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domingo, 16 de setembro de 2012

Se as paredes falassem...

 Eu estava atrás da parede e ouvi tudo!...
Aqui vai a conversa
!
Ó Quito, porque é que usas os óculos aí?


Era melhor pores no cinto, assim podias ver alguma coisa quando fosses mijar!


Ou então põe-os nos olhos... Olha para mim, pá!...


Na cabeça tenho medo que me caiam quando estou a comer a sopa!


Não pode ser!
Pode não duvides.


Estava uma vez a comer uma sopa de grão, os óculos cairam-me e a sopa ficou com sabor a tartaruga!...


Sendo assim, tu comias os aros e deixavas as lentes!


As lentes, metias dentro de um envelope, mandavas ao Passos Coelho, para descontar no IRS!


És gajo para escrever a carta para eu mandar com as lentes?


Eu depois até te dava metade do que recebesse...


Escrever mesmo, assim com caneta?... É pá, a minha caligrafia não presta!... Vamos pedir à Celeste!


Claro que escrevo, Quito!


Obrigado Celeste, és um amor!.. Obrigado!

Penela, 15 de Setembro de 2012
Rota do Cabrito de Sicó

quarta-feira, 30 de maio de 2012

«Memórias de um soldado» - Quito

O Quito já me tinha informado que o texto dele foi publicado no Diário de Coimbra de hoje.
Entretanto, o Manuel de Sousa teve a amabilidade de me enviar a página do artigo, digitalizada. Aí têm, para quem não conseguiu comprar o «Diário de Coimbra»:



«Memórias de um soldado» - Quito

(link para um ficheiro pdf)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Já que não fazes o que te dizemos, Quiteimoso...

... lê esta mensagem que o Manuel de Sousa, chefe de redacção do «Diário de Coimbra», me enviou agora mesmo:

"Paulo,
Grande BRIOSA, hein?
A crónica de Quito Pereira saiu na edição de segunda-feira, como deves ter visto. Estava interessante e o Diário de Coimbra poderá continuar a publicar os textos dele, para já no mesmo espaço dedicado aos leitores, eventualmente mais tarde em páginas de opinião (estão de momento sobrecarregadas, mas poderá vir a abrir uma vaga).
Como não tenho o contacto do teu amigo, faz-lhe chegar esta mensagem.
Peço-te que lhe dês também conhecimento de um email que recebemos do médico Carmona da Mota, que diz o seguinte:
«Ao
Diário de Coimbra,
Peço que, em meu nome, cumprimentem o leitor Quito Pereira pela bela história (O extinto Teatro Avenida) DC 21-5-2012.
Grato.
H. Carmona da Mota»

abraço
Manuel de Sousa"

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Para quem não tenha reparado...

... no meio das capas e páginas dos jornais de hoje sobre a nossa briosa vitória (em todos os aspectos) no Jamor, o «Diário de Coimbra» publicou na secção «Fala o leitor», tal como previsto, o excelente texto do Quito sobre o Teatro Avenida.
Aqui fica, para os que não puderam comprar um exemplar do jornal:




domingo, 26 de fevereiro de 2012

DA SAUDADE ...

Da saudade ...
Há um Tempo que corre veloz. Para trás, como no dia em que deixei o cais de Alcântara, por entre um mar de lenços brancos, fica também o rasto do meu museu de memórias. De lembranças da minha Coimbra de outras eras. Do meu bairro. Dos meus amigos. De um turbilhão e emoções e de afetos.
Trago ainda nos ouvidos, o barulho do elétrico ronceiro, do fio de cabedal que tilintava puxado pelo revisor, no momento da partida. Também o silencioso troley, de amarelo vestido, que percorria a cidade de lés a lés. Muitas vezes o utilizei, a caminho do liceu. Na carteira, um passe com fotografia, que o Senhor Américo furava com um alicate. Eram cem viagens e assim dava para poupar alguns tostões à carteira do meu pai.
Do bairro, um cortejo de memórias. As corridas de triciclos, o jogo dos botões, o lançar de papagaios no “Cavalo Selvagem”. As gloriosas noites de verão na Rua A, ao som da música dos Beatles. Um dia, ganhei uma corrida de triciclos e à noite, no Centro, com pompa e circunstância, recebi o valioso prémio – uma bola de ping – pong.
Relembro a juventude. As correrias para o Dom João III, os corredores frios do liceu, a gritaria dos alunos no intervalo das aulas. E o silêncio sepulcral, quando passava o Guerra, a distribuir bofetadas.
Mas na balança do Deve e do Haver, o saldo foi positivo. Os jogos de bola no velhinho Campo de Santa Cruz e dos namoricos ou trocas de olhares com as meninas do Colégio Alexandre Herculano.
Um dia, fui preso. Sim, fui preso, para a esquadra ao cimo da rua que tinha o nome do escritor. Um grupo de nós, já de barba feita, estávamos a ver as meninas a entrar para o Colégio, junto à Associação Cristã da Mocidade. O Cunha, que era descarado, disse uma piada mais apimentada. Elas, indignadas, foram fazer queixa ao polícia, que estava na guarita do Posto. Dali a vir um piquete, foi um ápice. Resultado: tudo preso !!! E eu, que nada tinha a ver com a questão, lá fui a gancho com mais vinte. Era a turma quase toda. Depois, o professor de Matemática, Dr. Teles Grilo, gaseado da Grande Guerra e com a popa do cabelo amarela de tanto fumar, que mais parecia o Tim – Tim, ao ver a turma tão desfalcada e chegando ao nosso Colégio a notícia que estávamos detidos, entrou na esquadra de cana na mão, com o dedo acusador virado contra mim, a vociferar: “Eurico, ou como raio é que tu te chamas, andas sempre metido nestas merdas !!! “. Mentira. Imagine-se, eu nunca tinha entrado numa esquadra e mesmo no Bairro, nunca tinha sido filado por um polícia nas jogatanas de bola!!! Mas Deus é justo. Quando saímos da esquadra, com o pedido de desculpas do Teles Grilo ao Chefe do Posto, a sentinela estava distraída e o Cunha, autor de todo o burburinho, foi o primeiro a sair. O policia agarrou-o por um braço e o Cunha, que fervia em pouca água, deu - lhe um murro. Ficou outra vez detido. Mas nós, saímos. Era justo, porque não tínhamos provocado a situação. O meu companheiro de carteira, esse, ficou lá até ao anoitecer, tendo sido brindado com dois pratos de grão – de - bico ao almoço e ao jantar, para amolecer o péssimo feitio. Volto a achar que foi justo.
Hoje, percorridas mais de seis décadas de vida, já muita neve cai na serra, que o mesmo é dizer, que o cabelo embranqueceu. Talvez um dia, se tiver netos, os sente ao meu colo e lhes conte as histórias do meu passado. Dos tempos do liceu, dos tormentos da guerra por terras de África ou da minha detenção numa esquadra de polícia, não por ser um herói da Resistência, mas por um pouco edificante assunto de saias. Mas falarei do Bairro. Das suas gentes. Da mercearia do Senhor Alípio, do Café do Silva ou da Retrosaria da Dona Rosa, onde eu comprava os cromos coloridos dos heróis da bola, as revista do “Mandrake” ou da “Marca Amarela”.
Da saudade …
Q.P.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

