segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

BAIXA DE COIMBRA....

       Maria José Nunes
(A nossa Baixa de Coimbra...agora e sempre)

domingo, 29 de dezembro de 2019

ESTÁTUAS DE COIMBRA VIII- GRUPO ESCULTÓRICO NA BIBLIOTECA U. C.

 Grupos de António Duarte na Biblioteca Geral,  este conjunto intenta celebrar a dignidade do conhecimento universal, facto que não é estranho à narrativa escultórica da Praça da Porta Férrea. Para isso, o escultor evoca, de forma muito sumária e linear, as tríades egípcias. Os dois grupos apresentam, cada um, três personagens idealizadas, frontais, firmes e simétricos, esboçando um movimento simples, com o avanço de cada uma das pernas esquerdas. Os rostos, de feições cúbicas, apresentam-se praticamente sem expressão, salvando-se um esboço muito ténue de um sorriso idêntico para todas as figuras. Os corpos não se esculpiram integralmente nus, por motivos presos com o decoro que assim no-lo impunha em Coimbra. Ainda assim, o autor viu-se obrigado a resumir o tamanho do peito das personagens femininas, dever que também coube a Barata Feyo na fronteira Safo que, apesar disso, não foi poupado às algazarras aquando da inauguração pública das peças
Net-Resumo do texto de Carla Alexandra Gonçalves
   Foto EG

sábado, 28 de dezembro de 2019

ANIVERSÁRIO

CARLOS  FALCÃO

28-12-1947

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A NOITE DAS ESTRELAS CADENTES ...





Restei eu ...

O local, que de dia se anima com as escolas e o riso das crianças, de noite é ermo. Ermo e escuro. Escuro e sem vida. Dobra - se um portão e, ao fundo de uma ladeira, um edifício com uma entrada larga e um painel grande e bem a propósito da cidade mondeguina. Não fora muitos dos seus utentes já a caminhar pela fronteira da Vida, a Casa de Repouso teria o brilho de um qualquer espaço de lazer. Mas não. Entramos e logo nos deparamos com quem caminha sem destino ou fazendo discursos à toa. Outros dormem e ainda outros, debruçados sobre mesas largas, vão usando lápis de cor nas flores que pintam em folhas brancas que lhes são distribuídas. O regresso à instrução primária. De velho se volta a menino. Também os que, na posse das faculdades, lêem o jornal da cidade e discutem ainda os problemas da sociedade a que pertencem e a quem generosamente deram o seu contributo numa vida activa de muitos anos. Naquela amálgama de afectos, muitas profissões. Gente com formação académica superior e outros nem tanto. Também os que, fechados em si próprios e alheados do que se passa à sua volta, foram nomes conhecidos na cidade coimbrã. A Noite de Consoada é mote para carta de alforria. Os mais afortunados, apoiados pelas pelas suas famílias que os vão buscar, regressam ao seu passado. Outros, ou porque as suas famílias já se extinguiram ou por incapacidade física ou psíquica, ficam a gravitar na órbita do seu desencanto e das memórias. Ontem, à Mesa da Consoada daquela Casa de Repouso, eram catorze. Quinze se contassem comigo que ali estava como familiar. Não queria que o meu residente jantasse sozinho e fiquei. Os outros, com lágrimas,  beijos e abraços sentidos, partiram. Restei eu.

