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domingo, 15 de outubro de 2023

TEXTO A DELICIOSA NOSSA LINGUA - ENVIADO POR JOSÉ´QUERIDO

"Este texto da Mafalda Saraiva prova o quão deliciosa é a nossa língua. Deliciem-se!"







"É uma expressão portuguesa, com certeza.

Antes de ir desta para melhor, vou dar com a língua nos dentes e lavar roupa suja. Com a faca e o queijo na mão, com uma perna às costas e de olhos fechados, vou sacudir a água do capote. Ainda tirei o cavalinho da chuva, tentei riscar este assunto do mapa, mas eu sou uma troca-tintas, uma vira casacas e vou voltar à vaca fria. Andava eu a brincar aqui com os meus botões, a chorar sobre o leite derramado, com bicho carpinteiro e macaquinhos na cabeça, quando decidi procurar uma agulha no palheiro. Eu sei, eu não bato bem da bola, mas sentia-me pior que uma lesma e tinha uma pedra no sapato. O problema é que andava a bater com a cabeça nas paredes há algum tempo, com um aperto no coração e uma enorme vontade de arrancar cabelos. Passei muitos dias com cara de caso e com a cabeça nas nuvens como uma barata tonta. Mas eu, que sou armada até aos dentes, arregacei as mangas e procurei o arquivo a eito. Acontece que uma vez em conversa com um amigo ele disse-me «Tiras-me do sério» e eu, sem papas na língua, respondi «Se te tiro do sério, deixo-te a rir, é isso?». Ele, de trombas e com os azeites, gritou em plenos pulmões «Esquece Mafalda, escreves belissimamente mas não conheces nem 1/4 das expressões portuguesas.» Só faltou trepar paredes. É preciso ter lata! O primeiro milho é dos pardais. Primeiro pensei ter posto a pata na poça, depois achei que ele tinha acordado com os pés de fora e que estava a fazer uma tempestade num copo d´água e trinta por uma linha. Fiz vista grossa, mas depressa disse Ó tio! Ó tio! Abri-lhe o coração, o jogo e os olhos na esperança de acertar agulhas e pôr os pontos nos is. Não lhe ia prometer mundos e fundos nem pregar uma peta, eu estava mesmo a brincar. Era um trocadilho. Pão, pão, queijo, queijo. Rebeubéu, pardais ao ninho, fiquei com os pés para a cova, só me apeteceu pendurar as botas e mandá-lo pentear macacos, dar uma volta ao bilhar grande ou chatear o Camões. Que balde de água fria! Caraças, levei a peito, aquela resposta era tão sem pés nem cabeça que fui aos arames. Eu sei que dou muitas calinadas, meto os pés pelas mãos e faço tudo à balda. Posso até ser uma cabeça de alho chocho e andar sempre com a cabeça nas nuvens mas não ia meter o rabo entre as pernas nem que a vaca tossisse. Pus a cabeça em água e fiquei a pensar na morte da bezerra. Caí das nuvens e com paninhos quentes passei a conversa a pente fino, não fosse bater as botas. Percebi que ele tinha trocado alhos por bugalhos, apeteceu-me cortar-lhe as vazas, mas estava de mãos atadas e baixei a bola. Engoli o sapo, agarrei com unhas e dentes, dei o braço a torcer e dei-lhe troco com o intuito de descalçar a bota. Não gosto muito do vira o disco e toca o mesmo, mas isto já são muitos anos a virar frangos e pus as barbas de molho. Uma mão lava à outra e as duas lavam as orelhas, mas ele está-se nas tintas, à sombra da bananeira. Não deu uma mãozinha nem deixou-se comprar gato por lebre. Ficou com a pulga atrás da orelha, pôs-se a pau antes de estar feito ao bife. Pus mãos à obra, tentei fazer um negócio da China e bati na mesma tecla. Dados lançados, cartas na mesa, coisas do arco da velha. Claro que dei com o nariz na porta, o gato comeu-lhe e língua e saiu com pés de lã. Água pela barba! Devia aproveitar a boleia antes de ficar para tia de pedra e cal onde Judas perdeu as botas. É que isto pode estar giro e estar fixe, mas não me apetece segurar a vela com dor de corno e dor de cotovelo só porque não conheço 1/4 das expressões portuguesas."


quarta-feira, 12 de abril de 2023

ENCONTRO COM A ARTE-PROSA BEIRA ALTA SEUS COSTUMES & TRADIÇÔES -TEXTO DE GERGINA FERRO

BEIRA ALTA SEUS COSTUMES & TRADIÇÕES.

 · 

A mãe olhava para os sete filhos, uns deitados aos pés e outros à cabeceira da sua enxerga. Já há muito que gastara os lençóis de linho de dois panos que fizera em moçoila. Tinham sido descosidos e voltados, mas novamente ficaram puídos e até furados. Agora a cama tinha, apenas um cobertor a tapar o folhelho do colchão remendado e mais umas mantas de trapo que urdira antes de casar com o seu Manel. 

Por onde andaria ele? Abalara já se haviam completado noventa e sete dias e ainda não dera sinal de vida! Nem sabia que ela ficara de esperanças à sua despedida. Será que se perdera do passador?!... Será que arranjara trabalho?

Ela já não tinha aquela pujança de há uns anos atrás. Como conseguiria alimentar os seus filhos se o seu Manel, por lá desaparecesse?!...

O mais pequeno acordou a choramingar com fome!... Tentou acalmá-lo com um fado que ouvira cantar ao Ti Zé Manso! “ Ninguém foge por mais sorte ao destino que Deus dá”… Duas pérolas rolaram até às faces do pequerrucho que havia sossegado ao colo da mãe.

Amanhã tenho de ir a Navasfrias mercar pão, pensou. Tenho para ali umas pesetas que restaram do último acarreto de café que o meu homem fizera. Ainda restam batatas na loja e a Mimosa até está a dar leite bastante para o café da manhã e para poder dispensar algum à ti Zefa, pois ela tem sempre qualquer coisa para dar …

O sono não vinha, mas tinha de apagar a luz da candeia senão o azeite não iria chegar para muito mais tempo!... 

