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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

TEXTO DE RUI FELÍCIO


 ZÉ FOGAÇA

 

O Mário do Vale da Azenha, enviuvara já há uns anos.

 Vivia só com a Mariana, sua filha, que era a rapariga mais bonita da aldeia. Fez tudo para que ela não casasse com o Zé Fogaça. Mesmo no dia da boda, já ela estava vestida de noiva, foi ao seu quarto e fez a derradeira tentativa para evitar o casamento. O Zé Fogaça era um mulherengo, já tinha tido um ror de namoros. Andava com elas uns tempos e depois abandonava-as.

 Mas o amor dela era muito forte e casou com ele. Já lá iam dois anos e ele sempre a encheu de carinhos. A fama do Zé Fogaça não era mais do que fruto da maledicência da aldeia…

Mas, naquele sábado, ansiosa, lembrou-se das palavras do pai no dia do casamento. Lembrou-se dos mexericos que passavam de boca em boca.

Deu pelo toque das avé-marias na torre da igreja e o Zé Fogaça ainda não aparecera em casa.

 Ainda de madrugada, ele saíra de casa. Tinha ido à caça como era costume aos sábados mas, ao contrário do habitual, não regressara pela hora do almoço.

Só quando aquele sol de verão a prumo já não dardejava sobre a aldeia, só quando os seus tons alaranjados prenunciavam a noite é que ela ouviu o velho cão Mondego latir a correr e esgadanhar na porta. Atrás lá vinha o marido com três láparos e uma perdiz à cintura.

Suspirou de alívio, e foi a correr pôr a mesa.

Durante os dois meses seguintes, a chegada tardia a casa do marido, tornou-se um hábito. Calada, a Mariana sofria, chorava, o coração apertado...

O marido regressava sempre só ao fim do dia e as pessoas da aldeia já comentavam que a caça dele era outra! Constava que andava metido com a Carmen, cigana das Carvalhosas de quem se dizia que já tinha estragado alguns casamentos.

Certo sábado, logo que o marido saiu, entrou-lhe pela porta do quarto dentro o Mário do Vale da Azenha, esbaforido, de caçadeira debaixo do braço.

 - O teu homem?

- Foi à caça, meu pai. Você sabe que ele sempre vai aos sábados.

- Pois hoje também eu vou à caça!- disse-lhe o pai.

- E que caça!, acrescentou por entre dentes.

- Não me quiseste dar ouvidos quando te casaste com ele. Agora tenho que ir defender a tua honra e a minha que na aldeia o falatório já é insuportável. Até o Senhor Prior na missa já aludiu ao assunto!

 Logo que o pai saiu porta fora, a Mariana caiu de bruços na cama e chorou convulsivamente. Não sabia o que mais a afligia. Se o que o pai ia fazer ou se confirmar que o marido a andava a enganar.

Ao crespúsculo, lavada em lágrimas, por trás da cortina da sala, viu finalmente o Mondego a abanar o rabo e a ladrar em louca correria pela quelha acima que vinha do rio.

Logo atrás, o pai e o marido, lado a lado.

Pareciam vir em amena cavaqueira, rindo muito. Afinal, os seus receios eram infundados!

Veio à porta esperá-los, abraçou-os e encheu o marido de beijos.

O Zé Fogaça disse-lhe:

 - Vai te preparando! Vais ter uma madrasta! O teu pai vai-se casar com a Carmen! Há meses que ela anda apaixonada por ele e me pede para eu o convencer a casar-se com ela.

E virando-se para o sogro:

- É ou não é verdade, Sr. Mário?

- Sim, é verdade. E além de minha mulher, não te esqueças que ela vai ser tua sogra! E que, pelas leis da Santa Madre Igreja, será como se fosse tua mãe!

 

Rui Felicio

terça-feira, 22 de julho de 2025

RUI FELÍCIO - TEXTO CASA DOS TORRESMOAS NAS CARVALHOSAS - COIMBRA

 CASA DOS TORRESMOS                                                           


                                                                           

O Zé Lopes, mais conhecido por Carvalhosas, por ter nascido na aldeia do mesmo nome na margem esquerda do Mondego, afirmava sem modéstia que a sua Casa era a melhor de Coimbra para uma ceia à base de petiscos.

Nem tanto para se jantar, porque os melhores cozinheiros que ali iam fazer uma perninha, só à noite estavam disponíveis. 

Durante o dia trabalhavam nas sofisticadas cozinhas do Hotel Astória e do Hotel Avenida.

Mas em comida de palito o dono da Casa dos Torresmos pedia meças.

Com a dupla vantagem, dizia, de o artefacto de Lorvão servir para picar o petisco e depois para esgaravatar os dentes no fim do repasto.

A sua Casa, orgulhava-se o Carvalhosas, oferecia um bom ambiente para uma converseta entre os convivas, sobre os mais variados temas, desde política à má língua.

Degustar uns pipis, umas rodelas de morcela de arroz, umas moelas com molho picante, uns troços de farinheira frita, uns torresmos, umas tiras de presunto da salgadeira, uns nacos de leitão da Bairrada, acabado de chegar no comboio das oito, umas fatias de queijo curado de São Romão, tudo regado com uma celestial pomada do barril atestado dia sim dia não com o encorpado  tinto vindo expressamente de Cantanhede, tudo isto era o lastro estomacal, para desatar as línguas, exercitar os dedos e afinar as gargantas para a desejada sessão de música popular com que terminaria a noite.

Era especialmente aos sábados à noite que ali se juntavam os tocadores e os cantores, que eram gente de trabalho e nem sempre podiam fazer noitadas nos outros dias da semana.

A Casa dos Torresmos, na Travessa das Canivetas, atraía a vizinhança das vielas próximas que às portas e janelas se aprestava para ouvir os trinados que esperavam escutar lá por volta das onze da noite.

O Ralha na guitarra, o Arnaldo no banjo ou na concertina, o Olímpio na viola eram, todos eles, excelentes executantes e por isso presenças desejadas pelo Carvalhosas que transformariam a noite quando a sua vida lhes permitia irem à sua Casa.

O Olimpio e o Ralha também cantavam, mas a trempe ficava completa, quando, pasme-se, aparecia o Lacerda, Chefe da Secretaria do Liceu D.João III, que interpretava divinamente o Fado de Coimbra e outras canções populares beirãs.

As noites coimbrãs, ao contrário do que se pensa, não se resumiam ao ambiente universitário.

