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segunda-feira, 1 de maio de 2023

ENCONTRO COM A ARTE -POESIA E FOTO DE COIMBRA CANTIGA DE MAIO- POEMA DE JORGE FERNANDO MONTEIRO

"Cantiga para o Maio" 
Nas minhas mãos
um rio de saudade
neste Outono da vida em que me encontro.
Viajam águas, sombras inquietas,
nesta margem escondida
do meu corpo.
.
Agora o olhar
não brilha como outrora
temem as mãos
viagens que fizeram.
Renascem trovas
de mocidade inquieta
a libertar o mundo de prisões
Só as palavras livres permanecem
na utopia que não feneceu. 
.
Um andarilho
nunca esmorece
mesmo sabendo
que o sonho morreu...
.
Jorge Fernando F. Monteiro
10 de Novembro de 2022
 

terça-feira, 8 de março de 2022

ENCONTRO COM A ARTE -POESIA DIA INTERNACIONAL DA MULHER - Por Renato Ávila

UMA FEMININA LÁGRIMA


Coração no cérebro, 

Alma no olhar, 

 Ternura no sentir,

Coragem em cada célula!

Vejo-as partir com crianças 

Pela mão, 

Ao colo,

No sacrossanto santuário do ventre.

Marcha mitigada,

Ao compasso dos pés arrastados

Dos mais velhos, 

Ei-las,

Corajosas,

Impolutas, 

Heroicas.

De vez em quando

Baixam o gorro

Para deixarem escapar

Uma teimosa,

Uma furtiva lágrima!


Para trás, 

A guerra,

 Medonha,

 Apocalíptica

E as chamas

E a morte!

Vão à procura

Da paz.

 Do amor.

 

As noites continuarão longas, 

As bombas  rebentarão no silêncio

Dos corações.

As crianças brincarão  com as migalhas 

Da saudade.

E os partos nas trevas das catacumbas

Terão aqui  a bênção do nosso sol e do nosso amor.

E de sorriso aberto e coração lá longe

As lágrimas, de furtivas,

Trarão em torrente

Uma prece

 E a  bendita  esperança da paz!


Dia Internacional da Mulher

08 de Março de 2022


quinta-feira, 16 de julho de 2020

ENCONTRO COM A ARTE- POESIA



Naquela aldeia quase despovoada
Confinamento de idosos sem seus filhos
A Ti Pepa ia, em saudades levada,
Como em carroça pelos antigos trilhos

Olhando a rua, onde mais ninguém passa
Viaja até ao tempo da mocidade,
Sentada, queda ali, atrás da vidraça...
Reza o seu rosário de vida e saudade 

Vê o largo cheiinho de agitação
Moços garbosos, aprontando com alarde,
O mastro e as  fogueiras de  S. João
Que, cada qual, com seu par,  saltará mais tarde

Lembra-se do seu vestido de tafetá
De peitilho bordado com favos de mel
Todo às risquinhas brancas e de rosa chá
Com que atraiu o olhar do seu Manuel

Sorri!, na memória vê tempos de antanho
A concertina e o crepitar da fogueira
Aquele pinheiro, de enorme tamanho,
E ela, de mão dada, pinchando ligeira  

Quem diz que é triste a lembrança e saudade?!
Não sabe como é bom guardar na memória
Horas lindas de tempos de outra idade
Que fizeram os dias da nossa história.

Georgina Ferro


segunda-feira, 18 de maio de 2020

ENCONTRO COM A ARTE- POESIA

Aqui, no aconchego do meu cantinho...

Como deve estar linda a serra
Coberta de estevas de neve
Para me lembrar a minha terra
E eu, sem poder vê-la assim...
A urze florescerá em breve
Já é tempo  da rosa albardeira
Malmequeres,  cóleos, alecrim
Do rosmaninho que tão bem cheira...
Mas..., a pandemia não tem fim

As papoilas tingem as searas   
Que prometem dar pão das espigas 
As chuvas são cada vez mais raras   
Pulula o afã nas herdades 
Não de rapazes e raparigas 
Alegrando  o ar com seu cantar
Nem do velho toque das Trindades
A avisar do regresso ao lar
Cansaço que nos deixou saudades
Ai..., pandemia que faz pensar!...

