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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

LEVASTE A CHUVA NOS BOLSOS ...






Numa manhã de maio partiste para o Sono Eterno. Mereces esse sono reparador pela tua alma inquieta e inconformada. Viveste num planeta que não era o teu e numa galáxia que não era a tua, aprisionado pelas grilhetas de uma sociedade que não te compreendia nem te compreende. Vestiste na vida o preto carregado do luto. O luto do teu ser atormentado. Derramaste pelos livros de poesia que escreveste o sentir da tua rima negra. O desencanto e a descrença que se visitam e revisitam página a página naquele labirinto de emoções pardas em que nos perdemos como náufragos na procura de um porto de abrigo que não vislumbramos. Morremos contigo e sentimos-nos levados pela tua mão pela diáspora do Universo e do Eterno.

Não te conheci nesta vida, José António, mas queria. Queria muito. Queria falar-te do teu pai. Queria dizer-te quanto ele significou na minha infância Choupalina. Queria envolver-te a ti e a ele num abraço fraterno. Mas sei que é impossível, pois tal como tu também ele partiu. Partiu cedo quando ainda muito tinha a esperar da vida. Afinal a morte dos homens comuns, que viajam anónimos no rasto da cauda luminosa de um cometa. Mas tu, Zé António, nunca viveste amarrado ao cais da nossa existência opaca. Apenas emprestaste a este mundo o corpo que assinalava a tua presença física, passeando por aí absorto e ausente, trazendo contigo "a chuva nos bolsos". Porque o teu espírito e a tua alma nunca pisaram esta nau terrena do conformismo do nosso penar. A chuva que levaste nos bolsos, talvez seja uma fonte de lágrimas. Lágrimas da tua impotência em mudar o mundo, de vivermos em sociedade nas asas de um sonho sempre inacabado. Sabes – ou talvez não  – quanto a tua família honrada e leal significou no meu passado remoto. Talvez por isso, quando te li e reli, senti a necessidade de falar contigo estejas onde estiveres. Foste para mim uma grande surpresa na genialidade da tua poesia. O Cantar de um Homem culto e superior, desenraizado e distante, que é só privilégio de todos os pensadores geniais. E que melhor forma terei para te homenagear, do que navegar nessa barca de desconforto e de solidão interior, remando contigo no alvoroço das tuas palavras cor da cinza :

“ são horas de me erguer e caminhar fora do túmulo das palavras no segredo desse lugar único em que a escuridão da noite parece eterna claridade”.

Abraço – te, José António.

Quito Pereira      

sábado, 22 de junho de 2019

A PÁGINA FINAL ...







Até sempre ...

Não tenho o dom da indiferença – não tenho. Gostava de olhar as tragédias dos outros de uma forma protocolar, quando de uma maneira mais conservadora atamos uma gravata preta no colarinho da camisa e nos barricamos no chavão das condolências que é preciso dar.

Anteontem o telefone tocou. De lá, o Zé Silvar disse-me a soluçar - "acabou" ! E eu, de cá, não fiquei muito surpreendido. Mas era aquele o telefonema que eu não queria receber. Quis balbuciar umas palavras ao telefone mas para dizer o quê ? Palavras de circunstância? Que dizer a um amigo que ficou sozinho no declinar da vida? Que palavras mágicas poderia eu arranjar naquele momento, que lhe levantassem o ego ? Sem saída airosa limitei-me a dizer-lhe que lamentava. Mas que palavra mais pateta neste luto para cimentar ainda mais uma amizade de quase cinco décadas, forjada nas trincheiras da guerra ! Desligado o telefone, fiquei em silêncio. A vontade era de partir para o norte à desfilada e dizer ao meu amigo que eu e minha mulher estávamos ali a partilhar daquele drama. Eu amava a Manuela Silva. Todos amávamos a Manuela Silva. Todos os que, em Trás – os - Montes, nos refugiávamos no solar de um de nós e durante dias convivíamos em sã amizade. A Manuela dedicou a sua vida aos outros. Ao marido, aos filhos, aos netos e ao seu colégio infantil de que era proprietária. Quando chegava ao nosso ponto de encontro transmontano, ela já trazia na mala do carro tudo o que precisava para confecionar as refeições. Ia para a ampla cozinha e com energia cozinhava para todos por amor. E, quando se cozinha com amor, a comida sabe melhor.

