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quarta-feira, 16 de outubro de 2024

SABOR AMARGO-TEXTO DE KITO PEREIRA- SOBRE BAIRRO NORTON MATOS- COIMBRA

SABOR AMARGO ...

Quando o Alípio me disse que aquela caixa de farinha "Amparo" trazia brinde não me mentiu. Chegado a casa neste meu bairro de todas as memórias, abri sofregamente o pacote e lá vinha uma miniatura quase microscópica de um cãozinho em plástico. Uma insignificância, mas que aos meus olhos de criança era como que uma dádiva do mundo. Do meu mundo. Do meu mundo de um menino em calções que lançava papagaios de papel no "Cavalo Selvagem ". Do meu mundo de correr atrás de uma bola colorida. Do meu mundo de gargalhadas de felicidade sentado na sela de um cavalinho de carrossel.

Meu Bairro meu sangue. Meu bairro de onde um dia parti como um caminhante da Vida. A mala na mão de um soldado sem pátria que um dia fui. Longe, lá longe. A mala na mão no dia em que migrei para a zona mais raiana, onde constatei outras realidades e fiz amigos. Mas o Bairro, sempre o Bairro, como cais dos meus afetos e das minhas raízes choupalinas. De mala na mão voltei mas o cabelo embranqueceu. Olhei o Bairro e choquei de frente com uma nova realidade. As crianças cresceram e partiram. Alguns para a capital do reino na esperança de melhores condições de vida. Outros ficaram. Outros partiram e voltaram. Tal como eu.

E ali, na zona comercial do Bairro, fundámos a sala de estar da cidade. Ponto de encontro de tertúlia. Entre dois cafés e um pastel de nata se fala do passado e do presente. Perguntamos do futuro. Conversas que só para nós fazem sentido. Quem se interessa pelo nosso baú das memórias ? Ninguém. Apenas nós. Mas ali, naquele pequeno rincão bairradino, cruzamos afetos e fraternidade. Ali podemos comprar flores para dias festivos. Ali olhamos o talho e o Zé na sua bata branca muito orgulhoso de também pegar no Andor da Rainha Santa. O Bruno da loja dos jornais. E o jovem Candeias com a sua airosa barbearia onde me sento à espera de vez a ler as notícias do "Diário de Coimbra. Ao lado da loja do Candeias, entramos na livraria. Olhamos este ou aquele exemplar cujo título nos suscita curiosidade. Abrimos o livro e lemos uma qualquer passagem da página quinze, vinte ou trinta. E depois de o pagarmos, saímos com aquele nosso novo amigo debaixo do braço.

A mercearia do Lindão vai fechar. E ele, o Lindão, deu-me a notícia de olhos pregados no chão. Não por falta de clientela, mas poque ao que afirma o prédio vai ser vendido. E a sua mercearia vai partir para outro ponto já referenciado da cidade. Foram cinco anos de labuta. Cinco anos da sua cordialidade. Uma efémera passagem no compêndio das lojas míticas do bairro. Pequenas lojas do passado mas que deixaram rasto em todos os que vivenciaram aqueles tempos e amam o Bairro. O nosso Bairro. Resistir ao triturar dos tempos é a palavra de ordem. Com regozijo vemos o restaurante Norton manter a sua clientela. E o Samambaia voltou a abrir os seus chapéus-de-sol na esplanada. 

O fechar de uma porta não é um fechar de vida. Mas fica sempre um sabor amargo. Mas talvez ali, um qualquer dia, um novo espaço renasça das cinzas. Porque o Bairro, o nosso Bairro, tem uma história e um passado. Urge defendê-lo. E nós, os que povoamos este nosso universo neste cantinho da cidade, temos a obrigação de ajudar o pequeno comércio para que sobreviva.

Queremos um Bairro ativo de portas abertas. Recusamos um Bairro desfalecido de portas fechadas.

Kito Pereira

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

POR TERRAS DO INFANTE...

