Santa Bebiana - Talvez a Santa de Portugal com mais crentes ...
Recomendo-vos algum decoro. Lá porque a Santa Bebiana bebe
uns brancos e uns tintos, não é razão para que, assiduamente, os respeitáveis
chefes de família, cheguem a casa todas as santas noites, a cheirar a vinho da
pipa. Muito menos de invocarem o nome da Santa Bebiana, como desculpa para
tropeçarem nos degraus das escadas da cozinha, quando, pelas três da matina,
tentam entrar em casa à socapa com os sapatos na mão e um ramo de loureiro
preso numa orelha.
Elas - as mulheres - as vítimas, já alertadas para as noites
de ramboia dos exemplares maridos, esperam - nos de mão na anca e rolo da massa
em riste, com quem se prepara para a batalha que se adivinha. E dizem,
meio agressivas, meio chorosas, num
doloroso lamento:
- Pois, estou eu na fábrica a coser bainhas em calças todo o
santo dia, esfalfada, para tu, meu vadio, entrares em casa a esta hora e ainda
por cima nesse estado lastimoso a cheirar a morangueiro …
E ele, apanhado com a boca na botija, esfrega o nariz vermelho
como um pimentão e diz-lhe num ato de contrição:
- Ó filha, lembrei-me da Santa Bebiana, deu – me a devoção e
como sou católico de convicção, honrei a Santa com uns brancos, umas
aguardentes e uns tintos, mais a sociedade de amigos que ia comigo. Sabes, com a
religião não se brinca …
Pois. Com a religião não se brinca e respeita-se a de cada
um. Mas a festa profana de Santa Bebiana – padroeira dos amantes do vinho -
está a chegar. É já neste fim de semana.
Lá, em Caria, em épocas recuadas, a Guarda Republicana, a bem
da ordem e da moral, tentou impedir que a Santa fosse venerada. Azar o deles.
Os fiéis da Santa e do copo, armaram tamanha zaragata que o cortejo lá seguiu,
com a Santa em equilíbrio para não cair do andor, pelos passos ziguezagueantes
dos devotos que a levavam, todos eles já um pouco turvos com os vapores da Fé.
Resta dizer, que a festa é em Caria e serão quatro dias de
cor, alegria e muita animação.
Um dia, já lá vão muitos anos, na tasca “Funchal”, junto ao
Zé Neto, na Baixinha de Coimbra, entre iscas, tintos e carapaus de escabeche, alguém comentando as desventuras da nação, disse-me esta máxima:
- Nenhum cidadão de boa cepa, atura este país no seu estado normal. Isto já só se aguenta bêbado …
É talvez por isso, que a Santa Bebiana seja das mais
veneradas de Portugal …
Quito Pereira
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