A doença terrível capturou-a. Foi mártir mais de um ano. E ele – o meu querido Zé Silva – um herói. Acompanhou o sofrimento dela com o sofrimento dele. A Manuela era e é o grande amor da sua vida. Nós, os tais militares que já não temos patente porque agora somos todos soldados da paz, da concórdia e da amizade dispersos pelo país, rumámos a norte para estar com este amigo. Do nosso  pequeno grupo fui – fomos – o primeiro a chegar dos que vinham do Ribatejo ou do Algarve. Foi um abraço longo e em silêncio. Um abraço ao amigo honesto, frontal e leal que sempre foi. Dei-lhe um beijo na face. Um beijo fraterno, que mais não era que o meu reconhecimento pela amizade num momento tão doloroso em que acabava de perder a companheira. Não levei no bolso o texto de homenagem que pretendia fazer à nossa querida amiga. Em casa, antes de partir, ainda tentei. Mas as palavras escritas saíam – me embrulhadas. Tinha a cabeça vazia. No Campo Santo, à torreira do sol, nos despedimos de quem nos deixou cedo de mais. E ali, no Cemitério de Valadares, os aviões comerciais voavam baixo a fazerem-se à pista do aeroporto. Parecia que os seus motores estavam mudos, a associarem-se à cerimónia, num planar elegante. A Manuela adorava o Brasil que visitou por várias vezes. Talvez os aviões, que por ali passaram naquele momento triste, a levem nas asas do vento a caminho do Olimpo. Porque é lá, pela sua filosofia de vida de doação aos outros, que ela merece estar. Por nós e muito por ti, reafirmámos a continuação da nossa amizade. Lá, junto ao Monte Farinha e ao redor da lareira, a tua cadeira cabe sempre na mesa. Não estás mas estás. Para sempre.  
Adeus, querida amiga.
Quito Pereira             

sexta-feira, 8 de março de 2019

RECORDAR O DR. VICTOR CAMPOS ...





Hoje o negro da nossa camisola é o preto do nosso luto ...