 

POR TERRAS DO INFANTE …

Deste recanto da Europa olho o mar. E vejo uma cidade pintada de branco a espreguiçar-se pelo aparato dos dias de verão. A urbe parece agora levantar-se de uma longa convalescença. Das ruas desertas. Das lojas desertas. Dos restaurantes desertos. Da minha varanda alta oiço o alvoroço da cidade. Que o mesmo é dizer que Lagos regressou à vida. Porém, há uma consciência generalizada que há uma batalha dura pela frente e um outono e inverno de combate. A Nice – diminutivo do doce nome de Eunice - de baixa estatura, olha-me de rosto cansado, encostada ao balcão do seu pequeno café. Argumenta das dificuldades da vida e das três semanas que o seu estabelecimento esteve fechado. Mas não é de virar a cara à luta. Fala com convicção no que diz e é imperativa nas suas opiniões. Trata-me por “vizinho”, dos anos que nos conhecemos e da relação entre uma varanda de um sexto andar de um prédio com um estabelecimento de cafetaria no seu sopé que é o dela. Uma espécie de romance de “Romeu e Julieta” dos tempos modernos, por entre “bicas”, “galões”, torradas de pão quente a estalar e “Bolas de Berlim” que nos enchem a alma de caminhantes deste Tempo de lazer. Subo agora a um morro e olho a praia da minha vida. Do alto, avalio um parque de automóveis lotado e olho desconfiado o areal. Porém, a minha rota é o restaurante a derramar-se pelas areias junto ao mar. É o meu refúgio do Pedro. Chegado à entrada, sento-me na varanda a observar o horizonte e os barcos que deslizam no oceano calmo. Enxames de gente gozam de um Atlântico gentil. Na mesa, um jarro de vinho branco bem fresco e umas ameijôas à “Bolhão Pato” como preâmbulo de um almoço com aroma a maresia. De conversar com duas simpáticas francesas já de idade risonha e de fazer um brinde à vida nestes tempos conturbados. Da varanda da casa dos meus avós maternos na cosmopolita Lisboa, à varanda do meu lazer em Lagos, vai uma onda de saudade. Da saudade de quem perdi. Desta cidade algarvia por entre muralhas por quem me apaixonei ainda tenra criança e com quem há várias décadas casei. Tenho como padrinho de casamento o Infante de Sagres. Tenho como madrinha a brisa suave da maresia. E hoje – 29 de Julho do Ano da Graça de 2O2O - de novo deitado no meu berço emprestado, olho ao longe as alvas velas dos barcos de recreio e bendigo uma Pátria que é a minha e que tem a Bênção Divina de abraçar o  mar...

Lagos, 29 de Julho de 2O2O

Kito Pereira                

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

CARTA ABERTA A QUEM PARTIU...




António

Hoje, por duas vezes, passei junto a tua casa. E ainda sem saber da tua partida, as janelas fechadas e o teu velho carro, deram-me um mau pressentimento. Eu sabia que estavas mal. Muito mal. Mas há sempre uma esperança vaga que não se cumpriu. Eu vinha do Café Vasco da Gama, e tinha confidenciado ao Fernando Rafael que iria ver-te nesta tarde. Mas os meus projetos desvaneceram-se. Uma chamada vinda do fundo de Portugal, dizia-me que o teu Tempo acabara pela madrugada.

Estou triste, António. Muito triste. Custa-me a digerir esta certeza universal. Afinal, quase todos os dias conversávamos e tu, nesse jeito que te era tão peculiar, lá me ias falando das coisas da vida, enquanto calcorreávamos a rua Vasco da Gama ao encontro dos amigos. 

Lembro que nos últimos meses, a tua solidão se tornou uma obsessão. E eu recordava-te que a tua âncora sentimental estava a sul. Muito a sul. Por quem te amava e te ama. Mas também tinhas os amigos. Porque tu, António, eras parte de nós. 

Nós, este grupo domingueiro, que se junta para tentar varrer as suas preocupações semanais. Nós, que brindamos de taça de vinho ao alto, aos amigos presentes e ausentes. A tua cadeira António, é agora a dos ausentes que estão sempre presentes. Porque nós, meu amigo, não somos pessoas de esquecer quem estimámos e estimamos.

