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domingo, 26 de setembro de 2021

AQUELA NOITE EM BOLAMA...Texto de KITO PEREIRA

 


AQUELA NOITE EM BOLAMA …

Foi numa tarde quente que parti. De mala de cartão na mão e uma sacola ao ombro, despedi-me do meu batalhão e da minha companhia militar com quem cheguei a África. Para trás, ficaram amizades forjadas na guerra, segredos contados, cumplicidades repartidas e revelações dos encontros e desencontros dos amores deixados na pátria – mãe, fosse de familiares ou das namoradas que de letra redonda e em papel amarelo fornecido pelo exército, levavam e traziam juras de amor eterno.

O meu destino provisório era Bolama. Em trânsito para uma companhia africana, eu assentava arraiais naquela ilha paradisíaca, de vegetação luxuriante e de perigo reduzido em cenário de guerra. Seria um hiato no sobressalto das armas. De barco lá cheguei. Numa canoa comprida e sem velame, impulsionada por um motor fora de bordo, onde se misturavam alguns militares com uma plateia de africanos de roupas coloridas, sentados em cima de sacos de arroz e que levavam consigo gaiolas de pássaros exóticos, peixe seco que deitava um cheiro nauseabundo, cabritos presos por uma corda e galinhas em capoeiras improvisadas. O excesso de carga fazia o barco quase soçobrar, com a água do rio a ameaçar transbordar e a invadir a embarcação e a arrastar tudo para o fundo. Nada que incomodasse os africanos, habituados a este diálogo marítimo entre a canoa e o Geba.

Bonita era Bolama. Uma viagem num pequeno jipe de patrulha, dava para apreciar aqui e ali belas casas senhoriais de fachada imponente e em avançado estado de degradação. O soldado africano que comigo seguia ao volante, cantarolava canções africanas, descontraído. E eu, habituado às picadas de onde podiam vir todos os perigos, de dedo fixo no gatilho, desconfiava de tanto turismo. A chegada ao quartel depois da missão de que fora incumbido, era sempre o meu descanso.

Naquele quartel coabitavam militares africanos dos vários ramos e especialidades das Forças Armadas. A nossa missão era aprender a conviver ainda mais com a realidade e os costumes indígenas, antes de integramos as companhias para onde seríamos enviados, no meu caso no leste da Guiné. Foram tempos calmos, sob o comando do capitão Repolho de seu nome. Tempos mesmo aprazíveis, até um dia que foi uma noite num botequim da ilha. Uma discussão entre elementos da tropa africana dita normal e um grupo de fuzileiros navais também africanos, descambou numa feroz e perigosa zaragata. Disseram testemunhas, que os fuzileiros que eram vaidosos e se gabavam de ser tropa de elite, chamaram aos outros “tropa – macaca”. Foi o rastilho para uma desordem monumental naquele pedaço de ilha, com as restantes tropas a apartar com dificuldade os grupos desavindos e a encurralar os fuzileiros e a mete-los à força na sua unidade naval. Daquela refrega onde andei meio perdido até de madrugada, sempre sob as ordens do capitão Repolho, lembro-me de ter entrado na enfermaria e ver deitado numa enxerga um gigante negro com perto de dois metros de altura e de soberbo porte físico,  que sobreviveu a trinta e nove ferimentos de arma branca exaradas no relatório médico. Um mar de sangue.

Afinal, a guerra naquela noite tinha - se instalado em Bolama. E o perigo não tinha vindo do exterior, mas de uma guerra intestina entre militares africanos que viviam sob a capa protetora da bandeira portuguesa.

Kito Pereira            

domingo, 26 de julho de 2020

A RUA DO ROSSIO ...





A Rua do Rossio ...

Há um passado que se percorre no presente. Da estrada asfaltada, viramos pela rua empedrada rumo ao coração da aldeia. Chamam - lhe a Rua do Rossio. À direita, subindo a calçada, um desfilar de casas. Casas belas, de traça antiga, que não passam despercebidas ao visitante. Centenas de vezes a percorri. Centenas de vezes me cruzei com gente que me cumprimentava com um sorriso afável e educado. Uma vez a percorri, cabisbaixo, atrás do carro funerário do Manuel Luís que rumou ao Alentejo. Ele, o Senhor Manuel Luís, que apoiado na sua bengala ao calor da lareira do ”Portas da Serra” me contava histórias de pasmar dos tempos da Panasqueira e do volfrâmio. Quero lembrar e não quero lembrar o momento triste de me despedir dele. Mas, do Rossio, também tenho boas memórias. A loja dos correios na esquina da casa da Junta de Freguesia, e a amabilidade da Margarida que ali trabalhava e sempre me atendia com um sorriso. Por vezes, esperava pela minha vez. No dia de receber as reformas, os idosos esperavam ordeiramente a chamada. E a Margarida muito concentrada no contar do dinheiro e da responsabilidade de que no fim tudo desse certo. Lembro a mercearia da Dona Elisa, com as bilhas de gaz à porta e outros artigos para venda. Sentado no banco corrido de pedra em frente da Junta de Freguesia, eu olhava a casa do Professor Rafael Agostinho e recordava as nossas conversas de fim de tarde. Dali, daquele lugar estratégico, eu observava percurso de vidas que se cruzavam. De gente que se conhecia nesse bem supremo de não se ser anónimo numa floresta de prédios, em que cada homem é uma ilha rodeada de gente por todos os lados. O Salgueiro do Campo, também tem o seu Rossio, como a grande capital lisboeta. Mas o Rossio do Salgueiro, quiçá bem mais modesto, tem o que as grandes urbes não terão – a chave da solidariedade fraterna, que só uma aldeia de afetos pode dar.
Quito Pereira            