ANGÚSTIA PARA O JANTAR ...

Se jogasses no Céu, morreria para te ver ...


Sete de Fevereiro do Ano da Graça de dois mil e doze, nasceu radioso. Porém, o frio é cortante, pelo que me barriquei no meu escritório. Estou num estranho desassossego.
Longe, lá longe, na laboriosa Vila da Feira, está montado o palco dos sonhos. Ou da desilusão. À medida que as horas vão passando, vai aumentando a minha ansiedade. Tenho uma folha à minha frente, para confirmar uma soma. Três vezes a somei e três vezes me deu resultados diferentes. Decididamente, estou desconcentrado. Mais tarde, ligou o Rui Felício, já o Sol tinha descido sobre a Serra do Moradal. Falámos do seu conto e rimos com outras peripécias do protagonista. Inevitável não falar da Académica e da esperança de chegarmos ao Jamor. Depois desligámos e cada um foi à sua vida.
São quase oito da noite. Está um frio cortante. Embrulhado no casaco saio da farmácia. Passo ainda pelo “Portas da Serra”. Ao redor da lareira olham-me em silêncio, até que um parceiro mais afoito me diz a sorrir: “ Senhor Pereira, hoje é o seu dia”. Saio então porta fora, enquanto vou dizendo para com os meus botões : “Deus te oiça”.
Sozinho, rumo a Castelo Branco. No “Tabuinhas”, a temperatura já ronda os zero graus. Entro na cidade e dirijo-me à “Arena di Verona”. E ali, naquele lugar, sento-me a uma mesa previamente marcada, junto ao televisor panorâmico.
Já não estou sozinho. A minha mulher acompanha-me, nesta Via Sacra. Explico-lhe que precisamos de marcar um golo nos primeiros vinte minutos, para decidirmos a eliminatória. E, aos dezoito minutos, aconteceu o que não se esperava. Marcou o antagonista. A São Vaz, não resiste ao revés e vai-se embora. Fico de novo sozinho.
O restaurante está vazio. O Hugo, dedicado funcionário, benfiquista assumido, pressente a preocupação no meu rosto. Solidário, fica ali ao meu lado, de mãos atrás das costas, enquanto me diz: “VAMOS VIRAR ISTO”. Num ápice, renasceu a esperança. Marcámos e o Hugo partiu para os seus afazeres. Foi sol de pouca dura. O Helder Cabral, jurou que me havia de matar naquela noite !!!
O intervalo, foi de todas as angústias. Vou beberricando um vinho branco italiano, e o Evis Andriguetti , vem para junto de mim. Fala-me do Chievo de Verona, clube do seu coração. Mas eu nem o ouço. Estou absorto nos meus pensamentos.
A conversa assume agora contornos mais dramáticos. O italiano fala da crise e das suas preocupações. Mas eu quero lá saber da crise! Estou de olhos colados na televisão a viver todas as peripécias do jogo.
O Evis, vai continuando o seu exercício de auto-flagelação. De olhos grandes e tristonhos, diz-me da saudade que tem da sua Itália. Por segundos, mantém-se em silêncio, à espera o conforto das minhas palavras.
Não o defraudei: abri os braços e dei-lhe um abraço do tamanho do mundo e gritei em plenos pulmões : GOLOOOOOOOOO !!!.
E foi assim que deixei a “Arena di Verona”. A navegar na Barca dos Sonhos.
Q.P.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MEMÓRIAS DE TAVIRA ...

...de quem eu gostava mesmo, era da Almerinda das bifanas ...