A refeição que se come em silêncio. Apenas o som dos talheres e os funcionários de escala na noite que de forma diligente vão mimando este ou aquele na sua cadeira de rodas de cabeça pendente sobre o prato da sopa. Naquela mesa ali ao lado, alguém que conheci em tempos de outrora e que me diz muito em apreço. Ela, uma grande professora de matemática. E eu, um desorientado aluno na disciplina. Tempos de Liceu que não esqueço, quando recordo de a ver passar de pasta na mão, com o seu belo rosto e passada elegante. Ensinou-me a fazer equações – com esforço. Olho também a Elvira – nome fictício – que não tem casa nem família e deambula pelas mesas invocando o nome de Deus e me premiou com um beijo molhado na face. Limpa a boca com um lenço branco por causa da saliva e vem agradecer a minha presença no jantar, nesta época de emoções na sua pequena comunidade. Sim, naquela noite de estrelas cadentes. Depois da refeição e do bacalhau como prato obrigatório, começaram a levantar-se das mesas e a dirigirem-se aos quartos que a idade já pesa. Então parti. O Eurico, meu homónimo fardado de branco, foi abrir-me a porta da saída e mergulhei na noite fresca e escura. Rolando devagar enquanto guiava, fui observando as luzes da urbe em noite em que a chuva deu tréguas ao Natal. Nova ceia tinha à minha espera e ao abrir a porta de casa, o meu neto correu para mim de braços abertos e abracei -o. Então disse-lhe, que na viagem de regresso ao lar, ainda não tinha avistado o Pai Natal que de certeza virá. E não lhe menti, porque realmente não vi o trenó dourado do Homem das Barbas Brancas riscando os céus da cidade, porque o Bom Ansião existe e existirá sempre na mente das crianças e dos Homens de Boa Vontade. Mas ali, naquele momento e ao meu colo ainda com a chupeta na boca, eu descobri a serenidade emocional de que tanto necessitava naquela noite especial em que encontrei, no sorriso feliz e inocente do Miguel, o meu Menino Jesus.
QP                 

ANIVERSÁRIO

PAULO NOBRE

26-12-1938

Nesta data especial... 

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

SOLIDÃO INCONFESSADA

Porque o Natal ainda faz sentido, deixo-vos uma história que publiquei há anos. Cada Natal é de cada um e ninguém vive os Natais dos outros. Acredito que a fórmula da felicidade existe quando alguém diz que não trocaria o seu Natal pelo de ninguém. Eu não troco os meus. Não vejam esta história como algo triste; lembrem-se de que nessa noite de consoada ele foi feliz. Com votos de Boas Festas:

Solidão inconfessada:
Tinha ambos os filhos bem casados. Um até era soldado da GNR e o outro, já avô – era-se avô muito cedo e muito cedo se tinha a aparência de velho – era caseiro da quinta da Giroa. Tendo enviuvado depois que uma maleita no ventre da companheira a arrastara para o hospital de Lamego e daí para o cemitério de Melcões, decidiu que viveria só, distante dos filhos. Não por desamor, mas por carinho e afeto às paredes e terrão natal. As raízes eram demasiado fortes e tortas, mais resistentes do que as da piorna, que abraçam as pedras. Nenhum grito se lhe ouvira e se alguém lhe notasse um casal de vocábulos que não fossem apenas os da saudação e boa educação diária seria em dia de festa, depois da ingestão de mais aguardante do que a dose diária recomendada pelo médico. Sim, de médico e de louco todos temos um pouco e ele, mais do que é costume, tinha muito de cada. Como tinha muito de louco, tinha muito de médico e isso ditava que a aqua vitae lhe curasse todas as maleitas. Dividia os seus 88 anos por duas pernas andarilhas e incansáveis e alimentava-se frugalmente. Nas tabernas só pedia os copos de branquinha que apeguilhava com peles secas de bacalhau que escondia sempre nos bolsos puídos do casaco, coberto por décadas de sujidade. Visitava os filhos sempre que podia e as sementeiras, regas e colheitas lho permitiam. Fazia-o mormente nas festas de Nª Sr.ª da Saúde e na véspera de Natal, arrastando o corpo – raramente a vontade – para as terras alheias, onde eles moravam. Nessa véspera de Natal cumpria a tradição: logo pela manhã lavrou a neve e ao meio-dia sentava-se ao aconchego da lareira em casa do filho mais velho, gozando da companhia dos netos e bisnetos e enxugando as lágrimas de felicidade, ao contemplar a sua herança. Antes da ceia, da parte de tarde, desceu a Moimentinha e a felicidade abriu-lhe a goela, até ficar eufórico e quente. Quando voltou para casa do filho, consoou e então falou como nunca fizera. Cada frase lavrava um testamento e o insólito desfiar fez com que todos o ouvissem em profundo respeito. Falou e desfalou das águas, das contas que faltava pagar ao Carrapatoso ainda da batata da semente desse ano, dos contos de reis que guardava em obtusos locais da casa pobre. Disse da sua felicidade e nunca chorou a solidão. Pediram-lhe que dormisse lá. Recusou. Nunca o tinha feito e não o faria nessa noite. A memória da companheira esperava-o noutras paredes; não naquelas. Saiu sob a neve que caía abundante, mas serena, e decidiu atalhar pelo monte do Porto, cruzar o vale dos Fieiros e passar a Cadeirinha, chegando em sossego a Melcões, talvez já depois da meia-noite, “se Deus m’ajudar”. Na missa de Natal ninguém o via, logo ele, que nunca faltara. Telefonaram para a venda do Peliqueiro a perguntar se tinha passado a noite em casa do filho. Que não. Que tinha saído depois da ceia, para voltar a casa. À mesma hora em que costumava ajoelhar em frente ao altar, estava agora o Linhas rigidamente ajoelhado e debruçado sobre uma pedra, um pouco antes da Cadeirinha. Envolto pelo manto branco, enquanto a neve, indiferente, caía e o seu corpo, frio, perdia a cor