RF



quinta-feira, 24 de abril de 2025

O QUEJO DO RABAÇAL~TEXTO DO RUI FELÍCIO

QUEIJO RABAÇAL


Diz a lenda que Ansião, que está geograficanente entre a fronteira com Espanha e a beira-mar, tomou o nome por causa de a Rainha Santa Isabel de Aragão, ali costumar parar para lavar os pés quando viajava de Santarém para Coimbra ou vice-versa.

E que sempre dava esmola a um ancião muito pobre e velho que ali costumava estar. 

Séculos depois um acordo ortográfico mudou a grafia de Ancião para Ansião.

A sua viagem, destinava-se a apaziguar a luta feroz entre D. Dinis e o seu filho, mais tarde Rei Afonso IV.

À Rainha Isabel, como já acontecera algumas vezes, bastava interpor-se sozinha no meio da batalha para os combatentes pararem de lutar.

Nas terras de Sicó que integram o sistema Montejunto Estrela, rebanhos de cabras e ovelhas pastam as ervas que ali cobrem o território cuja mistura dos leites originou o famoso queijo do Rabaçal que Eça de Queirós um dia comparou ao Camembert, com vantagem para o queijo português. 

Dizem os entendidos que, apesar de ser comercializado sob o nome “Rabaçal”, ele é real e verdadeiramente produzido em Alvaiázere por ser aí, junto à Ribeira D' Alge, que  crescem as plantas que dão um travo  inconfundivel aos leites .


Rui Felício


 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

GAMBOZINOS- TEXTO DO RUI FLÍCIO HISTORIAS DO MEU BAIRRO BENJAMIM ( Caça aos gambuzinos )

HISTORIAS DO MEU BAIRRO
BENJAMIM
( Caça aos gambuzinos )
 

O Benjamim era aquilo a que se chamava “um verdadeiro marrão”.
Apareceu no Bairro, oriundo da Pampilhosa da Serra e hospedou-se em casa do Rui Mesquita, salvo erro , no ano em que foi caloiro de Direito.
Anos mais tarde viria a ser Juiz numa comarca da Beira Alta. Passava o tempo encafuado no seu quarto a estudar, donde saía à noite, apenas por breves minutos para ir ao café beber uma bica. Era de umaingenuidade atroz e dela não se desemburrava pelo pouco convívio extra escolar que tinha connosco. Eu frequentava na altura o 2º ano da mesma Faculdade e, por isso, era dos poucos com quem ele conversava, durante as idas e vindas das aulas, normalmente para me pedir esclarecimentos sobre algumas matérias do curso, único tema com que verdadeiramente se preocupava.
Um dia porém, coisa pouco usual nele, abordou um assunto corriqueiro! Gostava muito de um casaco de cabedal que eu trazia vestido
- Onde o compraste? – perguntou-me deveras interessado...
Não sabia se ele já tinha ouvido falar em gambuzinos e nas histórias por demais conhecidas que giravam em nome desse “animal” inexistente. Mas aproveitei-me e, meio a sério, meio a sorrir, tentei:
- Mandei-o fazer! Este casaco é feito de pele de gambuzino.
- Gambuzino?!! – Que é isso?, insistiu admirado o Benjamim.
Percebi que nunca tinha ouvido falar da “caça aos gambuzinos” deixando-me mão livre portanto para planear uma caçada.
Expliquei-lhe que é um animal muito raro, cuja pele, de excelente qualidade possibilita a confecção de vestuário como o meu casaco, de que ele tanto tinha gostado.
Se ele quisesse, poderíamos organizar uma caçada, mas adverti-o de que tudo se teria de passar no mais absoluto segredo, porque a caça ao gambuzino era proibida por lei, para proteger aquele animal em vias de extinção.
- E como é que a gente sabe onde e quando o encontrar? – inquiriu o Benjamim.
- Bom, é um animal que paira a meia altura e por isso não deixa pegadas. É muito desconfiado e sentindo a presença humana, abriga-se e protege-se em troncos ocos das árvores. – elucidei eu.
O Benjamim estava entusiasmadíssimo. Estranhava que na Pampilhosa da Serra nunca tenha ouvido falar em gambuzinos.
- Isso não é admirar, disse-lhe eu. - Só há duas ou três zonas restritas no País onde eles existem. Uma delas é exactamente entre a margem norte do Rio Mondego e o Bairro. Ou seja, no Pinhal de Marrocos e zonas circundantes.
Combinámos que nessa mesma noite eu organizaria uma caçada, recomendando-lhe mais uma vezsegredo absoluto por causa da grave ilegalidade que isso representava.
Chegado ao café do Silva, combinei com o Vitor Salpicão, o Feliciano, o Calado e o Zeca Mestre e por volta da meia-noite fomos buscar o Benjamim a casa, partindo todos em direcção ao pinhal de Marrocos. Démos-lhe um saco de serapilheira e munimo-nos de paus e latas, instrumentos indispensáveis à caçada.
Logo ao fundo da Quinta das Flores, escolhemos uma oliveira com um tronco oco e dissemos em surdina ao Benjamim para ele colocar a boca do saco no buraco da oliveira.
- O gambuzino vai sair por aí. Quando ele entrar para dentro do saco, fecha-lo e pronto...- explicou-lhe um de nós com voz quase sussurrada.
- Nós vamos afugentá-lo fazendo barulho com os paus a bater nas latas, para ele entrar na toca da árvore, no caso de andar cá por fora.
- Certifica-te que o bocal do saco de serapilheira tapa completamente a toca da árvore ouviste? O gambuzino é muito esperto e se deixas uma abertura, por pequena que seja, ele escapa-se!Fomos batendo os paus e gradualmente fomo-nos afastando.
Sentámo-nos ao cimo da escadaria da R. Pedro Álvares Cabral, medindo o tempo que duraria a paciência do Benjamim.Enfim, podia ter sido pior... Mesmo assim, compreendido o logro, só o vimos subir a escadaria esbaforido e ameaçando-nos por volta das duas da manhã.

Rui Felício

 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

ENCONTRO COM A ARTE- CONTO DE RUI FELÍCIO

PEDIDO DE CASAMENTO


Criava porcos numa pequena courela que tinha ao pé da Quinta das Flores.

Levantava-se da enxerga onde dormia, no seu casebre de madeira, antes do sol despontar, ia despejando a lavagem dos baldes para dentro das pocilgas, e ficava a olhar os focinhos cor de rosa a chafurdar nos restos da comida que no dia anterior tinha andado a recolher nalguns restaurantes do Calhabé.

