A Arte Xávega ...
Deixei-me acorrentar pela saudade. Sentado no areal, olho os barcos de proa erguida, que repousam em cima de rolos de eucalipto. Lembro o Balseiro, com a sua avantajada barriga, a comandar as hostes dos guerreiros do mar. Os homens, de calças de flanela arregaçadas pelo joelho e os bois de olhar meigo e paciente, empurravam as embarcações, que rolavam em declive até ao oceano que as acariciava. Depois, os pescadores, todos em conjunto, saltavam para dentro do dorso amarelo da nau, enquanto um camarada de pulsos espessos, segurava em terra, a corda que não permitia ao barco rodopiar. De proa ao céu e os remos em mergulho rápido e ritmado, a luta era agora titânica. Eram três vagas de ondas. Três assaltos, até o barco deslizar num mar mais chão. Na praia, com a mão sobre os olhos, em jeito de pala por causa do sol luminoso, que avassalava os céus de Mira, as varinas, de avental e lenço negro na cabeça, observavam com ansiedade as manobras de partida. Sim, eram três duros assaltos, naquela luta com o mar. E ao terceiro lanço, daquela espécie de roleta da sorte e da vida, o mar entregava-se em brando marulhar. Os remos, qual batuta de maestro, executavam agora uma coreografia em compasso lento mas bem afinado, que impelia o barco para o largo, até a sua silhueta longínqua se esfumar por entre a bruma da maresia.
Era assim. Era sempre assim. Depois, o regresso. A correria dos bois pela praia. A gritaria dos veraneantes a fugir à frente dos animais, na ânsia de ver chegar as redes e o pescado. As bóias, de cor alaranjada, davam aos pescadores a noção exata de onde era a boca da rede e de quando era necessário puxar com mais vigor, para não perderem, de forma inglória, o esforço de tanta labuta. E ele, o peixe, lá vinha a saltar na rede, com o seu dorso cor – de - prata. Aqui e ali, os miúdos, de gatas, apanhavam este ou aquele exemplar, que escapava por entre o emalhado da rede e fugiam do vozeirão do Balseiro, que os perseguia de boné a derramar – se - lhe para os olhos.
Seguia-se o leilão da faina, após a divisão por quadrículas, marcadas na areia. O Balseiro, com a barriga a subir a descer conforme ia licitando os cabazes, era o rei daquela aguarela colorida, de fortes pinceladas de matiz popular. Os homens do mar, muitos deles, voltavam para as pequenas courelas, que cultivavam na ajuda ao magro pecúlio que tinham para sobreviver e preparando-se para novas batalhas com o mar - pão.
E eu aqui estou. Sentado no areal. À minha frente, o mar revolto. No horizonte, um céu escarlate, de fim – de - tarde. Ao meu lado, majestoso de simplicidade, um barco. Dentro do barco, os remos. Dentro de mim, a saudade.
E as memórias …
Quito Pereira
Era assim. Era sempre assim. Depois, o regresso. A correria dos bois pela praia. A gritaria dos veraneantes a fugir à frente dos animais, na ânsia de ver chegar as redes e o pescado. As bóias, de cor alaranjada, davam aos pescadores a noção exata de onde era a boca da rede e de quando era necessário puxar com mais vigor, para não perderem, de forma inglória, o esforço de tanta labuta. E ele, o peixe, lá vinha a saltar na rede, com o seu dorso cor – de - prata. Aqui e ali, os miúdos, de gatas, apanhavam este ou aquele exemplar, que escapava por entre o emalhado da rede e fugiam do vozeirão do Balseiro, que os perseguia de boné a derramar – se - lhe para os olhos.
Seguia-se o leilão da faina, após a divisão por quadrículas, marcadas na areia. O Balseiro, com a barriga a subir a descer conforme ia licitando os cabazes, era o rei daquela aguarela colorida, de fortes pinceladas de matiz popular. Os homens do mar, muitos deles, voltavam para as pequenas courelas, que cultivavam na ajuda ao magro pecúlio que tinham para sobreviver e preparando-se para novas batalhas com o mar - pão.
E eu aqui estou. Sentado no areal. À minha frente, o mar revolto. No horizonte, um céu escarlate, de fim – de - tarde. Ao meu lado, majestoso de simplicidade, um barco. Dentro do barco, os remos. Dentro de mim, a saudade.
E as memórias …
Quito Pereira