terça-feira, 5 de maio de 2020

O LODO E AS ESTRELAS - Parte 4

PARTE 1
http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-1.html#comment-form
PARTE II
https://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-2_22.html#comment-
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PARTE III
http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-3_29.html#comment-form




Telmo Ferraz

Naquela comunidade isolada a solidariedade não era palavra vã. O afastamento de tudo, fazia os residentes unirem-se em laços de amizade. Naquele templo de solidão havia uma cidade viva. Trabalhavam as máquinas de dia e de noite. E os “Euclides”, os gigantescos camiões que desciam e subiam as ladeiras ingremes. Naquele cenário grandioso e avassalador, mais pereciam pequenas formigas laboriosas. E enquanto os trabalhos decorriam, a escola dava aulas às crianças. No recreio brincavam, dando um toque de felicidade a uma paisagem agreste. E havia as festas. Eram então contratados conhecidos artistas da época, de que Amália Rodrigues terá sido figura maior. A igreja do padre Telmo trazia o conforto espiritual necessário em terra de crentes. E a piscina com os seus professores de natação a alegria da criançada. Mas, no meio deste carrossel de aventura, havia os outros – os tais – mais aventureiros que vinham à procura do desconhecido e que pagavam no corpo e a angústia da alma o trabalho precário e uma pobreza nos limites. Aqui fica, para terminar, mais dois momentos do livro de Telmo:


ELE E A MANHÃ

Veio antes do sol vir. Abri. Lábios grossos, olhos redondos e um pouco saídos, cabelo desgrenhado. Um manto de gelo nos campos. As árvores amochadas. Filtrado pelos zimbros, o sol começou a despontar. Frio e trémulo o braço estendido.
- Entre.
- Sou plantão duma caserna. Ganho trinta escudos. Tenho mulher e três filhinhos na terra. Não tenho dinheiro para pagar esta receita …
Quando se retirou, fiquei  olhando no lençol de gelo os sinais escuros dos seus passos tímidos.

1O de Janeiro de 1957

MAIS UMA BARRAGEM

O Manuel Nogueira foi para Miranda. Vive na cabana de uma vinha. O António Martins também. Fez uma barraca com quatro paus e umas sacas de papel.
A Companhia fez lá um bairro grande. Encheu-se logo ! Há meses o acampamento começou a levantar. O velho Ford do Laranjeira não tem descanso. Vai e vem. Dentro da cabina, a ninhada: na carroceria, colchões velhos e tábuas afumadas.
O bando vai… eu vou também.
Miranda tem Sé!
Miranda tem castelo !
O bando dominou as ruas!
Os bairros romperam as muralhas !
A fúria do trabalho !
Outra vez o princípio!
Mais uma barragem!

3O de Setembro de 1958

Aqui ficaram mais umas pinceladas do livro de Telmo. A saga das barragens de Portugal. Em nossas casas, no simples gesto de ligar o interruptor da luz, há uma longa história por detrás. Um passado de martírios de centenas de heróis anónimos de um país que é o nosso.
Quito Pereira   
  

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O LODO E AS ESTRELAS - PARTE 3

PARTE 1
http://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-1.html#comment-form
PARTE 2
https://encontrogeracoesbnm.blogspot.com/2020/04/o-lodo-e-as-estrelas-parte-2_22.html#comment-form


Barragem de Bemposta 

Archer de Carvalho, arquiteto, tinha apenas 25 anos quando assumiu a construção das infraestruturas de apoio à construção das barragens. Não foi pacífico aquele invadir do planalto mirandês. Os povos, habituados à pacatez dos dias, não queriam o seu espaço devassado. Diziam ao arquiteto e seus colaboradores “ num queremos acá la barriage”. Em vão, que as casas e infraestruturas nasceram como cogumelos. Casas, farmácia, centro médico, escola, igreja, pavilhão, piscina, tudo foi construído para apoio aos utentes. De realçar uma espécie de supermercado, onde se podia encontrar pequenos comércios de fruta, carne, todo o género de mercearia e até peixe que vinha da cidade do Porto. A escola tinha sempre cinco ou seis professores permanentes. O centro médico, um clínico e um enfermeiro. A piscina tinha professores de natação vindos do Porto.
De novo o prosar sofrido de Telmo:

Quando Chove

Encontrei-o na estrada. Caminhámos juntos. Chama-se Ricardo e é natural de Marco de Canavezes. Falámos do tempo e das coisas.
- Onde vive?
- Lá adiante, num pombal.
-E o trabalho?
- Há quinze dias que não trabalho, por causa da chuva …tenho a mulher filhos a morrer de fome.
- Estão no pombal?
- Não, ficaram na terra. Eu vim e só trabalhei um dia.
- Que tem comido?
- Um companheiro de Moncorvo, que vive lá comigo, tem-me dado uns bocaditos de pão; ele também é pobre. Envergonho-me muito de pedir.
E chorou.
Senti – me tão pequenino, ao lado do mártir Ricardo, que fiz os meus passos mais brandos, para sentir melhor o “ruca – truca” dos seus socos abertos. Chovia. Ele ia numa sopa. Pensei: enquanto chover, este pobre tem que comer a lama dos caminhos, como fel que lhe traz a recordação contínua da mulher e dos filhos.
(24 de Dezembro de 1955)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O LODO E AS ESTRELAS - Parte 1




Barragem de Picote

Folhear “O Lodo e as Estrelas” é ler um livro proscrito. O testemunho de um Tempo. De um tempo passado amassado em sangue, sofrimento e solidão. Talvez por isso em tempos remotos, o livro de Telmo Ferraz morreu à nascença. O relato incómodo daquele passado que na época era presente fez a polícia politica abafar uma realidade negra. Falar em Telmo Ferraz é lembrar um padre que viveu a saga dos barragistas, que por entre fragas e do meio do nada construíram as barragens de Picote, Miranda e Bemposta por esta ordem – barragens do Douro Internacional que produzem hoje vinte cinco por cento da energia nacional. Telmo deu tudo de si. Acarinhou e protegeu filhos da fome. Ofereceu o pouco que tinha em bens materiais, até ao dia em que apenas ficou com a sotaina que lhe escondia o corpo e até das calças se despojou. De fortuna, apenas as estrelas do Firmamento e um coração doce. O livro de Telmo é um livro cru. Talvez de uma beleza literária que se confunde com a inocência de um prosar realista e torturante. Fica o aviso que só lê quem quer. Fica o resguardo que escolherei episódios colhidos ao vento em várias páginas. Fica uma lembrança, uma homenagem e uma memória. Lembrança de mineiros do carvão que demandaram as barragens por mais uns miseráveis escudos por mês. E dos outros. Dos que morreram minados dos pulmões. Também dos que sobreviveram para construir um Portugal melhor. Para que conste.

“ O Zeca vomitou sangue. Um sangue vivo, quase encheu um tacho! Esse tacho de sangue é o meu exórdio. Que todos me perdoem. Riam-se de mim. Mas, pelo amor de Deus e dos nossos pais, peço um olhar de piedade para todos os personagens deste livro. São personagens reais. Temos os mesmos nomes e a mesma vida, no nosso pequeno mundo – uma barragem.”

O Boné Preto

O dia passou. O mês também. Tenho medo dos dias. Tenho medo dos meses. Cada dia uma coisa nova. Hoje, impressionou-me um homem que, retorcendo, ao mesmo tempo, com as mãos compridas, o boné.
Há três semanas que espera …
Porque me impressionou tanto este homem? Por retorcer o boné? Talvez. Os dedos compridos, retesos, atrapalhados, a mastigar o boné como se tivesse entranhas e, dentro, o pão dos filhos.
O boné preto! Os dedos compridos !

Breve, continuarei a folhear este livro para quem me queira acompanhar. Uma Via Sacra de espinhos. Um passado negro português.
Quito Pereira   

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O BAIRRO NORTE ...





Saudade ...

A praia de Mira é um viveiro de memórias, de recordações doces que me fazem navegar pelo passado, como quem rema na Barrinha num barco carregado de moliço. O verão era sempre um amontoado de povo na sua essência, de portugueses e emigrantes que falavam um francês emprestado, com um rancho de filhos atrás que exigiam aos pais a bola ou o balão colorido que o feirante de ocasião apregoava a chamar a atenção dos turistas. Mas, no meio da confusão de gente que procurava sofregamente viver um ano em apenas quinze dias de lazer, havia o Bairro Norte na sua calma espacial. Era um aglomerado de moradias singelas, construídas com o produto da faina do bacalhau. A esmagadora maioria das vivendas pertencia a pescadores que moirejavam pelos mares frios do Canadá. Eram campanhas longas de muitos meses e elas, as mulheres, ficavam em terra a tratar da lavoura e dos filhos, e a responsabilidade de no verão alugar as casas aos forasteiros, sendo os preços acertados entre todas as mulheres, para que não houvesse grande discrepância de valores. E era no Bairro Norte que eu e a minha família lançávamos âncora em tempo de férias. Por várias vezes alugámos a mesma casa. Situava-se na primeira linha de praia. Por um portão de madeira saímos para a areia e, trepando um pequeno morro, repousávamos a vista sobre o oceano. Um mar largo e encapelado, que nos trazia o cheiro intenso da maresia. E nós ali, no cimo da duna, de cabelos ao vento e os filhos pela mão, num pacto de amizade com as ondas e a branca espuma. Lá longe, estático por entre a bruma de fim de tarde, um barco de proa erguida repousava no areal, na espera de uma nova refrega com o mar. E à noite, com a cabeça deitada no travesseiro, ouvir como pano de fundo a voz intemporal do oceano e adormecer em paz no silêncio das estrelas e do Bairro Norte. Por vezes, a nossa senhoria aparecia. Trazia-nos algo que colhia nas suas terras cultivo - um gesto de cortesia. Depois, no pequeno quintal junto à duna, falava da vida e das suas inquietações. Lembrava o marido que batalhava lá longe na epopeia do bacalhau. E, enxugando os olhos húmidos ao avental preto, falava de saudade. E nós a olhar, tentando animá-la com palavras sentidas, quase familiares. Era uma simbiose de afetos. Afinal, de sentimentos partilhados entre quem vivia do mar e de nós, que no Bairro  Norte do nosso contentamento e por duas semanas, aportávamos àquele cais de felicidade.
Quito Pereira    

segunda-feira, 30 de março de 2020

AQUELA TARDE NA FIGUEIRA ...