Desta vez, vou até ao sotavento algarvio, a voar nas asas das minhas memórias, de um Tempo difícil e sombrio da minha vida. Mas não venho aqui para carpir as minhas mágoas de antanho, podem estar descansados. Acreditem que a conversa não vai puxar ao sentimento, apesar de começar mal, ou seja, no quartel de Tavira, comigo sentado na minha cama de ferro, a gritar um impropério: “porra, roubaram – me a almofada !!!”. Tinham roubado mesmo! Aquela era uma casa de muitas mães, e ao mais pequeno descuido, lá se ia mais um cobertor, ou o “ tapa-chamas” da espingarda. Inocente, fui a correr para o sargento - ajudante, com queixinhas. O homem ouviu-me, enquanto olhava com um olho fechado e outro aberto, para o fundo do cano de uma metralhadora, para me dar um conselho avassalador: “ se te roubaram a almofada, rouba outra!!!”. Bati os calcanhares e bati em retirada. Entrei na caserna e vi uma almofada em cima de uma cama, sozinha, mesmo prontinha a ser surrapiada !!!. Foi o que fiz! Qual gatuno principiante, fugi com a fronha debaixo do braço, a arfar de cansaço e o coração a saltar - me pela boca. Depois, tive pena do Coelho, que passou por mim a correr e rosnou-me: “ houve um cabrão, que me roubou a almofada!”, enquanto eu fazia que lia uma revista. Minutos depois, vi-o de novo a correr em sentido contrário. Trazia uma fronha debaixo do braço. Fiquei tranquilo e de bem com a minha consciência. Afinal, Monsieur Lapin, também tinha feito pela vida. Mais tarde, arranjei um quarto fora do quartel. Mesmo em frente à casa da menina Amélia, que passava os dias com as mãos penduradas fora da janela, a secar o verniz das unhas compridas, cor de morango. Acho que gostava de mim. Mas a miúda não devia muito à beleza e eu, de cabelo quase rapado, mais parecia um melão de Almeirim. Um belo par!. De quem eu gostava mesmo era da Ti’ Almerinda, que vendia umas bifanas no pão a vinte cinco tostões. Sem mostarda. Andava atrás das nossas correrias pela Atalaia, com um triciclo motorizado carregado de sandes e pirolitos. E nós, esgalgados de fome do esforço, era um ver se te avias …
Por falar em mostarda, um dia apeteceu-me espirrar. Foi na missa. Com o Peixoto e o Sottomayor, passámos junto de uma igreja. Sim, porque em Tavira, cidade pequena, existem dezoito igrejas. Só não há é quem reze, assim dizia a menina Ofélia, aprendiz de modista, que antes de andar embrulhada nos lençóis do Sub - Comandante dos Bombeiros, não havia nada que se lhe apontasse. Pois, foi na missa. Entrámos e ficámos cá atrás. A humidade do claustro fez-me espirrar, e o padre ficou de olho em nós os três. E depois pediu um ajudante, uma espécie de sacristão. Fiquei todo transpirado e escondi-me atrás do Peixoto, que era grande como um guarda - fatos, enquanto dizia ao Sottomayor em surdina: “oh pá, vai lá tu, que tens o nome mais pomposo”. O tipo, que era vaidoso, foi. Por acaso, nem se saiu mal. Até o elogiámos no regresso ao quartel. Era justo.
Foi com alívio, que saí de Tavira. Não me deixou saudades, a não ser da Almerinda das bifanas, que viveu o resto da vida com a esperança que um ricalhaço de Aveiro, que tinha barcos do bacalhau, lhe levasse a filha ao altar. Mal terminada a estadia militar, o biltre desapareceu, já corriam cinco anos. Lá teve ela que criar o neto. E a filha infeliz, que um dia tinha sonhado casar com ele no meio da parada, de véu, grinalda e flor de laranjeira…
Q.P.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

UM CONTO AO CALOR DA LAREIRA ...

Castelo Branco

São retalhos de vida, que se perdem na bruma dos tempos. Memórias que ficam, descritas em livro, por aqueles que já partiram e deixaram o seu testemunho de uma existência agreste. Porém, nas páginas pardas, alguns resquícios de felicidade de uma infância simples, rodeada de tudo o que a Natureza podia oferecer. Os banhos, desnudados, nas águas cristalinas da ribeira. O correr pelos campos como uma lebre. O comer a maçã de uma árvore, sem a vigilância de um dedo acusador.
Mas havia a escola. E ali, naquele lugar, o professor era austero. Mas amigo dos seus alunos. Entre eles, cinco que se irmanavam numa aliança imorredoira de amizade: o Prata, o Francisco, o Costa, o Isidoro e o Ventura.
Os exames da quarta classe, eram nos fins de Julho. E, naquela tarde quente, corriam as festas de São Pedro, os cinco amigos demandaram Vale do Curro, a oito quilómetros de Juncal do Campo. Era ali que o Senhor Professor, passava as férias - grandes, junto da família. E era também ali, que o docente lhes daria as últimas lições, para a preparação para o exame em Castelo Branco.
De merenda para o dia e para a estadia, partiram a pé, rumo à quinta do Senhor Professor. Por lá ficaram e por lá estudaram uns dias. Também tempo para correr pelas hortas e beber da água fresca dos poços. À noite, quando as estrelas já cobriam o céu beirão, dormiam na loja térrea, numa enorme cama, encolhidos, para caberem lá todos.
Depois, o dia do exame. Um ritual próprio. Acompanhados pelo professor e um familiar, espartilhados dentro de um fato feito para a ocasião, lá partiram para a grande urbe numa carroça puxada por um burro, para que não perdessem a energia a calcorrear os treze quilómetros de distância, que os separava da cidade de todos os deslumbramentos.
Foi feliz, a viagem a Castelo Branco. Passaram todos com distinção, para sua alegria, do professor e das famílias. O Prata, então, não cabia em si de contente. Foi a primeira vez que usou sapatos. Eram vermelhos e de biqueira larga, já naquele tempo fora de moda, mas que o tio Manuel Mendes tinha descoberto numa prateleira velha e sombria, na oficina do António Lagarto, sapateiro
Q.P.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

NO RASTO DE CAMILO ...

Foto de São Vaz

Camilo e Maria Moisés ...

É sempre no coração do Outono, que se juntam. Um grupo de amigos, que se uniram num laço de amizade. As vicissitudes da guerra, marcou-os para sempre. O sentimento da partilha, no seu máximo expoente. Fosse por motivos emocionais, pela falta da família, ou pelo simples repartir um pedaço de pão, quando um dia acabou o que apenas havia para comer: esparguete com cubos de marmelada, subtraídos do bornal da ração de combate. Para muitos, esta recordação sombria será descabida. Nem sequer a compreendem. Num mundo cada vez mais competitivo, de viscosa hipocrisia, em que a sociedade se atropela num mundo sem lei, na procura de um qualquer objectivo, parece custar entender as fortes raízes de uma solidariedade cimentada em momentos muito difíceis. Um ribeiro cristalino de afetos.
Perdoem-me a modesta prosa. Nem era aqui que eu queria chegar. Vão perguntar-me - com razão – onde é que Camilo Castelo Branco entra, neste atrevido monólogo. Apontar-me o dedo acusador. Do pobre escrevinhador, que se atreveu a invocar o nome de um dos nossos baluartes da Literatura. Uma heresia. “Quem te manda a ti sapateiro, subir além da chinela” – dirão. Mas hoje, ao recordar estes sete companheiros, que vão esgrimindo floretes contra o Tempo, insistindo em manter este querer como se fosse eterno, lembrei-me do dia em que trilhámos o rasto de Camilo. Foi lá para as bandas de Celorico de Basto. Uma simples ponte suspensa sobre um rio, ligando dois povoados, aguça a curiosidade do viajante. Também por ali passeou Camilo Castelo Branco, ainda a “Ponte de Arame” não existia. No local, lembrar Maria Moisés. Recordar os seus dramas e o seu pranto, quando nas margens das águas revoltas e caudalosas, chorava a sua desdita de criança abandonada à nascença e resgatada de um berço de vime, pelo humilde pescador Francisco Bragadas, num cenário de contornos bíblicos. E, naquele dia triste e cinzento, com o Tâmega adormecido em sereno leito, recordámos o escritor. A homenagem que se impunha, naquele emaranhado de frondosa vegetação, que une as freguesias de Rebordelo e Anóia. No chão, o retalho colorido em tons de verde e castanho da fofa manta - morta. Talvez a pauta onde se inspirou Camilo, no seu romanesco cantar. Uma torrente de sentimentos lúgubres. A fatalidade do Destino cruel. O arrastar das grilhetas de uma vida parda. Uma sofrida sinfonia de Outono.
Q.P.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Isto já é o meu «Jornal do Fundão», carais!