Aconchegou os filhos mais uma vez e tentou adormecer. Mas por onde andaria o seu homem?! E via-o ir Pirenéus fora, com a melhor camisa e a camisola grossa que lhe fizera antes da abalada… O pai tinha-lhe dado a velha samarra e talvez não se “arreganhasse de frio”. 

Ainda não tinha aberto o lusco-fusco e alguém dava punhadas na porta. Ergueu-se num pincho e perguntou quem era… 

O “Passador” vinha trazer novas. As pernas tremeram-lhe e quase perdia o chão!... Tentou adivinhar as novas que lhe vinha trazer.

Uma carta escrita pelo seu Manel. Era difícil ler os gatafunhos. Mas nem ouviu o que o mensageiro lhe dizia. Desculpe, senhor. Nem lhe ofereci entrada!... Ainda nem acendi o lume para lhe dar um café…Mas depressa vou ordenhar a vaca e preparo qualquer coisa… 

_ Já comi uma malga de sopas de cavalo cansado, na taverna do ti Zé dos Pilos, bem haja! 

Ela voltou a olhar as garatujas: Minha querida Mulher e filhos, Espero que esta carta te encontre bem de saúde que eu, pela graça de Deus fico bem”. Já tenho trabalho… O passador olhava-a compreensivo e sossegou-a… O seu marido trabalha numa fábrica de louça! É um trabalho muito duro…tem de empurrar vagões para as fornalhas e suportar muito calor e frio…mas vai ganhar o suficiente para vos tirar deste sufoco e pobreza!... Ele mandou-me entregar-lhe estes francos, que tem de ir cambiar ao Sabugal se precisar de dinheiro. Se não lhe fizerem muita falta, o seu Manel diz para fazer um pé de meia no lugar de sempre… Ele vai lutar para que um dia possam ter uma vida mais desafogada… Fique com Deus, Maria.

Deus o abençoe, senhor!... Muito obrigada pela sua visita… 

Fechou a porta, ajoelhou no tabuado e rolaram lágrimas de agradecimento ao seu Deus por lhe ter dado novas do seu amor.

Georgina Ferro


 

domingo, 19 de março de 2023

ERA A ÚLTIMA LUA CHEIA.... CONTO DE Georgina FERRO

Era a última lua cheia antes de findar o Verão. Havia espigas de milho espalhadas pelas escaleiras abaixo, desde o cimo do balcão até ao último degrau. 

    Pela manhã, minha tia mandou-me a casa das suas parceiras a avisar que ia fazer a desfolhada naquele serão.   

     Meu primo Justino disse ao seu amigo Diamantino, às primas, filhas do tio Eduardo, que foram passando palavra. 

    Jantámos um bocadinho mais cedo e já tínhamos tudo a postos para dar início à desfolhada. 

    Meu tio trouxe um garrafão de vinho, umas fatias de presunto, de chouriço e de queijo, um pão de Navas Frias e colocou numa mesinha, onde já havia uns copitos de vidro... Voltou lá dentro e trouxe a viola.  Mal começou a dedilhar os primeiros sons, começaram a aparecer cabecitas a espreitar. Chegavam davam as boas noites e agachavam-se nos degraus disponíveis começando logo a descamisar as maçarocas das suas capas de folhelhos.  

     Apareceram logo, também, dois guardas. Só mais tarde soube que era proibido fazer ajuntamentos. Mas eles não arredaram pé nem afastaram ninguém. 

     Meu tio tinha a voz de tenor mais linda que eu conheci. E minha tia acompanhava-o com a sua voz fininha e melodiosa naquele lindo "Prateia a serra tudo prateia o luar branco da minha aldeia"... Depois, vinham as modinhas da terra que todos entoavam em coro! Só mais tarde começavam as desgarradas entre rapazes e raparigas. 

     E o milho ia ficando todo despido no corpinho doirado, enchendo cestas e canastras. Era no meio de grande algazarra que aparecia um milho rei. E então era o beijinho que fazia ruborizar o rosto das raparigas e abrir grandes sorrisos nos rapazes.Iam escaleiras acima, escaleira abaixo, dar o beijo obrigatório a todos quantos estavam, até mesmo aos dois guardas de plantão, que a essa hora já saboreavam um petisquinho e se haviam integrado nesse agradável serão. Nós, a canalhita, tínhamos abandonado o trabalho para nos perdermos no jogo das escondidelas e do apanha. 

     Já a noite ia alta, quando a desfolhada terminou. Apanhou-se e ensacou-se todo o folhelho; acondicionou-se o milho; varreram-se os degraus... e os guardas despediram-se... Meu tio ofereceu a todos mais um copinho e uma ginginha. Minha tia trouxe as bicas doces e meu tio, quase em segredo, entoou a mais bela cantiga que eu já ouvira: "Mãe Preta", que mais tarde a nossa Amália recriou nos xales pretos.

Georgina Ferro


 

terça-feira, 21 de junho de 2022

CONTO EM 1956 - GEORGINA FERRO

 Em 1956

 Numa casa, não muito longe daqui, crepitavam ramos de tojo que poupavam torcida e azeite na candeia. Talvez a pobreza fosse semelhante em quase todas as casas  da aldeia.

  A Maria estava tão consumidinha, que não parava de desfiar as contas do terço entre os dedos. Os filhos estavam com fomita e o calor do lume também não os aconchegava muito,   com aquela chama mortiça que desenhava sombras negras no tabique das paredes.

 O caldo escoado, com um pouco de sal e uma amostrazinha de unto, só estava à espera que chegasse o Zé, para ser deitado no barranhão. 

 Zé, o seu homem chegava da taberna muito depois da reza das Trindades. Não tinha coragem de ver os filhos de pés descalços em tempos tão duros de frio e geada. A lenha escasseava, pois os pinhais andavam bem catados de caruma e galhos. Ele, por mais que corresse a oferecer trabalho de jorna, não havia quem tivesse mais que uns míseros cruzados para lhe poder pagar. A carne na salgadeira, já se comera há muito tempo. As pessoas da aldeia bem gostavam de dividir entre si os poucos haveres que possuíam, mas este ano tinha sido miserável: não houvera água no Verão, as batateiras tinham apanhado bichos e mal-murcho, a castanha perdera-se com as geadas negras de Setembro, as marrãs não engordavam e deixavam morrer os filhotes com falta de leite....