Lá fora canta a chuva forte
Hoje nem o sol vem espreitar
O candeeiro é minha sorte
Não deixa que o escuro do dia
Aprisione o meu sonhar
Na gaiola de melancolia,
Traz musas e gnomos até mim,
Projecta baile de sombras negras
Que invento em lindo jardim
Ouvem-se pios de toutinegras,
Os rouxinóis  soltam melodias
Enquanto vou teclando assim!
Talvez adormeça a pandemia...

Georgina E. C. Ferro

sábado, 9 de maio de 2020

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA



A Rosa chegara da eira bem cedinho
Pois vieram os saltimbancos à aldeia 
Embora não gostasse de ver a capeia
Não faltava ao circo ou a um bailinho

Foi encher o cântaro num afogadilho 
Varreu a casa, preparou a chaminé
Puxou  o lume sob a panela tripé
Que mantivera com os carolos do milho

Deitou água na bacia do lavatório
Endireitou bem o espelho para ela
Abriu o sorriso ao ver a imagem dela
Ter cara alegre era mesmo obrigatório

Destrançou o seu cabelo cor de carvão
Encharcou o pente de osso na bacia
E alisou com ele o melhor que podia
As madeixas que ia amparando na mão

Depois traçou o risco muito direitinho
Dividindo metade para cada lado
Que deixou primorosamente entrançado
Com um ágil e habilidoso  jeitinho

E, como qualquer moça ainda solteira
Formou um arco com as tranças, no ciminho,
Que fixou com duas ganchas e um ganchinho
Fez as ondas, à frente,  à sua maneira

Enfeitou-as com duas travessas castanhas
Com pedrinhas, tais diamantes a brilhar,
Ainda,  se foi a mirar e remirar
Mas fazia umas caretas tão estranhas!

Enfiou o vestido novo aos godés
Tinha um tom amarelo, muito clarinho,
Apertou-lhe o fecho lá atrás com jeitinho
E calçou os tamanquinhos novos nos pés

Agarrou o lenço que estava guardado
Passou-o sobre os ombros com galhardia
Lia-se -lhe no rosto tamanha alegria
Sabia que ia conquistar narmorado

 De Georgina Ferro

sábado, 25 de abril de 2020

ABRIL-POESIA



ESTAR EM ABRIL É ASSIM


 Estar em Abril é assim
Uma vontade de ser
De criar e de crescer
Num tempo que é de outro modo
O tempo de criar pão
E saber ser mundo todo
Sempre ao alcance da mão

Estar em Abril é assim
Um olhar de frente a vida
Por mais que alguém o desdiga
E um desdenhar da sorte
Quando se dá a passada
Nalguma dura jornada
Em que a vida perde o norte

Estar em Abril acontece
Quando dentro de alguém cresce
Um grito cru de esperança
E na espuma do medo
Num velho muro se escreve
Um poema – um cravo breve
Verde e rubro de mudança

Estar em Abril é bandeira
Que se hasteia numa praça
Quando vem lá outro alguém
Que é alguém de outra maneira
E na orla da desgraça
Canta contigo também
Canções no vento que passa

Estar em Abril é assim
Sentir-te perto de mim
Quando a mágoa nos afasta.

terça-feira, 24 de março de 2020

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

A CRISE DO COVID 19 E O POETA ALENTEJANO

Nã venham pó Alentejo

Tô escrevendo aqui no monti
Um poema pós de fora
Viver aqui na presta
Vã-se mas é daqui embora.

As notis aqui sã frias
Nã aguentas nem que te mates
3 mantas Nã te chegam
Até arreganha a pele dos tomates

Os dias aqui sã tã quentes
As vezes até falta o ari
50 graus n’ amarleja
Nem na rua podemos andari.

Na temos aventoinhas
Com o calor nã se pode.
Os velhos usam samarra
E as velhas têm bigode

Querem vir pá cá morari
Nem sabem a bicheza que há aqui
Gato bravo e Saca-rabos
Raposas e javali.

As 5 da manhã tamos-se álevantar
Pa monde ir ver do gado
Nem imaginam o que é Andar
com um pé todo cagado.