Desculpa esta carta mal amanhada. Mas estou a escrever-te depois de um dia cansativo. Estou com a cabeça vazia e o coração também. Mas precisava de falar contigo.  Dizer-te na cara com a frontalidade que também tinhas, que o teu feitio era difícil. Por vezes davas cabo da minha paciência. De outras vezes, um coração dócil. Vi-te chorar António, no funeral da uma amiga nossa, que ainda tanto tinha para viver. 

Mas entre nós, os teus amigos de Coimbra e deste Bairro que é o teu,  há uma opinião generalizada e pacífica: eras um homem de sentimentos nobres, um cidadão de uma integridade e honestidade a toda a prova. Por isso, mas nem só por isso, todos gostamos de ti.

Fica bem, António. De preferência na companhia de uma Divindade qualquer, porque nestas coisas do Altamente como tu dizias, nunca foste esquisito. Eu, caro companheiro, não sei até quando ainda por aqui fico neste país que é o nosso, onde tudo está tratado e nada resolvido, como tu também dizias.
O teu Amigo
Quito Pereira   

sábado, 16 de setembro de 2017

REVISTA DE IMPRENSA....

...o que talvez muitos Conimbricenses  não saibam, mas o JORNAL DO FUNDÃO esclarece! E assim ficamos a saber a quem se deve o "ROMÂNTICO CHOUPAL

  Recorte enviado pelo QUITO PEREIRA



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

TREINO



Uma equipa do "Encontro de Gerações" formada por Fernando Rafael e Quito Pereira, encontra-se já a treinar para o próximo Rali de Portugal como demonstra a fotografia tirada na classificativa de Fafe. O carro foi-nos cedido gentilmente por um sucateiro, uma vez que o Senhor Engenheiro Paulo Moura se recusou a emprestar-nos o carro dele e assim escusávamos de rebentar com a suspensão dos nossos. Quem diz a verdade não merece castigo ... F. Rafael e Q. Pereira, (Respectivamente Piloto e Co - piloto - sangue RH Vinhos Messias)


Foto de Zé Filipe

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ENCONTRE DE GERAÇÕES MEMÓRIAS-2010- Texto de Quito Pereira

A DIFÍCIL ARTE DE FAZER RIR!