Figueira eterna ...

Foi num tempo já remoto. Um tempo em que o futebol tinha outro encanto. Sem matilhas organizadas de claques e dirigentes a insultarem –se em jornais ou em estações de televisão. Um tempo em que o desporto – rei não se jogava com os adeptos em casa sentados no sofá, pagando uma avença choruda para insultarem o árbitro no recato do lar, a mastigar  tremoços e com um copo de cerveja na mão. Naquela época, o futebol era ao domingo à tarde. E, naquela tarde, a Académica de Coimbra visitava a Naval da Figueira da Foz para um medir de forças escaldante. Forte era a rivalidade entre os dois emblemas. Os da Figueira, por uma questão de bairrismo, não admitiam vassalagem à cidade universitária. Os de Coimbra, sarcasticamente, chamavam à Figueira  da Foz a Coimbra B. Postas as coisas neste pé, logo se adivinhava que era no relvado a correr atrás de uma bola que se ajustavam contas. Então, numa tarde primaveril e com o estádio a rebentar pelas costuras, o jogo começou. De Coimbra, grande era avalancha de gente na esperança de uma vitória gorda. Como se previa, a coexistência nas bancadas entre figueirenses e conimbricenses não foi pacífica. Lembro aquele individuo de faces rosadas, camisa transpirada e sapatos de camurça verdes nos pés, que irritado mandava os de Coimbra para a terra deles. Os de Coimbra agitavam bandeiras, até ao momento que os da Lusa – Atenas marcaram um golo e entornou - se o caldo que já estava azedado. E foi com aquele golo raquítico que selou uma vitória, que a Académica regressou a Coimbra. Porém, a terceira parte da partida jogou-se fora do estádio, com escaramuças e correrias entre gente jovem de ambas as cores. Na retina, fica - me o adepto de Coimbra que se travou de razões com um figueirense que estava num terceiro andar de um prédio à varanda. A discussão subiu de tom e o adepto navalista, de cabeça perdida, dizia cá para a rua ao ferrenho seguidor da Briosa:

- Não te vás já embora, grande cavalgadura, espera por mim que eu vou aí abaixo dar- te um tiro …

Tinha aquele futebol de outras eras outro sabor e outro encanto, atrevo-me a dizer um sopro de romantismo?. Claro que tinha …
QP 

segunda-feira, 23 de março de 2020

UMA RECORDAÇÃO ...





Era  o 55 da Picheleira . Saudade ...

O inimigo global fechou-nos em casa. Vamos olhando para as cadeias de televisão incrédulos com as notícias que vêm de longe e do nosso país. Por vezes é preciso tentar sacudir a pressão, navegando por outras realidades ou memórias. E hoje, olhando absorto pela parafernália de informação, de ditos jocosos ou de fotografias nas redes sociais, dei comigo a olhar uma estampa a preto e branco de uma equipa de futebol do ano longínquo de 1925. Nada de especial, não fosse o Atlético Clube da Picheleira se confundir com as minhas recordações de menino. Era e é ali, naquela zona de Lisboa, que o Atlético da Picheleira agora chamado Vitória de Lisboa tem o seu campo de futebol. Naquela época dos anos setenta do passado século, o recinto era de terra batida. Naquela zona eu tinha família. A Picheleira é um rincão da capital de ruas estreitas com roupa colorida a secar nos estendais das janelas, de leitarias que naquele tempo vendiam leite a granel e tabernas onde se ouvia a religião do fado na voz rouca de Alfredo Marceneiro. Então, ao domingo, as gentes corriam a ver o seu Vitória de Lisboa. Eram sempre partidas renhidas, num louvor ao futebol amador. Também um hino aos que assistiam aos jogos de uma forma civilizada, independentemente da simpatia clubística de cada um. Na chamada barraca de chá servia-se cerveja, copos de vinho e sandes de chouriço para fazer apetite para o almoço, que os jogos eram sempre de manhã. E eu lá ia pela mão do meu tio Fernando, que ostentava na lapela do casaco com orgulho o emblema das águias de Benfica. Lembro-me dele, curvado sobre os ombros como se trouxesse o mundo às costas. Um sorriso doce moldava-lhe o rosto e a bondade era a sua imagem de marca. Era um homem cordial e educado, que desenhava prodigiosamente. Tenho saudade da sua ausência. Naquela fotografia do Atlético da Picheleira que olhei demoradamente, estava um filme da minha tenra idade e por minutos abstraí-me da nossa preocupação coletiva. De novo o Atlético da Picheleira agora travestido de Vitória de Lisboa a embalar o meu berço de menino.
QP        

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

OLHAI, SENHORES ...