Todos os que gostamos da velha Académica estamos tristes. Mais tristes aqueles que beberam de um grupo singular de estudantes dotados para jogar a bola. Naquele tempo recuado, a Académica de Coimbra bateu-se com os melhores. Pisou palcos nacionais e internacionais. Levou o nome de Coimbra pela Europa. Nesse grupo, dois futebolistas se distinguiam pelo facto de serem irmãos e titulares da equipa – maravilha – os irmãos Campos. Ambos se formaram em Medicina. Hoje, o Victor Campos partiu. Fica um vazio imenso e uma memória. A lembrança de um jogador aguerrido, defensor implacável dentro do campo da camisola negra. Dizia-se que tinha tanto de mau feitio na peleja como de dois pés soberbos e o fino recorte do seu futebol miudinho e rendilhado. Era muito difícil a qualquer antagonista disputar uma bola com Victor Campos. A magia da sua técnica com a bola levava sempre a melhor. Um dia, no Hotel “Terceira Mar” nos Açores, um antigo  árbitro de futebol que residia no Barreiro falou-me da Académica e dos muitos jogos que arbitrou da Briosa. Recordou um jogo no Algarve onde Victor Campos lá achou que o meu confidente estava a prejudicar a Académica e foi - lhe dando parecer do seu desagrado. Mas como este continuava impávido e sereno a fazer aquilo que lhe parecia ser uma arbitragem imparcial, o Victor Campos passou por ele e pisou-lhe um pé ostensivamente, fazendo que tinha sido acidental, para depois de sorriso amarelo mascarado de amabilidade lhe dizer: desculpe foi sem querer. Como os grandes campeões, o Victor Campos lidava mal com a derrota, que o mesmo não significa que tivesse mau perder - são coisas distintas.
Apenas  uma vez falei com o Dr. Victor Campos. Por ocasião de uma intervenção cirúrgica de um familiar. Ele fez parte da equipa que efetuou a operação e teve a gentileza de me procurar num quarto da antiga Clínica de Montes Claros e me explicar todos os procedimentos de um tratamento que foi um êxito. Aqui, neste momento, quero registar esse passado menos bom e agradecer ao médico que um dia jogou futebol na Briosa e na seleção nacional, a sua disponibilidade para comigo e de me ter procurado voluntariamente.
Esta é uma crónica triste. Mas o Dr. Victor Campos, guerreiro que era dentro do campo, merece que eu termine este meu testemunho emocionado com algo que nos faz rir e atesta bem do seu espírito académico: numa tarde de domingo, no velhinho estádio municipal, jogavam Académica e Vitória de Setúbal. Numa disputa de bola, Jaime Graça – outro grande jogador – atirou-se para o chão magoado. Victor Campos, com muitos anos de tarimba das manhas do futebol profissional, logo percebeu que a lesão era simulada, até porque o resultado corria a favor dos sadinos e era preciso deixar escoar o tempo de jogo.  Dirigiu-se então para o jogador prostrado no chão e disse – lhe com aquele seu fino humor:
-Óh Jaime estás com sede ?
O sadino, a gemer de uma dor que não tinha, perguntou-lhe num esgar de ronha:
- Não. Mas porquê ?
O Victor, mal humorado e porque tinha dificuldade em perder, agarrou – o por um braço e disse-lhe com um ar “gentil”:
- É que estão ali uns tipos na bancada a atirar-te com laranjas …
Nós, os que amámos uma Académica que era uma pedrada no charco do futebol profissional que nos valeu invejas e inimigos, entoamos hoje um grito académico e enviamos- te uma enorme coroa de flores.
Obrigado, Dr. Victor Campos.
Q.P.
        

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

NA MORTE DE OCTÁVIO DE MATOS ...





(1939 - 2019)

A vida é uma passagem para a outra margem, no dizer da canção. E a morte é a única certeza da vida. Temos contacto com ela todos os dias, nas páginas dos jornais. Olhamos indiferentes ao passamento de pessoas que não conhecemos, como se de um vulgar anúncio se tratasse. Mas indiferentes não somos, quando nos é familiar chegado, ou o finado faz parte do nosso grupo de amigos. Porém, daqueles que não conhecemos pessoalmente, há desaparecimentos que marcam. Para mim, a morte de Octávio de Matos entristeceu-me. Direi mesmo que a senti como se conhecesse o grande homem de teatro. Foram décadas a espalhar humor e talento. Tive o privilégio de o ver atuar duas vezes ao vivo, em Lisboa no antigo Teatro “Monumental” e numa noite ao ar livre, num tépido serão algarvio, em Lagos. Era pequeno de estatura, mas enchia o palco. Nem sequer precisava de falar para pôr uma plateia a rir. Bastava o seu olhar e as suas expressões faciais, para compor um personagem hilariante. Octávio de Matos, nem necessitava de estar acorrentado a uma qualquer ideologia politica, para singrar na sua arte. Porém, há sempre aqueles que, nos meios intelectuais, acham que a comicidade é uma arte menor. Um preconceito muito discutível. Porque sempre foi a rir que se disseram as coisas mais sérias e em momentos conturbados. Foi pela cruzada dos comediantes que pisavam os mais conhecidos palcos nacionais, que se driblava a censura em tempos difíceis. De dar voz a quem não tinha voz.
O desaparecimento de Octávio de Matos, não passou despercebido no panorama das nossas notícias diárias. Gente do Teatro, Membros do Governo e Presidência da República, apressaram-se a enaltecer as suas qualidades de homem bom e solidário. Morreu o artista Octávio de Matos. Morreu o cidadão Octávio de Matos. Morreu afinal como não merecia – sozinho, sem aplausos e sem medalhas.  

