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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

CONTO DE NATAL POR GEORGINA FERRO

 


Conto de Natal

    A Joaninha levantou-se cedo apesar de estar de férias. Tinha que ir fazer carava à ti Maurícia que estava doente, para a sua filha Ludovina poder ir cuidar dos " vivos" que tinha no curral e na loja: marrano, galinhas, patos, vaca, cabras e até um burrinho que prometeu emprestá-lo para o presépio da aldeia. 

    Ora, a Joana não pensava noutra coisa senão no presépio e na ida ao musgo com as outras cachopitas. Mas ela gostava tanto da ti Maurícia que até nem se "enfadava" de não ir para a "ramboia" com as suas companheiras. 

     A ti Maurícia viu-a tão pensativa que a chamou para a sua beira. Puseram o travesseiro a aconchegar as costas e, sentadas lado a lado, pareciam duas crianças pequenas. Elas riam, conversavam e combinavam qualquer coisa em segredo. 

    Quando a Ludovina subiu com o braçado de lenha para o lume elas calaram-se um poquenino. 

     _ Ai mãe, devem estar a matutar alguma! Para estarem tão caladinhas! 

     _ Ó Bina, arranjas um poquenino de barro para a tua mãe fazer um Menino Jesus? _ pediu a Joaninha.

     _ Ó filha, não vês que o barro não pode ir para a cama que suja tudo? 

    _ Mas a ti Maurícia diz que se senta na cadeira de napa que lhe fez o ti Zé Manso e põe uma saca de serapilheira no colo e eu ajudo-a. 

    _ Pois Baia, e eu depois que me "amanhe" com tudo por fazer! _ ia resmungando ao mesmo tempo que tentava pôr tudo capaz de lhes satisfazer os desejos. 

      E, assim, a ti Maurícia, que já não saía da cama a não ser para lhe mexerem a enxerga e mudarem os lençóis, passou uma semana inteirinha a levantar-se quase ao lusco-fusco e só se deitava depois da ceia. Das suas mãos saíram as mais lindas imagens do presépio.  A Joaninha "pinchava" de alegria e dizia que aquele era o mais lindo presépio que já tinha visto. 

    E a Ludovina dizia a toda a gente que a Joana era a melhor enfermeira de todas as redondezas. Mesmo sem usar mezinhas conseguia curar todas as maleitas da sua mãe. 

     No dia de Consoada a Joana olhava as "parceiras", a caminho da igreja, carregadas de cestas de musgo. Foi então que o Eduardo se voltou e lhe veio dar a sua cestinha cheia para ela fazer o seu presépio. Todos os outros amiguinhos vieram trazer-lhe, também, um musgo dos seus, um poucochinho de serradura para desenhar os caminhos e até lhe trouxeram um pedacinho de espelho quebrado para fazer um lago. A Benedita correu e deu-lhe um dos seus três patinhos. 

    O senhor Padre estava embevecido a olhar para as suas crianças. Então, prontificou-se a fazer com elas o presépio da Joana em casa da ti Maurícia. E foi o presépio mais lindo daquele Natal na nossa aldeia.

    Georgina Ferro


quarta-feira, 31 de maio de 2023

ENCONTRO COM A ARTE-PROSA - UM CONTO DE GEORGINA FERRO

Eram os últimos dias do mês de Maio de 1954. O mês de Maria e do terço. O mês dos dias crescidos, de sementeira do linho, mês de cuidar dos batatais, das hortas, de levar as vacas ao lameiro. Era o mês de um corropio constante desde o lusco-fusco ao tombar na cama logo após a ceia. 

A Ana já tinha oito anos. Era uma mulherzinha. Já partilhava os afazeres do lar com os pais .

     _ Ana, Anaaaa! Empina-te-te filha!  Já te chamei três vezes!  Vá ergue-te que o pai já está quase a acabar de ordenhar a Malhadinha!  

     A Ana bem ouvia, mas o sono era tanto!... Só quando a mãe lhe gritou pela terceira vez, já "enfadada" , é que a garota se sentou na cama esfregou os olhos e sorveu o ar perfumado a café acabado de assentar com uma brasa incandescente.

     _Ai Rábia te pele, filha.  O pai já quer ir fazer a cama à vaca e ela ainda na loja! Toma, veste o vestido. Tens o avental nas costas da cadeira. Já pus água quentinha no lavatório. 

      A Ana ia acordando e como um autómato ia obedecendo à mãe com a lentidão  de quem precisava de mais uma hora de aconchego dentro das mantas. 