O velho "Max" dos anos 60 do século passado ...

Era uma rua quase anónima na malha urbana de Lisboa. Uma rua escura e sem vasos com flores viçosas nas janelas. De realçar, apenas uma velha loja com caixotes à porta, onde se exibiam melancias e melões. E, espetados numa cana em velhos pedaços de cartão e a tinta negra, o preço por quilo dos frutos apetecidos. Lá dentro e arrumados com pouco critério, os bens essências para a alimentação e produtos de limpeza. No balcão, também um frasco transparente contendo rebuçados coloridos – a alegria da criançada.  Também um pequeno pipo com uma torneira de madeira que abria a compasso. Nos fins de tarde e depois da labuta do dia, os homens juntavam-se ali para beber um copo de vinho que ajudava a uns momentos de conversa sobre as contrariedades da vida. Depois regressavam a casa e, pelas portas estreitas, subiam as escadas escuras de madeira porque não havia elevador, com uma lanterna que debitava uma luz ténue e uma mão no corrimão de ferro ferrugento e delgado, que feria os dedos nas suas arestas afiadas. Ao fundo da rua, havia um parque com uma palmeira ao cento e quatro bancos verdes nos cantos que convidava os reformados ao lazer. Eram porém os miúdos quem ali jogava com uma bola de trapos e ao pião. Depois, a rua inclinava levemente para mostrar um bairro com um nome arrepiante – Curraleira. Um tumor social, uma das muitas chagas da cidade. Era chapa de zinco contra chapa de zinco, casas de madeira de tábuas velhas e nas ruas estreitas bidons de lata com água para uso da população. A Curraleira tinha a fama e o proveito do tráfico de drogas leves e duras. Por vezes, a polícia aparecia em força e era o alvoroço. Correrias pelos becos de terra batida, gritaria das mulheres que, com pequenos filhos ao colo com o ranho a cair do nariz, invectivavam os guardas que invariavelmente encontravam heroína e levavam dois ou três residentes para a esquadra. Ali, perto do outro extremo da rua escura e numa esquina, havia o cinema “Max” das sessões contínuas. Á noite, a assistência masculina ocupava as cadeiras num tumulto, para ver filmes de heróis e vilões. De pistolas a cuspir fogo e os justiceiros a dizimar os bandidos, de resto como a assistência exigia. Então, aparecia sempre a mulher – fatal, de vestido vermelho colado ao corpo e meia negra na perna bem moldada em movimentos aparentemente inocentes. Naquele cenário, uma cadeira onde ela com cara de anjo pousava suavemente a perna para mostrar a liga que envolvia a coxa roliça e branca. E eles, a turma de mirones, espremidos contra as costas das cadeiras e soterrados de desejo, a abençoar o preço módico que tinham dado pelo bilhete. Ninguém diria que aquele rincão da capital era ali a dois passos da Fonte Luminosa, do Instituto Superior Técnico e do Cinema “Império”, que nas tardes de domingo enchia a sala. O gong tocava para o início da sessão. As luzes do teto esmoreciam e, invariavelmente, aparecia este ou aquele cinéfilo mais atrasado que era levado ao lugar pelo empregado do cinema que indicava o lugar com uma pilha e, com a sua farda cinzenta com as golas do casaco debruadas a vermelho, punham a mão em concha na esperança da gorjeta que ajudasse a compor o orçamento familiar. Outros, menos abonados e sem dinheiro para espetáculos, corriam para o campo pelado da Picheleira, onde o futebol amador tinha o seu esplendor no Vitória de Lisboa de vermelho vestido, a correr atrás de uma bola para gozo da gente simples. O Vitória jogava sempre de manhã e tinha a sua legião de seguidores. Por essa altura, já a menina das tranças louras e laçarotes no cabelo, tinha ido à leitaria com a incumbência de transmitir à senhora de bata branca que queria o leite bem medido para o recipiente que a criança tinha levado de casa. Na primavera, com o colorido das roupas a drapejar ao vento e a secar nos estendais das janelas, ouvia-se nas ruas em alto registo, um qualquer fado lisboeta na voz rouca e castiça de Alfredo Marceneiro ou da exuberante Hermínia Silva. Era a forma talismã dos pequenos estabelecimentos de cafetaria chamarem a atenção da clientela e das tertúlias daquele feudo da capital. Em cima das mesas toscas de tampo em fórmica e ao dispor do cliente, era o “Diário de Lisboa” rei na informação e das notícias filtradas conforme os interesses do governo vigente na época, que era lido avidamente no calor de uma bica a escaldar. Eram as manhãs de cetim, no dizer da poetisa. Tempos que o Tempo levou …

“ Olhai senhores, esta Lisboa de outras eras”
( do fado Lisboa antiga )
(José Galhardo/ José dos Santos)
QP     

terça-feira, 28 de maio de 2019

O DOM JOÃO DE CASTRO ...







Se esta fonte da Sereia falasse ...