"Para: Paulo Moura
De: Fernando Paulouro (J. Fundão) - fernandopaulouro@jornaldofundao.pt
Assunto: Resposta tardia e penitência

Caro Paulo Moura

Permita que o trate assim. Conheci bem o seu pai e lembro-me bem dele como correspondente e amigo do “Jornal do Fundão”. Era muito jovem, mas já andava pela aventura do JF. Peço-lhe imensa desculpa de só hoje lhe responder. Mas o ano que passou foi atribulado para mim do ponto de vista da saúde (fui submetido a uma intervenção cirúrgica pesada, como dizem na medicina, e etc...) e a sua mensagem de Agosto coincidiu com o meu relativo afastamento do jornal. Mas aqui estou a dizer-lhe que, tendo lido as prosas que me enviou do Quito Pereira, gostei de as ler, não só pela desenvoltura da escrita, mas pela sensibilidade que ela traduz. Os textos cabem no JF e ficarei feliz se os puder publicar. Num tempo em que a escrita se padroniza e tantas vezes fica refém da matriz comercial, é bom ouvir o rumor do mundo através das realidades primordiais...
Fica com o meu e-mail, para si e para o Quito Pereira, que terei seguramente prazer em conhecer. E venham os textos. O da cadeira vazia do carpinteiro, parece-me excelente. Posso publicá-lo?
Um abraço e grato, muito grato, pela sua insistência, que me permitiu a resposta de hoje.
Outro abraço
Fernando Paulouro Neves"

Agora é contigo, Quito!
Contacta o Fernando Paulouro (tens ali em cima o e-mail dele) que eu tenho mais que fazer, mais concretamente apressar-me a renovar a assinatura do nosso JF.
Abre aço!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A MISSÃO ...

O ofício de carpinteiro ...

São pálidas, estas tardes de fim de outono. Ora chovendo, ora mostrando um sol envergonhado, que vai dourando os campos, empapados da água generosa que alimenta os poços ressequidos. Lá em baixo, junto ao pontão do Chão da Vã, a ribeira cristalina vai saltitando entre pedras e pequenas fragas, lambendo as margens da aldeia, como o cão fagueiro que roça o dorso pelas pernas do dono. O seu cantar milenar, é um hino triunfal. O renascer da cor nas hortas, desmaiadas pela canícula. A frescura e o cheiro da terra plena de vigor, que nos apura os sentidos na procura das coisas mais simples e mais essenciais à vida. O tributo de cada chão, sitiado entre muros de pedra granítica, a quem o vai afagando com um arado e lhe revolve as entranhas musculadas.
Mas é um estranho drama este, o da Natureza! Enquanto as pequenas courelas, plenas de vitalidade, cantam louvores à generosidade dos céus, as árvores de folha - caduca vão gemendo o seu fado secular. Debruçam-se sobre a estrada à minha passagem e a aragem gélida que percorre a já sua parca folhagem, é como um lamento ao remar dos dias curtos e cinzentos. O suspirar por uma primavera ainda longínqua, que traga os dias clamorosos de sol e claridade e as noites mornas e cintilantes de estrelas, tudo embrulhado numa fantasia de acordes e de silêncios, nesse palco imenso em que tem a primazia o clamor uníssono do cantar das cigarras.
Mas, é nestas tardes agrestes, que mais sinto a vulnerabilidade da vida. O silêncio convida à meditação. O conseguir destrinçar o essencial, do acessório. De saber que a morte não é irremediável. Apenas o é para nós, os simples mortais. Porque o Tempo – esse – é imortal. Também as courelas, que passam de mão em mão, de geração em geração, reclamam o seu estatuto de imortalidade. Que a cada Árvore sucederá outra Árvore. Mas a cada Homem não sucederá outro Homem. Cada Homem, parte para a vida como para uma corrida de fundo, onde deveria cumprir uma missão. A missão da solidariedade fraterna, de se dignificar pelo trabalho em prol de si próprio e dos outros, nesta curta etapa da existência. Mas somos imperfeitos. Alguns de nós, porém, simples anónimos, também se vão da lei da morte libertando. Pelas suas vidas transparentes de candura, de honestidade e de trabalho, na comunidade em que estavam inseridos.
Meditei nisto ontem, quando fui ao Lar cá da aldeia e vi a cadeira do carpinteiro vazia.
Q.P.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O GESTO DE UM CAMPEÃO ...