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

EM NOME DA VIDA ...






Todos os dias há tragédias. Passo a passo, somos confrontados pelos canais de televisão e pelos jornais com acidentes graves. Na semana passada, fomos alertados para um desastre aéreo, lá para a zona nortenha de Valongo. Uma desgraça noturna, numa noite escura de chuva miudinha e enervante. Confesso que a notícia me apanhou de raspão. Entretido que estava, só mais tarde me apercebi que a aeronave era um helicóptero do INEM. Fiquei constrangido e depois em desassossego, quando soube que o médico que seguia a bordo era espanhol. Porque espanhol é o meu amigo Roman, que é médico. E médico do INEM. Nesta ditadura de uma mobilidade imposta, nada me dava a certeza que Roman não seguisse a bordo da aeronave. Mais tarde, indícios precisos tranquilizaram-me. Com Roman, cruzei-me nos caminhos da vida. Uma empatia mútua que se estendeu às nossas famílias, fazia - nos por vezes confraternizar no restaurante albicastrense do Jorge, em amena conversa entre um prato de grelhados e um vinho tinto a preceito. A conversa passava pela banalidade da sua simpatia desportiva pelo Atlético madrileno ou pelas traquinices do seu pequeno e único filho. De outras vezes, a conversa era mais séria e falava – me das noites em que em ambulâncias a galope, percorria a noite da Beira Baixa, num destino de muitos quilómetros para, debaixo de um candeeiro de iluminação pública, acertar com a agulha na veia de um sinistrado em falência de vida.
Na minha casa albicastrense, eu morava a escassa distância do heliporto dos bombeiros voluntários. Muitas vezes, a horas tardias e no coração da madrugada, o helicóptero do INEM rasava o telhado do prédio num barulho ensurdecedor. E eu levantava-me e, da minha tribuna alta, observava todos os movimentos. A azáfama dos bombeiros de volta da nave. Também gente de camisola branca, que verificava todos os suportes de vida do aparelho, para o paciente que havia de chegar. Depois, como num filme cem vezes repetido, a ambulância aparecia devagar. Com mil cuidados, o doente e um frasco de soro, eram levados para o interior do heli, que em grande aceleração das suas pás rotativas, se erguia lentamente no ar, para girar sobre si próprio e definir a rota que, na maioria das vezes apontava a Coimbra. E eu ali ficava à janela, a olhar a luz intermitente encarnada na cauda do aparelho, até se diluir na noite escura, em direção às montanhas. Depois deitava-me e muitas vezes fiquei acordado, a pensar naquele voo de amor por alguém em perigo de vida. Conhecedor que era e sou da orografia do terreno e de uma viagem aérea sobre montanhas e vales, eu interrogava-me se numa emergência técnica, a tripulação teria uma escapatória de salvação pelo acidentado da paisagem escura, pontuada aqui e ali pelas luzes ténues de pequenos povoados esquecidos no Tempo. Lembrava então aquelas cinco almas que iam a bordo e de uma forma instintiva, eu dava comigo a murmurar uma pequena prece, para que chegassem todos salvos ao Hospital Universitário de Coimbra. E hoje, depois deste triste acidente e olhando aquela realidade sinistra, medito nas noites de invernia que na comodidade dos nossos lares e de uma lareira a crepitar no conforto do nosso programa de televisão favorito, temos ausentes no nosso pensamento aqueles que voam por cima das montanhas em noites de breu e por vezes de intempérie, no cumprimento da sua missão, mas também num ato comovente de amor e solidariedade por quem deles necessita. Para aqueles que se interrogam sobre as complexidades de tudo o que é transcendental e perguntam a si próprios se haverá anjos nos céus de Portugal, eu respondo de uma foram pragmática e convicta: claro que os há !!!
Q.P. 
     