Na temos carro de praça
Nem sequer internet
Uns andam aqui a pé
Os outros na biciclete.

Nã temos praia perto,
e só se bebe aqui bagaço
Os sapos aqui sã tã grandes
Espetam com cada cagaço…

As casas nã têm luz
E lume é no chão
O gerador só faz barulho
Pá gente ver a tlevisão

Já dizia a outra porca
É nos montis ca gente móra.
Como já viram, isto na presta
Vã-se mas é daqui embora.

Se antes era deserto
Agora continua a ser
Nem os queremos aqui tã perto
Nem os queremos aqui a viver.

Podem vir visitar
Mas venham noutra altura
Deixem se aí ficar
Enquanto está merda dura.

De Um Alentejano que quer ajudar.
Helder Telo

sábado, 21 de março de 2020

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

SETE MARES
 Dia Mundial da Poesia


Um dia de Corona

já eu estou que nem me tenho
sem poder sair do ninho
com a parceira me avenho
de longe aceno ao vizinho
                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
corta aqui – fura acolá
em arranjos sem ter fim
p’ra que serve, digam lá
ter um tão lindo jardim?

na calçada queimo ervinhas
libertando olor profundo…
– estou a falar das daninhas,
ó almas do outro mundo!

lá dou de comer ao melro
ao rabirruivo, ao pardal…
tenho lenha, se não erro
p’ra cortar ‘té ao Natal

se tivesse cão iria
para a praia passear
mas como tenho a Maria
em casa devo ficar

bem chateia um tanto estar
no nem ata nem desata
vou tentar deambular
pondo uma trela na gata

pelo feicebuque passeio
traseiro bem instalado
apuro cenas pelo meio
e fico mais ilustrado

ilustrado nem é bem
pois lá passeiam vaidades
gostamos do que convém
e o resto nem são verdades…

mas sempre lanço uns bitaites
como se filosofasse
depois visito alguns «saites»
e espero que o tempo passe

para tratar do traseiro
temos cá muito papel
não faço da merda tinta
nem dos dedos um pincel

vejo filmes, leio livros
e sou feliz de algum modo
e se me faltam convívios
vou-me às árvores… e ali podo

depois uma especiaria
à refeição apurada
eu e a minha Maria,
a gata… não falta nada

vejo então televisão
– Corona de ponta a ponta
e Marcelo até mais não,
mas o António é que conta

e em vez de dar um grito
vem-me o Aleixo à memória
neste momento aflito
que confunde até a História:

ó vós que do alto império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério…