 O Joaquim, o filho mais velho, de oito anos, fizera lindas vassouras de bracejo para juntar as cinzas dos lumes. Ainda não tinha conseguido vendê-las, mas a senhora professora tinha-lhe perguntado por elas e quisera levá-las. De certeza que no dia seguinte lhe traria alguma coisa como pagamento.   Da última vez, lembrou a mãe, a professora trouxera um cabaz cheio de tudo: arroz, bacalhau, massa, açúcar... e até uma enorme lata de atum!

 Ainda não se tinham levantado da mesa quando alguém chamou à porta! Era o Ti Raul.  Os catraios, um a um, pediram a bênção aos pais e foram deitar-se, dois aos pés e dois à cabeceira, no colchão de folhelhos forrado a lençóis de linho ainda a cheirar a sabão e a cora. Não tardaram a adormecer.

 Na cozinha, quase dentro da chaminé,  o Ti Raul tentava convencer o Zé a dar o salto para França: “ Lá, o trabalho é tão ou mais duro que aqui. Arranjo-te trabalho na forja da loiça” “Os ordenados são altos e o franco vale cinco vezes o escudo! Tens é de ir carregar os fornos com temperaturas muito altas, ou cavar barro para amassar.” Também por lá cai muita neve e há frio a gear os caminhos, mas podes encher a barriga aos teus filhos e tirá-los desta miséria!” Sabes que eu sou homem de palavra. Partes de Naves Frias na carreira e eu vou esperar-te a Cidade Rodrigo e acompanho-te no comboio. Vamos entrar por Andorra onde o meu filho tem casa e esperamos lá a oportunidade de passar para França. Depois, já estarás a salvo. Tens de te acomodar numa barraca com outros camaradas até receberes as primeiras “peias”.

 Seria mais um emigrante a partir em busca de pão em terras distantes...

 Georgina Ferro


segunda-feira, 4 de abril de 2022

QUEM MUITO FALA POUCO BEBE...





 

 Quem muito fala pouco bebe.

A missão do homem, por aqui, não vai muito além de garantir a espécie e perpetuar o conhecimento como principal herança. Não estamos muito longe de qualquer outra espécie animal. Se umas o fazem por instinto, a nossa fá-lo com método, com memória e com rituais. 

Já pensaram o que seríamos se cada um de nós, ao morrer, levasse a sua sabedoria para a tumba? Quão triste seria se todo o ser humano necessitasse de recriar aquilo que a geração anterior tenha descoberto e produzido! Em 80 anos não aprendemos nem inventamos tanto como isso, pois a conquista do espaço deve imenso à descoberta do fogo, tal como os grande prémios de Fórmula 1 devem muitíssimo à descoberta da roda. 

O que será, então, que garante que ninguém precise de reinventar as coisas previamente já descobertas? A resposta é simples: a escola. Não me refiro ao conceito stricto sensu; estou a pensar num sentido lato: a escola é a família, é o trabalho, é a rua, é a aldeia, é o clube, são os amigos e é, obviamente, a escola mesma. Ensinar é um ato de uma generosidade sem medida, é a maior dádiva que se pode fazer, mesmo que nem pensemos nisso.

Prometi a mim mesmo e ao visado que um dia contaria a história. Coisa simples, mas duma lógica irrepreensível, em que a aprendizagem informal molda os carateres e hoje falamos dos mestres com saudade.

Esse meu amigo era ainda um jovem agente de seguros que fazia equipa com o Queirós, um experiente profissional, raposa velha, que o instruía a falar pouco e observar tudo muito atentamente. Faziam o seu trabalho junto dos produtores de vinhos da Bairrada. Não daquelas companhias de nomeada; apenas pequenos produtores que sabiam que necessitavam de proteger a sua produção das intempéries, para que a trovoada ou a geada não varresse para o chão o sustento.

O mestre ensinara-lhe uma pequena frase que devia dizer nos momentos estratégicos do dia e nas diversas visitas. 

Os assuntos tratavam-se nas adegas e os contratos eram assinados em cima das pipas à volta de dois copos de tinto. Mas, para isso acontecer, havia algumas conversas a cumprir.

Naquele dia, o mestre e o discípulo chegaram à adega do Sr. Rentes, em Sepins, e as hostilidades abriram-se logo à volta da provadeira. Copo para um, copo para outro e o jovem lá disparou a única frase que podia dizer: “Ó Queirós, este sim, este é vinho! Agora… o outro que bebemos há um bocado…” deixava a frase no ar e torcia o nariz. 

O Rentes não teve dúvidas e perguntou: “De onde é que vêm?” O Queirós lá lhe explicou que vinham da adega do seu vizinho, sempre um potencial rival. “Ah, e ele fez algum contrato? ¬ – perguntou de sobrancelha levantada. “Então não fez? Três mil quilos!” – atirou o Queirós. “Três mil quilos? Onde é que ele tem três mil quilos? Então olhe, só por causa das coisas, coloque aí no meu três mil e quinhentos!” E pronto, estava o negócio feito e a correr a contento de todos. 

Depois de saírem da adega do Rentes, o Queirós virou-se para o aprendiz e disse: “Mais um! Isto hoje está a render bem! Vamos agora visitar ali o Sr. Custódio e depois ainda passamos no Cardoso na descida para a Mealhada. 

- “A sério, ó Queirós? Não sei se consigo, pois já vou no oitavo copo e ainda nem almocei!”