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CARTA ABERTA A MANUEL DA GLÓRIA







 Meu Caro Comandante

Ontem, gozando a noite fresca mas acolhedora da sua cidade, no meio de uma multidão que se passeava por entre esplanadas a abarrotar de gente a jantar em ar festivo, parei junto ao Mercado de Escravos, ali a um passo do seu antigo Quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos.

Hoje, para seu contento, posso dizer-lhe que os seus soldados da paz têm outro aquartelamento na parte alta da cidade. Um local amplo e estou certo que esta novidade o fará sorrir de satisfação. Como sei que gostará de saber que o velho quartel no coração da cidade, é hoje uma loja de três andares, onde poderá adquirir artesanato no primeiro andar, subir à biblioteca no segundo andar e sentar-se no terraço do terceiro andar, onde poderá tomar uma bebida e olhar o sino iluminado da Igreja de Santo António. E foi lá,  que o recordei e lembrei as tardes amenas na Quinta do Sargaçal, os almoços debaixo do caramanchão, as anedotas bárbaras e por vezes até brejeiras contadas em surdina.

Voltando à biblioteca do seu quartel onde tanto trabalhou em prol dos outros, é meu prazer confidenciar-lhe que a pequena divisão está muito bem aproveitada e de muito bom gosto. Há um equilíbrio entre os livros bem expostos, um velho gramofone que dá um toque de singularidade ao espaço e uma velha máquina de escrever muito antiga, porventura igual à Remington negra onde o seu conterrâneo médico, diplomata e escritor Júlio Dantas, construía as palavras de forma sábia, o que lhe valeu estar entre os eleitos da literatura portuguesa. Também o Comandante Manuel da Glória não passou pela vida de forma anónima. As gentes da sua terra, souberam reconhecer-lhe o mérito. Interventivo que foi como vereador da Câmara, cidadão impar, recebeu a medalha de ouro de serviços distintos, para mais tarde ter nome de rua na cidade.

Quero acreditar, meu caro Manuel da Glória, que vai ler esta carta. Como quero convencer-me que de novo estará junto da mulher da sua vida – a Dona Maria Eduarda - que de idade muito avançada e sem poder sobreviver sozinha, partiu para o Brasil para junto do vosso filho, deixando para trás e para sempre a cidade que tanto amava – Lagos. São os dramas da nossa existência terrena. Mas como na Vida Etérea não há Espaço nem Tempo, jamais a vastidão de um mar largo ousará separar-vos. Um dia, talvez um dia, eu vá visitá-lo ao Campo Santo desta cidade que também é um pouco minha. Mas não espere que lhe reze uma oração. Conhecê-lo como o conheci, vou antes contar-lhe a última anedota que o Marcelo me contou em casa do meu primo António Vermelho, à volta de uma mesa a comer uns belos carapaus alimados e um vinho tinto a gosto. E o Comandante do lado de lá e eu do lado de cá, vamos rir com prazer. Até ao dia em que nos voltemos a reencontrar debaixo do caramanchão onde a velha inglesa tomava chá na Quinta da Sargaçal, que para ambos foi de tão boa memória.
O Seu Amigo de Sempre
Quito Pereira

Cidade de Lagos, 18 de Agosto de 2017            

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A RUA DE SÃO PEDRO ...







Caminho para nascente ao encontro do passado. De um Tempo remoto disfarçado de presente. Olho a planície silenciosa, aqui e ali invadida por aglomerados de pinheiros e eucaliptos que resistiram à fúria devastadora do lume. Ao longe, diviso pequenos lugares de casas brancas estendidas ao sol de outono, rendidas ao passar dos dias e dos anos. Vou rodando em círculo no meu carro, num labirinto de estradas ausentes de gente e de vida, até que uma pequena placa indicativa plantada na berma do caminho, indica-me que cheguei ao meu destino de viagem.
Não fui ali porque quis. Fui porque as circunstâncias assim o exigiam e o coração também. Perdi um amigo de longos anos.