                                                    Octávio de Matos ...e não só ... “…                                                           
“…Eu sei que tenho um jeito, meio estúpido de ser..”, assim diz a canção da brasileira Maria Bethânia. Por vezes, penso que esta frase me assenta como uma luva. Explico-vos: emociono-me com facilidade. E, ontem à noite, quando no anfiteatro ao ar livre de Lagos, se apresentava uma “Revista” com um elenco conhecido, não pude deixar de sentir uma estranha emoção, quando vi entrar em palco o popular actor Octávio de Matos. Há anos, há mesmo muitos anos, tive a oportunidade de o ver representar numa sala de espectáculos lisboeta. E ontem, por cerca de duas horas, a nossa trajectória de novo coincidiu nos caminhos da vida. Ele, como actor, e eu como espectador do seu talento. Os anos, embranqueceram-lhe o cabelo. E está um pouco mais anafado. Mas a graça, essa, continua intacta. Melhor dizendo: refinou-se. É um dotado na arte de representar a “Revista à Portuguesa”. E naquela noite quente de Lagos, bem acompanhado de uma outra Senhora do teatro de Revista -Natalina José – Octávio de Matos deu largas à sua extraordinária comicidade. É justo de referir aqui, o grupo de novos actores, que ajudaram, em muito, à festa. De salientar que o anfiteatro estava bem composto, o que, só por si, dá logo outro colorido ao espectáculo. Rapidamente Octávio de Matos conquistou as simpatias do público. Pequeno de tamanho, mas enorme nessa arte difícil de pisar um palco, falava para a plateia em delírio, metendo “buchas” que nada tinham a ver com o papel a desempenhar. Resultado: os artistas que contracenavam com ele, desfaziam-se também a rir, e espectáculo ficava parado. Octávio, ria-se também, e dizia para Natalina José:“de que é que te estás a rir? … aqui só tem direito a rir o público, que pagou bilhete...” E ainda se riam mais. Foi uma noite de rábulas bem construídas, umas atrás das outras. De permeio, fado lisboeta cantado por uma jovem de excelente voz, em homenagem a Amália. Já quase no final do espectáculo, numa rábula sobreperguntas escusadas”, Octávio de Matos, beija – ou faz que beija – uma actriz nova e “muito bem dotada” , empregada lá de casa, e entra Natalina José, que faz o papel de mulher dele, e lhe diz de olhos arregalados e voz agreste:”… António, estás a beijar a criada???!!!..".e ele responde com aquele seu trejeito de cara impagável e voz esganiçada: ”… não filha, estou a beijar o Cavaco Silva…”. Já no final, em tom coloquial, falou com o público. O actor despiu o seu manto de fantasia. Era de novo o cidadão comum. Como todos os que ali comungávamos daquele momento. Fiquei com a ideia de ser um excelente ser humano. E pude observar o carinho com que era tratado por todos os outros. Novos, ou menos novos. Natalina José chamou-lhe “irmão”, companheiro de trabalho de uma vida. Afinal, de uma vida consagrada ao Teatro de Revista . Aquele que é considerado, por alguns intelectuais da nossa praça, o parente pobre do nosso teatro. Mas, na verdade, em tempos que não são assim tão remotos, foi aquele género de espectáculo que mais eco fez do nosso mau estar colectivo, quando partíamos para Sul, tentando contrariar os Ventos Da História. Muitos destes actores, estiveram na primeira linha de combate, alguns sofrendo os dissabores da ousadia. E assim nos despedimos. Não sei se as nossas órbitas de vida se voltarão a cruzar. Mas, se nunca mais nos voltarmos a ver, obrigado Octávio de Matos pelo muito do que deu - e continua a dar - ao teatro português.
Quito Pereira 

Reposição por EG                                                                                                                                                     

sábado, 23 de abril de 2016

PASSATEMPO ...

Mas o que será que estes maduros em traje de gala estarão a ver e fotografar ? Aqui estão as hipóteses:

a) O cheque das ajudas de custo do Quito e do Viana , que o Castelão não paga ...
b) O Alfredo a tocar e a cantar o fadinho do "Embuçado" ...
c) A "Bota Cansada" a subir o Everest, com o Paulo Moura à frente, com o nariz gelado como um bacalhau pescado na Terra Nova ...
d) A inauguração do mural da Lucinda, nas Escadas de um tal Bartolomeu...
e) O Chico Torreira a praticar hóquei no gelo ...
f) Entrega protocolar do Castelo Penela a Dom Fernando de Rafael, Conde de Penela e Visconde do Rabaçal,primeiro na sucessão ao trono de rei do Avelar ...
g) A Ló a discursar emocionada na Festa dos Antigos alunos do Liceu Dona Maria ...
h) A Briosa pouco briosa a treinar para a Segunda Divisão ...
i) A "Chama a Mamãe" a praticar asa - delta  nos céus de Manaus ...

O vencedor deste fabuloso passatempo, tem como prémio pegar um touro de 8OO quilos na Monumental de Santarém, a convite do grupo de forcados local. Os tratamentos de enfermaria estarão a cargo desta espécie de blog. Concorra já !!!!
Quito Pereira   

sexta-feira, 8 de abril de 2016

VOLTAR ...





 (foto net)

O tilintar das chaves. O barulho metálico do rodar da fechadura. Depois o escancarar da porta da casa vazia. Entrar na sala de estar ampla e na penumbra, olhar a lareira moribunda a reclamar a chama viva dos rigores invernais. Revisitar os móveis dispostos pela casa com critério e os velhos sofás companheiros de tantos invernos. 

Absorto e especado no meio da sala, venerar um quadro da cidade onde nasci. Tudo é silêncio. Um silêncio que inquieta. É como se as paredes brancas e desnudadas quisessem falar comigo, num ressentimento de ausência. 

