- O Senhor esta confundido, isso não é uma curjete é um pepino …

E agora … como encontrar os sumos de laranja do Algarve?  

- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar os sumos de laranja do Algarve?  

- Óh Senhor … olhe-os aí mesmo em frente do seu nariz…

 Resmungo, ajeito a máscara no nariz e prossigo a Via Sacra. Caraças, que isto agora vai complicar – se ainda mais. Eu sei lá onde é que estão os rolos de papel higiénico e o detergente para a máquina de lavar louça???!!!.  

- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar o papel higiénico?  

- Olhe, aqui não de certeza, que o Senhor que está encostado à vitrina dos congelados …  

- Então e o detergente da loiça ? …

- Olhe é exatamente no sítio oposto, tem que ir ao outro lado do supermercado... 

E isto tem tudo para continuar a correr mal e acho que nem com uma bússola encontro a lixivia. Admito que estou esgotado, levo o carro das compras numa correria, pago a mercadoria à pressa à menina vestida de verde que é muito simpática e desço ao subterrâneo na procura do meu meio de transporte. Atiro com as compras para o porta – bagagens e confiro o papel amarrotado que tiro do fundo do bolso das calças e que me foi dado em casa e … upssss … esqueci -me dos iogurtes e do queijo fatiado !!!

Kito Pereira          

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ERA UMA VEZ UM COLÉGIO TEXTO DE KITO PEREIRA

 

ERA UMA VEZ UM COLÉGIO

Era uma vez um colégio. Um colégio na bela Coimbra. Ali, passando os Arcos do Jardim, subíamos a Rua de Tomar e, do lado esquerdo daquela artéria, entrava-se por um portão largo para uma casa de traça escorreita e de dois andares. Outrora casa de habitação, o edifício tinha subido de estatuto e era agora forrado de um nome aristocrático – Dom João de Castro. O Colégio era composto por professores e alunos. Os professores – alguns – refugiados de perseguição política e do doutor Salazar, que lhes não permitia lecionar no ensino público. E era num colégio particular que os docentes angariavam a sua subsistência. Entre eles, Teles Grilo e Fernando Queiroz.

Dos alunos, era mais difícil falar. Nunca um aluno aplicado, dedicado às matérias e civilizado, foi objeto de notícia. E desses, o Dom João de Castro tinha um leque razoável deles. E também havia os outros. Faltosos, cábulas, incultos, irritantes e truculentos. E começar a pensar neles é como quem está a desfiar as Contas de um Rosário. Um tal Queiroz, que dava ares de intelectual e que trazia numa pasta misturado com compêndios maltratados, revistas de mulheres nuas de duvidoso gosto.   O Lourenço, que tinha uma vaga ideia que a Revolução Francesa tinha sido uma guerra muito sangrenta. O Toni, que era especialista em arraiais de pancadaria nas noites de Coimbra. E um tal Cunha, protagonista de uma rocambolesca cena na pequena esquadra de polícia que havia ao cimo da Rua Alexandre Herculano, junto ao colégio das raparigas e com o mesmo nome. Um piropo infeliz a uma jovem donzela pelo tal Cunha, e da queixa que a aluna logo fez ao sentinela da esquadra, valeu que viesse um piquete de guardas junto à Associação Cristã da Mocidade uns metros abaixo e que um grupo de nós – incluindo eu – fossemos todos a gancho para a esquadra.

Alguém foi a correr dizer ao Dr. Teles Grilo que um grupo de alunos estavam detidos na Esquadra da Alexandre Herculano. E ele, que apesar do seu feitio meio conflituoso era um bom homem, lá foi com a sua gabardina até aos pés e a mortalha do cigarro pendurada ao canto dos lábios, tentar resolver o problema. Entrou de supetão na esquadra, deu de caras comigo e de dedo à frente do meu nariz acusou – me:

- Óh miúdo andas sempre metido nestas confusões !!!

Eu, que nunca tinha brigado com ninguém ou desconsiderado quem quer que fosse.

Com falinhas mansas, o Grilo tentava convencer o Chefe da esquadra:

- Sabe Senhor Chefe … isto é gente nova … é preciso termos alguma condescendência … eu quando chegar ao colégio chamo – os à pedra …

Por essa altura, o Cunha que tinha sido o responsável pelo incidente e era conflituoso que baste, fungava pelo nariz parecia um touro enraivecido. O que é certo que o Dr. Grilo conseguiu os seus intentos. Tivemos ordem de despejo. Saiamos em rebanho e o truculento Cunha que liderava a manada, saiu primeiro e foi barrado à saída pela sentinela que não sabia da súbita decisão do Chefe da esquadra. E perguntou de maus modos:

- Onde é que o Senhor pensa que vai?

