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quinta-feira, 28 de junho de 2018

O GALO DE CABIDELA ...




Pensa um homem que anda anónimo, a percorrer a autoestrada do norte a caminho do sul, quando nestas modernices que os novos carros oferecem, o telefone tocou. Do lado da lá da linha, uma voz familiar suplicou – me em tom amistoso:

- Óh pá, tens aí dez mil euros disponíveis para comprar um brasileiro para a Académica, que está para desalfandegar num contentor de um navio atracado no porto de Leixões?

A fumar um charuto cubano,  perguntei ao meu preclaro amigo se queria em dinheiro vivo ou cheque visado. A brincadeira acabaria por ali, não fosse a voz tornar-se imperativa, para me dar uma ordem sem direito a resposta:

- Vais a Lisboa mas resolve lá a tua vida, que amanhã tens que estar em Águeda, a lutar contra um galo de cabidela.

Fui a Lisboa e, de uma janela alta, vi uma vista privilegiada da capital do reino. Depois regressei a Coimbra na brasa, sempre desconfiado dos radares fixos, por muito que alguns digam que estão desativados. No dia seguinte, lá partimos todos em procissão, como é costume. Após uma viagem com muito trânsito e muitos semáforos, um compasso de espera fora do restaurante. Uma espécie de estágio, agora que andamos em tempo de campeonato do mundo de futebol. Minutos depois entrámos em campo, onde sentados numa mesa comprida, vimos aterrar dois  enormes tachos que mais pareciam duas piscinas. Só faltava a prancha de saltos.

Bonito foi o repasto. E belíssimo era o arroz de cabidela, bem condimentado, picante quanto baste para puxar ao tinto a escorrer pelas gargantas. A conversa animada e as estórias de outros tempos de um bairro que é o nosso. Dos tachos não restou nada. Dos confrades, apenas ficou a confissão do costume de que comeram de mais, enquanto afagavam as barrigas redondas como um tambor, sob o olhar reprovador do elemento feminino, muito mais comedido na arte milenar e gloriosa de dar ao dente. Ainda não refeitos, derramaram-se sur la table dois bolos – rei apetitosos, que mais parecia tempo de Natal. Nem a falta de adereços natalícios tirou o apetite aos circunstantes, que se lançaram aos bolos como se ainda não tivessem almoçado. De novo o padre Aníbal a dar mais duas voltas na tumba, pois de nada lhe valeu os seus monocórdicos e enfadonhos discursos sobre o pecado da gula. Nem um que também por lá apareceu com nome Bíblico se livrou de um dedo acusador, naquela orgia de mastigação.   

Ainda a horas decentes, regressámos a casa entre risos e abraços. E, como nos contos infantis, vivemos todos para sempre muito felizes. Menos o pobre do galo, uma evidência que nem carece de demonstração. 
Q.P   

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

DISTINÇÃO ...

 
Os filhos dos nossos amigos, nossos amigos são. Ontem, entre outros nomeados, o Chefe de Cozinha Henrique Sá Pessoa, foi galardoado em Espanha com uma " Estrela Michelin", em reconhecimento pelo seu trabalho em prol da Arte da Gastronomia. 
 
O Henrique Sá Pessoa é figura pública e conhecido por programas televisivos em que dá a conhecer os seus segredos culinários.
 
A seu pai, Alfredo Sá Pessoa, meu camarada de armas em terras de África, já tive oportunidade de felicitar telefonicamente  pelo êxito do Henrique.
 
A quem tiver interessado, dizer que o restaurante de que é proprietário - ALMA - fica em Lisboa na Rua da Anchieta nº 15, telefone 213 470 650.
Quito Pereira   

domingo, 23 de junho de 2013

sábado, 14 de abril de 2012

SOZINHO EM CASA ...


Maldita cozinha ...

Maldito destino. Maldita vida. Maldita cozinha, que me consome. Já não me basta o telejornal, os discursos do Senhor dos Passos, o Gasparinho com olheiras até ao umbigo, os submarinos do Paulo, os primos da Suiça do regedor de Oeiras, o trio Odemira que anda por aí de pasta na mão a palmar-me os subsídios, o Jorge Jesus a mascar a pastilha, a frota de meninas do Pinto da Costa, as vitórias morais da Académica … irra que estou farto !!!

E eu aqui, na cozinha, encostado à banca, de pijama, avental, cabelo num desalinho e a barba por fazer. A olhar para a frigideira debruada a negro, a transbordar de alho esturricado do jantar de ontem à noite. Mas quem me manda a mim, ter peneiras de que sou capaz de cozinhar melhor que o Chefe Silva? Sim, quem me manda a mim!?. Verdade se diga, que ele também não faz nada de jeito. Cherne no forno, enfeitado com molho de cereja … Bacalhau à Zé do Pipo sem pipo, quer dizer … sem vinho … uma blasfémia … ou então, salmão da Noruega, embebido em sumo de tangerina de Marraquexe. Vossas Senhorias comiam aquilo ? Não?! Nem eu !!!

E eu aqui, na cozinha, encostado à banca, de pijama, avental, cabelo num desalinho e a barba por fazer. A olhar para o fogão, a pingar gordura de cima a baixo e a lembrar-me do dedo em riste encostado ao meu nariz, num discurso perturbante:

- QUANDO EU VOLTAR, QUERO A COZINHA TÃO LIMPA QUANTO A DEIXEI ...

E eu aqui, na cozinha, encostado à banca, de pijama, avental, cabelo num desalinho e a barba por fazer. Até o raio do chão se me cola às pantufas, até os deuses estão contra mim…

Mas que culpa tenho eu, que a frigideira começasse aos estampidos de bacamarte, por causa do azeita a ferver ? Que culpa tenho eu, que o estafermo do alho, ficasse castanho ? Que culpa tenho eu, que a polpa de tomate, que deitei em cima do alho e do azeite, ameaçasse explodir, que mais parecia o Vulcão dos Capelinhos ? Sim, que culpa tenho eu ??? …

E eu aqui, na cozinha, encostado à banca, de pijama, avental, o cabelo num desalinho e a barba por fazer. Maldita sertã, que mais parecia possuída pelo demónio, a saltar em cima do fogão. Salvou-se um deslavado esparguete anémico, que devia levar o dito molho por cima …

E eu aqui, na cozinha, encostado à banca, de pijama, avental, o cabelo num desalinho e a barba por fazer, a olhar tristemente para a pilha de louça suja, meditabundo …

Mas quando o dedo acusador chegar, acho que já cá não estarei. Vou seguir o conselho encorajador do nosso putativo Primeiro Ministro …

VOU EMIGRAR …

Quito Pereira