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terça-feira, 8 de maio de 2012

SABORES DE CABO VERDE ...

Porto é cidade. Porto é clube. Mas Porto, também é povo. Ali, na distante e bela cidade do Mindelo, a bandeira do Futebol Clube do Porto apadrinha a vendedeira de rua, na sua labuta pela vida. Confiança em novas alegrias que já se pressentiam no horizonte ? Talvez ...
PARABÉNS, CARLOS VIANA ...
Quito Pereira

segunda-feira, 26 de março de 2012

UM ESTRANHO NA CIDADE ...

Subi ao Chiado a abraçar Pessoa ...
Parti para Lisboa, ao encontro de Coimbra. No coração, levava uma capa. Uma capa negra e o doce trinado do murmurar do Mondego. Ali, no São Jorge, cinema destas e de outras eras, fomos chegando em sucessivas ondas de emoção. Já antes, lá para os lados da Gare do Oriente, tinha almoçado com o Rui Felício. Por muito tempo, ficámos na esplanada, olhando o rio e falando dum Bairro que é o nosso. E de Coimbra. Daquela cidade que é a nossa. Depois, a conversa tomou asas e até um texto sobre um comboio pachorrento a calcorrear a planície alentejana, deu para divagar sobre Vergílio Ferreira.
Daquela noite lisboeta, em que Coimbra foi rainha, é difícil explicar todo aquele caudal de virtuosismo e o talento de todos. A irreverência coimbrã à solta, num espetáculo que nada teve de formal. E se assim não fosse, então não seria Coimbra.
Por amabilidade da minha amiga Susana Redondo, sentei-me num lugar reservado. E foi dali que assisti, a momentos da mais apaixonante poesia. Também do ouvir o pranto das guitarras e violas e as magnificas vozes de alguns que foram transversais ao meu Tempo, caso de Luís Goes. Mas não poderei deixar de falar aqui do Grupo “Raízes de Coimbra” e de dois dos seus elementos: Rui Pato e Mário Rovira. Era o Bairro que estava ali. Emocionei-me e nem sequer tenho o pudor de o esconder. Outros choraram. Porque os homens também choram, envoltos numa capa negra de saudade.
Como chegámos, assim partimos. O Destino que, generoso, nos trouxera até li pela mão, encarregava-se agora de nos espalhar pelos braços dos pontos cardeais.
Na manhã seguinte, parti ao encontro de Lisboa. Subi ao Chiado, num abraço a Pessoa. Desci a Rua do Carmo, ao encontro do “Grandella”. Encostado à porta do mítico armazém, entretive-me a ver um palhaço a fazer com um canudo, bolas coloridas de sabão. E a menina de tenra idade, de vestido cor-de-rosa e laçarotes no cabelo, que batia as palmas de entusiasmo. Então, a enorme bola subia a rua até rebentar, para espanto da criança, num esgar de desilusão. E o palhaço, generoso, rapidamente fazia outra, não dando à menina tempo de chorar. Depois, parti. Calcorreei o Terreiro do Paço do nosso descontentamento. Passei pelo Arco da Rua Augusta e deambulei pelo empedrado da calçada. Uma bebida refrescante, sorvida em pequenos tragos, foi o mote para observar toda aquela avalancha de gente que passava, em destinos e vidas cruzadas. Vi o executivo, de semblante carregado e pasta na mão. Vi o par enamorado e olhar romântico, na primavera das suas vidas. Vi o cauteleiro, que tem a sobrevivência pendente das cautelas, que lhe escorregavam dos dedos em cascata. Vi o engraxador, curvado sobre o Destino. Vi um elétrico de turismo, com a cara de um asiático de boné colorido, em cada uma das janelas. Vi uma rapariga jovem, vestida a rigor de baile palaciano, a fazer de estátua. Por cada moeda a tilintar na lata, uma melodia harmoniosa que aparecia como por magia e um agradecimento numa vénia bem redonda e acentuada.
E vi um homem da Beira à beira do Tejo, de óculos escuros e cabelo grisalho, sentado à mesa da esplanada cosmopolita da Baixa Pombalina, longe das paisagens campesinas.
Reconheci-o. Era o meu heterónimo à procura de mim ...
Quito Pereira