Antonino Silva

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS

ENCONTRO DE GERAÇÕES DESEJA A TODOS VÓS

FELIZ NATAL

FELIZ 2020 - BOAS FESTAS

ANIVERSÁRIO

MARIA JOSÉ ALMEIDA SOARES

23-12-1944

Nesta data especial...

"Encontro de Gerações" deseja

MUITAS FELICIDADES!

PARABÉNS!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

JOÃO SÓ ...





guerreiros urbanos ...

João Silveira nasceu em Belém, ali à beirinha do Tejo. Trabalha nos escritórios de um armazém de tecidos e todos os dias se levanta pelas sete horas da manhã. A higiene necessária, o café bebido à pressa, o pão que se come escada abaixo que o transporte não espera. Lá fora, o estrondo da cidade. Autocarros, elétricos e automóveis com o seu estridente buzinar são o sangue vivo da urbe indomável a que já está habituado. No transporte público apinhado de gente, consegue com custo lugar. De pé, como todos os dias, naquele amontoado de passageiros que se esforça num equilíbrio instável nas curvas apertadas do autocarro da Carris . Num solavanco a paragem. De novo a rua. De novo gente que se cruza apressada na rota dos seus destinos, esgrimindo argumentos inúteis contra o ponteiro das horas e dos minutos da ditadura do relógio. Depois a descida ao metropolitano que é hora de transbordo, mais uma vez engolido naquele bailado estranho de cidadãos anónimos que se digladiam na epopeia de sobreviver. O cais é escuro e soturno. Olha-se a boca do inferno, na esperança do ruido cavernoso que finalmente aparece. E lá vem ele, puxando as carruagens como num jogo infantil do Lego, silvando ao fundo do túnel com a sua luz sinistra, rasgando o ventre da cidade. João chegou finalmente ao armazém dos tecidos. Pontual, como sempre pretende ser. Depois, a burocracia dos recibos e das faturas impressas em papéis numa girândola de cores consoante o fornecedor, a tentar aligeirar a rotina de viver no esforço cinzento de todos os dias. O almoço frugal no pequeno café da esquina. Uma passagem de olhos menos interessada pelos cabeçalhos dos jornais que a imprensa escrita já cansa. Notícias sensacionalistas ou alarmantes, a convidar o leitor a comprar o matutino que laboriosamente é dado à estampa nas rotativas das máquinas gastas pelo uso nas madrugadas de uma urbe já adormecida, ou acordada nas vielas festivas de gente jovem que professa a religião da noite, de cerveja na mão e o trinado de um fado arrastado que se ouve nas ruas estreitas e escuras à luz de um candeeiro mortiço.

A tarde é gémea da manhã. Burocracia e mais burocracia e telefones a tocar num ritual que se repete todos os dias. Depois a tarde cai e são horas de regressar. É o recomeço da aventura. No transporte urbano lotado de gente silenciosa encarcerada no seu mundo interior de desencantos e preocupações, João olha absorto os rostos de mármore que o rodeiam e as luzes da urbe cosmopolita. E o colorido das montras natalícias a cintilar de lâmpadas intermitentes, que mascaram a sombra opaca da noite outonal. Viajando pelo emaranhado das ruas da capital, João Silveira navega também pelo seu passado e dos tempos de escola em que, introvertido e distante, observava os companheiros dum canto do pátio de recreio e que o apelidavam de “João Só”. Afinal, meditava na realidade atual do seu viver e da sua ilha de solidão rodeada de gente por todos os lados, como nas memórias de infância. Também os outros que o acompanham de regresso aos seus lares naquela nave de silêncios, são ilhas no seu mutismo e olhar perdido nos seus misteriosos pensamentos. Ao serão, em frente da televisão, as palavras e as imagens já não assustam. As tragédias da aldeia global passam por ele com a indiferença do cidadão comum barricado em si próprio, à espera de melhores dias que se calhar não virão . Lá fora, a noite é agora mais escura num céu estrelado e amanhã, quando o sol ressurgir por entre prédios sem alma e torres de betão, um novo recomeçar. A cabeça que se deita no travesseiro confortável e o sorriso brando com que se adormece de mais um dia ultrapassado na batalha contra um inimigo impiedoso e sem rosto.      