Não, não é a essa figura histórica que me estou a referir. Recordo apenas aquele Colégio lá pelos anos setenta e oitenta do século passado que, como alguns outros, fazia parte do ensino particular em Coimbra. Ali, na Rua de Tomar e em frente aos muros da Penitenciária, o Dom João de Castro era um edifício de dois andares com um grande portão de ferro na entrada, que lhe dava um aspeto respeitável e atraente. Atraentes, porém, não eram alguns dos seus alunos e um leque de professores bizarros e pacientes. Hoje, olhando à distância aquela simbiose entre docentes e discentes, daria para mergulhar num trabalho científico daquilo que se entendia que fosse um local de ensino que o Dom João de Castro era, mas não só. Começando por analisar as salas de aula, tal como o corpo humano se divide em cabeça tronco e membros, as ditas salas também se dividiam em três partes: nas duas primeiras filas junto à secretária do professor, estavam os alunos com toda a atenção às matérias. Nas três filas seguintes, os discípulos que davam uma relativa atenção às disciplinas, mas que discutiam acaloradamente entre si quem eram as alunas mais fisicamente atraentes do Colégio Alexandre Herculano, mesmo ali ao lado. As quatro últimas filas de carteiras eram uma espécie de clube recreativo, onde se comiam pevides e tremoços, se liam jornais desportivos e revistas com inconfessáveis matérias que tinham pouco a ver com manuais de etiqueta. E era ali, precisamente na cauda do pelotão, que se encontravam os alunos de uma incultura apocalíptica, capazes de afirmar convictamente que a Revolução Francesa foi uma batalha muito sangrenta, que o Infante Dom Henrique mandou fundar o Pinhal de Leiria e,  sem pestanejar, que o rio Douro desagua em Barcelos. No clube recreativo e falando dos professores, quem reunia o consenso geral era a professora de História Universal. Não pelos seus conhecimentos académicos ou a forma de explicar a matéria, mas porque era nova, tristemente viúva e tinha uma cara de anjo de fazer derreter os pardalões que, de olhos cerrados, se afundavam nos pensamentos mais obscuros. O mais temido era o professor de Física - Quimica. O homem tinha mau génio, talvez frustrado por não lecionar na Universidade de Coimbra, porque não morria de amores pelo Doutor Oliveira Salazar e da Faculdade foi chutado por não lhe admitirem liberdade de pensamento. Viu-se então compulsivamente a dar aulas no ensino particular e a aturar uma franja de alunos de comportamento patológico. Por vezes, o dito docente descia também ao nível da Idade das Cavernas e, de vara na mão em jeito de cacete, corria o Jardim da Sereia de mão pesada, a tentar zurzir umas cacetadas nos alunos faltosos, mais interessados em aulas de anatomia comparada com as namoradas nos bancos do jardim, do que a discutir as Leis de Newton. Desse grupo excursionista de alunos que invadia as galerias das salas de aula, dois davam mais nas vistas. O Toni, rei da noite de Coimbra e da pancadaria, que se gabava de numa zaragata na Queima das Fitas ter conseguido subtrair a um polícia o cassetete, que tinha como troféu no quarto de sua casa, no meio de penicos de esmalte, sinais de trânsito roubados nas madrugadas coimbrãs e páginas de revistas de mulheres nuas coladas nas paredes com fita adesiva. O outro era o Zé Homem. Filho tardio, o Zé tinha um problema insolúvel – claustrofobia. Por isso, não aguentava uma hora sentado numa sala de aula e era um faltoso compulsivo. O pai, já reformado e alertado para o problema, fazia sentinela junto à porta do Colégio de mãos atrás das costas, gabardina cinzenta até aos pés e chapéu preto de aba larga na cabeça, a fazer inveja a qualquer inspetor a Gespato. A intenção era que o filho não se ausentasse do Colégio. O que ele porém não sabia era daquele pequeno – grande pormenor de que o Estabelecimento tinha nas traseiras uns arbustos por onde se podia furar e ter acesso à Rua Alexandre Herculano. E assim, enquanto o progenitor vigilante guardava a ferro e fogo a porta do Colégio, o Zé Homem, todo transpirado, jogava renhidas partidas de ping - pong na Associação Cristã da Mocidade, ao fundo da dita Rua Alexandre Herculano. Manda a verdade afirmar aqui que a Direção do Colégio e numa tentativa desesperada de catequisar os desavindos, entendeu introduzir a disciplina de Religião e Moral no menu das cadeiras lecionadas e para isso contratou um padre. O pároco, grande e coxo, apoiava – se numa bengala e, para cativar a simpatia dos matulões, teve a ideia peregrina de começar as aulas falando de sexo de uma forma elevada e civilizada. Foi imprudente, abriu uma tal Caixa de Pandora de tantas perguntas obscenas e impertinentes que lhe foram dirigidas, que à segunda aula rendeu – se e pediu a demissão no que foi prontamente atendido. Consta que foi embora a benzer-se e prescindiu dos honorários das duas aulas frustradas e aceitando as desculpas do padre Bento, heroico diretor do colégio naquela sua missão espinhosa e de penitência. O Colégio viveu, sobreviveu e um dia morreu, para dar lugar a uma loja de móveis. Mais tarde, na rota da vida, dali saíram generais angolanos, médicos, advogados, engenheiros e gente das mais variadas profissões. Só não consta que alguém tenha seguido a vida eclesiástica.
QP     

terça-feira, 9 de abril de 2019

AQUELE ALENTEJO ...