José Augusto

Este é um episódio simples, de antanho, que vos venho aqui contar. Há, porém, eventos que já nos fogem da memória. Quando já não se consegue explicar, com precisão, as datas em que aconteceram. Mas creio que foi lá pelo início da década de sessenta, do século passado.
Naquela tarde de Domingo, a Académica jogava com o Benfica, no Municipal de Coimbra. Estádio cheio, a rebentar pelas costuras, um tapete verde apelativo e um dia cheio de sol. A cor predominante era a vermelha, no topo Norte e no topo Sul do Estádio. Na bancada nascente, predominava o negro das capas de Coimbra. A entrada da equipa do Benfica em campo, era sempre uma festa. Em passo de corrida e em fila indiana, invadiam o relvado, perante o clamor da claque benfiquista e o garrido das suas bandeiras. Nós, os de Coimbra, olhávamos para aquela manifestação de poder, daquele que era, naquela época, o clube sem rival em Portugal, com prestígio e fama por todo o mundo. Depois entrámos nós, de negro vestidos e losango ao peito. No emblema, a águia era substituída por um telhado e a Torre de uma Universidade vetusta, respeitada na Europa e por todo o universo intelectual. Mas no que toca a esgrimir armas com o nosso opositor daquela tarde, pressentia-se que a festa seria encarnada. Mas não foi. A Briosa, tinha igualmente uma equipa em que se perfilavam dos melhores jogadores do País e três tiros certeiros na águia contra apenas um dos de Lisboa, pôs em delírio as hostes academistas. Crispim, marcou o terceiro, na baliza do lado norte, e cá fora foi levado em ombros pela claque. Horas depois do jogo, ainda se bebia cerveja, na escadaria da Sé Velha.
Eu era ainda um imberbe menino. Recordo a longa fila de trânsito, no fim do jogo. Nessa tarde, fui para Eiras, onde viviam os meus avós. Ao volante do carro, o meu tio Luís Pereira, benfiquista assumido, compunha nervosamente os óculos na cara e não dizia uma palavra.
Nessa noite, fui com a família despedir-me do meu tio Ernesto, que ia para Lisboa. Delirante e levado pelo meu pai, entrei na Estação Velha de bandeira da Briosa desfraldada. Para surpresa minha e nossa, à espera do “Rápido”, estava a equipa do Benfica. Silenciosos, com pequenas malas na mão, os jogadores aguardavam a chegada do comboio. Alguns futebolistas, olhavam para mim e sorriam. E então deu-se o inesperado. José Augusto, “ponta – direita” do clube da Luz, pousou a mala no chão, dirigiu-se a mim com um largo sorriso e deu-me um beijo.
Nunca mais esqueci aquele episódio. Da verdadeira estatura cívica de um grande atleta, rendido ao amor de uma criança pela sua Associação Académica.
Por vezes, vejo o José Augusto na televisão. O cabelo embranqueceu e jamais se lembrará deste episódio. Mas o sorriso é o mesmo. O glorioso sorriso do seu amado e Glorioso Benfica.
Q.P.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ACORDAI !

Tarrafal ...

Hoje, 3O de dezembro de 2O1O, é o primeiro dia do resto da minha vida.
A manhã, acordou cinzenta. Uma neblina baça, cobre o céu da Cidade da Praia. Foi então que partimos, em duas pequenas carrinhas. Por estradas sinuosas, subindo e descendo montes e vales, vamos vislumbrando casas modestas, com roupa colorida a secar nas cordas, sacudida ao ritmo de uma brisa forte. Rumamos em direção a Assomada, povoação singela, com o seu pequeno mercado e uma rua estreita, entupida de carros, camionetas e motociclos. Nos passeios, as pessoas cruzam-se na sua azáfama, entrando e saindo das pequenas lojas de comércio, com a mercadoria exposta à entrada das portas. Seguimos viagem. A estrada é agora em terra batida. Aos solavancos e com um estranho barulho metálico na traseira da camioneta, talvez por se ter soltado o escape, passamos por uma casa invadida por ervas daninhas e ao abandono. Não é uma casa qualquer. Ali viveu Amilcar Cabral. Prosseguimos então na nossa rota. Depois de rodarmos mais uns quilómetros, do cimo de uma colina, divisamos ao longe uma povoação, de casario simples. É a vila do Tarrafal. Avançamos em cadência lenta. Ladeando a estrada, moradias de um só piso, com muitos idosos sentados nos muros, que nos vão observando em silêncio. De repente, as carrinhas viram à esquerda, num descampado, e os meus olhos esbarram de frente com uma muralha escura. Chegámos ao Campo de Morte do Tarrafal. O grupo, normalmente alegre e tagarela, recolhe-se ao silêncio. Demarco-me dos meus companheiros de viagem e dos seus rostos carregados e olhares sombrios. Quero viver aquele momento sozinho. Quero que os meus olhos me transportem para a alma, todo aquele inferno que foi transversal à minha meninice e adolescência e de que ouvia falar. Aquele antro de criminosos, um covil de matadores, uma vergonha para a Humanidade.
Por uma porta em arco, entrei. No chão, lá estavam os malditos carris, no empedrado da calçada. De um lado e de outro, enormes pavilhões gradeados. Entrado no pavilhão da direita, constatei que as paredes estavam forradas de documentos. Ofícios da PIDE, documentos internos do Campo e listas contendo nomes de vítimas do presídio. Também muitos relatos pungentes, daqueles que sofreram na carne, os horrores do seu degredo. De todos, fixo-me no depoimento de um angolano, Armando Ferreira da Conceição: “Logo à entrada, o Diretor da Cadeia, Queimado Pinto, mandou tirar a roupa toda”. “Estes terroristas, tirar a roupa toda, todo o mundo!”.A desconfiar que trouxéssemos armas. E nisso havia pais e filhos, um dos filhos levanta-se (primeiro mandou-nos sentar no chão) e dirige-se a ele”: “Senhor Diretor, desculpe, mas aquele velho ali é meu pai, tenho o pudor e o respeito de não me despir diante dele !”. “Não quero saber, nem quero ouvir mais nada, trate de tirar a roupa!”.
Por minutos, fico a ler e a reler, toda aquela avalancha de martírios. Lá fora, o sol apareceu no seu esplendor. Porém, o vento é cada vez mais forte e assobia sobre os telhados de zinco dos pavilhões, num cantar sinistro. Também as portas abertas, em madeira maciça com grossos ferrolhos, não resistem à violência do vento e vão batendo, com estrondo, contra as paredes das casas. O capim, ressequido pela falta de chuva, vai dançando aos caprichos da brisa agreste que ruge, dando ao Campo um aspeto ainda mais lúgubre.
Junto-me então aos meus companheiros de viagem. Está na altura de prestarmos às vítimas do Tarrafal, a nossa homenagem. Ao Maestro Paulo Moniz, peço autorização para integrar o grupo. Não sabendo cantar, mantenho-me em silêncio, aos acordes de “Acordai!” de Fernando Lopes Graça. Por todo o pavilhão, ecoam as vozes dos coralistas. Porém, a meio do tema, o António Cabral, calou-se. Olhei para ele e tinha as lágrimas a correr pela cara abaixo. Também o Maestro, tal como todos nós, estava muito emocionado.
Depois, partimos. De novo percorri aquela avenida da morte em direção à saída. Tarrafal, já não fazia apenas parte do meu imaginário. Agora eu estava ali, a pisar o chão mítico das mais tortuosas lembranças. E a pedir, mentalmente, para que aquele campo se mantenha intacto, como monumento intemporal à indignidade e à perversidade. Para que não seja curta a memória dos homens.
Q.P.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MAU TEMPO NO CANAL

Farol, como bastião de resistência à ditadura do mar ...