João Só, guerreiro urbano deste Tempo, venceu a cidade.
Q.P.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

UM NATAL QUE NUNCA ESQUEÇO

 Vindo do andar do baixo ela aspirava os cheiros do Natal próximo.
As fragrâncias das couves e do bacalhau a cozer, as dos coscorões, das azevias, das filhoses, dos sonhos, fritos e polvilhados com canela, subiam a escada e chegavam-lhe às narinas numa almálgama de aromas natalícios que lhe lembravam a festa que nessa noite iria trazer a sua casa familares e amigos.
Olhava uma vez mais o abat-jour com flores azuis que oscilava por cima da sua cama e sonhava com a madrugada seguinte em que o Menino Jesus deixaria, debaixo da chaminé, a prenda que ela lhe tinha pedido numa carta que um mês antes entregara ao seu Pai.
Ela imaginou o andar de baixo, como a Terra e que ela, no andar de cima, se encontrava no Céu.
Não a deixariam descer ao rés-do-chão, por causa da doença, mas ela acordaria a Mãe, bem cedo, para lha ir buscar.
Apesar dos pais a terem tentado dissuadir, por ela se encontrar muito doente, não abdicou mesmo assim de pedir uma bicicleta.
Nos seus dez anos de idade, estava, desde Agosto, acamada e muito doente. 
Os médicos já tinham explicado aos pais que ela não duraria muito, mas nenhum nenhum pai, nem especialmente nenhuma mãe, desistem da esperança de que os médicos estejam enganados.
No dia de Natal à tarde fui com os meus pais a casa dela onde costumavamos passar muitos fins de semana. A casa era mesmo junto à linha da Lousã, na Casa Branca e a amizade entre as nossas famílias resultava do facto de o meu pai fazer a escrita de seu pai, que tinha uma estância de madeiras perto das Nogueiras. 
Subi ao primeiro andar, dei um beijinho à Emilia, que me estendeu a mão branca de cêra, e me sorriu de olhos encovados e pisados.
Éramos da mesma idade e tão amigos!
Quantos sábados deambulámos pelo pinhal da encosta próxima da sua casa, a apanhar espargos, picando as mãos nos espinhos, para depois a sua mãe os cozinhar com ovos mexidos!
Recordei as nossas férias em Buarcos, dos passeios de mãos dadas na areia molhada da praia a ouvir o marulhar das ondas e a rimo-nos e arrepiarmo-nos com a espuma gelada da água que nos molhava os pés.
Tudo isso me veio à memória sentado na beira da sua cama, orando em silêncio a Deus para que curasse depressa aquela minha única e grande amiga.
Já me tinham dito que a leucemia de que padecia a levaria à morte muito em breve, mas eu não compreendia que Deus pudesse ser assim tão injusto e acreditava que haveríamos voltar a calcorrear alegremente as veredas do pinhal que tão bem conhecíamos.
No dia 1 de Janeiro seguinte,voltei a subir ao andar de cima para a ver, pela vez derradeira. 
Ainda hoje guardo essa imagem da minha querida amiga, deitada de costas, as mãos postas sobre o peito, de olhos fechados, poucos minutos antes de ser realizado o seu funeral para a Conchada onde ainda hoje visito os seus restos mortais, na Capela Mortuária, quando lá vou.

Não estou certo, mas na minha inocência infantil, pareceu-me, que nunca chegou a andar na bicicleta que o Menino Jesus lhe lhe trouxe nesse fatídico dia de Ano Novo, vê-la esboçar-me um leve sorriso antes de a levarem para o cemitério.
Um Natal que nunca esquecerei.