 

segunda-feira, 14 de março de 2022

ENCONTRO COM A ARTE- PROSA/CONTO ANOS CINQUENTA

Anos Cinquenta
A Ti Neves espevitou a candeia, pela terceira ou quarta vez. O murrão continuava sem querer alumiar a cozinha, uma vez que o azeite era tão poucochinho e já não havia mais na almotolia. Também o lume ardia mortiço, no cepo lá atrás, que ela ia "patchinando" (borrifando) de vez em quando, para que durasse ao longo da noite.
Cada vez que o vento uivava pela gateira da porta, ela aconchegava a si, o velho xale de lã, e rezava as suas jaculatórias! Lembrava o seu falecido! No tempo dele havia sempre lenha de sobejo, até tinha "cabras" nas pernas de tanto calor apanharem. Nessa altura acendia o candeeiro de petróleo, que dava uma luz mais clarinha! E ela fiava o linho que tinha colhido, espadelado, maçado... Também as suas cachopas, todas tinham coisas para fazer: coser roupa, remendar, bordar, cortar fitas para encher as canelas para as mantas de trapos!...enquanto soltavam estridentes gargalhadas ou entoavam as modinhas tradicionais.
Por onde andariam elas agora, com tantos filhos para criar? E pérolas sem brilho iam descendo pelo seu rosto abaixo.
_ Truz...truz... ( Fortes pancadas na aldraba da porta de carvalho). Sou o Tonho, não se assuste Ti Neves. ( Foi entrando, cozinha adentro) . Venho trazer-lhe um poquenino de pão centeio, que a nossa Maria cozeu para fazer as farinheiras. Olhe, trago também uma febra de alguidar, para assar nas brasas! "Ai conho", nem brasas há nesta lareira! Vou buscar umas cepas de giesta, que piquei esta tarde! E tem aqui a candeia cheia de murrão!, que é isso?
_ Ai, Tonho, deixei acabar o azeite e já há muito tempo que não compro petróleo...Desde que vendi as vacas que não me sobeja dinheiro para gastar!... Este ano os castanheiros não deram castanhas que prestassem para vender!... Que eu rebusquei-as bem... Ainda deram para engordar o marrano.
_ Deixe lá, Ti Neves, enquanto eu tiver força nestes braços, não há-de passar fome nem frio! Juro-lhe em nome de Deus, que nos está a ver!... Se estou vivo a si lho devo!... Se não fosse vossemecê tinha morrido à míngua ainda pequeno!
_ Eram outros tempos, onde comiam dez havia sempre para mais um. E tu adoravas mílharas, lembras-te? Até dizíamos que a cegonha te devia ter trazido de Aldeia Velha!
_ Pois era! "Atão vá", eu vou num pé e venho noutro e já fazemos aí umas boas labaredas com brasas para assar a carne. Vou dizer à nossa Maria que venha e jogamos uma cartada!
_ Ai "home" és um bom menino! Deus te valha sempre...
Georgina Ferro
Fernanda Do Céu Gonçalves, Maria Rosário Duarte e 463 outras pessoas
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quinta-feira, 10 de março de 2022

UM DIA DE MARÇO

 Um dia de Março


 A minha tia, ainda bem cedinho, já fora ao curral buscar uns galhos e umas cepas de giesta para atiçar o lume. Varrera a pedra do lar com a vassoura de bracejo, apanhara a cinza para a pilheira, pusera um cepo grande lá atrás e aconchegou-lhe umas maravalhas e uns chamiços miudos. Pegou no fole e soprou o tição que ficara mortiço durante a noite, mas ainda aceso. Quando as maravalhas atearam, a tia soprou mais um poucochinho com a aba do avental a fazer de abano.

  Enquanto a chama avivava, foi à cantareira buscar o cântaro da água que tinha ido encher de véspera ao chafariz. Despejou-o em duas panelas de ferro e na cafeteira que pôs em redor do lume.

 Aproveitou o tempo enquanto a água ia começando a ferver e desceu novamente ao curral a levar o balde da vianda aos marranos pequeninos que tinham nascido na cortelha naquele Inverno; foi abrir  o portado do galinheiro; espalhou milho no curral para as galinhas e patos; tirou dois ou três ovos do ninho que guardou no bolso do avental e subiu as escaleiras.  

 Foi poisar os ovos à despensa e buscar o pó de café cevada. Arrimou a trempe sobre as brasas e pôs lá o tacho de esmalte com o leite para ferver. Não tardou a casa inteira ficar impregnada daquele aroma que me fazia pinchar da cama e correr para a cozinha. Já a tia  estava a puxar a mesa pequenina para perto da lareira. Pedi-lhe a bênção e ela pediu a Deus que me abençoasse. Depois, tirou uma caneca de água quente duma das  panelas e levou-a para a bacia do lavatório para eu lavar as mãos e a cara. Ajudou-me a pentear o cabelo e voltámos ambas para a cozinha. Eu pus as malgas na mesa, os paninhos, o pão e o talher de alumínio. A minha tia ia olhando a ver se estava tudo como “lhe era dado”. Mas, como quase sempre, o leite começara a derramar, o que nos fazia rir!... Mal a tia se distraía um “poquenino” a olhar para o lado ele parecia que adivinhava e saía do tacho!...

 O meu  tio, por sua vez,  também se levantara muito cedo. Já tinha ordenhado a Mimosa e trazido o leite acima. Descera novamente à carpintaria pois tinha pressa em acabar uns caixilhos para as janelas de uma casa. Fui pedir-lhe a bênção e chamá-lo para ir tomar o pequeno almoço. Minha tia dizia que ele era um pisco a comer e se não o chamássemos ele nem se lembrava da fome!... Quando subiu trouxe mais um braçado de lenha e foi lavar as mãos com água fria para a varanda do balcão. Ele dizia sempre que a água fria ativava o sangue!

 Depois do café, meu tio voltou à carpintaria. Eu e a tia ficámos na cozinha. Ela preparou a panela do almoço, fez o queijo da coalhada, lavou as malgas e os talheres que eu ia limpando com a rodilha, foi fazer a minha caminha, verificou a roupa que estava a acabar de secar, pôs novamente a mesa ... E eu ia fazendo as pequenas coisas que ela me pedia, pois “o trabalho do menino é poucochinho mas quem o perde é parvinho”!

 Pela manhã, o nevoeiro não deixava ver muito mais que um metro de lonjura! Mas, lá pelas dez badaladas do relógio do campanário, já se ouvia o tilintar das campainhas da Mourisca, da Malhada, da Castanha, da Tourina e de muitas outras vaquinhas que levavam um bamboleio mais apressado do que era costume em dias quentes e claros. Talvez esse desembaraço fosse pela hora ser  mais tardia ou pela vontade de poderem ir ao lameiro e sair da ”loja”. Embora o feno à manjedoura lhes fosse muito apetitoso penso que não havia nada que superasse aquele travo da erva fresquinha dos lameiros. 