Ao fim da manhã, ao chamamento dos grunhidos dos animais, acorria a dar-lhes umas mãos cheias de farinha e enchia de água os bebedouros de pedra. 

Ao entardecer dava-lhes couves e mais restos de comida. Depois ia fazer a ronda pelos restaurantes para a recolha das lavagens.

Regressava já de noite ajoujado ao peso de duas grandes latas cheias de comida que equilibrava penduradas nas pontas de um grosso cajado que enganchava nos braços e assentava nas espáduas.

Certa noite, desabafou com o dono do restaurante Marbran, à Fonte da Cheira, queixando-se da sua vida rotineira, sem perspectivas, sem alegrias.

- Casa-te! Precisas de te casar, homem...

- Com quem?!, perguntou admirado o Zé Feijão...

- Ora, com quem. Com uma mulher, é claro!

- Homessa! Nenhuma me há-de querer...

- Tens que fazer por isso. Elas não vêm ter contigo, ora essa!

A partir desse dia o Zé Feijão começou a olhar para as raparigas das vizinhanças. Uma a seguir a outra iam recusando os seus pedidos de casamento. 

Riam-se da sua fealdade, chegavam a humilhá-lo com dichotes.

- Cheiras mal, diziam-lhe por entre gargalhadas sardónicas.

Não houve mulher nova, velha, feia, bonita, gorda ou magra que acedesse aos seus intentos.

Descoroçoado, cabisbaixo, no domingo da inauguração da nova Igreja de S. José, foi assistir à grande cerimónia.

Não se conteve quando viu aquele deslumbrante vestido vermelho a adejar  na igreja, por entre a multidão de olhares que nele se concentravam.

 Encheu-se de coragem e assomou à coxia:

-  Quer casar comigo? Tenho um terreno na Quinta das Flores e crio porcos!

- Como posso eu casar contigo? Sou Bispo, fiz voto de celibatário...


Rui Felício


 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

ENCONTRO COM A ARTE- COIMBRA CONTO POR RUI FElíCIO

 TIMIDEZ TEM CONSEQUÊNCIAS                                   



Viam-se todas as manhãs...

Ele, segurando uma pasta de cabedal, a descer a Av. Sá da Bandeira em direcção à baixa e ela, carteira a tiracolo, a subir a caminho da Praça da República.

O Carlos Marques, elegante, aprumado, bem vestido, era um jovem alto, bonito, bem parecido. Tinha acabado o curso de Direito há um ano, estagiando agora num escritório de advogados da Rua Ferreira Borges. Fazia-o apenas para ganhar tarimba, porque aguardava resposta a um requerimento que fez para ingressar num serviço público adequado à sua formação jurídica, porque era aí que desejava fazer carreira, longe dos holofotes de teatro que considerava ser uma sala de audiências de um tribunal.

Sofria de uma profunda e agoniante timidez, que o fizera passar obscuro pelos bancos da faculdade, fechado em casa às voltas com os livros, longe das folias e da boémia coimbrã. Achava que essa forma de ser o desaconselhava de abraçar a advocacia, profissão para a qual, segundo pensava, não estaria talhado.

A Marilia, moça de olhos vivos, cheia de vida e sorriso cativante, olhava aquele belo rapaz ainda ele vinha longe, sempre à espera de um gesto seu, de um sorriso, algo que lhe mostrasse que também ele reparava nela. 

Sentia-se atraída pela sua esbelta figura e estaria pronta a aprofundar o conhecimento com ele, talvez um relacionamento, um namoro até, mas os dias sucediam-se e nada da parte dele o proporcionava.

Por vezes os olhares encontravam-se, mas quando assim sucedia ele desviava propositadamente os olhos, parecendo envergonhado, incomodado, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito.

O que a Marilia não sonhava é que o Carlos estava perdidamente apaixonado por ela e que só a timidez e a insegurança o impediam de o manifestar.

Uma noite, na solidão do seu quarto alugado na Rua Tenente Valadim, o Carlos encheu-se de coragem e decidiu escrever um bilhete que de manhã lhe entregaria quando passasse por ela.

Na manhã seguinte, afrouxou o passo sem parar, deu-lhe o papelinho, dobrado em quatro, quase sem olhar para ela e prosseguiu a marcha cabisbaixo, já intimamente arrependido de o ter feito.

Surpreendida a Marilia, desdobrou a bilhete e leu as palavras cuidadosamente desenhadas. Era uma frase simples, mas agradavelmente reveladora: “Gosto muito de si. Desculpe!.”

Olhou para trás mas ele já ia longe. Nem sequer sabia o seu nome, nem onde trabalhava, nada! Especada, ficou a vê-lo desaparecer na curva da Escola Avelar Brotero.

No dia seguinte, a Marilia esperou por ele nas escadas do Teatro Avenida, firmemente disposta a enfrentá-lo. 

Quando ele se aproximou, colocou-se ostensivamente à sua frente barrando-lhe o caminho e disse-lhe com um sorriso:

- Obrigada pelo seu bilhetinho de ontem. Quero que saiba que também gosto de si. 

Pareceu-lhe ver um ligeiro rubor na face quando ele se atreveu a dizer-lhe:

- Gostava que pudessemos encontrar-nos para nos conhecermos e conversarmos. 

- Também gostaria muito, respondeu-lhe a Marilia, mas infelizmente, ainda esta noite, vou para as Termas de São Pedro do Sul e ficarei por lá durante um mês. O meu pai todos anos lá vai fazer tratamento a uma doença de varizes que o apoquenta.

- Combinaremos então quando regressar, se estiver de acordo, propôs-lhe o Carlos, pesaroso, mas esperançado.

- Está bem, respondeu a Marilia. Até daqui a um mês então...

E seguiram cada um para o seu destino. Na atrapalhação do momento, nem ao menos se lembraram de perguntar um ao outro como se chamavam.

Uns dias depois o Carlos Marques recebeu um oficio do Ministério do Interior, a comunicar-lhe a sua admissão ao serviço a que concorrera.Era uma boa noticia!

Entretanto, em São Pedro do Sul, a Marilia encontrou um antigo colega de escola que não via desde há muitos anos. 

Era o Tibúrcio, agora médico a trabalhar nas Termas.

Todos os dias se encontravam e rapidamente a Marilia esqueceu o tal rapaz de Coimbra. Começaram a namorar.