    _ Deite-me a sua benção, minha mãe!  - pediu ela de mãos postas.

     _  Que Deus te abençoe, minha filha.  Vá, pula da cama! Avia-te que já tens a malga com o pão migado. "Inda bem-não" soam as seis e a vaca não come nada. E não pode ficar lá no lameiro "por mor" do milho já bem nascido no "tchão" da ti Marizé! 

   E a Ana acordou de vez.  Lavou a cara  e sem grande apetite foi engolindo as sopas de café com leite.  Num guardanapo atado pelas quatro pontas já estava uma fatia de pão com presunto para a Ana levar. Começavam a dar as seis horas no relógio da torre. 

    A cachopa já ia de pés descalços porta fora quando a mãe a fez voltar para calçar as alpargatas. Só então desceu as escaleiras do balcão para pedir a benção ao pai que a esperava  no curral.

     E lá foi ela atrás da vaca que  marcava a passada com o seu bamboleio e o tilintar da "chocalhinha"  Passaram o portal ainda antes das seis e meia. 

     A Ana aconchegou-se no cantinho da parede voltado para o nascer do sol e embrulhou-se melhor no xale que trazia pelas costas. Tinha as mãos "arreganhadas".  Bem podia ter trazido o livro da lição para estudar melhor, mas nem disso se lembrara! Quando chegasse a casa ainda teria de ir ver bem os significados (lembrou-se ela). Achava que não os tinha decorado muito bem! Mas a lição já a lia bem como lhe reparara o pai.  Uma libelinha roxa veio tirá-la daquela modorra que  a prendia. Levantou-se e foi tentar apanhá-la naquele constante poiso aqui, poiso ali... Já te apanhei.... quase, quase... Oh!, já fugiu para longe.

    Um lagarto verde já espreitava o sol numa lage da parede.  Era hora de comer a merenda e ir levar-lhe um miolinho de pão. Não tardaria o toque das oito e um quarto. Tinha de se apressar a voltar a casa.

Deram as oito e meia quando atravessava o povoado.

   À chegada foi "um ver se te avias"! A vaca foi para a loja. A Ana foi lavar as mãos, tirar o avental sujo e vestir um lavado, pentear o cabelo e prendê-lo com uns ganchinhos de arame para não irem para os olhos enquanto escrevia. E ala que se faz tarde. Saquinho de sarja a tiracolo com os livros e a pedra de ardósia.

Georgina Ferro


sábado, 24 de setembro de 2022

1954-MEUS ANOS DE MENINA -Conto de Georgina Ferro

 

954

        Os meus anos de menina

         A Ti Mariana estava sentada nas escaleiras a remendar as ceroulas do Ti Júlio. Era uma tarde fria e escura. Tinha vindo para a rua porque os olhos choravam e lá dentro não via nada nem conseguia enfiar a agulha. 

 _ Eu posso enfiar, se vossemecê quiser!  Mas hoje choram-lhe tanto os olhos! Quer que vá a casa pedir os óculos do meu tio? Ele só os põe quando lê o jornal e a minha tia também os põe para coser.

 _ Ai minha cachopita, és mesmo uma menina linda!

 _ Sabe, amanhã a Menina Lurdes vem de férias! As minhas primas vieram pelo Natal, agora só vêm no Verão. E as suas filhas também vêm?  

 Foi então que reparei que os olhos da Ti Mariana já escorriam pela cara abaixo e o lenço não conseguia enxugar as lágrimas!

 _ Não vêm, não, minha filha!... Este ano não tivemos batatas para vender e as castanhas gearam. Por isso elas não vieram pelo Natal nem vêm passar a Páscoa. Não arranjámos dinheiro para os bilhetes. A Mourisca pariu, mas a vitelinha vai fazer-nos falta para o trabalho porque a mãe já está a ficar velhota! O que nos valeu foram as “chibas” que tiveram chibinhos e o meu homem vendeu quatro na feira de Alfaiates para podermos mandar o dinheiro para pagar o colégio.  

 E a tia Mariana ia falando, mais para ela do que para mim, ( penso eu agora) porque ia baixando a voz e levantando a aba do avental  para esconder o rosto, eu “cuidei” que ela já tinha o lenço todo molhadinho!

 _ Ti Mariana, não chore! Eu vou num instante a casa e trago-lhe o meu mealheiro. Já lá tenho pesetas e tostões. Até já tenho uma moeda de vinte e cinco tostões, que me deram os meus padrinhos. E pode comprar o bilhete para elas virem. Está bem? 

