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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

JOÃO SÓ ...





guerreiros urbanos ...

João Silveira nasceu em Belém, ali à beirinha do Tejo. Trabalha nos escritórios de um armazém de tecidos e todos os dias se levanta pelas sete horas da manhã. A higiene necessária, o café bebido à pressa, o pão que se come escada abaixo que o transporte não espera. Lá fora, o estrondo da cidade. Autocarros, elétricos e automóveis com o seu estridente buzinar são o sangue vivo da urbe indomável a que já está habituado. No transporte público apinhado de gente, consegue com custo lugar. De pé, como todos os dias, naquele amontoado de passageiros que se esforça num equilíbrio instável nas curvas apertadas do autocarro da Carris . Num solavanco a paragem. De novo a rua. De novo gente que se cruza apressada na rota dos seus destinos, esgrimindo argumentos inúteis contra o ponteiro das horas e dos minutos da ditadura do relógio. Depois a descida ao metropolitano que é hora de transbordo, mais uma vez engolido naquele bailado estranho de cidadãos anónimos que se digladiam na epopeia de sobreviver. O cais é escuro e soturno. Olha-se a boca do inferno, na esperança do ruido cavernoso que finalmente aparece. E lá vem ele, puxando as carruagens como num jogo infantil do Lego, silvando ao fundo do túnel com a sua luz sinistra, rasgando o ventre da cidade. João chegou finalmente ao armazém dos tecidos. Pontual, como sempre pretende ser. Depois, a burocracia dos recibos e das faturas impressas em papéis numa girândola de cores consoante o fornecedor, a tentar aligeirar a rotina de viver no esforço cinzento de todos os dias. O almoço frugal no pequeno café da esquina. Uma passagem de olhos menos interessada pelos cabeçalhos dos jornais que a imprensa escrita já cansa. Notícias sensacionalistas ou alarmantes, a convidar o leitor a comprar o matutino que laboriosamente é dado à estampa nas rotativas das máquinas gastas pelo uso nas madrugadas de uma urbe já adormecida, ou acordada nas vielas festivas de gente jovem que professa a religião da noite, de cerveja na mão e o trinado de um fado arrastado que se ouve nas ruas estreitas e escuras à luz de um candeeiro mortiço.

A tarde é gémea da manhã. Burocracia e mais burocracia e telefones a tocar num ritual que se repete todos os dias. Depois a tarde cai e são horas de regressar. É o recomeço da aventura. No transporte urbano lotado de gente silenciosa encarcerada no seu mundo interior de desencantos e preocupações, João olha absorto os rostos de mármore que o rodeiam e as luzes da urbe cosmopolita. E o colorido das montras natalícias a cintilar de lâmpadas intermitentes, que mascaram a sombra opaca da noite outonal. Viajando pelo emaranhado das ruas da capital, João Silveira navega também pelo seu passado e dos tempos de escola em que, introvertido e distante, observava os companheiros dum canto do pátio de recreio e que o apelidavam de “João Só”. Afinal, meditava na realidade atual do seu viver e da sua ilha de solidão rodeada de gente por todos os lados, como nas memórias de infância. Também os outros que o acompanham de regresso aos seus lares naquela nave de silêncios, são ilhas no seu mutismo e olhar perdido nos seus misteriosos pensamentos. Ao serão, em frente da televisão, as palavras e as imagens já não assustam. As tragédias da aldeia global passam por ele com a indiferença do cidadão comum barricado em si próprio, à espera de melhores dias que se calhar não virão . Lá fora, a noite é agora mais escura num céu estrelado e amanhã, quando o sol ressurgir por entre prédios sem alma e torres de betão, um novo recomeçar. A cabeça que se deita no travesseiro confortável e o sorriso brando com que se adormece de mais um dia ultrapassado na batalha contra um inimigo impiedoso e sem rosto.      

João Só, guerreiro urbano deste Tempo, venceu a cidade.
Q.P.

domingo, 3 de junho de 2018

A AMANTE DO CELESTINO ...





O Celestino nasceu no Porto, lá para os lados da Areosa. Era empreiteiro da construção civil e bem - sucedido na vida. Tinha uma vivenda na Avenida da Boavista, com um relvado cheio de candeeiros, que abria de noite e que mais parecia a gare de um aeroporto. Também um lago, onde a estátua de um anjinho com uma bilha às costas, debitava água para um lago, onde nadavam pacificamente alguns peixes coloridos. 