Não era um namoro de férias. 

Estavam verdadeiramente apaixonados, a tal ponto que decidiram casar-se o mais brevemente possivel. 

Afinal já se conheciam desde crianças e não tinham quaisquer dúvidas sobre a firmeza do seu amor.

O Carlos é que, já no seu novo trabalho, não conseguia deixar de pensar na sua amada. 

Contava os dias para o regresso dela a Coimbra, para a ver, para lhe confessar o delirio da sua paixão, já imaginando deleitado os beijos que um dia trocariam quando começassem a namorar. 

Vivia ansioso, de coração apertado pela paixão quase doentia que o acometera.

Mas o mês passou, os dias e as semanas foram correndo, e a Marilia nunca mais apareceu pela Av. Sá da Bandeira.

E ele penalizava-se por, estúpidamente, nem sequer lhe ter pedido a morada.

Agora, não fazia a minima ideia de como a encontrar, de como a procurar.

Mal adivinhava o Carlos que ela deixara o emprego e por isso nunca mais passara na avenida como antes. Andava atarefada a tratar dos preparativos para o casamento com o Tibúrcio.

A data foi aprazada, trataram da papelada e, finalmente, no dia da cerimónia, a Marilia e o Tibúrcio foram à Conservatória do Registo Civil para celebrarem o casamento. 

Nervosos e irradiando felicidade, os noivos, as testemunhas, os convidados e familiares, entraram na sala de actos da Conservatória. 

Esperaram uns minutos e a funcionária informou-os que o Dr. Carlos Marques, Adjunto do Conservador, estava quase a chegar e que seria ele a celebrar o matrimónio.


Rui Felicio 


( Reeditado )


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

ESTRELAS CADENTE- TEXTO DE RUI FELÍCIO

ESTRELAS CADENTES

Vivi alguns meses na Casa Branca, em Coimbra, numa casa do meu avô paterno, perto da linha do comboio da Lousã, até que os meus pais e eu pudéssemos ir viver para a nova casa do Bairro.

Logo ao lado, havia um grande olival e terrenos de cultivo onde as luzes do Calhabé não chegavam.

Noite quente de verão, céu estrelado onde a inexplicável imensidão do universo fazia as pessoas emudecerem e reflectirem.

Os meus seis anos de idade mais incompreensível tornavam a noção de infinito a que o meu pai às vezes aludia em conversas com a minha mãe e os meus avós.

Disse-nos que naquela noite iria acontecer um belo espectáculo de estrelas cadentes...Ninguém, excepto eu, aceitou o convite que nos fez para sairmos de casa e irmos para o fim do olival esperar pelo tal espectáculo celestial.

 O meu pai e eu éramos os sonhadores da família...

Deitados sobre a relva, ambos contemplávamos silenciosos, quietos e maravilhados o céu negro, sem lua, pontilhado por milhões de estrelas. Deixando a mente vaguear sem rumos definidos.O silêncio era apenas entrecortado pelo ligeiro ruído das folhas das árvores à passagem da leve brisa quente que corria.

Finalmente as primeiras estrelas cadentes começaram a riscar o céu.

Entusiasmado, insisti com o meu pai para irmos apanhar uma. Ele sorriu e não querendo desfazer a minha fantasia, acedeu...

Levantámo-nos e o meu pai ficou a observar a minha correria em direcção à orla das árvores. Eu sabia exactamente onde uma delas tinha caído.

Como é enternecedora a fantasia das crianças que perseguem sonhos como se fossem realidades...

O meu pai ao fim de algum tempo, chamou-me para voltar para junto de si, tentando explicar-me que aquelas estrelas se desfazem no ar e não chegam a cair na terra.

Regressei para junto dele. Aproximei-me ofegante, feliz por ter conseguido apanhar uma.

Aquela mesmo que eu tinha visto descer do céu em direcção ás árvores do olival!...

Mostrei-a orgulhoso ao meu pai, brilhante, a luz esverdeada a pulsar na palma da minha mão...

O meu pai não quis estragar a felicidade da minha ilusão.

Só uns dias mais tarde me explicou que aquilo que eu apanhei na relva não era uma estrela cadente.

Era um pirilampo....

Rui Felicio

( Reeditado )

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

TEXTO DE RUI FELÍCIO TORRE DE BERA- COIMBRA

 RECORDANDO



A Torre de Bera, que visitei há uns anos num almoço de antigos militares que, como eu, andaram na Guiné, é a mais conhecida das 25 aldeias da freguesia de Almalaguês, no Distrito de Coimbra.

A sua torre, infelizmente em lamentáveis ruínas, e que representa uma Atalaia Militar antiquíssima, da época da Reconquista Cristã, deu nome à aldeia que em 1938 concorreu e obteve o 2° lugar da “aldeia mais típica de Portugal”.

O almoço, organizado pelo Victor David, reuniu muitos dos soldados que connosco viveram em África dois anos da nossa juventude, recordando os bons momentos lá passados.

Que os maus eram para esquecer…

À tarde, assistimos e dançámos juntamente com o Rancho Folclórico da aldeia.

Olvídámos a nossa avançada idade. Olhávamos uns para os outros com os olhos dos jovens de antanho. Alguns ainda se me dirigiam por “meu alferes” como se sentissem que estávamos ainda nas matas da Guiné!

Visitámos a casa de uma tecedeira mirando um tear onde ainda hoje se constroem tapetes, carpetes, mantas, tudo produtos que ainda hoje são a imagem de marca da região de Almalaguês.

No rés-do-chao, o dono da casa fez questão de nos fazer provar o vinho por si produzido.

Alguns dos vizinhos insistiram para provarnos também a sua pinga, o que gradualmente ia  desatando ainda mais as línguas e escancarando os risos.

Aos poucos, os que tinham vindo de longe, começaram a debandar que o caminho era longo.

O Cabo Xico despediu-se de mim, na hora de partir confessando:

    -  A pomada era bem boa!!


Rui Felicio


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

O COMETA - TEXTO DE RUI FELÍCIO

O COMETA

O Eduardo, empregado do Banco Pinto e Sotto Mayor, era um marido exemplar, respeitador da Beatriz com quem tinha casado na Igreja de Santa Cruz, há uns cinco anos. Amava-a, satisfazia-lhe todos os caprichos, não se passava uma semana em que não aparecesse  com um ramo de flores para lhe oferecer. Viviam num apartamento na Solum, que compraram com empréstimo do Banco onde ele trabalhava. 