Com o rodado do carro a trepidar na calçada, parei. Saí, bati com a porta, olhei a torre da modesta igreja e o sino. Lá dentro, na penumbra do pequeno templo, vi um homem idoso vestido no rigor dos seus paramentos – era o padre. Com um discurso formatado e sem grandes rasgos de retórica, lá levou a homilia a bom porto.

Depois o sino tocou e o cortejo partiu lento. No regresso de me despedir do meu amigo, percorri a pé a rua empedrada. Ali, do lado esquerdo, sentada num banco de madeira, vejo uma idosa vestida de negro. Cumprimento-a e ela responde-me com o afeto de quem dá as boas vindas a um forasteiro. Depois falou-me da sua vida naquela pequena aldeia onde vive sozinha. Lembrou o marido que partiu há quatro anos e do filho que está longe, lá para as bandas da capital. E lastimou-se da sua solidão. Com o bordão que lhe repousa no regaço, aponta-me a sua casa ali do outro lado da rua. Uma casa simples e bem cuidada. Enquanto fomos dialogando, apareceu um homem. Era ainda jovem e muito falador. Sem rodeios, foi-me falando da região que conhece bem e dos trabalhos temporários que já teve aqui e ali, fosse na agricultura, na construção civil ou numa carpintaria lá mais para os lados da serra. Mas lá, naquele lugar, estão as suas raízes – fundas raízes – que o fazem ser feliz. Enquanto fala, vai batendo com o punho cerrado na porta de uma vizinha que não acode ao chamamento. Então, em bicos de pés, espreita pelo postigo enquanto continua em voz alta a clamar pela presença de quem se terá ausentado, talvez para regar as hortas ou dar de comer ao “vivo” no curral. Perguntei-lhe então, em jeito de despedida, qual o nome daquela rua. Disse-me que era a Rua de São Pedro, onde apenas habitam quatro pessoas. Aqui, nesta rua, somos uma família - disse-me. Despediu-se de mim com um sorriso de cortesia. Apertámos a mão e parti, meditando naquele pequeno universo cósmico de uma modesta rua e de quatro almas que sobrevivem de uma solidariedade partilhada, num futuro que não existe naquele vácuo do Tempo. Resta apenas a crença férrea de quem acredita na utopia da Terra Prometida, de que o cura vai falando anos a fio na missa dominical a que acorrem com fervor ao toque metálico e prolongado do sino.

Lembrando o amigo que ali deixei para sempre e olhando a torre sineira agora muda e envolta no marasmo dos dias, abandonei aquele lugar na procura do meu berço coimbrão. Para trás,  ao declinar do sol, ficou uma Beira Baixa perdida e esquecida na encruzilhada de todos os seus encantos, desencantos e mistérios.
Voltarei.
Quito Pereira                 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O TI ' JOÃO E UM TEMPO QUE FOI ...