Partilho, convosco, mais um fragmento das minhas memórias. Nesta fotografia recente, as ondas, em fúria, varrem o cais de Ponta Delgada. Esfumado por entre a cortina opaca da branca espuma, o farol, bastião da resistência à ditadura do mar. Também um dia, na Ilha do Faial, o fundo do oceano rebelou-se contra a terra. Espessas colunas de fumo e lava ardente, modificaram a paisagem. Soterraram casas e culturas. Destruíram vinhas e a fauna marinha. Mas o farol resistiu. Ali ficou, de pé, até hoje, como sentinela ferida de morte no seu posto, testemunha negra de uma tragédia dantesca. Uma sensação de desconforto para o viajante, num contraste de emoções, agora que o mar azul e o límpido céu, de novo abraçam a Ilha, numa aliança de paz, naquela terra bendita. Como estranha sensação foi aquela, de atravessar de barco, do Faial para o Pico. Naquela tarde, o mar estava alteroso. Logo à saída da barra, o batelão parecia impotente para travar as arremetidas do Atlântico. Na crista das ondas, divisávamos outras embarcações, para logo submergirmos no mar cavado, que nos empurrava para o fundo. A bordo, a confusão era total. Sacos de batatas, alfaias agrícolas, cestos com galinhas e latões de combustível, conviviam com os passageiros e tripulantes. Então, uma onda forte varreu o convés e fiquei todo molhado. Tento disfarçar o medo que os ilhéus já não têm. Estão habituados à travessia e aos caprichos do mar. E a cataclismos. Para eles, naquele seu jeito cordato de falar, tudo tem uma explicação Divina. É a Vontade de Deus, que se perfila no seu quotidiano. Com a montanha mais alta de Portugal a crescer para mim, atraquei no porto do Pico. Uma chegada atribulada, com todos os passageiros a querer sair do barco ao mesmo tempo, arrastando as suas bagagens. Depois, o repouso da viagem, no Hotel Caravela. O recordar Vitorino Nemésio e o seu livro “Mau tempo no canal". Mais tarde, uma visita à pequena capela, em cujo altar se destacam alguns apetrechos náuticos, a fazer lembrar aos fiéis e visitantes, que aquela é uma terra de homens da faina. Contudo, muitos partiram, procurando o sustento noutras paragens. E, à noite, recolhido no quarto, à luz coada do candeeiro da mesa - de – cabeceira, uma leitura pelo jornal local. Pelo seu conteúdo, espraiei os olhos. Deleitei-me, com as notícias simples duma terra singela. A luz que falta na Rua dos Baleeiros, problema que ainda não foi resolvido, ou aquela passadeira para peões, que já tarda a ser marcada no pavimento. Afinal, um semanário como elo agregador de uma pequena comunidade. É quase comovente de candura, o desfolhar das suas poucas páginas. Nas asas da SATA, parti do pequeno aeroporto do Pico. Do ar, despedi-me da Ilha e das suas gentes. Dos meus irmãos insulares. Portugueses como eu.
( texto dedicado a Ana Valentina Dias , pelo amor aos Açores, que também são seus )

Q.P.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SODADE ...

Sábia afirmação, sem contestação ...