A mulher do Celestino era a Ivone, que por muitos anos vendeu peixe no Mercado do Bolhão. Era frontal e quando furiosa, desatinava na sua veia portista e até o São Pedro  fechava as Portas do Céu, para não ter que ouvir a lírica da zaragata. Um dia, chegou-lhe aos ouvidos que o Celestino tinha uma amante e foi o fim. Lá em casa, atirou com uma jarra de flores contra um quadro de Gioconda adquirido numa feira em Santo Tirso, deu dois pontapés na mesa estilo Luís XV que comprou numa promoção num armazém de Rio Tinto e, de dedo em riste, fuzilou-o com o seu sotaque nortenho:


-  Meu grande sonso, ando eu aqui feita escrava a trabalhar, para tu andares por aí com uma pindérica … ah mas isto não fica assim, que eu quando a bir, eu bou-me a ela e enfio -lhe com um chicharro de quilo e meio nas trombas  …


O Celestino, apanhado de surpresa, não vacilou e ripostou:


- Óh mulher tu és mesmo burra, então um homem com o meu estatuto, com um Mercedes topo de gama, a construir seis prédios na avenida principal de Matosinhos, não havia de ter uma amante, tu não percebes mesmo nada das regras da etiqueta, olha que o nosso vizinho Felisberto, que é homem de grandes negócios aqui no Porto, também tem uma amante …


A Ivone amansou, a matutar nos argumentos do Celestino, mas com a sua curiosidade feminina, não descansou enquanto não soube quem era a concorrente. E um dia, viu-a ao longe, mirou-a, remirou- a, mas sem se aproximar regressou a casa.


Numa tarde de verão, quando a Ivone descia uma rua da Invicta, deu de caras com o vizinho Felisberto  de braço dado com a amante. Fez que não o viu, mas  olhou bem e com espírito crítico a companheira do Felisberto e à noite, quando o Celestino chegou a casa, deu-lhe um beijo apaixonado e exclamou entusiasmada:


- Celestino, estás de parabéns, olha que a nossa amante é muito mais gira que a do Felisberto !!!

Q.P.    

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

LOURENÇO D´ ARRÁBIDA ...



 (foto net)


 - Ai chefe … chefe … que grande bronca … nós nem sabemos como desatar este atilho …

O chefe sentou-se, puxou do charuto e engoliu o fumo. Olhou o Tomé Alcapone, remexeu-se na cadeira e vomitou o fumo inspirado na cara do suplicante. Depois, ameaçador para a roda dos circunstantes, vociferou:

- Já percebi … vocês meteram outra vez a pata na poça e agora vêm aninhar - se debaixo da minha asa não é verdade … bem mas o que é que se passou?

Foi então que Arnaldo Pensador deu um passo em frente, espirrou para um enorme lenço encarnado e miou de fininho:

- Chefe … como sabe o Albino Cabeça de Pardal esteve mal … estava cá com uma catarreira na garganta que até pensámos  que ia esticar o pernil … depois alguém chamou o médico que apareceu aqui num carrão todo luzidio mas não avisaram o grupo e depois…

- E depois …? – rosnou o chefe com cara de poucos amigos …

- Depois a malta quando viu o funcionante com uns pneus novinhos em folha … gamámos as rodas e deixámos o veículo em cima de quatro cepos de eucalipto …

Foi então que o Chefe se levantou da cadeira. Por segundos passeou-se pela sala de mãos atrás das costas embrenhado nos seus pensamentos, enquanto o grupo se entreolhava para a saraivada de fogo que viria a seguir e veio: o chefe deu um enorme murro em cima da mesa e sem que ninguém se atrevesse a abrir o bueiro descarregou:

- Suas bestas … suas cavalgaduras … então o médico vem aqui porque um dos nossos está à rasca e vocês palmam-lhe as rodas do carro e ficam todos orgulhosos da estupidez dessas vossas cabeças de andorinha … vocês são a vergonha da profissão … que falta de sensibilidade e de ética … vocês nunca vão ser nada na vida …

Depois, colérico, prosseguiu:

- Mas a culpa é minha que vos fiz meus colaborados, a pensar que tinham um pingo de inteligência e não o monte de serradura que têm dentro dessa caixa córnea … são primários … nem para roubar as caixas das esmolas das igrejas servem … aliás coisa que nunca fiz, pois sou católico praticante e homem de valores …

E sem se deter:

- Subi a pulso na profissão e se hoje ostento a alcunha de Lourenço d` Arrábida, é porque no nosso universo do gamanço dizem que eu até sou capaz de roubar a ponte da Arrábida numa noite … mas a fama saiu-me do corpo … aos 10 anos de idade já eu me levantava ás 7 da matina, para me meter nos elétricos a abarrotar de tansos e de camones a quem eu aliviava as carteiras e as máquinas fotográficas aos amaricanos que iam fotografar a Torre dos Clérigos … mas vocês não tiveram que esgravatar pela vida porque são uns copos de leite … uma cambada de imbecis !!!

Então calou-se. E, mais conciliador, ajeitou o nó da gravata amarela às flores que mais parecia um repolho e deu as suas ordens:

- Tu … tu…  e tu … amanhã vão assaltar a Caixa Geral de Depósitos de Matosinhos … mas estão avisados …  não quero tiros porque tiros só nas barracas da Feira Popular… quero um trabalho limpinho e honesto … tu Zacarias Pé de Salsa entras na agência e puxas do seis tiros e pedes gentilmente ao caixa que faça a fineza de te passar o saco da massa … mas faz isso com um sorriso gentil que a  educação não custa dinheiro … tu Nelo Contrabandista ficas dentro da agência a controlar os clientes … mas lá  por teres uma cuspideira na mão não tens o direito de assustar as pessoas …  e acaba lá com o maldito vicio de trincar pipocas durante o assalto que a clientela até pode sentir-se ofendida com a tanta descontração … e tu Renato Maravilhas ficas cá fora com o motor do carro a trabalhar, mas não te ponhas a ler as notícias do Benfica na “Bola” ou a ver as mulheres nuas na página dos Classificados do “Correio da Manhã”, que foi assim de tão babado que estavas que nem viste a bófia a morder-te os calcantes, que te valeu cinco anos de férias na pildra de Paços de Ferreira a comer cabeças de chicharro e latas de atum …

- Mas Chefe … então e as rodas do carro do Doutor que já as vendemos ao Celso Fininho da Areosa que deu um bom guito por elas ?