E o Cunha não está com meias medidas – dá um estalo no polícia …

Assim como saímos, voltámos a entrar na esquadra. Mais que uma cena da vida real, aquilo parecia um filme de desenhos animados. Mais negociações, o Dr. Teles Grilo agastado a desfazer-se em mil desculpas até que o chefe da esquadra ditou a douta sentença:

- Podem ir embora mas ( e apontou para o Cunha) … aquele senhor fica cá.

E ficou. Detido, se calhar metido num calabouço e, num pequeno exercício de imaginação, estou a vê-lo a comer ao almoço e de colher na mão, feijão carrapato numa marmita de lata para lhe arrefecer os ânimos ...

Kito Pereira       

  

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

UM TEXTO MUITO DEVOTO … Por KITO PEREIRA

 


UM TEXTO MUITO DEVOTO …

 

Eu pecador me confesso. Sou um devoto do leitão. Do leitão da Bairrada, entenda-se. A culpa foi do meu amigo Rainho, que cedo me meteu nas lides porcinas. Lá, na catedral da Bairrada, encontrei o meu porto de abrigo. É no “Típico” da Dona Etelvina que vou rezar. Vou em compungido recolhimento, benzendo-me já arrependido do meu pecado da gula. As funcionárias da casa que ali trabalham, já me conhecem de ginjeira. Com um sorriso sarcástico, perguntam-me se quero comer pescada cozida. E eu, no meu estatuto de cliente ofendido, lá lhes vou dizendo que pode ser a deslavada pescada e para beber que me sirvam um pacote de leite “Gresso”, de penitência. Modéstia à parte, eu acho que merecia uma estátua na Mealhada. Não uma estátua equestre, mas montado em cima de um porco, com uma faca e um grafo em cada mão e um guardanapo ao pescoço, por causa das nódoas da gula. Um dia subornei o meu filho Gonçalo para as lides e fiz mal. Também amante do garfo e da faca, cedo ficou mais devoto que eu. Não foram precisas muitas lições de catequese para ficar beato. Tão beato que uma noite em que a Académica jogava em Aveiro num jogo que não podia perder – a sina do costume – lá fomos em romagem com mais um batalhão de aficionados do pontapé na bola. Então aconteceu uma coisa rara – marcámos um golo . Um tal Gyano, que andava em Coimbra a tirar o curso da universidade da vida, deu uma cabeçada na bola que só parou no fundo da baliza dos de lá e ganhámos o jogo. No regresso e com a alegria, fomos os dois a correr para a Mealhada já noite adentro, com os ponteiros de relógio a bater a meia-noite. Lá chegados, o entusiasmo esmoreceu. Tudo fechado e até nos apeteceu chorar. Andámos a bater de porta em porta, até que encontrámos um restaurante que nos recebeu e, sozinhos na sala espaçosa, demos azo aos nossos apetites porcinos. Pelo exposto, admito que os leitores estejam inclinados de que eu mereço mesmo uma estátua na Mealhada. Já agora, exijo também uma rua com o nome do meu filho, que eu cá nestas coisas de religião sou um pai muito atento e extremoso …

Kito Pereira           

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O GALINHEIRO...

 

O GALINHEIRO …



Anda por aí um vírus ditador que me tolhe a liberdade. Farto de notícias e da dança e contra - dança de informações, a mente foge-me para o passado. Começo a navegar nas margens da minha sanidade mental e hoje lembrei-me de um galinheiro. Um galinheiro é uma prisão onde vivem as galinhas menos afortunadas. Porque as outras, as do campo, têm o sabor da liberdade, a depenicarem nas couves do vizinho sem ter que comer daquela ração de rápido crescimento. Pois, realmente a conversa está estranha e só continua a ler quem quiser. Mas, de facto, há dias lembrei - me de um galinheiro em África na minha Base militar – Canjadude. Se era um galinheiro especial ?. Era. Mas eu conto:

- O Azevedo era cabo com a especialidade de enfermeiro. Com a boina às três pancadas na cabeça e os calções da farda a descaírem-lhe no traseiro, não era propriamente um exemplo de aprumo militar. E tinha a felicidade infeliz de gostar de vinho. Infeliz porque teve alguns dissabores. Um enfermeiro embriagado é algo de nada aconselhável para um paciente. Muito menos em teatro de guerra. Mas aquele ermo de mundo e de solidão convidava à bebida. E ele emborcava daquele vinho que mais parecia uma purga, fazia um esgar e lamentava-se:

- Só na minha terra é que bebo do bom …

Mas bebia. Bebia por vezes mais do que a conta, até que o comandante da Companhia se irritou e um dia, agastado com os vapores alcoólicos do Azevedo, meteu o dedo indicador à frente do nariz do enfermeiro e rezou-lhe assim :

- Se  voltas a beber vinho meto-te no galinheiro …

Realmente não disse prisão. Porque presos estávamos nós. Mas ninguém levou aquilo a sério. Porém, não foi preciso esperar muito tempo para ver o Azevedo de novo a torcer a voz. Então, deu-se o impensável. O Barros,  furioso, pegou no enfermeiro por um braço e com ele aos zigue – zagues e aos tropeções, meteu - o no galinheiro juntamente com as galinhas e galos de crista soberba. E nós, graduados, lá fomos pressionar o capitão como os jogadores de bola que rodeiam o árbitro a contestar um penalty. Queríamos o Azevedo fora do galinheiro, enquanto o enfermeiro de nariz vermelho como um pimentão berrava agarrado à rede da cerca:

- Tirem – me daqui ou acham que tenho cara de frango ?

Tirámos. Mas durante cerca de duas horas conviveu com a população residente, de onde sobressaía um vistoso peru. Então, ofendido com o comandante da companhia por achar que ele punha em causa a sua competência nas lides da enfermagem, dizia no refeitório dos soldados e fora de si:

- Quando eu voltar para o Porto, ele vai ver se eu não tiro logo um curso de Medicina

Kito Pereira   

     

 

sábado, 26 de dezembro de 2020

VENTO NOTURNO


VENTO NOTURNO

Pela estrada asfaltada e de mau piso, rumar à Praia da Luz. Um bastião de luz e de cor. De casas brancas de chaminés trabalhadas e de uma praia de mar azul. Também uma singela capela de altar dourado e um pensamento – Maddie MacCann. Lembrar uma menina e um drama. Olhar do lado esquerdo uma banca de velas elétricas que se acendem pelas moedas dos visitantes. Meter o dinheiro na ranhura e ver quatro ou cinco lâmpadas tomarem vida em memória da criança inglesa. Depois rumar ao Forte. Almoçar olhando o horizonte e o promontório de Sagres escondido por entre a neblina, talvez ele muito cioso no resguardo seu Infante de outras épocas, um homem do mundo e de outros mundos – novos mundos.  O vinho que se bebe, o brinde de copos que se tocam num olhar ao futuro. Depois regressar. Percorrer outros caminhos ao cantar das cigarras. Olhar a cidade deserta pela canícula deste estranho verão. E logo, ao declinar da tarde, os pequenos barcos de brancas velas recolhem ao porto depois de um dia de lazer. E outros, no ganha – pão  dos simples, partirão para a faina. Ficam estáticos no horizonte, apenas denunciando a sua presença pelas trémulas luzes que mais não são que pequenos pontos no regaço do oceano. Quando a noite se fechar sobre a cidade, os Ventos do Infante tomarão conta da urbe de avenidas largas e vielas estreitas de origem medieval e de forasteiros que se aventuram na procura de um bar aberto para um convívio de gentes de várias nacionalidades. Fechar a janela ampla e ouvir o sibilar do vento a roçar-se fagueiro pela persiana como um gato a acariciar as pernas do dono. É o vento noturno, intemporal e propriedade de uma das mais belas cidades do nosso Portugal – Lagos.

Kito Pereira

      

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

À CONVERSA COM OS AMIGOS - TEXTO DE KITO PEREIRA

 

À CONVERSA COM OS AMIGOS …

 

