quinta-feira, 10 de março de 2022

UM DIA DE MARÇO

 Um dia de Março


 A minha tia, ainda bem cedinho, já fora ao curral buscar uns galhos e umas cepas de giesta para atiçar o lume. Varrera a pedra do lar com a vassoura de bracejo, apanhara a cinza para a pilheira, pusera um cepo grande lá atrás e aconchegou-lhe umas maravalhas e uns chamiços miudos. Pegou no fole e soprou o tição que ficara mortiço durante a noite, mas ainda aceso. Quando as maravalhas atearam, a tia soprou mais um poucochinho com a aba do avental a fazer de abano.

  Enquanto a chama avivava, foi à cantareira buscar o cântaro da água que tinha ido encher de véspera ao chafariz. Despejou-o em duas panelas de ferro e na cafeteira que pôs em redor do lume.

 Aproveitou o tempo enquanto a água ia começando a ferver e desceu novamente ao curral a levar o balde da vianda aos marranos pequeninos que tinham nascido na cortelha naquele Inverno; foi abrir  o portado do galinheiro; espalhou milho no curral para as galinhas e patos; tirou dois ou três ovos do ninho que guardou no bolso do avental e subiu as escaleiras.  

 Foi poisar os ovos à despensa e buscar o pó de café cevada. Arrimou a trempe sobre as brasas e pôs lá o tacho de esmalte com o leite para ferver. Não tardou a casa inteira ficar impregnada daquele aroma que me fazia pinchar da cama e correr para a cozinha. Já a tia  estava a puxar a mesa pequenina para perto da lareira. Pedi-lhe a bênção e ela pediu a Deus que me abençoasse. Depois, tirou uma caneca de água quente duma das  panelas e levou-a para a bacia do lavatório para eu lavar as mãos e a cara. Ajudou-me a pentear o cabelo e voltámos ambas para a cozinha. Eu pus as malgas na mesa, os paninhos, o pão e o talher de alumínio. A minha tia ia olhando a ver se estava tudo como “lhe era dado”. Mas, como quase sempre, o leite começara a derramar, o que nos fazia rir!... Mal a tia se distraía um “poquenino” a olhar para o lado ele parecia que adivinhava e saía do tacho!...

 O meu  tio, por sua vez,  também se levantara muito cedo. Já tinha ordenhado a Mimosa e trazido o leite acima. Descera novamente à carpintaria pois tinha pressa em acabar uns caixilhos para as janelas de uma casa. Fui pedir-lhe a bênção e chamá-lo para ir tomar o pequeno almoço. Minha tia dizia que ele era um pisco a comer e se não o chamássemos ele nem se lembrava da fome!... Quando subiu trouxe mais um braçado de lenha e foi lavar as mãos com água fria para a varanda do balcão. Ele dizia sempre que a água fria ativava o sangue!

 Depois do café, meu tio voltou à carpintaria. Eu e a tia ficámos na cozinha. Ela preparou a panela do almoço, fez o queijo da coalhada, lavou as malgas e os talheres que eu ia limpando com a rodilha, foi fazer a minha caminha, verificou a roupa que estava a acabar de secar, pôs novamente a mesa ... E eu ia fazendo as pequenas coisas que ela me pedia, pois “o trabalho do menino é poucochinho mas quem o perde é parvinho”!

 Pela manhã, o nevoeiro não deixava ver muito mais que um metro de lonjura! Mas, lá pelas dez badaladas do relógio do campanário, já se ouvia o tilintar das campainhas da Mourisca, da Malhada, da Castanha, da Tourina e de muitas outras vaquinhas que levavam um bamboleio mais apressado do que era costume em dias quentes e claros. Talvez esse desembaraço fosse pela hora ser  mais tardia ou pela vontade de poderem ir ao lameiro e sair da ”loja”. Embora o feno à manjedoura lhes fosse muito apetitoso penso que não havia nada que superasse aquele travo da erva fresquinha dos lameiros. 

 Também nós levámos a Mimosa ao lameiro do Prado Castelhano, mas só depois do almoço, porque aquele lameiro não era murado a toda a volta para poder ficar sozinha.  Então, eu tomei conta dela para a minha tia olhar pelas plantas que começavam a rebentar no Chão de Cima e apanhar algumas beldroegas para a vianda dos porquinhos. Eu adorava ir para aquele prado porque tinha uma ribeira lá ao fundo, de água muito cristalina e com rebolinhos e pedrinhas muito bonitas para o jogo do Meco ou das Cinco Chinas.  E a Mimosa portava-se tão bem que nunca me obrigava a fazer correrias para não a deixar abalar.

 O relógio do campanário avisou as cinco horas e nós apressámo-nos a voltar a casa. O tio já tinha feito a cama da Mimosa de “fieitos” limpos cobertos com palha de centeio bem seca. A tia correu até ao chafariz do Pio, nessa altura ainda não havia nenhuma fonte no Largo do Enxido, e foi encher o cântaro e o jarro do lavatório. Eu fui com ela e levei a minha cantarinha pequenina.

 Depois, voltou a praparar o lume para fazer o caldo escoado da noite, pôs a panela com água, descascou as batatas e foi lavar a chaminé do candeeiro, verificou-lhe o petróleo e a torcida e acendeu-o. O tio chegou, também, com o braçado de lenha para o serão. Ainda tinha que ir ordenhar a Mimosa, outra vez depois do jantar. 

  Não tardaram a soar as Trindades, pois o pôr-do-sol em Março é bem cedinho. Parámos tudo o que estávamos a fazer e rezámos as “Avé-Marias” com todo o respeito: de pé e com as mãos postas. 

 A seguir comeu-se o caldo escoado com pimentos curtidos e um bocadinho de chouriça e toucinho fritos. Havia queijo fresco e maçãs de Inverno se alguém quisesse. Tirou-se a mesa e começou o serão. 

 O tio ainda foi ouvir ler o correio que chegava na camioneta da carreira, não fossem os primos terem escrito alguma carta ou postal. Como estava já muito escuro levou a lanterna de mão. 

 A tia preparou um caçoilinho de barro com água. Pegou na roca e atou-lhe uma estriga. Tirou o fuso do lambril ao lado da chaminé, sentou-se, perto do lume, na sua cadeirinha de verga e começou a fiar ..............

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Georgina Ferro


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