Mindelo, vive ao ritmo da morna. Ali chegados, depois de vinte e duas horas de viagem, foi com prazer que desfrutámos daquela calma africana, da cordialidade das suas gentes, do colorido dos seus trajes. A cidade, respira tranquilidade. Por todo o lado se constata, que jamais se cortará o cordão umbilical entre dois povos - irmãos. Em cada rua, em cada esquina, em cada praça, um símbolo português. Uma enorme águia de pedra, abraça a Baía do Mindelo, em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral. E, ao cimo daquela rua, lá está o Café Lisboa. Noutro estabelecimento, surpreendentemente, uma fotografia de uma equipa de futebol de negro vestida e losango ao peito. É a Académica de Cabo Verde. Também numa vitrina da Câmara Municipal, onde o Choral Poliphónico de Coimbra foi recebido, uma foto em destaque do antigo atleta da Briosa, Manuel Capela. De realçar, durante os três dias de estadia naquela cidade, a homenagem a Cesária Évora. No cemitério local e bem visível do exterior do Campo Santo, uma campa coberta de uma montanha de coroas de flores. Dá para perceber, numa observação mais atenta, que são provenientes dos mais variados cantos do mundo. É ali que mora a “sodade”, amada por todos os cabo – verdianos.
Foi naquela ilha de S. Vicente, que o grupo deu o primeiro espetáculo. Numa sala esgotada, Coimbra fez-se representar ao seu melhor nível, a par de um jovem coral de um liceu do Mindelo. Uma noite de emoções fortes, em que foi bem patente o estreitar dos laços da amizade entre anfitriões e forasteiros.
A Ilha de Santo Antão, é um hino à Natureza. Uma hora de viagem, num enorme “ferry”, ao sabor das ondas e ao som de mornas e coladeiras. A Ilha, tem muito da intervenção do Homem, sobretudo a nordeste, com pequenas courelas de cultivo, em locais quase inacessíveis. Mas é de uma beleza rude e descarnada no seu sopé. Porém, à medida que vamos trepando a serra, por uma estrada estreita e sinuosa, a vegetação é progressivamente mais densa. Das montanhas, escorrem pelos seus declives, tufos de nuvens brancas como algodão, que se espraiam pelos vales até às areias da praia, num cenário de empolgante beleza. Neste ou naquele aglomerado urbano, de casas modestas, muitas crianças a brincar nas ruas. Junto aos muros, como que perdidos no Tempo, muitos idosos de cabelo grisalho, contrastando com a sua tez morena. E em cada rosto, em cada olhar, um pedaço de solidão. À passagem da camioneta, saúdam-nos com os braços no ar, num gesto amistoso. Agora, que regressamos a S. Vicente, da amurada do barco, vamos dizendo adeus à ilha. No porto, ficou uma amálgama de gente e de mercadoria, num colorido bem vivo, que só África nos faz colar na retina.
Foi na Ilha de Santiago - Cidade da Praia - que começou o nosso abraço a Cabo Verde. Uma chegada pomposa, com direito a câmaras de televisão e extensa reportagem no horário nobre do telejornal. A capital, vive ao ritmo brando das pessoas. Parece que a rodas dentadas da Engrenagem do Tempo, pararam. Menos no trânsito, que é frenético. Em cada três carros, um é táxi. Código da Estrada, é peça decorativa. Ultrapassa-se pela esquerda e pela direita e nas rotundas, só vale a boa educação e a cortesia de cada condutor, a dar prioridade aos outros. Foi aqui, que o Choral fez e sua segunda atuação, depois do regresso do Mindelo. De novo, casa esgotada. Outra vez, uma torrente de emoções, de parte a parte. Porém, no dia anterior ao espetáculo, o grupo tinha uma surpresa reservada. O Presidente da República de Cabo Verde, Dr. Jorge Carlos Fonseca, fez saber que pretendia receber o Choral Polophónico de Coimbra. Assim, rodeado dos seus mais diretos colaboradores, compareceu numa ampla sala do Palácio Presidencial. Por muitos minutos, conversou com todos, falando da sua passagem por Coimbra, onde cursou Direito, recordando a sua estadia numa “República”. Um a um, cumprimentou todos os membros da comitiva, que era composto por quarenta e seis elementos. Na noite de passagem de ano, promovido pelo Grupo Coral da Praia, lá fomos para um espaço reservado numa zona nobre da cidade. Todos em conjunto, portugueses, cabo – verdianos e respetivas famílias, dançaram e deliciaram-se com a comida oferecida, até às sete horas da manhã.
Depois, a dois de Janeiro, foi o regresso. Na sala de embarque, um estreito abraço a todos os que puderam comparecer, para se despedir de nós.
Nas asas de Portugal, regressámos a Lisboa. Havemos de voltar – dizia-se no avião em surdina. Enquanto me entretinha a ler o jornal “ Público”, oferecido por uma hospedeira de bordo, percebi, sem esforço, que o coração de todos nós tinha ficado lá.
Q.P.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A LOJA DA FLORISTA ...

Quando flor rima com dor ...

Há uma paz glaciar, neste patamar de Inverno. Uma aragem fria, percorre as ruas da cidade. Um carro, sobe a avenida empedrada em marcha lenta. Corre ao ritmo da Vida, navegando pela planície adormecida, no berço da Beira – Baixa. Aqui e ali, grandes maciços de pedra granítica, agigantam-se na malha urbana, como que lembrando a sua intemporalidade, agora que o Homem, em galope atrevido, lhes discute, palmo a palmo, todas as nesgas de terra virgem. Inglória tarefa. Porque a dureza da rocha escura, é a marca de soberania de que só elas são intérpretes, neste brando caminhar do Tempo.
No meu rodopiar apressado pelas entranhas do burgo, gozo da claridade de um dia de sol desmaiado, resguardando a cara na gola do casaco, da brisa agreste que fere como navalhas. É então que entro num pequeno Centro Comercial. Já foi o melhor da cidade. Ali lançaram as suas âncoras de sobrevivência, muitos lojistas. Também gente que passava, na procura deste ou daquele produto necessário ou apetecido. Lembro a Loja dos Chocolates, o Café cheio de estudantes do liceu ali ao lado. E a Loja de Música, que debitava pelo pequeno corredor, canções festivas, naquele clamor palpitante de convívio e de ritmo.
Agora, tudo morreu. Ali, naquele lugar, que já foi um hino de esperança a todos os que ali ganhavam o seu sustento, já quase nada resta. À minha volta, tudo é sombrio. Até as luzes do teto, para poupar energia, foram reduzidas à penumbra. Morreu o Café. Morreu a Loja do Barbeiro. Morreu a Loja das Fotografias. Morreu a Loja dos Chocolates. E, da Loja de Música, já nem os acordes soturnos do “Requiem” de Mozart.
Apuro então a vista. Uma luz ténue, escorre pela vidraça da única loja aberta. É o refúgio da florista. Lá dentro, uma mulher de cara larga e pálida, sentada num banco, observa-me do fundo das suas olheiras roxas. Tem o cabelo mal cuidado e, no rosto, as marcas do sofrimento e das privações. Nas prateleiras, jazem alguns ramos de flores, para clientes que já não existem. Fixo então os olhos, num ramo de rosas vermelhas. Num ímpeto, compro o “bouquet”, pousando em cima do balcão, a nota que me pediu. Estabelecemos então diálogo. Diz-me que, se calhar, serei o seu único cliente do dia e que agora lhe é exigido ter a loja computorizada. Fala-me das suas dificuldades e da incapacidade económica para cumprir o que lhe é exigido.
Com as flores debaixo do braço, saio porta fora, compungido. Porque, naquela hora, flor não rimava com amor. Apenas rimava com dor …
Q.P.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UM CONTO DE NATAL ...

Choupal ...