 Ela abraçou-me com tanto carinho como se eu fosse uma das suas filhas, mas disse-me que o bilhete tinha de ser comprado com notas. O senhor cobrador da camioneta não aceitava moedas. 

 _ Mas eu vou falar com o senhor Ismael  e ele de certeza que aceita!... Pode ser?!

 Por mais que me explicasse eu não consegui perceber porque a Ti Mariana chorava e ria ao mesmo tempo!...

 Georgina Ferro


sexta-feira, 29 de julho de 2022

MAS É VERDADE, PORQUÊ? Pelo Professor Antonino Silva

 

MAS...É VERDADE, PORQUÊ?

É curioso como, na linguagem humana, um dos pilares essenciais que a erigem é a suposição de verdade daquilo que se diz ou que se escuta. Já imaginaram quão estranho seria se, para cada asserção proferida, tivéssemos de aferir tudo com critérios de verdade ou mentira? No mínimo, seria desgastante e, na maior parte dos casos, os atos discursivos perderiam toda a eficácia.

Pensemos nas conversas em família, nos momentos pedagógicos, nas transações quotidianas. Por exemplo, quando fôssemos ao café, o empregado teria de aferir se o nosso pedido seria verdade ou não; por nossa vez, quando perguntássemos o preço, poderíamos duvidar se seria ou não mesmo aquele valor. “São 80 cêntimos” – diz o homem. “Tem a certeza?“ – perguntamos nós, enquanto nos questionamos se ele está a falar verdade ou mentira. Felizmente, repito, não é assim que a verdade funciona e, se não é assim, convém esclarecer como é. 

 Há duas maneiras de configurarmos o conceito de verdade. Há aquela verdade que é demonstrada, porque é necessária, e existe a verdade baseada na presunção da mesma a partir da autoridade. Como exemplo do primeiro tipo de verdade, temos a verdade matemática. O que garante as verdades em matemática é a demonstração. As verdades são fundamentadas em demonstrações e são verdades necessárias, são algo que está dentro da própria declaração de verdade e nós tiramo-la lá. Obviamente, haverá estruturas axiomáticas que suportam esta demonstração das verdades. Veja-se o teorema de Pitágoras. Vai ser eternamente verdadeiro na base axiomática em que foi construído e pode ser demonstrado sempre e em toda a parte.

Já na vida quotidiana, a grande maioria das verdades que nós temos é baseada no critério da autoridade. Nós acreditamos em algo porque uma autoridade (a mãe, um professor, um livro) o disse um dia. Na realidade, delegamos em outrem o dever de ter verificado a verdade e, por isso, confiamos. Começamos cedo: começamos com o pai e a mãe, com os professores... Neste modelo baseado na(s) autoridade(s), algo é verdade porque alguém diz que é. 

 O que não poderá haver é duas verdades, ou melhor, não pode haver verdades alternativas. As mentes é que configuram modelos que tornam verdade aquilo que o não é. Nos dias de hoje, é uma crueldade verificarmos que as supostas autoridades são também exemplos de transmissão de mentiras, manipulando, distorcendo e apresentando pseudociência. Basta ver a comunicação social tão distinta sobre a guerra, as supostas verdades das religiões, as experiências científicas que não o são ou não provam nada. Tudo isto frutifica porque somos propensos a aceitar o que vemos, lemos e ouvimos como sendo verdades e pouco mais fazemos do que aceitar. Quem primeiro nos chegar é que assenta arraiais no nosso entendimento e assim ficamos.

 Nós próprios, agentes educativos, exigimos que nos seja atribuído esse crédito da verdade, apoiando-nos também nos manuais, na investigação e nas aprendizagens que fizemos a montante. Se os alunos duvidassem, recusando, de cada uma das asserções feitas pelos professores em sala de aula, não seria possível ensinar nem aprender, porque, acreditem, aquilo de novo que o professor transmite, em termos de conteúdos, é muito próximo de nada, de um zero redondo. Dito de outra forma, os conteúdos programáticos que são lecionados durante um ano, são a repetição daquilo que outrem disse e nós passaremos aos alunos. Quase tudo é verdade baseada em autoridades e só uma margem muito pequena é adição do professor. Não falamos aqui, obviamente, das competências a desenvolver, pois aí outro galo canta e a qualidade pode revelar-se.