POR JORGE CASTRO

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

ENCONTRO COM A ARTE- POESIA

não ter nada para comer,
nem água para beber.
Não ter nada para vestir,
não ter botas para calçar,
nem um batom para sorrir…
E que diferença é que faz?
morrer à sede e à fome,
de desinteresse ou inanição,
morrer porque não se come,
Mas que diferença é que faz?
Mas que diferença é que faz?
não ter ido nunca à escola,
ou ir só de vez em quando,
a igualdade é para tudo,
até mesmo para o engano.
Aprender? mas que diferença é que faz?
O saber não ocupa lugar, mas a barraca é pequena
“cada um dos nossos já trás o que sabe”.
Não, não, obrigado,
não queremos ninguém a andar direito.
E para sofrer a preceito,
com competência e respeito,
já chega andar poi aí,
levar pancada do desconhecido,
ou do vizinho mais fodido,
e até em casa, do pai que se queria querido.
Mas que diferença? que diferença é que faz?
não saber lavar os dentes,
ou usar pentes,
lavar os tomates com a água das poças
viver perdido no chão,
esquecido, no inverno e no verão.
sem amor, na solidão,
como um cão?
não, como um cão, não,
não conhece tais tristezas,
tem muito mais defesas,
lida melhor com incertezas,
é indiferente a surpresas.
E digam lá, que diferença faz? meu Deus…
mas que diferença é que faz um coração,
um fígado, um rim ou um pulmão?
O órgão inocente à merçê de um ladrão,
tirado e roubado,
para ser devolvido
a quem tiver dinheiro
para a eles ter direito.
A missão é salvar vidas,
tudo o resto é desperdício,
que nem sempre estão vivas
as crianças que se deitam no lixo.
E já agora, que tem de diferente
para um morto de abandono
a escuridão proletária de um vasilhame,
e a indiferença inconveniente de um contentor?
E que diferença é que faz?
Ser abusado nas malhas
do erotismo do sol nascente,
ser violado na Índia,
ou raptado na China,
ou fuzilado em África,
ou caçado como um animal,
nas florestas das terras de França,
onde ricos senhores
tão pobres de espírito
que nem serviriam para caça,
se divertem no seu desporto
que trocam pelos restos do seu dinheiro.
ou trabalhar nas minas e nas lixeiras
de todo o mundo,
Que diferença é que faz?
de mar a mar
de continente a continente,
até que o sangue fique azul
como o dos príncipes e princesas,
de que nunca sequer se ouviu falar, é certo,
mas será assim tão diferente?
Mas digam lá, que diferença é que faz?
ser encarcerado na américa
separado da família
em jaulas comuns
à espera das decisões dos justos hipócritas
ou apenas de que nada aconteça.
Ser criança de g3,
colocado em vigília
ou de colete fechado
à espera da sua vez,
para honrar sua família,
nas guerras dos orientes
onde todos serão crentes,
matando, impuros, os inocentes.
Ou que diferença é que faz
ser comido por um pássaro faminto
enquanto se procura um grão de arroz
na mais estéril aridez,
às portas do deserto
enquanto se ouvem, já tardias,
as pás de um Helicóptero
a batucar um hino de Vivaldi,
ou a balbuciar repetidamente
“o que é o amor?”
O que é o amor?
O que é o amor?
Mas que diferença é que isso faz?

A ONU cumpre a preceito
o mais profundo respeito,
por todo e qualquer direito,
cada qual tem o seu jeito
e o tratado é um grande feito.
E todos os países incham e enobrecem
e assinam e reconhecem,
que todas as crianças merecem
e ainda que nelas, já moribundas, tropecem,
depressa, depressa e muitas, muitas vezes se esquecem.

Fernando Franco

sexta-feira, 21 de junho de 2019

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

          O Sorriso na Poesia

Entrou um dia o sorriso na Poesia
E penetrou-a com trejeitos de risada,
Pior que a mosca, quando, dia a dia,
Em qualquer porcaria pousa deleitada.

As temáticas da poesia são enormes,
Tão profundos os assuntos recorrentes,
Por vezes tão horrendos e disformes,
E incompatíveis com humores mais sorridentes...

Que o sorriso desflorando a poesia
E ao fazê-lo de um modo consentido
Conseguiu alegrá-la dia a dia..

E o sorriso não deu o tempo por perdido
Porque deixou, onde só desgraça havia,
Um sorrisinho sorridente e bem nascido....

PO(RT)EMAS  APENAS
EDUARDO MARTINS Carcavelos-Cascais

quinta-feira, 25 de abril de 2019

ENCONTRO COM A ARTE- POESIA

 A COR DE ABRIL


ninguém tem nas mãos Abril
mas Abril sempre acontece
quando uma esperança renasce                                       algum sonho apetece                                                                       

se um cravo rubro floresce
na ponta de uma espingarda
se a cor da mágoa se esquece
e o arco-iris nos  guarda                                                                                                                         

mas não sei dizer a cor
que tem a nossa vontade
terá talvez tons de anil
ser um madrigal de Abril
a madrugar na cidade
ou serem as vozes mil
que dão cor à liberdade

uma vontade a crescer
no peito que se deslassa                                                    crescendo em nós sem se ver
mas vermos que nos abraça

pressentindo em modo vário
que ao sermos um povo unido
nos fica o medo vencido
e nós um mar solidário



                                                                                                                                   

terça-feira, 26 de março de 2019

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

Desejo-te TEMPO*

Não te desejo um presente qualquer,
Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.

Desejo-te tempo, para te divertires e para sorrir;
Desejo-te tempo para que os obstáculos sejam sempre superados
E muitos sucessos comemorados.