O silvo agudo do comboio a vapor, derramou-se pelo Choupal, naquele entardecer sereno. Depois, veio o silêncio. Apenas os ténues raios de sol, coados por entre a folhagem, davam à Mata uma dimensão irreal. Ali, tão longe e tão perto, o Mondego fundia-se com as margens, afagando os campos de Montemor no seu cantar Coimbrão. Era o seu trinar milenar, conhecido por todos aqueles que habitavam a Mata ou ali tinham o seu sustento. Naquela noite, do dia 24 de Dezembro de 195O, o rio, imprevisível, engrossou o seu caudal. Inundou caminhos e espalhou detritos. Na margem esquerda, o velho “Pama” rezava, para que a frágil ponte pedonal não fosse tragada pelo Mondego e com ela o seu magro pecúlio de assalariado e de barqueiro. Tornava-se agora impensável utilizar a passagem em estacaria, pelo risco de se desfazer em mil bocados.
De todos os que ali estavam, debaixo daquele enorme telheiro generoso, apenas o Adelino “engenheiro” teria que atravessar o rio. Mas não lhe fazia diferença. Na margem esquerda do Mondego, não tinha ninguém à sua espera. Vivia sozinho, numa aviltante pobreza. Dormiria ali, olhando o céu estrelado, numa noite igual a outras noites. E amanhã, quando o Sol nascesse, viria mais um dia igual aos dias iguais. Os outros, quase tão pobres como ele, olhavam-se num silêncio cúmplice, irmanados no mesmo pensamento. Jamais, deixariam o “Engenheiro” sozinho. Então, decidiram todos, dormir debaixo do enorme telheiro. Qual Figura Bíblica, apareceu um homem fardado de azul. A par com os assalariados da Mata, fez e fizeram naquele local, uma enorme e acolhedora fogueira, à volta da qual todos se sentaram. Da cozinha, apareceu uma ceia farta e reconfortante. A noite agreste, era agora um serão acolhedor de conforto, em que todos riram, comeram e beberam o seu quinhão. Cantou-se e Louvou-se o Deus Menino. E sobre as enxergas e ao calor da fogueira, já a madrugada ia alta, adormeceram.
Naquela noite fria, não houve presentes. A pobreza, apenas dava para comprar as couves para o caldo e pouco mais. E até um simples par de meias para calçar com os socos, não era mais que uma distante quimera. Porém, o Adelino, analfabeto e habituado à rudeza dos dias pardos, percebeu que na margem direita do Basófias, tinha uma família. A Família da Mata do Choupal, com quem trabalhava todos os dias. E, naquela Consoada, até o rio o abraçou num gesto de afeto, não lhe permitindo a veleidade de tentar atravessar a ponte do barqueiro, em direção à sua humilde cabana de solidão.
Estava escrito no Firmamento daquele manto estrelado, que a Solidariedade Fraterna se sentaria à mesa dos pobres, com carvalhos e eucaliptos como testemunhas da Bondade e Generosidade dos Homens. De alguns Homens.
E o Cantar Trinado do Mondego, envolto na velha capa de Menano.
Q.P.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O GRANITO E O SILÊNCIO ...

(Foto São Vaz)

Ontem, vi o Avelino. Passou por mim, mas não me reconheceu. Mas garanto que era ele. Ali, naquela avenida da cidade, de camisa preta e pasta na mão. Costuma usar outra indumentária, quando espreito pela frincha da porta da capela e o vejo de braços abertos, a pregar a Palavra Do Senhor. Por vezes, também o encontro na missa dos casamentos e funerais. Faz sempre umas homilias monocórdicas e repetitivas. Um teste à paciência de um cristão. Recordo a sua voz sibilina, ampliada pelo microfone que o faz ouvir em todo o Templo. Depois a palavra liquida, que lhe brota aos tropeções dos lábios salivosos. E uma dicção pastosa e embrulhada, que lhe sai sumida do fundo da garganta. Mas os paroquianos ouvem, em contido silêncio. Depois, é tempo de reflexão. O povo da região gosta dele. Porque o Avelino – o senhor padre Avelino - é boa pessoa, no seu porte baixo e atarracado. A todos saúda, com a “riqueza” da Palavra de Deus. E lá parte no seu pequeno carro, afundado no banco, de cabeça erguida, tentando descodificar as curvas da estrada, na férrea convicção da Protecção Divina.
Ontem, vi o Carlos. Estava sentado numa curva da solidão. Tinha o dedo polegar orientado para poente e reconheceu-me. Queria uma boleia para a Lameirinha. Sentou-se ao meu lado, balançando o corpo para a direita e para a esquerda, ao ritmo dos caprichos da estrada. Mas nada disse. Apenas agradeceu o transporte e pediu-me dinheiro para cigarros. Olhei o fundo do bolso e dei-lhe uma moeda. Voltou a agradecer e remeteu-se ao silêncio. Nestes Lugares, as palavras sobram. A dureza do granito, manietou - lhes a vida. Mas acompanhou-me até à porta da taberna, como se fosse um mestre – de - cerimónias. Depois, fez uma vénia e partiu.
Ontem, vi o João. Estava colado a uma parede, junto à porta suja da venda. Tinha as mãos atrás das costas e a cabeça erguida, tentando apurar o ouvido. A visão, desde criança que a não tem. Lá dentro – lá dentro da venda – apenas um raio de luz, coado pela cortina amarela e gasta pelo Tempo. E um banco de madeira singelo, a acusar o uso. É ali, que um ou outro idoso se senta, de boné na cabeça, soletrando com dificuldade as notícias de um qualquer jornal regional, de semanas passadas. A torneira da pia de lavar a louça, vai deitando uma pinga de água impertinente. Uma amálgama de copos velhos e baços, repousam no fundo de um alguidar. O balcão, escuro e tosco, é de granito. O granito que lhes tolheu os sonhos. Testemunha muda dos desencantos da vida, afogados num copo de vinho. E o silêncio. Sempre o silêncio.
Ontem, vi o Calmeiro.
Q.P.

domingo, 11 de dezembro de 2011

A MAGIA DE MESSI ...

Messi, o mágico ...


Naquela noite de estrelas, a esmagadora maioria dos portugueses que apreciam o pontapé na bola, estava de olhos postos no super - jogo, Real Madrid - Barcelona. O embate, não defraudou as expectativas. Pelo menos para aqueles que preferem a sensatez e a modéstia de Gardiola e Messi, às fanfarronadas de quem vai passeando ostentação e ridiculos tiques de narcisismo. Ontem, pela primeira vez, vi um Mourinho e Ronaldo sombrios, no descalabro de mais um humilhante resultado contra o seu maior rival. A culpada? Toda aquela grande equipa do Barcelona. E Messi, o mágico de uma companhia de estrelas, ídolo da Argentina e de todos aqueles que apreciam a arte do futebol.

Q.P.