 Também nós levámos a Mimosa ao lameiro do Prado Castelhano, mas só depois do almoço, porque aquele lameiro não era murado a toda a volta para poder ficar sozinha.  Então, eu tomei conta dela para a minha tia olhar pelas plantas que começavam a rebentar no Chão de Cima e apanhar algumas beldroegas para a vianda dos porquinhos. Eu adorava ir para aquele prado porque tinha uma ribeira lá ao fundo, de água muito cristalina e com rebolinhos e pedrinhas muito bonitas para o jogo do Meco ou das Cinco Chinas.  E a Mimosa portava-se tão bem que nunca me obrigava a fazer correrias para não a deixar abalar.

 O relógio do campanário avisou as cinco horas e nós apressámo-nos a voltar a casa. O tio já tinha feito a cama da Mimosa de “fieitos” limpos cobertos com palha de centeio bem seca. A tia correu até ao chafariz do Pio, nessa altura ainda não havia nenhuma fonte no Largo do Enxido, e foi encher o cântaro e o jarro do lavatório. Eu fui com ela e levei a minha cantarinha pequenina.

 Depois, voltou a praparar o lume para fazer o caldo escoado da noite, pôs a panela com água, descascou as batatas e foi lavar a chaminé do candeeiro, verificou-lhe o petróleo e a torcida e acendeu-o. O tio chegou, também, com o braçado de lenha para o serão. Ainda tinha que ir ordenhar a Mimosa, outra vez depois do jantar. 

  Não tardaram a soar as Trindades, pois o pôr-do-sol em Março é bem cedinho. Parámos tudo o que estávamos a fazer e rezámos as “Avé-Marias” com todo o respeito: de pé e com as mãos postas. 

 A seguir comeu-se o caldo escoado com pimentos curtidos e um bocadinho de chouriça e toucinho fritos. Havia queijo fresco e maçãs de Inverno se alguém quisesse. Tirou-se a mesa e começou o serão. 

 O tio ainda foi ouvir ler o correio que chegava na camioneta da carreira, não fossem os primos terem escrito alguma carta ou postal. Como estava já muito escuro levou a lanterna de mão. 

 A tia preparou um caçoilinho de barro com água. Pegou na roca e atou-lhe uma estriga. Tirou o fuso do lambril ao lado da chaminé, sentou-se, perto do lume, na sua cadeirinha de verga e começou a fiar ..............

....................

Georgina Ferro


sábado, 5 de março de 2022

ENCONTRO COM A ARTE- POESIA - Contra a Guerra de Agressão Jorge Castro

Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.


CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

não se me dá desta guerra     

ou de outra guerra qualquer

nas mãos ficam-me pungentes

os cravos das incertezas

cravados a feros golpes

pelos donos da razão 


falas-me de heróis semimortos

alinhados nas paredes

que se vão crivar de balas

dos corpos já trespassados?

falas-me de outras crianças

que brincam com estilhaços

manchados da cor estranha

do sangue das suas mães?

falas-me das mãos decepadas

dos artistas militantes

entre arroubos de Guernica

ou de rosas de Hiroshima?


de que nos valem razões

na sem-razão de uma guerra?

numa baioneta de ódio 

que sangra um coração moço?

num míssil cobardemente

lançado à vida que passa?

nos tanques tão couraçados

contra a flor que desponta?

em comboios de degredo

numa terra de ninguém?

nesse sangue derramado

por todos e de ninguém?

que serve aos senhores da guerra

mas não serve a mais ninguém?


não se me dá desta guerra

ou de outra guerra qualquer

que serve aos senhores da guerra

mas não serve a mais ninguém!


- Jorge Castro

01 de Março de 2022

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O QUE EU QUERIA ERA O TRATOR - Texto do Professor Antonino Silva

 



O que eu queria era o trator….


É sempre um pouco difícil, se não algo pedante, referirmos o nosso pequeno mundo como sendo o mais perfeito, onde as pessoas são as melhores e os nossos atos os mais corretos. Muitas vezes se partilham mensagens sob o tema ‘no nosso tempo é que era’, como se os tempos atuais não fossem. Mas a verdade é que os paradigmas educacionais, a gestão dos afetos e as trocas do tempo de estar por coisas que alienam foram substancialmente refundidas nas últimas três décadas. Há mais oferta, mais acesso e menos tempo. Por isso, tenta-se compensar o tempo que não temos e que não damos oferecendo um bem material que faça lembrar ao ofertado, pelo menos, a memória de quem lho deu.

Não me cabe agora laborar em torno das máximas do querer, do precisar e do merecer, mas a verdade é que nem sempre temos o que queremos, nem sempre precisamos do que temos e nem sempre merecemos tê-lo. Pessoalmente, sempre confiei na sabedoria dos meus pais para gerirem o pouco que nos davam segundo o mérito. Não terei ficado traumatizado por um irmão ter recebido, merecedoramente, um carrinho e eu ter recebido nada. Sabia que a curto prazo brincaríamos os dois com o mesmo, sem que ele perdesse o registo de propriedade. Outras vezes o brinquedo não era exatamente o que queríamos, mas a gratidão era genuína.

Nesse tempo, pouco pedíamos e tudo agradecíamos. Educação? Será, mas era também muita capacidade de ver o mundo e de perceber que se a mãe comprava fiado na mercearia, então também teria de comprar fiado tudo o resto.

Surgiram-me estas reflexões num dia de viagem para Lamego, ao passar no planalto do Mezio e ao vislumbrar de fugida o recinto e a capela da Srª da Ouvida, em Castro Daire.

Uns quilómetros antes de chegar à cidade princesa do Douro Sul, existe essa ermida conhecida nos arredores por, no dia 6 de setembro, se realizar ali uma das feiras de ano mais famosas do planalto do Montemuro. Na Srª da Ouvida juntam-se magotes de romeiros que vêm, de peito aberto e de alma nas mãos, agradecer as graças recebidas por sua intercessão. São favores de um mundo simples, favores de coisas de lavoura, favores de uma troca de uma boa produção de centeio ou de cevada por uma esmola mais avantajada ou por um ex-voto com quase o tamanho de um homem. 