Desejo-te tempo, para planear e realizar,
Não só para ti, mas também para os outros.

Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,
Desejo-te tempo para te encontrares,
Desejo-te tempo, não só para passar ou vê-lo no relógio,
Desejo-te tempo, para que fiques;
Tempo para te encantares e tempo para confiares em alguém.
Desejo-te tempo para tocares as estrelas,
E tempo para crescer e amadurecer.
Desejo-te tempo para aprender e acertar,
Tempo para recomeçar, se fracassares...

Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar.

Desejo-te tempo, para ter novas esperanças e para amar.

Não faz mais sentido protelar.
Desejo-te tempo para ser feliz.
Para viver cada dia, cada hora como um presente.

Desejo-te tempo, tempo para a vida.

Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!


José Régio

Enviado/sugerido porJosé Afonso Costa

domingo, 3 de março de 2019

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA


 Extraordinário soneto do século XVII...
  
Soneto, obra-prima do trocadilho, escrito no século XVII por Frei António das Chagas (António Fonseca Soares).

CONTA E TEMPO

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo...


Sugerido por José Afonso Costa

terça-feira, 27 de novembro de 2018

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA...

...PRAZERES POÉTICOS




O AMANHECER DOS SENTIDOS

Toco-te a tez e clara da tendência
Contornando o relevo dos teus seios
Quando se aveludam as cores do auge da manhã morna.

Libertam-se fragâncias dos teus poros

Numa epopeia crua de tílias alvorecidas
Quando inquieta irrompe a tarde plena dos teus lábios.

Nos teus olhos voam aves livres

Que invadem todo o espaço que é nosso
Planando num brilho itenso tão discreto e cintilante.

E no beijo que uma bruma branda afaga

Sinto-te submersa num sabor que gosto
Como das garras firmes que a paixão crava em nosso peito.

Depois só o marulhar das ondas ascendentes

Só o arfar incandescente dos ventos quentes
E o som alvoraçado de todos os sentidos amanhecidos.



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

                          A JOANA DE VASCONCELOS

Colando palavras umas às outras como se fossem de barro

com peças das mais perfeitas
que são feitas de partir
parto-me a rir se tropeças
sem saber onde cair
com outras feitas às pressas              
sem que me peças sentir
sinto-me envolver por essas
que são peças de servir

porque peças não enjeitas
por maleitas peço meças
ao juntares tão bem as peças
partidas que são de unir
ou sendo talvez promessas
tão unidas às avessas
de promessas por cumprir

por vezes peças que ajeitas
em colheitas de travessas
travessas que sejam essas
tropeçando no sentir
troto brando já sem pressas
tão certo por serem essas
as peças do meu porvir

mas se nos dás nomes às peças
panelas – garfos-funis
que as desfaças não peças
pois as fadas  só por elas
fundem fados âs janelas
duendes e colibris
e eu te direi feliz
por mil e uma aguarelas
das tuas peças tão belas
que tu fizeste e eu não fiz

e  eu não mexo nelas
comigo é que mexem elas
sou eu mesmo quem to diz
             
                                                         3 de Outubro de 2010


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

SEPARADOR ENCONTRO COM A ARTE- POESIA DE ANIVERSÁRIO

Poema de Aniversário

Procurei no dicionário,
Com paciência e cuidado,
O real significado
Da palavra aniversário.
Aquele livro pesado, 
Mestre dos visionários,
"Pai dos burros" batizado,
Pareceu-me sectário,
Ao responder meu chamado.
Deveras decepcionado,
Joguei o meu dicionário
Na estante, empoeirado,
Para pregar, solitário,
O meu significado
Da palavra aniversário.
Diz assim, o verbete lendário,
Ontem, por mim criado:
"Aniversário: Espécie de relicário,
Muitíssimo bem guardado
Nas folhas do meu diário,
Dos versos que eu escrevi,
Com todo amor, e não li,
Durante o ano passado."
Carlos Eduardo Drummond