Mas o Eduardo ainda não lhe tinha dado o filho que ela tanto

 desejava. A Beatriz vivia triste, desiludida, infeliz. Refugiava-se na lida da casa, não tinha amigas. Passava noites em claro, sozinha na cama, enquanto o Eduardo deambulava pelo Penedo da Saudade e pelo Choupal, de pescoço esticado a olhar para as estrelas e a tomar apontamentos.

O Eduardo, nascido na aldeia, nunca se habituara à cidade. Aliás, detestava viver em Coimbra. Era um apaixonado pela astronomia, passava noites em branco a olhar as estrelas, devorava livros e enciclopédias que falassem de fenómenos celestes, de planetas, de galáxias...

Um dia decidiu vender o apartamento, pedir um novo empréstimo ao Banco e comprar um terreno com uma pequena e velha casa em S. João do Campo. Convenceu a Beatriz a mudarem-se para lá. Cumpriria assim o sonho de viver longe da poluição luminosa da cidade que não o deixava observar os astros. A Beatriz poderia ocupar o tempo, dedicando-se ao cultivo do pequeno terreno, plantando tomates, pepinos e toda a sorte de legumes que ajudariam a equilibrar o orçamento caseiro.

Ao principio, a Beatriz ainda mais infeliz andava, mas aos poucos começou a sorrir, as cores avivavam-lhe o rosto, trabalhava na horta desde o nascer do sol até à noite. O Herculano, que amanhava uma terreno do pai perto da aldeia, era ainda primo afastado do Eduardo, e ajudava-a, ensinava-lhe os segredos da agricultura.

Naquele ano de 1986, chegou o grande dia e o Eduardo andava eufórico! O cometa Halley ia passar perto da Terra. Antes de jantar avisou a Beatriz que ia passar a noite em Verride, junto ao Mondego para ver o cometa. Ia levar o telescópio e observar a aproximação do cometa, que seria visto no seu auge por volta das cinco da manhã.

A Beatriz simulou pena, encolheu os ombros e disse-lhe para ele ir descansado, que não se preocupasse. Porque ela o que queria era vê-lo feliz.

O Eduardo agradeceu, aproximou-se para lhe dar um beijo de despedida a que ela, no ultimo instante, correspondeu com um leve toque dos lábios no seu rosto.

Passada uma hora bateu á porta o Herculano. Entrou, e perguntou à Beatriz:

- Queres ver o cometa?

- Não! Quero é ver, agarrar e sentir o teu telescópio explorando as profundezas do meu universo...

Um ano depois, o Eduardo, a Beatriz são um casal feliz, na companhia do tão esperado filho nascido há pouco mais de dois meses.

É o Pedrito, lindo rapaz que, diz-se na aldeia, é a cara chapada do seu primo afastado...

Rui Felicio

-------reedição-------

 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

AGONIA- TEXTO DE RUI FELICIO

AGONIA

O Sr. Dias usava dentadura postiça...

O seu fiel Tabú acompanhava-o sempre, parecendo orgulhoso do sorriso luminoso do dono e este da amizade e fidelidade do cão rafeiro que, com ele, partilhava um casebre ali para os lados da Quinta das Flores

Certa noite, o Tabú fitava apreensivo o seu dono, ao vê-lo, agoniado, em frente ao portão do GRECO, meter os dedos à garganta e provocar um abundante vómito, depois de ter estado numa patuscada no Capim, onde comeu de tudo e em quantidade, bebendo talvez para além da marca.

O cão lambia e saboreava o vomitado, e de súbito abocanhou, sôfrego e apressado, a dentadura do dono que, no meio dos espasmos, se lhe soltara, caindo no chão.

O Sr. Dias ainda tentou arrebatá-la da boca do Tabú, mas este, obedecendo ao seu instinto, rosnou-lhe e engoliu-a.

Com dificuldade em articular as palavras o Sr. Dias berrou-lhe, ameaçou-o, ordenou-lhe que lhe devolvesse os seus dentes. Mas o Tabú, de rabo entre as pernas, parecia querer dizer-lhe que já nada havia a fazer. Já os tinha no estômago...

O dono levou-o para casa e fez-lhe um clister. Era a única forma, expedita, de apressar a saída da dentadura, através do ânus do cão. Era preciso que ele defecasse! E quanto mais depressa melhor!

Pacientemente, sentado, com a cabeça entre as mãos, O Sr. Dias esperou, esperou...

Até que, finalmente, o cão expeliu toda a carga que lhe enchia e magoava os intestinos.

No dia seguinte, o Tabú parecia mais orgulhoso do que nunca, ao olhar o Sr. Dias passear-se pelo Bairro, cumprimentando quem passava e exibindo ostensivamente o seu belo sorriso...

Aquele cão sentia que, agora, também já era um pouco dono de uma parte do seu dono...

Rui Felício

 

terça-feira, 10 de outubro de 2023

GARRAIADA NA FIGUEIRA DA FOZ - TEXTO DE RUI FELÍCIO

GARRAIADA DA FIGUEIRA 

A Comissão Central da Queima das Fitas, dava livre-transito em todas as entradas nas diversas festas da Queima, a quem se inscrevesse para fazer parte do elenco da garraiada da Fig.da Foz. 

O Noronha desafiou-me para irmos falar com a Comissão e sabermos o que era preciso fazer.

Lá fomos, o Noronha, o Reis Marques e eu.

Os tipos da Comissão disseram-nos que precisavam de um Cavaleiro, alguns Forcados e um Matador.

O Noronha, filho de um oficial da GNR sabia montar a cavalo pelo que a escolha do Cavaleiro era óbvia.

O Reis Marques forte e espadaúdo seria Forcado.

A mim, embora sem perceber nada de tauromaquia, só restava ser Matador. 

No domingo seguinte de manhã teríamos que nos apresentar na Praça de Touros da Figueira.

Assim fizémos. Reparámos que tinham desenhado cartazes que colocaram nas ruas adjacentes à Praça:

   - Zé Panhonha cavalgará o Rocinante vindo da Arena de Cádis;

    - Marquês Rabejador agarrará pela cornadura a fera bestial;

    - El Fininho vindo directamente de Sevilha exibirá belos passes de peito a centímetros do touro.

O El Fininho era eu, claro

Já na Praça, vestiram-me um "traje de luces" cheio de dourados e abaixo dos joelhos umas meias cor de rosa justas às minhas canetas fininhas

Na cabeça, o "montero", chapéu esquisito que os matadores usam. 