Rui Felicio

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

ACADEMIA DE MÚSICA CNM | Música Ativa - As Armas do Meu Adufe

CENTRO NORTON DE MATOS - COIMBRA

ESTÁTUAS DE COIMBRA - VII_ NA FACULDADE DE LETRAS

Na fachada do lado da Porta Férrea, encontram-se quatro estátuas do escultor Barata Feyo, que, para o observador colocado de frente para o edifício e da esquerda para a direita, representam a Eloquência, a Filosofia, a História e a Poesia. As cinco portas dessa fachada são em ferro forjado, com aplicações de bronze, cujos pequenos trinta motivos simbolizam temas clássicos relativos aos estudos ministrados na Faculdade. No vestíbulo de honra, encontram-se duas pinturas a fresco: à esquerda, a alegoria da Antiguidade Clássica, obra do pintor Joaquim Rebocho e, à direita, a alegoria da Glorificação do Génio Português, obra do pintor Severo Portela, medindo 40 metros quadrados cada uma. Muito recentemente, ambas foram restauradas e protegidas


sábado, 14 de dezembro de 2019

A MARIA DOS ANJOS

Carrega os anos, as agruras, e os poucos momentos de felicidade que passou…
Era uma rapariga magra, morena de rosto esbelto e sorridente, longos cabelos, que uma grossa trança enrolava na cabeça…
Mas quando a soltava e desmanchava os cabelos cobriam-lhe os joelhos…
Uma bela rapariga por muitos cobiçada…
Nos bailes os pretendentes eram muitos…
Muitas vezes for assediada para vender a sua trança… mas nunca o fez…
Um dia depois do seu sexto filho cortou-a pela metade e estava guardada na arca velha, num velho lençol de linho entre as rocas de alfazema…
Os anos foram passando, os filhos foram todos embora procurando vida melhor, do que aquela do campo, em que o suor só dava para as migalhas da broa…
O marido morreu com a “pneumónica”…
E a partir daí a Maria dos Anjos vive e sobrevive curvada nos dias, noites, manhãs e madrugadas, apertando a terra, a enxada, o cântaro, a lenha, os cavacos e as ganhotas para o lume…
À noite, à fogueira onde faz o caldo na panela de ferro e na sua solidão, medita o que foi a sua vida…
Tudo o que a vida lhe deu e tudo o que ela lhe levou…
Apenas o Farrusco que se enrosca nas suas pernas e ronrona é a sua companhia e espera as côdeas da broa num pingo de leite aguado… ou um pouco de caldo com os feijões e couves…
A saudade aperta-lhe o coração…
Mete a mão ao bolso do avental e agarra o velho terço, que não tem conta as vezes que as contas lhe passaram em seus dedos…
É um outro sustento…
O sustento da alma…
Ela sente então, que está ali mais alguém, a quem não pode ver com os olhos da cara…
Mas que estão…estão… não fora o velho candeeiro de petróleo aumentar a intensidade, sem que ela ou alguém o fizesse…
E a Maria dos Anjos sente os seus anjos perfeitamente…

Tiló Henriques

 Foto de Rui Pires
Não tem qualquer relação com o texto a senhora da foto
Ela apenas ilustra a vida de tantas Mulheres do seu tempo...

Valorosas guerreiras.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

CURIOSIDADES - MÁXIMAS PEDAGÓGICAS DAS NOSSAS MÃES

             MÁXIMAS PEDAGÓGICAS DAS NOSSAS MÃES

                                     Sobre a retidão
" EU ENDIREITO-TE, NEM QUE SEJA COM UM CARGA
                                 DE PORRADA"

                              Sobre a liderança
               " PORQUE EU DISSE QUE É ASSIM"

                              Sobre a hierarquia
                   "QUEM MANDA AQUI SOU EU"

                                Sobre a zoologia
"QUANDO UM BURRO FALA, O OUTRO BAIXA                                                    AS  ORELHAS"

                              Sobre a motivação
"CONTINUA A CHORAR E EU DOU-TE UMA BOA                                   RAZÃO  PARA CHORARES"

                             Sobre a antecipação
 " ESPERA SÓ ATÉ AO TEU PAI CHEGAR A CASA"

                                Sobre a genética
                      "IGUALZINHO AO TEU PAI"

                                 Sobre a religião
"REZA PARA QUE ESSA NÓDOA SAIA DA TOALHA"

                           Sobre a determinação
"FICAS AÍ SENTADO ATÉ TERMINARES DE COMER
                        O QUE TENS NO PRATO"

                       Sobre coordenação motora
         "VAI ARRUMAR OS BRINQUEDOS! APANHA                                            UM POR UM!"