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA


Dinamização, textos e coordenação de  JORGE CASTRO


AUTORES: VÁRIOS

             POEMAS

    SELECCIONADOS

        DA AUTORIA

        DO NÚCLEO

     INTEGRANTE

              DAS

      NOITES COM

          POEMAS

Ana T. Freitas, Carlos Peres Feio, David José Silva,
Eduardo Martins, Francisco José Lampreia, João Baptista Coelho, Jorge Castro, Luis Perdigão, Maria Francília Pinheiro

hino à infância

o meu menino é d´oiro
é d´oiro o meu menino
hei-de levá-lo ao céu
enquanto for pequenino
cantarolava a mãe enternecidamente
no seu mimar diário de fim de dia
uma estória
vozes sons entoações expressões
diversas
personalizam personagens e animais
fantasiam cenas
a magia
nos olhos d´oiro cintilantes
absortos
presos à mãe
agora a canção
e se o João Pestana não vem
mãe canta mais outra
cantarola a mãe enternecidamente
apesar do cansaço
dorme  meu menino
a Estrela d´Alva
já a procurei e não a vi
se ela não vier de madrugada
outra que eu souber será para ti
momentos únicos harmonia
é o cordão umbilical que se une
-se é que alguma vez se cortou-
a ternura o carinho
de que os sonhos são feitos
a criança adormece e sonha
amanhã outra estória outra canção
o mesmo embalo
o mesmo ninar
sem cansar

Ana T. Freitas

JORGE CASTRO

Nasce no Porto, em 1952, em casa dos seus avós paternos e tendo, como primeiro berço, um cestinho de pão.
Passa a infância em Trás-os-Montes, por terras de Miranda do Douro. A juventude, de regresso ao Porto.Tem vindo a complementar o seu crescimento em Lisboa, mais exactamente em Sassoeiros - Carcavelos, concelho de de Cascais, que o mar faz-lhe falta.
Foi  até ao curso de Direito, nos idos de 70 e pela Universidade de Lisboa, mas não lhe achou graça , pelo que decidiu não o levar a cabo e, logo que pôde, libertar os progenitores do fardo complexo do filho, mantendo com eles apenas a relevância do afecto.
Desenvolveu, durante alguns anos, intensa militância politica, antes e depois de Abril de 1974, em regímen de exclusividade, o que lhe preencheu o espírito de incertezas, condescendências e bastantes anticorpos
Por feliz acaso teve, assim, a oportunidade de viver o Abril em estado de Graça e a plenos pulmões.
Um dia, começou a ensaiar essa nobre arte de juntar palavras, com algum sentido, de si para os outros...e leva actualmente já para cima de quinze obras publicadas, mormente em poesia,
Dele se poderá dizer, então, que tendo começado a andar pelos seus pés com a idade de um ano, ainda não parou
..........................................................
A Mesa Da Sueca

em redor do verdor daquela mesa
onde cartas se debatem sem destino
cada trunfo tem a cor do desatino
cada mão fecha o ciclo da certeza
voam naipes num volteio com leveza
paus espadas ouros copas tal um sino
cujo timbre quase soa como um hino
ecoando pelos cantos da incerteza
e por fim ao somar pontuações
num ensejo de preguiça mais ridente
entre voltas feitas de quatro intenções
ou de olhares cada qual o mais ausente
volta a vida a sorrir nas marcações
cada par se entendendo frente a frente

Jorge Castro



terça-feira, 25 de abril de 2017

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA

Que é feito do Mês de Abril?

Que é feito do mês de Abril
que nos circulou pelas veias?
Que é feito das ruas cheias
quando o sol era um balão
e andava tudo ao contrário
as estátuas vinham ao chão
e o sonho era o nosso horário?

Que é feito do mês do sonho
quando o sonho era concreto
e tinha forma de casas
portas abertas
e pão,
quando o sonho que sonhámos
era um filho colectivo
parido pela multidão!

Foi então
num país
de repente sem fronteira
foi a feira
a desgarrada
foi o espanto dos abraços
na arquitectura sem margem
duma terra a conquistar

Foi um país que acordou
com planícies no olhar
e a concertina a tocar
dentro do peito.
             Que é feito do mês de Abril?
Soldados a quem dissemos:
amigos eh! pá! irmãos
operários que descobriram
um espaço para além das mãos
e as mulheres trabalhadeiras
que rasgaram seus vestidos
para as bandeiras de alegria
com que Abril foi envolvido.
            Que é feito do mês de Abril?