De Cinfães, de Castro Daire, de Resende e mesmo de Lamego, acorrem famílias completas para ali passarem o dia, com uma dose breve de oração, uma dose maior de festa e uma dose gigante de comida. Nas famílias, as mães carregavam à cabeça uma cesta merendeira com um alguidar de arroz do forno e um quarto de borrego assado, que havia de alimentar toda a família de muitas pessoas. Em minha casa também era assim.

Recordo-me de um dia ter topado de frente com um vendedor de brinquedos de madeira e alguns já de plástico. No meio dos carrinhos de empurrar, os fogões de chapa, os pífaros e as trotinetas de pau, brilhava um trator de plástico com atrelado e, imagine-se, um volante. Era pouco maior do que a mão, mas pareceu-me, na altura, um brinquedo gigante, tal era o tamanho do sonho de o ter. Nunca tivera um brinquedo assim, só meu, um brinquedo que não fosse feito em casa com latas de sardinha e rodas de carica. Por isso é que ele parecia o que parecia: o expoente da felicidade. 

Adivinho hoje que as colheitas desse ano deveriam ter corrido a contento dos meus pais, porque, num ato ainda hoje para mim muito estranho, eles nos compraram um brinquedo, a cada um dos filhos mais pequenos. Coube-me um carrinho qualquer, de cores e materiais que se perderam no tempo. Uns saltavam outros gritavam de alegria, mas eu fiquei menos eufórico do que eles. O meu pai perguntou-nos se tínhamos gostado e respondemos que sim. Nunca lho disse, mas deve ter sido uma marca indelével, pois ainda hoje me lembro de que aquilo que eu queria era o trator, o trator de plástico com atrelado e volante!

Antonino Silva


domingo, 9 de janeiro de 2022

ERA UM DOMINGO D O MÊS DE JANEIRO JANEIRO

 Era um domingo do mês de Janeiro.


     Nos domingos, não havia trabalhos ao serão. Não se degranava o milho, não se fiava o linho,  nem se fazia meia! Nada disso!... Domingo era dia de descanso.

     O toque das Trindades, ao pôr-do-sol, era antes das seis da tarde. Ora, os serões eram longos. Então, quase todos os domingos de Inverno, se não chovesse, depois do jantar, íamos seroar para casa do tio Eduardo e da tia Palmira.

     Naquela noite havia lua cheia! Não era uma lua cheia qualquer, era uma bola branca, enorme, num céu azul escuro transparente de ar gelado. A geada aumentava o brilho do luar, reflectido nas poças de água vidradas! Nem precisámos de acender a lanterna para o caminho.

     A minha tia ajudou-me a vestir o sobretudo, abotoou-me a touca e ela pôs o xale de lã. Meu tio enfiou a samarra, pôs o chapéu de feltro e esperou que ambas saíssemos para encostar a porta.

       Descemos as escaleiras e queixámo-nos do frio todos quase em simultâneo. A minha tia aconchegou-me a ela  com uma ponta do xale. Eu abracei-a pela cintura e caminhámos agarradinhas uma à outra. 

     Mal chegámos ao portão do curral, meu tio Eduardo assomou à porta e fez-nos entrar. A minha tia Palmira apressou-se a pôr mais umas cepas de giesta e uns  ramos de carqueja para que o lume tivesse labareda viva e aquecesse bem toda a gente.

     Depois das "boas noites" tirámos os agasalhos que dependurámos nos cabides à entrada. 

     Os tios sentaram-se à mesa, com os pés no estrado da braseira onde as brasas espreitavam avermelhadas debaixo de duas pratas (para não se apagarem) . Nós sentámo-nos nas cadeirinhas de verga em volta do lume. A tia tinha feito umas bicas doces e tinha galhetas e bolachas de Navas Frias que pôs na mesa pequena. A mesa pequena era uma mesinha com duas gavetas uma para o talher de uso no dia a dia e a outra para colocar os pratinhos com as sobras de carne cozida do almoço, o queijo... Puxava-se para perto do lume à hora da refeição se só estavam as pessoas da casa. Mas, agora servia de apoio à ceia.  O leite da vaca já estava fervido e bem quentinho no tacho de esmalte sobre a trempe.

Minha tia Maria tinha levado uma "pasta" de chocolate e lascou um tomo para o leite. 

Entretanto  encheram-se as canecas e cada qual pegou na sua e íamos tirando um bolinho . As tias foram também para a mesa grande e vá de baterem uma sueca!...

     Durante o jogo ninguém "piava"! Meu tio Eduardo ia aos arames se ouvia uma palavra ou se alguém tentava fazer sinais. Atirava logo com as cartas. Mas, entre cada jogo, soltava gargalhadas estridentes quando ganhava; ou, dizia pela décima vez, que se não fosse aquela bisca estar seca, sequinha..., não teria perdido de certeza.

    Depois de ganharem e perderem eram horas de voltarmos a casa.  Vestimos os agasalhos! O frio agora ainda era mais gelado!... Atravessámos o Enxido em passos largos.

     O tio foi pôr um pouco de feno à Mimosa, enquanto a tia punha a água da panelinha que deixara ao lume na botija de barro. Enrolou, também,  o meu "rebolinho" e foi levar-me à cama. Pedi a benção aos dois, rezei ao Pai do Céu  e caí na minha enxerga de folhelhos onde adormeci de imediato com as fadas e musas.

Georgina Ferro


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

COMO PODIA TAL AMOR SER FEBRE? TEXTO DO PROFESSOR ANTONINO SILVA para Janeiro de 2022

 Em dias menos bons, em que a esperança parece estar arredia, partilho convosco uma história crescida e nascida nesta quadra que passou.

Como pode o amor ser febre?