- Roubem outras e reponham o que irresponsavelmente subtraíram que é essa a vossa obrigação de pessoas de bem e também para limparem essa vossa consciência mais negra que uma carvoaria … e já agora vejam se arranjam umas jantes de liga leve para amenizar o prejuízo ao homem, que deve estar todo ofendido e limpar a rica imagem de ingratidão que deram a quem salvou o Albino Cabeça de Pardal de levar em cima com três badaladas do sino …
Quito Pereira       



segunda-feira, 17 de abril de 2017

LUA - DE - MEL À CRISTIANO RONALDO ...






 Apeadeiro Cristiano Ronaldo ...

Chegaram cansados, carregados de malas de viagem. Ele, vinha com um pequeno chapéu colorido na cabeça, com uma borla que lhe descaía para a orelha esquerda, naquela que era uma recordação da formosa ilha do Atlântico. Ela, trazia de braçado um belo ramo de flores, numa imagem fresca e primaveril.

A emoção da chegada a casa dos pais da noiva, depois daquela lua – de - mel passada na Ilha da Madeira.

A mãe, expectante, queria saber as novidades todas. O pai, de rosto fechado, fazia que lia o jornal.

Sentados na confortável sala de jantar, entre duas chávenas de chá, a jovem confidenciou à mãe a aventura:

- Olha mãezinha, saímos de Lisboa e voámos até ao Funchal onde aterrámos no Aeroporto do Cristiano Ronaldo. Depois saímos do Aeroporto do Cristiano Ronaldo e um taxista levou-nos ao Hotel do Cristiano Ronaldo. Jantámos e dormimos maravilhosamente num quarto que até tinha uma fotografia do Cristiano Ronaldo. De manhã, tomámos o pequeno – almoço na varanda do Hotel do Cristiano Ronaldo e o senhor da agência de viagens levou-nos a ver a estátua do Cristiano Ronaldo, onde tirámos montes de fotografias ao Cristiano Ronaldo. Depois, numa carrinha, fomos ver a casa onde nasceu o Cristiano Ronaldo. Como já se fazia tarde voltámos para o Hotel do Cristiano Ronaldo, onde jantámos e tivemos mais uma noite memorável, porque o meu Acácio está em forma e farta-se de meter golos como o Cristiano Ronaldo. De manhã, tivemos de sair à pressa para ir ver o Museu do Cristiano Ronaldo. Estivemos duas horas na fila só para comprar os bilhetes, mas valeu a pena. Está lá a primeira chupeta do Cristiano Ronaldo, o primeiro biberon do Cristiano Ronaldo, a primeira escova de dentes do Cristiano Ronaldo, o primeiro livro da escola do Cristiano Ronaldo, o primeiro boletim de vacinas do Cristiano Ronaldo, o primeiro triciclo do Cristiano Ronaldo, a primeira bola do Cristiano Ronaldo, o primeiro fato da comunhão do Cristiano Ronaldo … fartei-me de ver prateleiras cheias de taças ganhas pelo Cristiano Ronaldo, fotografias do Cristiano Ronaldo e bolas de coiro oferecidas ao Cristiano Ronaldo. Gramei boé de ver o Museu do Cristiano Ronaldo, mas ando estafada e derreada que mal me posso mexer, cheia de nódoas negras, que o meu Acácio ainda se julga na recruta das tropas paraquedistas !!! Tivemos que ir para o Hotel do Cristiano Ronaldo cedo, para fazer as malas e preparar o regresso no dia seguinte. De manhã, apareceu um senhor fardado que trazia na chave de ignição do táxi um porta - chaves com a cara do Cristiano Ronaldo. Já no Aeroporto do Cristiano Ronaldo e como tínhamos tempo para o embarque, o meu Acácio comprou duas camisolas com o Cristiano Ronaldo, uma do Real Madrid e outra da Seleção Nacional …

- Óh filha … mas … mas ... mas então não foram visitar o “Curral das Freiras” ?

- Mas qual curral e quais freiras Dona Eugénia … olhe … freiras não visitámos nenhuma e currais muito menos, que a cidade é muito asseada - diz o Acácio de faces rosadas, olheiras fundas e a barba por fazer, a palitar os dentes e ainda a arrotar à poncha, ao bolo do caco e ao arroz de tamboril do lauto jantar da noite anterior no hotel de muitas estrelas do planetário Cristiano Ronaldo.
Quito Pereira