Estremoz ...

Ainda hoje não consigo entender muito bem se andei no exército ou se penei na tropa. Exército tem outro estatuto, a lembrar fardas de cerimónia e bonés com adereços dourados e espadas de Cavalaria. Um dia vesti de cerimónia, com um casaco e um boné todo catita que nada tinha a ver com aquela boina castanha que parecia um disco voador. Mas fiquei mal na fotografia tipo postal para o meu bilhete de identidade militar. Também não era de admirar, que o casaco era sempre o mesmo para todos vinte ou trinta mancebos que estavam atrás de mim na fila. Fosse gordo ou magro, o casaco tinha que servir para a função, ficasse tipo bóia de praia para os mais magros ou colete de forças a rebentar pelas costuras para os mais gordos. Foi apenas nesse breve instante da fotografia que tive um estatuto dourado. De resto, manda a minha honestidade dizer que andei na tropa. Não frequentei messes com senhoras da sociedade a abanar leques coloridos e a ouvir um qualquer capitão a tocar num piano desafinado. Muito menos de beija - mão como manda a regra da etiqueta. Andei por bares, tabernas  e casas de pasto, onde se comia e bebia mais barato. Sem punhos de renda ou outras mordomias.  As toalhas de mesa eram de plástico, com quadrados azuis escuros e outros mais claros, que davam ao local uma identidade sem equívocos – tasca. Mas o vinho era bom e a Dona Alice de Estremoz, que tinha uma taberna lá num cantinho escuro, fazia um ensopado de borrego de fazer sorrir um morto. E eu, repimpado num banco de madeira mais o Roxo que era estremocense de nascimento e sargento de carreira, a mastigar aquele manjar. Vinha mais borrego e mais vinho. E pão com côdea a estalar de quente. Depois girávamos à vida, até porque nenhum de nós dormia no quartel. Eu, a cantarolar um fadinho de Coimbra, ia para o meu quarto alugado mais leve. Já ele tinha tarefa mais pesada, que era explicar à mulher porque tinha chegado a casa àquela hora a cheirar a mosto e uma barriga de tambor que não iludia a jantarada. Mas nada que nos arredasse de na alvorada seguinte nos perfilarmos de continência ao hastear da Bandeira Nacional. Mas primeiro estive em Beja. Foi um degredo. Muito calor e comia no quartel. Manda a verdade dizer que as refeições nem eram más. Mas faltava aquele compromisso de rua com outros camaradas de armas, à procura de um abrigo à sombra onde conversar e confraternizar fora do ambiente do quartel. E havia aquele papel odioso que se chamava “dispensa de recolher” que marcava a ditadura de um horário para cruzar a porta de  armas de meninos obedientes, como  de fossemos todos um bando de meninas virgens vigiadas pelo pai austero. De Beja, só me lembro de ter passado numa rua e ter olhado para uma vivenda e um habitante de lá me dizer de dedo indicador espetado como se me apontasse o Mosteiro do Jerónimos … olhe ali naquela casa mora a Antónia Tonicha !!! Uma semana depois parti. Nas voltas da tropa, um dia fui então tropeçar em Estremoz. Hoje recordo o Roxo com saudade, até porque já partiu como alguns outros. Ficaram - me na retina, no olfato, nos ouvidos e no paladar, as planícies silenciosas do belo Alentejo, o vinho e o borrego da tasca da Alice e esse enfermeiro maluco chamado Azevedo,  que era natural do Porto e que na pia da enfermaria onde depositava as seringas usadas que eram de vidro para depois as desinfetar em tachos de alumínio com água a ferver , também lavava os legumes que depois comia com atum e sobreviveu ! Mas é irrelevante. Aquele casqueiro alentejano a estalar – me na boca e aquele tinto encorpado a rezar- me na garganta desculpa tudo !
QP       

segunda-feira, 12 de março de 2018

UMA OUTRA REALIDADE, UM OUTRO SENTIR ...






Um passado ...

Um repartir de afetos. De Lagos do Infante Dom Henrique, à estátua solene de Amato Lusitano. Do mar salgado e amplo que se alarga até à linha do infinito, ao calor e ao cantar das cigarras num horizonte de fogo.

Duas realidades distintas. Mais de quatrocentos quilómetros separam o Atlântico algarvio sereno e azul, dos mistérios da Estrela e do Moradal em final de tarde, a convidar à reflexão sobre os caminhos da Vida.

A cidade beirã resiste às altas temperaturas de um sol escaldante de verão. A cidade está desfalecida de ritmo e apenas as sombras das árvores que povoam os espaços públicos, são um oásis a quem procura defender-se da canícula. Aqui e ali, alguns repuxos de água límpida tentam amenizar a calma sufocante.