Na mão, uma capa vermelha para citar o bicho.

E começa a tourada!

O Noronha montando o Rocinante cita o garraio logo que este sai esbaforido da porta dos curros.

Rodeia-o, grita-lhe galopa à sua frente e, por fim, com um gesto largo cede-me a faena, apontando para mim que estava na trincheira.

Pulo por cima das tábuas, atiro o "montero" para a bancada sob uma tonitruante salva de palmas e cito o touro de praça a praça.

Mas…

O animal lá longe não me ligava nenhuma.

Até que finalmente me viu tanto eu berrava para ele investir. 

Com a pata raspou a terra, baixou os cornos, urrou e desatou a correr na minha direcção de cabeça baixa.

Quis imitar, como vira na televisão, o Manuel dos Santos, famoso toureiro que obrigava o touro a circular à sua volta sem ele mesmo sair do seu lugar.

Coloquei o capote à minha frente e no último momento afastei-o para o lado direito esperando que o touro seguisse o pano vermelho.

Mas…

Ele baixou a cabeça, enganchou os cornos por baixo das minhas pernas e antes de eu cair, com uma potente marrada fez-me voar por cima da trincheira onde me estatelei.

Fui levado em braços para a enfermaria sob fortes aplausos. 

Rui Felício


 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

ENCONTRO COM A ARTE-FOTOGRAFIA -COIMBRA-BAIRRO NORTON DE MATOS

A primeira seta (esquerda) indica a casa do Rui Pato A segunda seta a minha casa

   Por Rui Felício
 

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

A MONARQUIA DE COIMBRA -TEXTO DE RUI FELÍCIO

 A MONARQUIA EM COIMBRA

Na Travessa do Ponto e Virgula, empoleirada no píncaro do morro que a natureza plantou entre a Rua Visconde da Luz e a Rua Ferreira Borges, estava a casa apalaçada de mais de vinte divisões onde vivia o Barão do Calhabé, numas exíguas águas furtadas, dono e senhor de extensas herdades entre o Tovim e os Arcos do Jardim.

Falecido há mais de dez anos, vivia o Barão, desde então, num completo desassossego porque o seu titulo nobiliárquico e os bens inerentes, só podiam ser transmitidos à filha mais velha que ainda estava por nascer e só depois do seu casamento.

 A sua irmã mais nova, já casada, a tais pergaminhos não tinha direito por herança, por decreto real do Rei de Portugal que havia de nascer 50 anos depois.

Das profundezas da sua tumba, no cemitério da Conchada, mandou proclamar éditos para que se apresentassem candidatos à mão da tal filha mais velha.

Apareceu um jovem, falecido há dezenas de anos, apresentando os seus atributos. Era um esqueleto bem conservado, onde balançavam três braços musculosos.

Por falta de concorrência, o Barão aceitou de imediato a sua candidatura à mão da filha mais velha que havia de nascer.

Ela gostou logo dele, por ter um braço a menos que os quatro das pessoas normais, facto que a libertaria de trabalho quando tivesse que lhe passar as camisas a ferro.

Ao invés, o pretendente não vivo, começou a desfazer nela por ser uma mulher já demasiado idosa e ainda não nascida.

O casamento não se consumou, a filha mais velha do Barão ainda demorou mais cem anos a nascer e morreu de nova, sempre divorciada, duzentos anos depois.

O Barão exigiu ser exumado e mandou que lhe fosse feito um funeral com pompa e circunstância logo que voltasse a nascer.

O titulo nobiliárquico caducou, os bens inerentes foram confiscados a favor do bairro da Solum e a designação Calhabé foi substituída por S. José. 

Rui Felício

NB: Não, não estou louco. Vou a caminho…


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

LÁPIS DE TINTA - TEXTO DE RUI FELÍCIO

 LAPIS DE TINTA

No topo das carteiras da escola existiam dois tinteiros de louça encastrados na madeira e ao lado  uma caneta de aparo junto a cada um deles.

Nas provas de caligrafia, o professor exigia que os alunos escrevessem com aquelas canetas, cujo aparo iam molhando no tinteiro, desenhando no papel de linhas, o texto que iam lendo do quadro preto da sala.

Enquanto nos exercícios de aritmética eram autorizados a  usar lápis e borracha, na caligrafia era obrigatório escreverem a tinta.

Uma descoberta revolucionária apareceu nos anos cinquenta.

Já era possível escrever a tinta sem recurso às canetas de aparo que às vezes esborratavam tudo.

Foi quando apareceu o lápis de tinta.

Tinha o mesmo aspecto dos lápis vulgares mas, quando se humedecia a ponta, escrevia a tinta com se de uma caneta se tratasse.

Não descansei enquanto não tive um desses lápis que eram vendidos na Tabacaria Celeste.

Um luxo e uma vaidade !

Na escola da Rua do Volta Atrás, no primeiro dia que levei o lápis de tinta, não parava de levar o bico à boca para o molhar com a língua, orgulhoso de ser dos primeiros a ter um utensilio daqueles.

Ao intervalo, no recreio, estranhei a risota dos meus colegas.

Ao principio levei isso à conta de inveja.

Só percebi quando o Zé Bento me disse:

- Oh pá, vais ter de lavar a boca. Está tudo azul à volta.

Levei horas para fazer desaparecer a tinta. 