Vivemos um estranho tempo. Um tempo de reclusão voluntária, a conselho do governo e das autoridades sanitárias. Balançamos entre a ansiedade e estados de alma, crentes no rigor científico, mas desconfiados do supermercado de vacinas que prometem meter a vida mundial de novo nos carris. E eu, defronte de um teclado, alimento-me de palavras e de frases que me espantem os maus espíritos. E hoje, e mais uma vez, lembrei terras de África. Lá, em Canjadude, deixei uma prestação da minha vida terrena. Naquele planalto vivi. Um planalto com vários penedos de grande porte. Um deles era tão grande e majestoso, que tínhamos um posto de vigia lá no alto. Dali, víamos toda a bolanha, a espiar um qualquer movimento suspeito que nos fizesse pensar que o inimigo andava por perto. A tal rocha, tinha na sua base uma enorme cavidade, quase uma gruta, onde por artes da engenharia do desenrasca, se fundou um chiqueiro onde habitavam porcos pretos para consumo da base. Mas apenas para nós europeus, uma vez que os militares africanos se privavam de carne de porco por a sua religião não o permitir. Curioso recordar, que as rações de combate dos africanos traziam como refeição conservas de galinha, ao invés dos outros enlatados que eram de porco e intragáveis. A carne vinha quase crua e mal cozinhada, só faltava o porco grunhir de dentro da lata. Mas havia sempre a ocasião em que tínhamos direito a carne de porco sem ser de conserva. No dia da matança do porco, era sempre uma festa. Porém, eu e os outros graduados, fugíamos para o nosso abrigo, para não sermos cúmplices daquele ato primitivo e bárbaro do abate do animal. Porém, havia sempre cinco ou seis soldados que se dispunham a ajudar o João na matança do suíno. O João era o nosso cozinheiro. Era gordinho e atarracado, tinha umas bochechas rosadas e um sorriso doce e prazenteiro. Gostava de comer mas era racional na alimentação. Tudo tinha que ser aproveitado porque, naquele fim do mundo, não era grande a abundância. Geralmente, o João quando se decidia por matar porco fazia-o ao sábado. E nós a esfregar as mãos de contentamento, a suspirar por uma costeleta do animal bem suculenta e apetitosa com batatas fritas e um ovo a cavalo. Mas o João, naquela sua veia de racionalidade gastronómica e irritante, no domingo sequente e ao almoço, mandava para a mesa o focinho do porco, com os pezinhos e as orelhas do bicho, tudo acompanhado com grão – de - bico que, de tão duro que era, carregado numa espingarda matava pardais nos telhados. E nós, o que nos apetecia mesmo era correr a tiros de bazuca com o João cozinheiro, que nos destruía os sonhos de uma exaltante refeição dominical. Porém, nos dias seguintes, lá tínhamos direito a umas refeições melhoradas, onde a carne de porco era rainha com sabor a saudade e a Portugal.

Kito Pereira      

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

ENCONTRO COM A ARTE - TEXTO DE KITO PEREIA

 TOLDOS …

 


O Outono entrou silencioso e banhado de sol neste rincão algarvio. As praias, despidas das multidões dos meses de verão, parecem ser agora o lugar ideal para momentos de reflexão e diálogos com o mar. Sentados à sombra de um toldo e recostados numa espreguiçadeira, dá para perceber que os veraneantes têm agora outro registo. Gente de idade mais avançada, que vão passeando pela praia de forma despreocupada e se sentam à mesa dos restaurantes degustando o peixe escalado tão ao gosto dos algarvios. Os empregados de mesa, já não andam numa roda vida. Esforçam-se pela eficiência e até dá por vezes para trocar opiniões com os clientes. Lá em baixo, no areal, os toldos brancos e listados de azul já são poucos. E a mulher de rosto com rugas de muito mar, vai cobrando o seu aluguer e das espreguiçadeiras dos que estão dispostos a pagar pouco mais de sete euros por seis horas de ociosidade. E ela, nos seus calções brancos como a espuma do oceano, vai calcorreando a areia naquela que é a profissão da sua vida. E, pelo fim da tarde, a azáfama de recolher e enrolar os toldos e empilhar os colchões das espreguiçadeiras, que o mar amistoso pode de noite mudar de cara e roubar os adereços que são o seu ganha-pão. Lá para meio de Outubro, os apoios de praia ficarão fechados numa arrecadação, à espera de um novo ano e esperança de melhores dias. E ela, a mulher de calção branco e cara de muito mar, irá para lá da fronteira, na rota de um país de muitas montanhas geladas, recebida nos braços da sua família emigrante que a acolherá. Na mala, levará saudades e emoções. Também a secreta vontade de um trabalho sazonal na Suiça do seu encanto, que lhe permita juntar mais uns euros no fundo da gaveta, até ao dia de regressar ao areal da praia da sua vida e de novo montar os seus toldos riscados de azul. E de poder abraçar o mar generoso que é o seu pão com sabor a maresia.

Kito Pereira

Cidade de Lagos, 7 de Outubro 2020