Meto o carro no subterrâneo fresco do Parque de Estacionamento da “Devesa”. Subo as escadas e fico cego pela claridade que tomba sobre os telhados das casas antigas, que se alinham como soldados na parada de um quartel. Deambulo por aquele espaço. Alguns estabelecimentos de cafetaria e esplanadas, dão alguma cor ao marasmo dos dias. O “Docas”, nome estranho a lembrar as delícias da frescura dos rios ou do mar, alberga alguns clientes que dentro do estabelecimento gozam da presença de ar condicionado.

De novo pisando terrenos que me são familiares, vou tricotando a vida ao sabor de recordações. De voltar a reencontrar gente que me saúda. Que ama a sua cidade e as suas raízes de uma Beira profunda.

Ao volante do carro, desço a Avenida 1º de Maio e descubro esta ou aquela figura carismática da cidade. Gente para quem a vida foi uma cautela de lotaria em branco. O Godinho sobe a avenida em passo apressado como sempre foi seu timbre, de camisa empinada pelo seu ventre obeso. Fala sozinho e ri-se nos seus impenetráveis pensamentos. Mais abaixo, esbarro com o companheiro da mulher da tabacaria. Passa os dias encostado a um muro em frente do estabelecimento, a perna esquerda fletida e a sola do sapato ferrada contra a parede branca e nua,  fumando cigarro atrás de cigarro. Tem a tez roxa e gaba-se de beber dez cálices de Vinho do Porto ao pequeno - almoço. 
Ela, a mulher, de rosto triste que nunca vi sorrir, mal se movimentando no compartimento exíguo atafulhado em mercadoria, vai vendendo notícias plasmadas nos jornais com títulos sensacionalistas. E há sempre quem compre. Tudo isto observei da janela do meu carro, como um filme de que vi a antestreia já muitos anos passados.

Estou cansado. Remeto-me ao silêncio da minha casa. Olho o fogão de sala e a cinza e que ainda se acumula no seu interior. Cinza que são restos do passado. De um passado de memórias que muitas vezes desfilaram perante mim, no rubro incandescente de um tronco de azinho, na lareira acolhedora dos frios de inverno.

Amanhã partirei. Castelo Branco fica para trás, aguardando o meu regresso. Numa tarde de outono prometo voltar. Talvez acenda a lareira, para me confrontar com outras memórias e realidades. Agora tenho um compromisso – Coimbra, o Mondego e o Choupal esperam por mim.
Quito Pereira        

  

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A CANÇÃO DO BARQUEIRO ...






É o silvo estridente da máquina do comboio a carvão, a partir da Estação Velha rumo ao povoado de Alfarelos, que clama por mim. É o regresso ao passado. Ao meu passado. Por minutos, resguardo por entre os dedos a fotografia do meu avô, amarelada pelos anos, naquela década distante.

Sinto-me trespassado de saudade. A esta distância, ainda tenho nos ouvidos, o cantar do rio e o gemer dos alcatruzes da “Roda Doida”. O ladrar do “Blego” e a  sua correria pelos campos do Mondego. O trinar dos pássaros por entre as árvores vetustas de porte soturno, sentinelas fieis da Mata e do Tempo.

Olho a fotografia e localizo - a no espaço. Aquele é o meu Choupal. Ali, com a ponte de caminho – de - ferro no horizonte e o comboio do meu encantamento a galgar carris, numa marcha fumegante e triunfal, recordo o velho Pama.

O Pama era o barqueiro e o rio o seu sustento, quando, na margem esquerda, junto à porta da sua velha cabana, cobrava algumas moedas do magro pecúlio, a todos os que demandavam a Mata Nacional, para trabalhar à jorna. Tempos difíceis. Tempos de miséria. 

O Adelino, usava uns velhos socos no verão e no inverno, sem o luxo de poder comprar um par de meias. Quando, ao almoço, se refugiava debaixo de uma árvore, já se sabia que não trazia merenda e era a avó Maria José, sempre vigilante, que percebia o drama e ia para a cozinha preparar uma singela refeição, para lhe oferecer.

Recordo o Pama e a sua barba rala, numa cara magra e pálida. Com arte e sacrifício, construiu uma ponte - pedonal, em estacaria. Atravessá-la, era uma aventura. A ponte, de frágil estrutura, dançava ao sabor da corrente e o Mondego, quando estava de mau humor, ameaçava engolir os passantes. Por vezes, tinha que se proceder a reparações, nos suportes de madeira de eucalipto e era aí que entrava o barco negro, que o Pama manejava com uma vara e muita destreza. Havia como que um pacto surdo com a corrente do rio, que fazia a embarcação chegar à outra margem, sem grandes balanços e aflições. Os trabalhadores, ocupavam os seus lugares e, serenos, confiavam nos braços firmes do barqueiro, para os levar a bom porto.

Na minha mente, desfilam, em catadupa, aqueles poentes incendiados, misturados com o cheiro dos carvalhos, plátanos e eucaliptos. E relembro o barco da saudade, de regresso à margem esquerda do Mondego, agora que o dia tinha terminado. Com o Pama a cantar, em voz dolente e cansada, uma canção envolvente, acompanhado por um coro de vozes arrastadas, daqueles que regressavam aos seus modestos lares, ao tombar da cálida tarde. Era uma canção simples da gente simples. Era a canção do barqueiro.
Quito Pereira