 Voltando à asserção da verdade no ato pedagógico, a pequena margem que nos afasta do zero absoluto é o fator dinâmico do conhecimento, da criação do saber. E não duvidem de que hoje se asseveram verdades que há 100 anos não o eram, porque alguém, um dia, se desviou da aceitação cega daquilo que lhe disseram. Aprender com duvidar é, muitas vezes, teimar na desconfiança e permite questionar as verdades feitas. Assim se vai mudando o paradigma e a ciência. De hoje para amanhã parece pouco ou nada, mas, olhando para séculos atrás, mudamos de uma verdade que afirmava que a terra era plana para uma outra que afirma que ela é redonda. E na medicina? O que seria se não se tivesse aprendido com duvidar? Neste campo não é preciso olhar para séculos pretéritos; basta olhar para a década recente. São tratamentos que se provam ineficazes, são patologias que, afinal têm outras causas que não as inicialmente diagnosticadas, enfim, é um rol de inovações e avanços que ocorrem, só porque alguém resolveu colocar em causa a verdade das autoridades.

 Por todas estas razões, considero que o papel de quem educa é, obviamente, veicular saberes e técnicas para criar competências; contudo, é necessário temperar cada verdade com um pouco do sal da dúvida, para que os alunos aprendam a questionar, progredindo, desenvolvendo espírito crítico e tomando nas mãos as sementes daquilo que nos faz humanos: aprender duvidando.

 

Junho de 2022

Antonino Silva

sábado, 19 de março de 2022

GUARDE-ME AÍ A CACHOPA...Texto Dia do Pai Publicação do Professor Antonino Silva

 Guarde-me aí a cachopa


Ele contava-me exatamente uma história que, não sendo fantástica, era das mais belas que eu ouvia. E repetia-a, uma e outra vez, sem acrescentar nem tirar nada, o que me fazia pensar que tanta coerência era capaz de fazer a história verdadeira. Noutras vezes, era ela que contava de novo, sempre de forma igual e tão coincidente com a versão dele, que tal história só poderia ser verdade. 

Ele tinha feito vinte anos há muito pouco tempo e era recruta no quartel de Lamego. A Europa flagelava-se numa guerra sem fim e Portugal estava de sobreaviso. Sendo o filho mais velho e quase amparo de família, isso não o tinha livrado da incorporação e, por causa disso, partilhava as dormidas entre o quartel de Santa Cruz e a sua humilde cama no quarto da loja em casa dos pais, em Meijinhos. Fazia a pé o trajeto recorrente de uns 14 quilómetros, ao domingo à noite, para o quartel, e à sexta, para casa. 

Pelo caminho passava junto a uma casa de perpianho recentemente construída com uma data na fachada. Dizia 1932, um ano antes do nascimento dela. A cachopa tinha então onze anos e brincava na larga eira de pedra, local que era avistado da rua. Ele passava e achava-lhe piada. Metia conversa com os adultos presentes e ficara a saber que a menina não era filha nem neta; era, isso sim, uma sobrinha-neta que fora, aos sete anos, servir para casa do Malhão e por lá ficara, metade como criada e metade como filha. Eles valorizavam o trabalho como se aprecia o esforço de um serviçal, mas amavam-na e cuidavam dela como se filha fosse. E nos limites de uma vida de sacrifício, onde nem tudo chegava à mesa dos pobres nem dos remediados, pode dizer-se que os tios-avós e a sobrinha-neta eram felizes. 

Num domingo de fim de verão, ao descer para a cidade, o soldado parou e meteu, mais uma vez, conversa com o dono de casa que, sentado à porta, apreciava o sol que ia dourando o vasto manto de grãos de milho estendidos na eira e, pensativamente, cogitava na possibilidade de o recolher, por causa do orvalho das noites que costumava aparecer por alturas das festas da Sr.ª dos Remédios. No fio da conversa, ficou a saber mais umas quantas coisas da cachopa e, quando a curiosidade já não queria mais coisa, virou-se para o ancião e disse: 

- Olhe, guarde-me aí a cachopa, que eu, quando ela for maior e tiver eu a minha vida arranjada, voltarei cá para a namorar e pedir em casamento. O Malhão ficou admirado com tamanha confiança, mas o certo é que nove anos depois casaram e tiveram dez filhos. 

Eu sou o sétimo na linha da sucessão.

Professor Antonino Silva


                                ELE  -   O recruta no quartel de Lamego

                                              texto  publicado no dia 19 de Março dia do pai


sábado, 3 de julho de 2021

COMO ERAM LINDOS PRIMEIROS DIAS DE JULHO....Georgina Ferro

Como eram lindos os primeiros dias de Julho. Bem cedinho apagavam as estrelas do céu azul escuro e começava a clarear. Só ia restando uma luzinha aqui, outra mais longe... até que sumiam por completo para que o Sol brilhasse sozinho enquanto elas iam dormir. 