Estamos em dias de reconfiguração das emoções e de formas de sentir ou de ver o mundo. Crentes e não crentes, todos sentimos que são dias especiais, em que o nosso lado lunar decide brilhar ou, então, apagar-se de todo. Se decidir brilhar, tanto melhor; se decidir apagar-se também é bom, pois não terá sobre nós nenhum efeito nefasto da melancolia dos dias menos bons. O pessimismo de outros dias parece que se esbate e isso poderá dever-se a uma crença ingénua de que, na quadra natalícia, todo o homem se torna mais humano. No lado oposto da moeda surge o medo de não aproveitarmos estes dias, seja por omissão seja por cobardia. Recordo-me, quando era criança, de olhar depois, em janeiro, com imensa nostalgia para as férias do Natal e lamentar tudo o que não tinha feito. 

Mas o António Vintém não era desses, de se arrepender ou de omitir. Fora sempre um rapaz decidido e, mesmo, teimoso. Dera muitas dores de cabeça à sua mãe com as coisas que teimava em fazer, mesmo sabendo que, com isso, lhe granjeava mais um ou dois cabelos brancos. Para ele, o amor filial não era cedência, e a mãe zangava-se a sério com tais teimosias.

Quando foi às sortes, o Vintém foi dado como apto e foi incorporado em infantaria, arma que dava a maior parte dos corpos para as picadas de África, alguns que por lá iam ficando.

Um pouco antes da incorporação, tinha apalavrado um namoro com uma jovem da Ribeira, cachopa asseada e com umas vessadas de herança. Nenhum deles era rico, mas o arranjo agradava a ambas as famílias e, já durante a recruta do António, os pais de uma e outra parte falavam na hipótese de um casório com bodas a festejar, quando ele voltasse dos 24 meses da comissão em África. Ainda não bem decidido, o Vintém parecia ser o único menos certo no contrato. Gostava dela, sim senhor, mas queria ver melhor onde parariam as modas.

Quando veio a guia de marcha, soube que pararia em Moçambique, na zona de Tete. Com o resto dos camaradas de lágrimas, seguiu no Niassa até Lourenço Marques e, depois, para o teatro de operações. Nas cartas que escrevia para casa e para a sua prometida, contava as suas noites de pesadelos. Aí viu de tudo e viu os horrores de quem morre e de quem mata. Não sabia porque estava ali, porque via pedaços de gente e sombras nos olhares. Havia dias de desespero e dias de descrença. Entre uns e outros, aproveitava todos os momentos em que podia sair do quartel e ir até ao povoado mais próximo, onde gostava de conviver com os locais, e começou a apreciar os olhares de cor de mel de Amélia, filha do chefe da aldeia. 

Essa atração deu lugar a um sério amor e as cartas para casa e para a sua prometida da Ribeira tornaram-se mais frias. Até que, por fim, numa delas, pediu desculpa e pôs fim à relação, dizendo-se apaixonado por outra mulher, com outra cor de pele. O escândalo foi grande e toda a gente dizia que aquilo era temporário e não passava de uma doença, de uma “febre de negra”, expressão muito usada na região. Os pais escreveram-lhe exatamente a diagnosticarem essa doença e falaram-lhe das suas suposições. 

Mas, como pode amor ser febre? Como pode amor ser doença?  O que o Vintém tinha encontrado em Amélia era a paz e a dignidade e, nos seus braços, o afeto. Poucos meses depois soube que ela estava grávida e a sua comissão estava mesmo a acabar. Não veria nascer o filho de ambos e a história parecia entrar num trilho já gasto de tantas outras que aconteceram nestas malhas de um império que se desfazia. Regressou sem eles, para enfrentar os sermões dos seus.

Mas o António Vintém era teimoso e não apagava o passado. Por isso, dois anos depois, no dia 24 de dezembro, descia a pé a Olaia, cheia de geada e codo, para ir à Meia-Légua, à paragem da carreira, esperar a Amélia. Tinha mexido céus e terra e usado a influência de todos quantos conhecia para a trazer para ao pé de si. Tinha, até, casado já por procuração e não esperava apenas uma mulher; esperava uma esposa e uma filha.

Quando a viu descer da carreira, com uma menina belíssima ao colo, de olhos guixos e amendoados, sentiu que tudo valeria a pena e que, nessa noite de Natal, teria mais um presépio perfeito em sua casa. 

Como podia tal amor ser febre?

ANTONINO SILVA


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

ENCONTRO COM A ARTE- PROSA Conto de NATAL

                                                                    NATAL

Era véspera do dia de consoada. A Pepa estava  triste. A avó tinha morrido no ano passado. Ela trazia sempre um punhadinho de farinha  de Navas Frias para fazer o alguidar de barro grande cheio de filhós. Assim que começava Dezembro, todos os dias punha de parte um dos ovos das suas galinhas, pois que, as marotas punham muito poucochinho nesta altura do ano. Era uma alegria para a Pepa quando a avó lhe pedia para ir mercar o açúcar ao comércio. E tinha sempre os tostões contadinhos e certos para lhe dar.  Lá ia ela aos "pintchos" pelo pontão até ao comércio, a aviar o recado à avó. 

     Hoje, a mãe também já tinha os ovos de lado. A ti Maurícia mandara-lhe um taleguinho de farinha que trouxera de Valverde. Ainda havia anis "escartchado"  na garrafa do guarda-loiça da sala e pó de canela... Só era preciso ir mercar o açúcar. Aí é que estava o problema!... A mãe não tinha dinheiro. Não podia mandar buscar fiado porque ainda não tinha ido pagar meio quartilho de petróleo e uma caixa de fósforos que lá devia há mais duma semana.  Bem rebuscara as algibeiras, a gaveta... mas nem um tostão preto encontrara.

Por fim, lá se encheu de coragem e mandou a Pepa pedir um cartucho de meio quilo de açúcar que logo pagava.  Só que o senhor Anacleto respondeu-lhe que não podia aviar porque a mãe ainda estava a dever desde o mês passado. 

     Os olhos da Pepa arrasaram-se de lágrimas. E se dera muitos pulinhos até lá, muito mais depressa voltou para casa. 

     No comércio estava a tia Maria. Tinha o dinheiro contadinho para um quilo de açúcar.  Pediu ao senhor Anacleto que lhe pusesse meio quilo em cada cartucho e saiu dali apressada. 