                           Sobre raciocínio lógico
"SE CAÍRES DESSA ÁRVORE, PARTES O PESCOÇO
            E EM CIMA AINDA LEVAS UMA SOVA!"

Sugerida por Nela Dias


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

ENCONTRO COM A ARTE - HOMENAGEM À MÚSICA


     Escultura de Vasco Berardo no Parque Verde de Coimbra.

  Fotos de Daisy Moreirinhas


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

LEVASTE A CHUVA NOS BOLSOS ...






Numa manhã de maio partiste para o Sono Eterno. Mereces esse sono reparador pela tua alma inquieta e inconformada. Viveste num planeta que não era o teu e numa galáxia que não era a tua, aprisionado pelas grilhetas de uma sociedade que não te compreendia nem te compreende. Vestiste na vida o preto carregado do luto. O luto do teu ser atormentado. Derramaste pelos livros de poesia que escreveste o sentir da tua rima negra. O desencanto e a descrença que se visitam e revisitam página a página naquele labirinto de emoções pardas em que nos perdemos como náufragos na procura de um porto de abrigo que não vislumbramos. Morremos contigo e sentimos-nos levados pela tua mão pela diáspora do Universo e do Eterno.

Não te conheci nesta vida, José António, mas queria. Queria muito. Queria falar-te do teu pai. Queria dizer-te quanto ele significou na minha infância Choupalina. Queria envolver-te a ti e a ele num abraço fraterno. Mas sei que é impossível, pois tal como tu também ele partiu. Partiu cedo quando ainda muito tinha a esperar da vida. Afinal a morte dos homens comuns, que viajam anónimos no rasto da cauda luminosa de um cometa. Mas tu, Zé António, nunca viveste amarrado ao cais da nossa existência opaca. Apenas emprestaste a este mundo o corpo que assinalava a tua presença física, passeando por aí absorto e ausente, trazendo contigo "a chuva nos bolsos". Porque o teu espírito e a tua alma nunca pisaram esta nau terrena do conformismo do nosso penar. A chuva que levaste nos bolsos, talvez seja uma fonte de lágrimas. Lágrimas da tua impotência em mudar o mundo, de vivermos em sociedade nas asas de um sonho sempre inacabado. Sabes – ou talvez não  – quanto a tua família honrada e leal significou no meu passado remoto. Talvez por isso, quando te li e reli, senti a necessidade de falar contigo estejas onde estiveres. Foste para mim uma grande surpresa na genialidade da tua poesia. O Cantar de um Homem culto e superior, desenraizado e distante, que é só privilégio de todos os pensadores geniais. E que melhor forma terei para te homenagear, do que navegar nessa barca de desconforto e de solidão interior, remando contigo no alvoroço das tuas palavras cor da cinza :

“ são horas de me erguer e caminhar fora do túmulo das palavras no segredo desse lugar único em que a escuridão da noite parece eterna claridade”.

Abraço – te, José António.