     Pelo "janelo" do quarto entrava o ar perfumado a "hortejos" e a flores!... Ouviam-se as "picotas" a içar e a baixar e,  o cambão da nora do poço grande, chiava, chiava... enquanto os alcatruzes enchiam e despejavam no regueiro...

     Nesses dias ninguém tinha preguiça de se levantar!... Era uma alegria sair da cama e agarrar numa merenda e num punhado de cerejas e ir comendo pelo caminho afora enquanto a vaquinha "bamboleava" apressada até ao lameiro. 

     Depois havia sempre um jogo para fazer e a Mimosa depressa ficava farta pois a erva estava alta e fresca.  Não era preciso ficar por lá até ao entardecer. Bastava que o sol ficasse a pino. 

     Quando voltávamos já  havia comida na mesa. Os adultos iam passar pelas brasas, diziam eles, e nós tínhamos um tempão para enchermos o Largo do Enxido de vida, alegria e de brincadeira até ao toque das Trindades. Era ali que voavam os " motchos" feitos de varas de giesta, rolavam os aros de arame guiados pelo guiador, arrastavam os carrinhos feitos com latas de sardinha, saltitavam as meninas com a pedrincha nos pés, pulavam os rapazes no jogo do eixo e as garotas saltavam à corda... Os catraios adoravam fazer capeias e jogar à "pela" com "trapeiras" feitas pelas avós que não resistiam muitos jogos sem se desmancharem todas... Lá havia um dia em que aparecia um garoto com uma bola de borracha  '"catchu", mas isso era tamanho tesouro que não demorava muito tempo a ser arrecadada pelo dono, que se desculpava que a mãe lhe recomendara que não demorasse.  O jogo do berlinde era o mais disputado quer por cachopos ou cachopas. Como quase nunca havia berlindes de vidro dos "pirulitos" eram os bogalhos dos carvalhos que faziam as suas vezes. Eram bem mais difíceis de jogar porque as mãos tinham de ser bem habilidosas para controlar a leveza daquelas bolinhas minúsculas!

     Pelo meio da tarde havia sempre miúdos a desaparecer por uns instantes para ver se os pais precisavam de alguma ajuda, para irem merendar, para acarretaram uns jarros de água do chafariz. A maior parte das vezes já não voltavam. Ou ajudavam lá em casa, ou iam buscar as vacas ao lameiro, mercar um pouco de petróleo para o candeeiro, eu sei lá...

     Depois, vinha aquele entardecer longo, longo... começado no toque das Trindades e que afogueava o céu cor de arrebol como se o sol quisesse ficar à espera da noite e de ver luzir os milhões de estrelas que iriam acordar não tardaria...

Georgina Ferro


domingo, 28 de março de 2021

VINHA DOMINGO DE RAMOS....TEXTO DE GEORGINA FERRO


 Vinha Domingo de Ramos e seguia-se a Semana Santa de oração, Via-Sacras, lamentações pelas noites adentro com as mulheres vestidas de luto, lenços pretos e xales pela cabeça, a chorarem a dor de Maria mãe de Jesus.

    Na minha aldeia, logo nesse sábado de ramos, bem cedinho,  ia-se ao campo procurar plantas silvestres floridas: um lindo ramo de alecrim, um raminho de rosmaninho começado a abrir, um ramo de pilriteiro com os pontinhos brancos a despontar... Levava-se à cerimónia da bênção dos ramos na Missa de Domingo e depois de ser aspergido com  água benta, trazia-se para casa e guardava-se na loja dependurado da trave mestra . Só se iam retirar uns raminhos nos dias de trovoada e punham-se sobre as brasas enquanto se rezava a Santa Bárbara para que pedisse por nós a Deus e nos livrasse da trovoada.

    No sábado, quando se ia colher o ramo, aproveitava-se a saída aos campos e apanhavam-se feixes de carqueja para esfregar bem o soalho de toda a casa, mochos, bancos e tudo que precisasse duma boa esfrega... 

     Toda a semana Santa era semana de limpeza profunda. Levavam-se as panelas de ferro à ribeira para serem bem areadas, trazia-se barro para barrar as chaminés enfarruscadas, acarretavam-se baldes e mais baldes de água do chafariz para tudo ficar "um asseio" para Domingo de Páscoa.

