Da saudade ...
Há um Tempo que corre veloz. Para trás, como no dia em que deixei o cais de Alcântara, por entre um mar de lenços brancos, fica também o rasto do meu museu de memórias. De lembranças da minha Coimbra de outras eras. Do meu bairro. Dos meus amigos. De um turbilhão e emoções e de afetos.
Trago ainda nos ouvidos, o barulho do elétrico ronceiro, do fio de cabedal que tilintava puxado pelo revisor, no momento da partida. Também o silencioso troley, de amarelo vestido, que percorria a cidade de lés a lés. Muitas vezes o utilizei, a caminho do liceu. Na carteira, um passe com fotografia, que o Senhor Américo furava com um alicate. Eram cem viagens e assim dava para poupar alguns tostões à carteira do meu pai.
Do bairro, um cortejo de memórias. As corridas de triciclos, o jogo dos botões, o lançar de papagaios no “Cavalo Selvagem”. As gloriosas noites de verão na Rua A, ao som da música dos Beatles. Um dia, ganhei uma corrida de triciclos e à noite, no Centro, com pompa e circunstância, recebi o valioso prémio – uma bola de ping – pong.
Relembro a juventude. As correrias para o Dom João III, os corredores frios do liceu, a gritaria dos alunos no intervalo das aulas. E o silêncio sepulcral, quando passava o Guerra, a distribuir bofetadas.
Mas na balança do Deve e do Haver, o saldo foi positivo. Os jogos de bola no velhinho Campo de Santa Cruz e dos namoricos ou trocas de olhares com as meninas do Colégio Alexandre Herculano.
Um dia, fui preso. Sim, fui preso, para a esquadra ao cimo da rua que tinha o nome do escritor. Um grupo de nós, já de barba feita, estávamos a ver as meninas a entrar para o Colégio, junto à Associação Cristã da Mocidade. O Cunha, que era descarado, disse uma piada mais apimentada. Elas, indignadas, foram fazer queixa ao polícia, que estava na guarita do Posto. Dali a vir um piquete, foi um ápice. Resultado: tudo preso !!! E eu, que nada tinha a ver com a questão, lá fui a gancho com mais vinte. Era a turma quase toda. Depois, o professor de Matemática, Dr. Teles Grilo, gaseado da Grande Guerra e com a popa do cabelo amarela de tanto fumar, que mais parecia o Tim – Tim, ao ver a turma tão desfalcada e chegando ao nosso Colégio a notícia que estávamos detidos, entrou na esquadra de cana na mão, com o dedo acusador virado contra mim, a vociferar: “Eurico, ou como raio é que tu te chamas, andas sempre metido nestas merdas !!! “. Mentira. Imagine-se, eu nunca tinha entrado numa esquadra e mesmo no Bairro, nunca tinha sido filado por um polícia nas jogatanas de bola!!! Mas Deus é justo. Quando saímos da esquadra, com o pedido de desculpas do Teles Grilo ao Chefe do Posto, a sentinela estava distraída e o Cunha, autor de todo o burburinho, foi o primeiro a sair. O policia agarrou-o por um braço e o Cunha, que fervia em pouca água, deu - lhe um murro. Ficou outra vez detido. Mas nós, saímos. Era justo, porque não tínhamos provocado a situação. O meu companheiro de carteira, esse, ficou lá até ao anoitecer, tendo sido brindado com dois pratos de grão – de - bico ao almoço e ao jantar, para amolecer o péssimo feitio. Volto a achar que foi justo.
Hoje, percorridas mais de seis décadas de vida, já muita neve cai na serra, que o mesmo é dizer, que o cabelo embranqueceu. Talvez um dia, se tiver netos, os sente ao meu colo e lhes conte as histórias do meu passado. Dos tempos do liceu, dos tormentos da guerra por terras de África ou da minha detenção numa esquadra de polícia, não por ser um herói da Resistência, mas por um pouco edificante assunto de saias. Mas falarei do Bairro. Das suas gentes. Da mercearia do Senhor Alípio, do Café do Silva ou da Retrosaria da Dona Rosa, onde eu comprava os cromos coloridos dos heróis da bola, as revista do “Mandrake” ou da “Marca Amarela”.
Da saudade …
Q.P.