 Dança da tranca
(foto net)
Olhamos a Sé Catedral na sua estrutura em cantaria granítica e penetramos no seu interior. É um templo Renascentista e Barroco, erigido na época medieval, remontando aos séculos XIII ou XIV. Austero e na penumbra, tem como chão a laje fria que lhe confere a solenidade do culto. Ao fundo, o altar e a talha dourada abrangente que, associada a uma luz coada e difusa, dá ao enquadramento um toque profundo de misticismo.
Sair daquele lugar religioso e sermos confrontados com um sol fagueiro e desmaiado. Porém, a manhã está fria e há uma aragem saudável que nos tonifica o rosto. Em frente à Catedral reconstruída no século XVIII pela mão do Bispo da Guarda Dom Martin Afonso de Melo, olho o velho e simples casario, habitado por gente modesta. As casas, de um único piso, parecem cosidas umas às outras. Em cada casa, olha-se uma porta fechada e uma janela singela. E em cada janela, um vaso de flores garridas. Ou um gato negro e pachorrento, a olhar o movimento da rua e dos carros naquela orquestra ritmada do som dos pneus a rolar na calçada bem conservada e limpa. Percorro com os olhos aquela carreira de casas baixas e, do lado nascente, olho uma pequena entrada de portadas verdes. É ali a taberna do Ti’ João. Um pequeno espaço escuro de mobiliário exíguo. Uma mesa tosca de tampo redondo, duas cadeiras em madeira e uma prateleira em vidro por detrás do balcão, de onde sobressaem rótulos coloridos de garrafas de vinhos licorosos, algumas de feitio artístico. O balcão é velho e gasto pelo uso. Na parede branca e nua, junto à única mesa do estabelecimento, nenhum quadro pendurado na alva caliça impregnada da humidade visível pelos foles dispersos espalhados como hematomas que sobressaem da parede estalada de sulcos, maltratada e velha. Apenas um pequeno autocolante redondo de publicidade a uma marca de cerveja, quebra a monotonia da degradação. Por detrás do balcão está um homem baixo e atarracado. Tem uma cara redonda, uns olhos grandes e umas bochechas bem vincadas que lhe emolduram o rosto. Uma voz calma e pausada, medindo sempre cada palavra, moldam-lhe o caráter que respira franqueza e bonomia.
Ser taberneiro é profissão vulgar. Tão vulgar como a dignidade de quem assim labuta pela batalha da vida. Mas ele – o Ti´João - não é um cidadão qualquer. Será, quiçá, o homem que na Beira Baixa mais sabe da arte do folclore. Um saber empírico é certo, mas um saber de experiência feito, que o leva a ser respeitado nos meios daquela atividade popular. Conheci-o quando dirigia o Rancho Folclórico de Juncal do Campo. Sentado de lado, eu via os ensaios e reparava na forma diligente e a entrega daquele homem a uma paixão da sua vida – a dança de raiz popular. Ensaiava o grupo quatro, cinco ou seis vezes, ou as vezes que fosse necessário. E eles e elas, os tocadores e dançadores, também dando com generosidade tudo o que tinham de si, para tentarem roçar a perfeição nas danças de roda, nas contradanças, ou na dança da tranca esgrimida por um único par, homem e mulher, à volta de uma simples vara de madeira pousada no chão. Trata – se de uma dança frenética e de destreza, em que o par dança alternadamente por cima da vara sem que lhe possa tocar com os pés, para no fim saírem ambos a bailar. Esta dança tem reminiscências românicas, havendo na Escócia danças do mesmo tipo. Geralmente, esta dança da tranca é muito apreciada pelos povos sempre que o grupo se desloca pelo país. Daí todo o empenho nos ensaios, porque sabiam que o ensaiador ali na sua frente, era homem cordato mas exigente, que sempre lembrava que quando o grupo saía fora de portas, era como se fosse embaixador da Beira Baixa. Apesar daquela atividade lúdica, todos interiorizavam que havia uma responsabilidade e um patamar de exigência e seriedade que era necessário e obrigatório respeitar. Algumas vezes o Ti’ João me disse, em tom de desabafo, que tinha os seus detratores. Afinal, aquela inveja mesquinha tão ao gosto de Portugal e transversal a uma sociedade por vezes perversa e doente.
Há dias estive na capital da Beira Baixa. Percebi que as portadas verdes da tasca do João se tinham fechado para sempre. Jamais saberei se viverá de uma magra reforma da segurança social, ou se a sua avançada idade lhe ditou o fim da existência terrena. Mas sempre recordarei aquelas suas conversas versando  o tema  folclore, enquanto o cliente lhe pedia um “traçado”, que mais não era que um copo de vidro baço, em que o vinho tinto se misturava com uma pequena porção de gasosa, que o Ti’ João media meticulosamente e a olho, como se estivesse nos laboratórios de um qualquer hospital - trabalho científico. Mas sempre com o rigor que pôs na arte da dança popular, vivendo e assumindo a sua condição de homem simples e bom que foi ou ainda será, na sua avançada idade. Que ainda esteja entre nós, é esse o meu sincero desejo. E de todos o que o estimam e o respeitam também.
Quito Pereira