Pintavam-se as latas ou caldeiros que serviam de vasos para ornamentar as escaleiras e varandins com as malvas e begónias que tivessem aguentado a invernia....  

     A canalhita andava à coca das amigas com quem "engantchava" para as mandar rezar e ganhar-lhes as amêndoas. Eu não gostava nada disso porque tinha muito medo de perder e não ter amêndoas para dar. Mas achava graça à brincadeira de me esconder e aparecer de repente e de surpresa. O pior é que me viam sempre primeiro e eram elas que me mandavam rezar a mim. Com a minha avó e com a minha tia Maria é que era engraçado, porque elas perdiam sempre. Mal me levantava ia em bicos de pés e mandava-as logo rezar. Elas fingiam sempre uma enorme surpresa e no domingo de Páscoa lá tinha eu um cartuchinho com meia dúzia de amêndoas de meio tostão cada uma de sua cor. Que lindas eram!... 

Georgina Ferro.


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

SABER FALAR É OUTRA COISA

Saber falar é outra coisa!
Frequentemente, uma palavra certa no momento certo é uma chave eficaz para abrir as portas da existência mais remediada. Saber o que dizer e quando o fazer é um dom acessível a todos, mas recolhido por muito poucos.
Nos primeiros encontros e apresentações de grupo — recordem-se os reality shows recentes – é frequentíssimo ouvir anunciar, como grande qualidade pessoal, a frontalidade. Não a conceção real desta caraterística somática, mas antes aquilo que as pessoas acham que é a ‘frontalidade’.
“Ah, porque eu tenho uma coisa comigo: sou muito direto/a e digo o que penso à frente das pessoas” é uma das frases mais ouvidas num primeiro contacto. Outras dizem então que não são fingidas e não têm filtros, que são honestas no que dizem. Depois de aferidas as ponderações do comportamento e da atitude, percebemos que o que aquela pessoa queria dizer era: “Sou uma pessoa que não sabe avaliar as coisas, que tem opiniões superficiais, não mede as palavras e, como sou mal-educado/a, digo apalermadamente o que me vem à cabeça e gosto de ofender.”
Confundir este tipo de ‘frontalidade’ com assertividade é um erro demasiado comum. Para muitas pessoas, a forma temerária de falar denota um caráter forte, ousado e de liderança, esquecendo-se de que o verdadeiro comunicador e líder tem de saber usar a subtileza da linguagem com eficácia, criticando sem ofender, corrigindo sem humilhar e discordando sem afrontar. Tem de ficar claro que comunicar com assertividade é garantir o máximo de eficácia na intenção comunicativa, com o respeito total pelo seu interlocutor.
Recordo um breve episódio que neste verão me foi contado na primeira pessoa, em que um homem experimentado teve de usar de uma arte de falar cheia de sabedoria e engenho.
Deu-se o caso de determinado pai enviar todas as quintas-feiras a Lamego um cesto com as novidade das terra a um seu genro que, vivendo na cidade, delas não dispunha. As couves, cenouras, alfaces, batatas e quejandas seguiam num cesto de duas arrobas, às costas do filho ou à cabeça da criada. Alternadamente, coube-lhes ir à cidade, de quinze em quinze dias, durante um par de anos.
Um dia, o filho virou-se para o pai e disse:
“Amanhã, que vá a Laura a Lamego com o cesto, que eu não vou!”
“Então… não vais porquê?”
“Porque o seu genro dá sempre cinco c’roas de gorjeta à Laura, que não lhe é nada, e a mim, que sou cunhado, nem um pataco me dá.”
O pai ficou a matutar e deu razão ao rapaz, mas não sabia como resolver a situação sem colocar em causa a face do genro.
Falou com o filho e disse-lhe: “Amanhã vai então a Laura, mas na outra semana vais tu, porque eu mando e nem penses em dizer que não.”
O filho teve de obedecer e, no dia marcado, regressou a casa, eufórico, com os vinte e cinco tostões no bolso.
Podíamos agora imaginar que o pai teria exercido algum tipo de pressão sobre o genro e teria mesmo sido agressivo nas palavras. Poderia ter-lhe dito, como sogro e pai, que achava a atitude incorreta ou até mesmo ter apodado o genro de injusto e forreta. Mas não fez nada disso. Com a maior das subtilezas, substituiu-se no dia seguinte à Laura e depois de pousar o cesto nas escadas do genro, pegou numa moeda de dois e quinhentos, que retirou da bolsa que trazia presa ao colete por uma corrente, e disse:
“Tome estes vinte e cinco tostões e na próxima quinta-feira, quando o rapaz lhe aparecer em casa com o cesto, dê-lhos, mas não diga que fui eu que mandei.”
O genro acusou o toque e, obviamente, não os aceitou, mas foi remédio santo. Nunca mais faltaram as merecidas cinco coroas!