    Ainda a Pepa estava a contar à mãe o que tinha acontecido quando ela bateu com a aldraba na porta. 

     _ Quem é?  _ acorreu à porta a ti Zefa. _ Ai!, é vossemecê, ti Maria?! Entre, entre...

     _ Toma. Faz as filhós para a canalhita. Não te esqueças que o Natal é para os meninos pequenos! 

     Só houve um abraço porque as palavras ficaram "engasgadas" nas gargantas.

    _ Bem, tenho de ir, que ainda não fiz o caldo para o almoço.

     _ Deus lhe pague, ti Maria.

     A Pepa veio a correr e prometeu :

     _ Quando eu for grande vou fazer-lhe um alguidar cheio de filhós, está bem?!!!

    A tia Maria riu. 

     Passados muitos, muitos anos, num dia de Consoada, alguém bateu à porta.

      A Pepa viera de França passar o Natal à aldeia. Fizera um alguidar de filhós e viera ao Alentejo trazer a sua promessa à tia Maria.


Por Georgina Ferro


terça-feira, 16 de novembro de 2021

CORPO DE MAR - HÁ UMA MILENAR RELAÇÃO DA MULHER COM O MAR - Texto do Professor Renato Àvila COIMBRA

 Há uma milenar relação da mulher com o mar. As navegações mediterrânicas da idade clássica criaram mitos de divindades femininas de beleza e concupiscência em templos onde os navegantes celebravam o amor. E o imaginário dos poetas criou novas divindades míticas ligadas ao mar: as sereias, as ninfas, as nereidas tão bem plasmadas por Camões nessa imortal epopeia lírica que canta exaltando o peito ilustre lusitano – OS LUSÍADAS.  Lá encontramos as tágides, as deidades da bonança na tormentosa viagem do Gama e essa obra prima que é a alegoria da Ilha dos Amores.

A mulher é a vastidão criadora do mar, a claridade cristalina  do azul luminoso do céu, a força indómita das ondas do mar, a bonança e a doçura do líquido elemento beijando a areia da praia.


CORPO DE MAR


Em teu cor(po), meu amor, pressinto o mar

Em volutas de espuma e de rosas,

Bonanças que se espraiam preguiçosas,

Horizontes que se perdem no olhar.


Sereias mil me beijando ao luar,

Medusas que me cingem caprichosas,

Ninfas nuas dançando deleitosas

Ressacas de volúpia em preia-mar.


E quando minhas mãos acariciando

As ondas que se lançam em frenesim

Nas praias do teu corpo em descomando,


Um navio as amarras solta em mim,

Em águas buliçosas ondulando

Preste se vai por mar e céus sem fim.



quinta-feira, 23 de setembro de 2021

AINDA MAL ABRIA O LUSCO-FUSCO...TEXTO


 Ainda mal abria o lusco-fusco já lá iam as parceiras, de sacho ao ombro preso por uma das mãos, a caminho do "tchão". 

     A tia deixou-me o vestido lavado nas costas da cadeira, a água na bacia do lavatório para me lavar e a malga do café com leite e sopas migadas sobre a mesa. Quando já estivesse pronta podia ir fazer carava à mãe da senhora Isabel Augusta para a Zefinha ir fazendo a lide da casa. À hora da merenda, a tia viria buscar o açafate e podíamos ir juntas para eu ajudar, também, a apanhar as batatas.

     Ainda a tia fechava o portão do curral já eu assomava de combinação, desgrenhada e pé descalço ao varandim do balcão.

     _ Tia, deite-me a sua bênção. Já são horas de eu ir?!

     _ "Ai rábia te pele", podias ficar mais um poquenino na cama, cachopa! Porta-te bem, não sejas impachosa! Deus te abençoe. Só vais depois do sol dar na Lage da Lancha, está bem? E cala-te um poquenino, não enfades a Menina Zefinha!

     _ Não enfado, não senhora! Ela gosta muito de mim e eu faço tudo o que ela me manda.

     _ Ai meu "taneno", fica com Deus.

     Entrei, fui lavar a cara,  ou melhor, molhar os olhos e a cara, esfreguei duas vezes as mãos com o sabonete de madeiras do Oriente (que cheirava tão bem!) e passei-as por água, antes de as secar na toalha de linho pequenina que a tia me tinha feito com as abas de um lençol já poído no meio. Tinha o meu nome bordado a ponto de pé de flor e uma linda rendinha na ponta. Depois, voltei a dobrá-la e a colocá-la no lugar. Fui enfiar o vestido e coloquei as alpargatas, embora sem vontade, mas a tia não gostava que eu fosse descalça para casa de outras pessoas! Só depois fui para a cozinha. Comi as sopas a custo e tive a tentação das ir despejar para a pia das galinhas, mas sabia que a tia ia ficar zangada e isso é que eu não queria de forma alguma!...

     Nunca mais chegava o sol à Lage da Lancha! Naturalmente tinha-se esquecido de nascer! Até porque já se ouvia o chiar do cambão das noras para regar as hortas!  As vacas do senhor Doutor Esteves já lá iam a caminho do lameiro... 

     "Naturalmente o sol hoje não quer vir! A tia diz que no Inverno  às vezes não vem!... Afinal já lá vem! ", - gritei de mim para mim.

     E lá fui eu, de boneca dependurada da mão, aos saltinhos pelo largo do Enxido! 

     _ Menina Zefinha, já está levantada?

     _ Já sim, minha cachopita! Entra. O que queres comer?

     _ Eu já comi! Muito obrigada. A avó ainda está no quarto?    

    _ Ainda. Olha eu vou encher o cântaro antes dela acordar, está bem?

     _ E eu vou varrer o corredor, quer? A tia diz que eu já varro muito bem! 

     Lembrei-me do aviso da tia e calei-me um poquenino, que não seria por muito tempo não fosse a Zefinha sair apressada buscar água ao chafariz. Pois, por mais recomendação que me dessem eu dificilmente me lembrava de manter a boca fechada!...Ainda hoje, se não tomo tento, lá vou eu soltando a grafonola, mas prezo-me de não falar da vida alheia...

     Bem, vou ficar por aqui, senão ... 

Georgina Ferro