Quito Pereira      

domingo, 8 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL


  Aquela caravana de ciganos parou, nas vésperas da Consoada, mesmo no adro da igreja onde iriam arder os cepos de Natal.
Vinham todos tiritando de frio naquelas roupas longas, sobre usadas e demasiado frescas para o Inverno tão rigoroso.
As pessoas da aldeia não acharam graça nenhuma ao verem aquela cabilda ali acampada em dia de festa, onde todos iriam passar para a Missa do Galo.
As crianças, de cabelo desgrenhado, carinhas avermelhadas, olhos esbugalhados fixos nas luzes da Igreja, esperavam a oportunidade de se esgueirarem para dentro daquelas casinhas pequeninas, os confessionários, ou para pertinho daqueles candeeiros a gás que iluminavam e aqueciam. Os mais velhos, olhavam para a saca de serapilheira onde poderiam meter algum daqueles candelabros doirados, que dariam para vender por bom preço. Porque é que Deus Menino podia ter tanto luxo e eles nem podiam parar no empedrado do seu átrio?!...
Os homens da aldeia foram chamar o sargento da guarda fiscal para correr com aquela pandilha! Não era decente haver gente daquela junto da casa de Deus.
Nesse mesmo momento, um menino de cabelos doirados, olhos da cor do céu, pé descalço, cara suja, assomou junto deles, vindo, não sabemos de onde!...E perguntou:
_ Que mal vos faz ter esta gente por perto? Sujam a vossa roupa? O lume deixa de vos aquecer por eles se acalentarem também?!
As pessoas olhavam incrédulas e nem ousavam ripostar. Aquela criança atraía-os e amedrontava-os.
_ Não seria melhor, perguntou o Menino, se fossem buscar as vossas ceias e pusessem uma só mesa aqui, para todos vós? Podíeis festejar o Natal em alegria, com verdadeiro Amor. Essa seria a vossa melhor Missa do Galo.
Como por magia, todos acarretaram o que tinham em suas casas: travessas de batatas com bacalhau e couves, filhós, azevias, arroz doce, rabanadas… O povo cigano entoou cantos maravilhosos! Houve rodas de mão dada, risos, gargalhadas sorrisos…
Nessa aldeia, a minha aldeia, ainda hoje se festeja assim o Natal!

Georgina Ferro

sábado, 7 de dezembro de 2019

ESTÁTUAS DE COIMBRA - VI - BISSAIA BARRETO

Estátua em bronze erguida em homenagem ao eminente professor e médico-cirurgião Bissaya Barreto (1886-1974). A base é em pedra e apresenta a seguinte inscrição: "Façamos felizes as crianças da nossa terra".
Obra da autoria de Vasco Berardo. 




sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Enfim, sonho a ser realizado!


Iniciarei este texto com dois “conceitos” do que seja o sonho!

Primeiro, para Freud “os sonhos noturnos são gerados, na busca pela realização de um desejo reprimido”,  “espaço para realizar desejos inconscientes reprimidos”.
Segundo, o pesquisador James Allan Hobson considerou "os sonhos como um mero subproduto da atividade cerebral noturna".

Porém, outras  correntes veem o sonho de modo diverso. Os neurocientistas, de modo geral, afirmam que o sonho é apenas uma espécie de tráfego de informação sem sentido que tem por função manter o cérebro em ordem.

Pois bem! Teorias e estudos à parte, eu vou realizar um sonho. Se é um subproduto da atividade cerebral noturna, que seja! 
É um desejo desejado (e não reprimido!) durante quase uma década, e que nesse tempo foi sensivelmente estimulado pela vontade em conhecer uma malta simpática do outro lado do Oceano Atlântico. De lucro, conhecer os lugares que, por tantas vezes, fizeram-se de cenários ao meu imaginário: o quintal do Paulo Moura (e, claro, o Dom, Celeste, Daisy e Alfredo “surrupiando”, segundo o Paulo, os figos ainda verdes na figueira); o restaurante Samambaia onde a alegria imperava nos almoços de domingo; as ruas e praças de Coimbra; o jardim da Celeste; a ria de Aveiro e tantos lugares que se  tornaram tão familiares para mim.

Está, enfim, chegando o momento de conhecer a todos. Lamentando muito por não ter ido há mais tempo de conhecer o Tonito e o Viana. Aprendi a gostar dessa dupla, que, de início eu não sabia, pelas fotografias, decifrar quem era quem.

Sei que todos têm seus afazeres, mas seria um imenso prazer dar um abraço em todos, que, de uma forma ou outra, mantive contato pelo Blog Encontro de Gerações, como: Quito, São Vaz, Olga, SãoRosas (ulalá!), Olinda, Celeste, Dom, Daisy, Alfredo, Carlos Carvalho e esposa...e me desculpem se omiti algum.

Dia 03 de janeiro de 2020 sairei de Manaus rumo  Lisboa. Agradeço pelo carinho que Daisy e Alfredo estão a dedicar para minha estada em Aveiro, de 07 a 11.

Naturalmente, não quero levar  “bugigangas” daqui de Manaus para vocês. Porém, se existe algum desejo incontido, incontrolável, que não seja perecível e que não tenha problemas na Alfândega (nem de cá e nem de lá)... a hora é agora!

SãoRosas, por favor, controle-se!


Até breve

Chama a Mamãe! 


Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Sonho

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NOTÍCIAS DE COIMBRA - ILUMINAÇÕES DE NATAL

    Na Portagem
    Rua da Sofia
   Praça 8 de Maio- Câmara
    Praça 8 de Maio e entrada ruas Baixinha
    Praça 8 de Maio
   Rua Visconde da Luz 
   Rua Ferreira Borges 
    Praça do Comércio
   Ponte Santa Clara
    Pista de gelo instalada no Terreiro da Erva

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

NATAL EM ARMAS ...






O Mimoso era um homem introvertido. Refém dos seus misteriosos pensamentos falava pouco. O seu distanciamento para com os camaradas de armas daquele pequeno aquartelamento lá para os lados do Gabu fizeram dele uma ilha - uma ilha de solidão. Tão estranho comportamento abriu um fosso no relacionamento com a pequena comunidade militar do leste da Guiné. Alguns deitavam-se a adivinhar. Uns diziam que era feitio, outros talvez um desgosto de amor. Naquele dia, já próximo da época natalícia, o Cleto teve um azar. Numa vinda ao Gabu num camião militar, um buraco na estrada fez o monstro dar um enorme solavanco. O Cleto, displicentemente sentado em cima de um guarda – lamas, foi cuspido violentamente da viatura. Perdeu os sentidos e de imediato foi providenciado o transporte para o Hospital de Bissau, o que só veio a acontecer no dia seguinte por via aérea. O mal não era de monta e, cinco dias depois, estava de regresso ao aquartelamento. Para além de um forte hematoma na testa, o Cleto trazia um pé engessado e deslocava-se com grande dificuldade de muletas. Passava muito tempo no seu catre, dizendo mal da sua desdita. Na noite de Consoada, o João Cleto estava desmoralizado. A evolução do seu estado de saúde não se fazia sentir. Recusou a companhia dos amigos para a ceia de Natal e ali ficou no seu abrigo subterrâneo, a coberto do fogo inimigo que poderia aparecer da escuridão do capim. Naquele silêncio, meditando sobre aquela noite tão especial, viu com surpresa abeirar-se dele o Mimoso com o seu porte avantajado. Ficou expectante. Afinal o camarada era o tal companheiro que não procurava a amizade de ninguém. Então o transmontano, que trazia debaixo do braço um embrulho de papel grosso, sentou-se junto dele. Cuidadosamente abriu a encomenda que exalava o cheiro dos belos enchidos que a família lhe tinha enviado daquele pedaço de Portugal, para que o Mimoso tivesse o aroma e os sabores da sua terra de origem em época natalícia. Fez então menção de dividir aquela merenda com o camarada agora debilitado de corpo e de alma. O João Cleto não teve coragem de recusar o convite para aquela ceia surpreendente e improvisada. Então, tendo como testemunhas as estrelas cintilantes que polvilhavam o céu que se via pela vigia do abrigo, os dois homens comeram pausadamente e conversaram em ameno convívio, honrando a noite mágica do Deus Menino.
Q.P.
    

domingo, 1 de dezembro de 2019

ESTÁTUAS DE COIMBRA -I V- RAINHA SANTA

A imagem da Rainha Santa Isabel, obra do escultor Teixeira Lopes, que havia sido retirada para o Coro Baixo como medida cautelar, encontra-se novamente exposta à veneração do público, resguardada, junto às grades do Coro Baixo, ao fundo da Igreja da Rainha Santa. As obras de limpeza, desinfestação e restauro do retábulo-mor estão atrasadas devido, por um lado, ao extremo cuidado e exigência que a Confraria teve na selecção dos melhores orçamentos e empresas que se candidataram à realização dos trabalhos, e, por outro lado, devido aos complexos procedimentos administrativos exigidos pelo facto de a Igreja da Rainha Santa Isabel estar classificada como monumento nacional. Em atenção a este atraso, a Mesa da Confraria achou por bem tentar encontrar uma solução que agradasse aos fiéis da Rainha Santa, sem, todavia, comprometer a integridade da escultura, enquanto as obras não começam. No entanto, convém sublinhar que os verdadeiros devotos da Rainha Santa sabem que a maior relíquia da Padroeira de Coimbra é constituída pelo venerando corpo incorrupto de Santa Isabel, encerrado no túmulo que está sobre o altar. E este nunca sairá do seu local.
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  Fotos: EG