Foi um país impaciente
que de pé se quis em flor
foi o riso das guitarras
cansadas de choro e dor
foi a alegria fabril
foi a força da razão.
             Não esqueças o mês de Abril!
             Não esqueças que és multidão!

José Fanha
           

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ENCONTRO COM A ARTE - POESIA-EDUARDO MARTINS





























"NOITES COM POEMAS"  por temas:

Arquitectura e Poema
(Fevereiro 2011)

Conforto


"Aguaceiros frequentes em todo o território do continente,

vento do quadrante sul, soprando por vezes com rajadas fortes,
acentuado arrefecimento nocturno..."

"A meteorologia diz que é da superfície frontal...

E que as temperaturas estão dentro dos valores normais para a época...
Mas olha que desde que o Sol se p^pos está cá um frio...!

Na minha casa não se sente nada.


Bem, é muito confortável! - É verdade que no inverno, o aquecimento

eléctrico está sempre ligado - detesto o fumo das lareiras entranhado na
roupa!

E no verão não passo sem ligar o ar condicionado!


(Claro que a factura da EDP, upa! upa!


E a dos SMAS também! Gasta-se muita água!!

É para regar o jardim TODOS os dias!
(faça chuva ou faça sol!! Temos rega auromática, mas não conseguimos
pará-la quando chove!!)
E encher a piscina!...bem...,é só um tanquezito, mas no Verão...os
miúdos adoram!!


(até eu dou por mim a molhar p pezinho...)


Mas voltando ao conforto. Adoro ver televisão( papo todas as novelas da

TVI, mas também tenho visto bons filmes da TV Cine! - gravo-os na BOX,
ou lá como é que aquilo se chama, e vejo-os quando calha ) ,deito-me no
sofá com uma manta a tapar-me até ao pescoço!!

Só tiro a mão de fora para fazer Zapping!!!


Para já não falar da cama. com aquele edredão de penas da "Snooker"

que já tem sei lá quantos anos!!

Uma maravilha!!!

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QUEM FOI O FILHO DA MÃE QUE TEVE A IDEIA DE VIR ACAMPAR
COM ESTE TEMPO???

SÁTIRAS E EROTISMO DE VERSOS DESPIDOS

( MAIO 2011)

Soneto Experimental


Neste mundo em que me meto

De desnudada temática,
Não tendo nenhuma prática,
Atiro-me logo a um soneto!

Escrita de Versos Despidos

Em Sátiras e Erotísmos?
Onde estão os moralismos
Em que fomos instruídos?

Versos Despidos, com o frio,

E a neblina matinal!
E o vento que vem do rio!

Eu não lhes desejo mal!

Não os quero fracos, sem pio,
Vistam-se! Ponto final!

domingo, 25 de dezembro de 2016

NATAL - POEMA DE JORGE CASTRO-ORCA

Natal, o tal, sempre que a gente quiser....
e aperfeiçoaremos como melhor nos aprouver.

artesanato da serralharia "O Pinha", de Manuel Machado em Celeiró, Braga


O Natal é uma janela

o Natal é uma janela
que abrimos a quem passa
tão-só para cumprimentar
dando um ar da nossa graça
porque o tempo passa
passa
sem dar tempo de parar

temos musgo
e azevinho
na ombreira da janela
não vá o nosso vizinho
passar também a correr
e nem sequer dar por ela

o Natal tem afinal
esse dom de por um dia
- ou
vamos lá… por um mês –
sentirmos essa alegria
de sermos gente outra vez

de ficarmos à janela
aberta de par em par
lançando à rua um sorriso
e deixando entrar o ar
que nos varra os pesadelos
os medos
as aflições
de que estamos pelos cabelos
sem aprendermos lições

o Natal é esse olhar
que vai além da vidraça
e que nos mostra quem passa
apenas por lá passar

um tempo de ter presente
mesmo quando estamos sós
que quem quer que passe em frente
da janela que abrirmos
de repente descobrirmos
ser gente
tal como nós.

- Jorge Castro
Dezembro de 2016