Prof. Antonino Silva -Coimbra

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OLHA PARA O QUE EU FAÇO NÃO OUÇAS O QUE EU DIGO

 Olha para o que eu faço e não ouças o que eu digo

Ensinar pelo exemplo é a forma de pedagogia mais perfeita que pode existir. A sobrevivência das espécies superiores depende pouco do instinto e muito da aprendizagem mais ou menos breve feita com o exemplo dos progenitores. Quando nada mais há a aprender, cada um abandona o ninho e a sua vida terá tanto mais sucesso quanto melhor foi a qualidade da aprendizagem.

Entre nós, educar pela palavra ou educar pelo exemplo são os limites da equação que se colocam a pais e educadores, formais ou informais.

Naquele casal, ambos eram humildes, gente simples e trabalhadora, sendo que a Celeste do Lopo tinha uma visão do mundo muito mais imediata, gostando da vida pelo simples prazer de poder acordar no dia seguinte, enquanto que o seu marido, José, gostava da vida pela vontade e desafio de poder mexer nos dias vindouros, recusando-se a ser um títere nas mãos da vontade dos outros. Por isso, não quis patrão e fazia sozinho as pequenas obras que outros lhe encomendavam, fosse a construir muros, fosse a trabalhar em perpianho as fachadas das casas dos ricos.

Num fim de tarde, depois da merenda de bacalhau frito e broa, sentados no banco de matar os porcos, debaixo da ramada, a Celeste largou a boa nova:

“Estou de bebé,” disse, ofuscando o rosto do marido com a alegria que lhe dançava nos olhos, “já tenho um atraso de dois meses e na quinta-feira fui ao doutor Cardoso, que mo confirmou.”

Para o Zé Pedreiro, estas palavras tocaram-no e mudaram a sua ideia do mundo, tal como a barragem muda o curso do rio.

Agora era responsável não por um, mas por dois seres humanos, uma ideia que o fez albergar um mundo novo, de esperanças e certezas. Mesmo que fossem sonhos lampos, toda a coleção de desejos desconexos, de angústia de pobre e de incertezas do amanhã desapareciam com a novidade. Aquela criança era a certeza mais palpável que se levantava entre eles e a pobreza, uma vez que a alegria não conhece bolsos e tanta felicidade pode vir ao rico como ao pobre.

Debruçou-se no colo da mulher e beijou-o, encostando o ouvido um pouco acima do umbigo: “Já o ouço, já o ouço!”

“Deixa-te de maluqueiras. Ninguém consegue ouvi-lo ainda tão pequenino!”

“Mas é claro que o ouço. E ele ouve-me, de certeza.”

Então, começou a contar-lhe uma história antiga, de harmonia e de justiça. Enfim, uma história diferente da condição em que viviam, mas pela qual ele lutaria para que o seu filho nela pudesse viver. No nascimento e na morte todos somos iguais, mas, no fim de tudo, cada um leva consigo a carrada moral que juntou em vida. Agora, na chegada, o filho do rico e do pobre são iguais: não trazem nada, pelo que ambos podem amealhar em si toda a grandeza ou miséria humana. Não seria o dinheiro, mas a retidão, que faria do pequeno ser um Homem a sério. Sabia que depois dele nada mais seria como agora, sabia que faria do filho um homem bom, que ajeitaria o mundo nos pilares da honestidade e das coisas justas. Decidiu do mesmo modo ser um exemplo e educá-lo, mostrando-lhe o mundo por obras e não por palavras.


Tão envolvido no sonho, não se apercebeu de que sonhava em voz alta e a mulher bebia-lhe as palavras, umas vezes emocionada e, outras, incrédula. A emoção vinha do amor e da admiração; a incredulidade vinha da realidade dos dias, da pobreza e das jornas de trabalho suado que pouco mais lhe davam do que o pão que guardava na tábua presa na trave por dois arames, para que os ratos lhe não chegassem.

“Ó homem, como queres tu que ele seja uma pessoa assim? Não tens instrução nem escola para lhe deixares de herança!”

“Deixa, mulher, não tenho escola, mas sei ler e ajuizar o mundo. Não preciso de falar muito nem de escrever melhor. Basta ser um homem bom, que ele ainda o será mais. E naquele livrinho que temos por cima da tábua do pão li uma frase de um Santo, queres ouvir?”