Passo a passo, em cadência lenta, percorro o meu lar de outrora. Em cada dependência, em cada quarto, um sopro de vida. Esta ou aquela moldura pendurada numa parede. Esta ou aquela fotografia de eventos ternos. Porque elas – as fotografias – são documentos de momentos felizes que se querem perpetuar no Tempo. 

Naquele compartimento de janelas largas, viradas para uma avenida airosa da cidade, já não se vislumbra o riso sonoro e puro das crianças. Cresceram e partiram para a vida. Ficaram as lembranças.


Deixaram - me, como legado, um póster de basquetebol americano e um quadro encaixilhado de Chopin. Fico bloqueado nos meus pensamentos de um passado. Oiço uma melodia breve a bailar - me no espírito. Apuro o ouvido e tenho uma certeza: é Frédéric. Talvez o polaco, deambulando pelas ruas frias do Campo Santo de Père - Lachaise na velha e bela Paris, entenda o meu estado de espírito e se aproxime de mim. A música plena de harmonia, como bálsamo das dores da alma.


Ali, naquela varanda alta e de vista abrangente, olho os telhados da cidade. O emaranhado de prédios que se acotovelam num aglomerado ordenado e estético, numa cópia pálida de La Défense, da cidade de mil encantos. E os jardins floridos que resistem às gélidas madrugadas, pelo cuidado das mãos sensíveis dos seus tratadores.


E longe, lá longe, nesta manhã fria mas esplendorosa de sol invernal ausente de brumas calmas e misteriosas, o perfil clamoroso e austero da Estrela e do Moradal. E a cabeleira de neve alva como um bolo de noiva, no topo serrilhado do perfil das montanhas plasmadas num céu azul e sereno, a dar a esta Beira profunda um toque de Eternidade …

Quito Pereira             


quinta-feira, 3 de março de 2016

A MORTE DE UM HUMANISTA ...






O “Jornal do Fundão”, trouxe-me hoje maus ventos da Beira - Baixa. Trata-se de alguém que, não sendo meu amigo pessoal, sempre admirei pelos elogios que muitas vezes ouvi à sua pessoa, sobretudo por gentes dos extratos mais frágeis da população.


O Dr. Freitas da Silva, era médico muito conhecido na cidade de Castelo Branco. Homem de grande simplicidade, era um humanista, sempre preocupado com as grandes questões sociais e com os mais desfavorecidos.


No seu consultório particular e quando se apercebia das dificuldades financeiras dos seus doentes, abdicava dos seus honorários de médico. Para além desta faceta, o Dr. Freitas da Silva era um escritor de excelência, colaborando com o Jornal “Reconquista”. Os seus desassombrados artigos eram sempre lidos com agrado e por vezes a sua veia humorística vinha ao de cima.


Tinha também a particularidade de ser um apaixonado pela sua terra de nascimento – os Açores. Muitas vezes contava passagens da sua infância no arquipélago, chamando à liça a memória de gentes da ilha que se destacavam pelo seu pitoresco.


Várias vezes falei com o conhecido clínico, sobretudo quando ele entrava numa loja que servia refeições para fora e, num tom coloquial, falava com os presentes, mesmo que nunca os tivesse conhecido. Era genuinamente despretensioso, o que por vezes lhe custava um olhar de soslaio dos que achavam ou acham que uma formatura universitária é um carimbo de superioridade sobre os que não chegaram a esse patamar de ensino. Porém, o Dr. Freitas da Silva era um homem do povo, e nunca abdicou desse seu estatuto de simples cidadão que tinha um curso de medicina.


Faleceu de forma inesperada. Uma queda de um sexto andar de um prédio em Castelo Branco onde vivia, deixou a cidade mais pobre. Mas pobre fica também toda a sociedade, quando perde um amigo respeitado, que deixou atrás de si um rasto luminoso de solidariedade para com os seus semelhantes, sobretudo os mais humildes e desfavorecidos da vida.


Que esteja em paz.

Quito Pereira