Rui Felicio



quinta-feira, 17 de agosto de 2023

BAR DOS DIREITOS-TEXTO DE RUI FELÍCIO

BAR DOS DIREITOS 

Numa das minhas recentes visitas a Coimbra, dei uma volta pelos Gerais, passeei pela Via Latina e quedei-me durante largos minutos ao cimo das escadas de Minerva, comendo com os olhos a paisagem em frente, com o velho Mondego a correr calmamente lá em baixo.
Recuei o olhar e varri com a vista os telhados do casario que desce a encosta.
Imaginei-me muitos anos antes, naquele mesmo sitio, de capa e batina, pasta debaixo do braço, absorvendo a beleza da paisagem.
Debrucei-me sobre as grades, olhei a rua em baixo e confrangi-me com a degradação em que se encontrava o antigo Colégio da Trindade.
Tentei localizar a tasca do Pratas. Só vi portões fechados...
Atravessei lentamente o pátio da Universidade em direcção à Porta Férrea. 
Já cá fora ,olhei demoradamente a porta das Letras, recordando as belas colegas de outros tempos que por ela saiam e entravam constantemente, alegrando com os seus risos juvenis o negrume das capas negras. 
Contornei a Biblioteca Geral, desci junto à Filantrópica Académica e voltei na rua à direita, mais abaixo. 
Onde estava a tasca do Pratas, ou melhor dito, o Bar dos Direitos? Nada, tudo fechado! Perguntei a um velho que, apoiado numa canadiana, vinha subindo devagar o empedrado da rua, se a tasca já não existia.
 Confirmou-me que de facto já tinha fechado há uns anos.
Muitos se lembrarão que a Faculdade de Direito era a única que não tinha bar ou espaço de convívio para os estudantes. Era aquela tasca que pomposamente se assumia como o nosso Bar.
Tratava-se de um pequeno espaço, de não mais que cinquenta metros quadrados, as paredes decoradas com restos de capa e batina, ali deixados, como recordação, pelos nóveis doutores no dia da sua formatura e depois do rasganço da praxe. 
Como eu gostava de lá ter voltado a beber um copo de vinho e olhar a imagem tosca do meu colega Santo António empoleirado no altar espetado na parede da tasca, orgulhoso nas suas eternas fitas vermelhas.
   Rui Felício

 

segunda-feira, 26 de junho de 2023

TEXTO DE RUI FELÍCIO A CASA DOS TORRESMOS

CASA DOS TORRESMOS                                        


O Zé Lopes, mais conhecido por Carvalhosas, por ter nascido na aldeia do mesmo nome na margem esquerda do Mondego, afirmava sem modéstia que a sua Casa era a melhor de Coimbra para uma ceia à base de petiscos.

Nem tanto para se jantar, porque os melhores cozinheiros que ali iam fazer uma perninha, só à noite estavam disponíveis. 

Durante o dia trabalhavam nas sofisticadas cozinhas do Hotel Astória e do Hotel Avenida.

Mas em comida de palito o dono da Casa dos Torresmos pedia meças.

Com a dupla vantagem, dizia, de o artefacto de Lorvão servir para picar o petisco e depois para esgaravatar os dentes no fim do repasto.

A sua Casa, orgulhava-se o Carvalhosas, oferecia um bom ambiente para uma converseta entre os convivas, sobre os mais variados temas, desde política à má língua.

Degustar uns pipis, umas rodelas de morcela de arroz, umas moelas com molho picante, uns troços de farinheira frita, uns torresmos, umas tiras de presunto da salgadeira, uns nacos de leitão da Bairrada, acabado de chegar no comboio das oito, umas fatias de queijo curado de São Romão, tudo regado com uma celestial pomada do barril atestado dia sim dia não com o encorpado  tinto vindo expressamente de Cantanhede, tudo isto era o lastro estomacal, para desatar as línguas, exercitar os dedos e afinar as gargantas para a desejada sessão de música popular com que terminaria a noite.

Era especialmente aos sábados à noite que ali se juntavam os tocadores e os cantores, que eram gente de trabalho e nem sempre podiam fazer noitadas nos outros dias da semana.

A Casa dos Torresmos, na Travessa das Canivetas, atraía a vizinhança das vielas próximas que às portas e janelas se aprestava para ouvir os trinados que esperavam escutar lá por volta das onze da noite.

O Ralha na guitarra, o Arnaldo no banjo ou na concertina, o Olímpio na viola eram, todos eles, excelentes executantes e por isso presenças desejadas pelo Carvalhosas que transformariam a noite quando a sua vida lhes permitia irem à sua Casa.

O Olimpio e o Ralha também cantavam, mas a trempe ficava completa, quando, pasme-se, aparecia o Lacerda, Chefe da Secretaria do Liceu D.João III, que interpretava divinamente o Fado de Coimbra e outras canções populares beirãs.

As noites coimbrãs, ao contrário do que se pensa, não se resumiam ao ambiente universitário.

RF

 

domingo, 4 de junho de 2023

A CANETA MÁGICA-TEXTO DE RUI FELÍCIO

CANETA MÁGICA

( Em homenagem a um grande amigo...)

Ofereceram-lhe aquela caneta de tinta permanente, quando ele foi para o liceu, dizendo-lhe que era uma caneta mágica. Aparo prateado, corpo luzidio mesclado de manchas avermelhadas e uma tampa onde sobressaía uma mola para a prender no bolso do casaco.

Apesar de criança ainda, não acreditava muito nessas coisas de mágicos. Sempre foi um miúdo pacato, incrédulo, humilde. Procurava mais passar despercebido do que sobressair no meio dos seus amigos. Mas ficou a pensar naquelas palavras. Havia de experimentar…

A fantasia dos seus verdes anos levava-o para etéreos pensamentos, procurando descobrir uma maneira de testar a magia da caneta. Tinha de o fazer de forma cautelosa, para não incorrer na risota dos colegas.

Um dia disse à Belita, sua amiga e vizinha, que a caneta fazia magias. Apontou-lha e pronunciou em voz cava e soturna, como tinha visto fazer uma vez a um ilusionista do Circo Maravilhas que esteve um tempo junto ao Estádio Municipal:

- Eu caneta mágica, vou te fazer rir às gargalhadas!

A Belita, que não esperava aquela teatralidade, para mais vinda da parte dele, desatou a rir, nem ela sabia bem porquê. E quanto mais sério era o ar dele, mais ela se ria, em gargalhadas sonoras, incontroladas.

Afinal, parece que a caneta era mesmo mágica, pensou ele na sua ingenuidade de criança.

Não se ficou por ali. Tinha que fazer outra experiência que confirmasse a primeira.

Para dar maior solenidade e aparato, tal como fazem os mágicos, desenroscou a tampa e pediu para a Belita abrir a mão. No mesmo tom de voz que parecia sair das profundezas, disse-lhe:

 - Eu caneta mágica, ordeno-te que chores agora!

Ao mesmo tempo, apertou com força a caneta e, sem querer, do fole onde estava depositada a tinta, saiu em jacto, um esguicho azul escuro para a palma da mão que a Belita mantinha estendida.

E não é que ela desatou a fugir com a mão a escorrer tinta, gritando pela mãe e a chorar convulsivamente?

Está visto, pensou ele, não há dúvida que esta caneta que me ofereceram é mesmo mágica!

Foram precisos alguns anos para que ele finalmente percebesse que a prova da magia não estava naqueles circunstanciais episódios de infância, mas sim nas palavras que, a mando dele, a caneta vertia para o papel.