A boa esposa admirava esta bondade natural do seu marido e, envolvendo num laço de ternura a sua resposta, anuiu: “Gostava muito, homem, gostava muito.”

Subindo ao banco, o Zé Pedreiro pegou no pequeno livro sobre vidas de santos e prendeu-se no capítulo de S. Francisco, onde tinha marcado, com um amor-perfeito seco, a página que o orientava. Com a dificuldade de uma criança da primária e com a alma de um “lectore” leu: «Ide pelo mundo anunciar a Paz e o Bem e, se preciso for, até com palavras.»

Por Professor Antonino Silva


domingo, 5 de abril de 2020

CONTO

RECORDAÇÕES DE MENINA

A Mariana pôs, ao ombro, o sacho
Compensando o peso com uma mão
Enquanto, na outra, sustinha a cesta
E, com o seu tão habitual despacho,
Saiu palmilhando o caminho do “tchão”,
Em passada miudinha, mas bem lesta
Não tardaria o toque das Trindades.
Ainda, era preciso ir à fonte
E fazer mil e uma actividades
Antes do sol se pôr lá no horizonte

Volta com a cesta cheia de renovo
Retira algumas folhas de nabiça,
Aparta os “retaços” para a vianda,
Depois de ver se havia algum ovo
Coloca o portado no galinheiro,
Mede, a palmo, a porquinha roliça
E sobe as escaleiras, mas desanda,
(Lembra-se que tem umas voltas a dar)
Terá de arranjar “caraba” primeiro,
De quem queira e possa ir ajudar
A acarretar o feno do lameiro

Lá sai ela, novamente apressada,
Entra na casa da Pepa da ti Neves,
No curral do ti Zé Ramos e da Bei
Num afã de passos afoitos e leves
Ainda vai ver do ti António Lei…
Ouve as Avé-Marias, à chegada,
Psina-se e ora com muita devoção
É a hora de acender a candeia,
Emparelhar uns gravetos ao tição
Atear o lume e fazer a ceia

Quando o sol raiou, de manhãzinha,
Já Mariana provava a merenda
Que iria levar para o lameiro
Tinha metido no meio da cozinha
O açafate com toalha de renda
Pratos de esmalte branco, do louceiro,
Talheres guardados para a altura
Barranhão, para o caldo de “baginas”
“Tchouriça” de ossos tradicional
As rodilhas e “paninhos” com fartura
Uns tantos copos e malgas pequeninas
Tudo, como era o habitual!

O seu Toino, acartara-lhe a lenha
Com que cozera as carnes e feijão,
Para os de casa e quem quer que venha
À faina do lameiro, dar uma mão.
Comera uma falha de pão e queijo
Que engoliu com um copito de vinho
Deu à Mariana um alegre beijo
E desceu à loja a jungir as vacas
Para se meter, depressa, a caminho
Com forquilhas, ancinhos, nagalhos, sacas…

Mariana tardou a findar a lida
Pois queria fazer tudo com esmero
Agradecer, da melhor forma devida,
Com ostentação e algum exagero,
Na comida que levaria ao “tchão”
Aos amigos que a vinham ajudar
A enfeixar e acarretar os fenos
Desde os lameiros até ao palheiro,
Que, embora fosse obra de somenos
Não era menos digno de gratidão

Davam, no campanário, as onze horas
Blusa rameada cingida à cintura
Saia de godés e avental franzido
Rosto rosado cor de maçã madura
A Mariana lá vai, sem mais demoras
Calcorreando o caminho comprido
Com a mãe e a comadre a seu lado
Levando à cabeça o açafate
Tão primorosamente organizado
Como pelo arraial da “Sacraparte”

Foi uma festa a chegada das três
O realejo do Toino deu o mote
A cantoria seguiu em desgarrada
E todos acorreram a tomar vez
Em redor duma mesa improvisada
E, ali, se ajeitavam em magote
Partilhando as sopas do barranhão
Ou enchendo a sua malga pequena
Que, cada qual seguravam na mão
Numa liberdade alegre e plena

E havia de tudo um poquenino:
“Tchouriça d’ ossos” e da outra também,
Farinheira e farinheiro cozidos
Queijos de leite de vaca e caprino
Presunto bem curado, como convém,
Copos de vinho vezes e vezes enchidos
Não faltaram as “bicas” doces da festa
Aquela água cristalina da fonte
A força que a alegria empresta
Mesmo que o suor escorra da fronte!...

Georgina Ferro