Ainda hoje, mais do que nunca, a magia daquela caneta se faz sentir.

Ainda hoje mais do que nunca, quem lê o que ela escreve, não resiste a rir, a chorar, a pensar, a meditar, a comover-se, conforme as palavras que ela desenha no papel.

Afinal quem lhe ofereceu aquela caneta tinha razão!

Essa caneta que o Quito continua hoje ainda a usar é mesmo mágica!

Rui Felicio


quinta-feira, 11 de maio de 2023

ENCONTRO COM A ARTE/CONTO POR RUI FELÌCIO


 A RÁDIO NO MEU BAIRRO

Não havia ainda televisão em Portugal. E mesmo depois de ter aparecido em meados de 1950, muito poucas pessoas a ela tinham acesso doméstico, porque os aparelhos eram caros e o dinheiro escasseava.

A força da comunicação era, portanto, a rádio, indiscutivelmente.

Os noticiários eram, sobretudo, uma forma de propaganda do regime, mantendo o povo na obscuridade e afastado do que se passava no mundo.

As audiências, porém, subiam em flecha às horas dos programas de entretenimento ou de desporto. Despovoavam-se as ruas do bairro, com toda a gente fechada em casa, escutando o som roufenho dos aparelhos de rádio de fraca qualidade, vivendo entusiasmada e atenta os relatos dos feitos dos nossos hoquistas, habituais vencedores a par dos rivais espanhóis, dos famosos torneios de Montreux.

Ou ainda, ouvindo e cantarolando as canções dos artistas em voga nos cíclicos Serões para Trabalhadores da Emissora Nacional, enquadrados na “alegria no trabalho” que o regime intencionalmente incentivava, ou o programa, mais aberto, de “Os Companheiros da Alegria” no Rádio Clube Português conduzido por Igrejas Caeiro, que não se cansava de dizer que “uma nota de 500 não se pode deitar fora...”.

Ultrapassavam-nos a todos, em número de ouvintes, as rádio novelas, cuja memória ainda perdura nas pessoas desse tempo.

Os folhetins diários do Teatro Tide e do Simplesmente Maria, faziam paralisar quase por completo, as actividades das donas de casa, das rapariguinhas e de alguns rapazes do bairro. E forneciam pretexto para acesas discussões, logo a seguir às emissões, especulando-se sobre os seus futuros desenvolvimentos, e sobre as obscuras intenções das personagens mais populares das novelas.

Interpretadas por, entre outros, Carmen Dolores, Alice Ogando, Olavo d'Eça Leal, Francisco Mata, Odete de Saint-Maurice.

As novelas faziam esquecer por momentos, os sacrifícios e dificuldades que afectavam as vidas da maioria das famílias do bairro.

Panem et circensis... ( Menos panem, mais circensis )

Rui Felício

-----reeditado-----

quarta-feira, 26 de abril de 2023

ENCONTRO COM A ARTE-CONTO E IMAGEM DE RUI FELÍCIO


 O HUMBERTO DOS ADÁGIOS

O Café Samambaia estava cheio. Lá dentro e cá fora na ampla esplanada, nenhuma mesa livre.

Aquela bela mulher, curvilínea, irrepreensivelmente vestida, atraía os olhares dos homens, uns de forma disfarçada, outros de maneira ostensiva.

Caminhando por entre as mesas, a Marilia tentava descobrir, sem êxito, um lugar para se sentar. Fixou os olhos negros, amendoados, numa mesa lá ao fundo onde se encontrava o Humberto sózinho, absorto na leitura do Diário de Coimbra.

- Desculpe-me estar a incomodá-lo, mas não consigo encontrar nenhuma mesa livre. Importa-se que me sente à sua mesa?

O Humberto levantou os olhos do jornal, espantou-se pela beleza daquela mulher, puxou uma cadeira e convidou-a a sentar-se, indiferente aos sorrisos da malta que seguia a cena:

- Faça favor! Guardado está o bocado para quem o há-de comer!

A Marilia sorriu, sentou-se e agradeceu:

- É muito simpático. Reparei que foi o único homem que, educadamente, não me comeu com os olhos enquanto eu procurava lugar.

- Estava a ler, e enquanto se cava na vinha não se cava no bacelo, esclareceu o Humberto com um sorriso.

- Você, além de simpático, educado e atraente, é muito engraçado. Está sempre a citar provérbios, disse a Marília com uma gargalhada. E vê-se que é um homem polido e de boas maneiras.

- Polidez pouco custa e muito vale, respondeu-lhe o Humberto  pousando delicadamente a mão na mão dela.

A Marília gostou daquele toque fugidio e carinhoso e retribuiu, pegando-lhe na mão e olhando-o melancolicamente.

O Humberto quebrou o silêncio:

- O que está feito, feito está...

- Como se chama? Gostaria de o conhecer melhor, atirou a Marilia...

- Humberto é o meu nome. Mas é pelo voo que se conhece a ave.

- Julgo que deviamos voar nas asas da fantasia, incentivou ela, sentindo as caricias que os dedos dele faziam nos seus.

O Humberto alongou-se na sua resposta:

- Barco parado não faz viagem. Podemos encontrar-nos logo à noite, se quiser...

- Hoje não posso. Mas podemos ver-nos amanhã, disse ela.

- Há mais marés que marinheiros!

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No dia seguinte jantaram, à luz das velas, num restaurante à beira do Mondego e apanharam um táxi para casa dela.

Beberam um copo, dançaram ao som suave de uma música romântica, sob a ténue e cálida luz de um candeeiro de mesa e uma hora mais tarde beijavam-se sofregamente já deitados na cama.

As caricias trocadas, o calor dos corpos nus, os sussurros, endoideciam a Marilia 

que, já descontrolada, lhe pedia que consumasse o acto de amor.

O Humberto disse-lhe em voz rouca:

- Devagar se vai ao longe e grão a grão enche a galinha o papo.

Mas a Marilia já não podia esperar mais e o Humberto, embora se esforçasse muito, não estava a conseguir.

Ela fez tudo o que pôde para o ajudar mas ele derrapava, gemia, e nada!

Já irritada, ao fim de duas horas de esforços infrutíferos, gritou-lhe:

- Então?!

O Humberto, deixou-se cair para o lado, exausto, e só foi capaz de dizer:

- Roma e Pavia não se fizeram num dia!

Rui Felicio 

----reeditado----'