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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

MONÓLOGO COM UM DEUS PRESENTE ...






Um Deus Presente ...

Ali, naquela curva da estrada, sentado num muro de pedra, eu olhava a noite. Uma noite escura e redonda. Redonda naquele cenário de estrelas luminosas que abarcavam todo o céu ao redor do meu vasto campo de visão. Um globo negro, que na próxima manhã se enriquecerá de outras cores, em que o castanho predominará no horizonte nestes frios de inverno. Ao relento, comungando daquele mundo campesino, eu distanciava-me de tudo. Era só eu e Deus. Um Deus presente, materializado no recorte indefinido das faldas do Moradal. Da água que corria em manso regato pela valeta dos caminhos. Do piar de uma ave retardatária no regresso ao seu lar. E das luzes. Das luzes longínquas e trémulas que sobressaíam do ventre da montanha e da planície. Dali, daquele local, eu distinguia naquele caldo de emoções, as povoações de Ninho do Açor e Sobral do Campo. Dois singelos aglomerados longe do bulício da cidade e dos gostos mundanos. Lá, naqueles lugares, ainda se cava a terra de dorso dobrado sobre a enxada. Se tratam as abelhas com a deferência e o respeito pelas suas colmeias. Se vindima ou se vareja a azeitona que com mil cuidados dará origem ao esplendor do azeite. Ali também está Deus. Fico a meditar naquele meu presente e aconchego a gola do casaco. São horas de partir e, ao volante do meu carro, levo a confiança de que chegarei seguro ao meu destino. Porque aqueles momentos de comunhão com a natureza na sua essência, mais não foram que uma prece a uma Entidade Superior à nossa insignificância de simples mortais, seja lá quem Ela for, com que Vestes Etéreas se ornamente na imaginação dos crentes. Amanhã, a mais um dia frio de Janeiro sucederá a noite. E eu lá estarei, de novo sentado naquele muro de pedra na berma da estrada, a olhar a Natureza Divina e a escutar o que Ela terá para me dizer.
QP          

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

RAYMOND POULIDOR ...





 Raymond Poulidor

O fascínio da maior prova velocipédica mundial vive-se em França. À escala planetária, a Volta à França em bicicleta produziu e produz os seus ídolos populares, atletas muito acima da média em resistência física e capacidade competitiva. Para a lenda ficam os nomes de Jacques Anquetil,  Bernard Hinault ou Eddy Merckx, todos eles vencedores por cinco vezes da prova – rainha do ciclismo mundial. 

Porém, numa bandeja de prata de campeões, um nome sobressai para a história da Volta à França em bicicleta por uma razão surpreendente – chamava-se Raymond Poulidor e nunca ganhou nada nesta competição de fama universal. Ciclista de eleição, Poulidor correu a prova por catorze vezes, tendo conseguido três segundos lugares e subido ao podium por oito vezes. Mais surpreendente ainda, é que apesar da sua valia de grande atleta, nunca vestiu sequer a camisola amarela de líder da prova. Naquela época recuada, Jacques Anquetil e Eddy Merchx foram a sua sombra negra. Contudo, na sua bonomia, nunca Raymond mostrou qualquer azedume por não ser o rei dos reis das bicicletas. 

Mas Poulidor sabia que apesar de tudo era o mais acarinhado dos ciclistas de nacionalidade francesa e dos seus compatriotas, que lhe chamavam carinhosamente “Poupou”. Apelidado de “eterno segundo”, Poulidor viveu épicas batalhas na montanha lutando contra Anquetil. Adversários na estrada e amigos na vida. No dia em que Anquetil adoeceu gravemente de mal oncológico, já retirado das provas e apercebendo-se que o seu fim estava próximo, disse um dia a Poulidor num rasgo de humor negro: “estás a ver Raymond … vais outra vez ser segundo ! ”. E esta afirmação dramática cumpriu-se e Poulidor sobreviveu mais trinta e dois anos ao falecimento de Jacques Anquetil ocorrido em 1987.

Raymond Poulidor era um homem simples, proveniente de uma família de camponeses. Ganhou o justo estatuto de herói das bicicletas e a sua vida desportiva será talvez motivo para uma pequena reflexão - para se ser um honrado e colaborante cidadão nas comunidades onde estamos inseridos, jamais teremos a obrigatoriedade de envergar a tão ambicionada camisola amarela.
QP 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A ORAÇÃO DA AUSÊNCIA ...





Foi um Tempo ...

Todas as semanas - todas as santas semanas – pressinto nas páginas do “Jornal do Fundão” o cheiro acre da solidão. Um jornal de referência, que luta bravamente contra a desertificação do Interior de Portugal. Porém, nota-se ano após ano, que os nossos compatriotas da zona mais raiana estão cada vez mais longe e cada vez mais sós.

Há dias, vogando pelas vielas desertas de um Tempo que já foi de bulício e de vida, dei comigo a olhar para uma mulher que cautelosamente me abriu uma nesga da porta, como que desconfiada. Ela, a mulher, tem hoje no rosto as marcas vivas de uma existência sofrida num cabelo em desalinho. Ninguém dirá que é cabeleireira, embora os clientes sejam escassos naquele seu local de trabalho acanhado. Demorei - me a olhar-lhe o rosto depois de a saudar. E, quando a porta se fechou num gemido seco num novo reencontro com a solidão, recordei como ela e outros foram a alma do Rancho Folclórico da aldeia. E ele – o Rancho  - foi como muitos outros um digno embaixador da Beira Baixa e dos usos e costumes das suas gentes.

Mas tudo acabou. A desertificação, a deslocação dos jovens para os grandes centros e o envelhecimento dos mais antigos ditou lei. Ficou o museu, que tem hoje guardado todo o espólio daquele grupo de danças e de cantares. Já não há o João a ensaiar o grupo. O Cartaxo a tocar o bombo.  A Lurdes o adufe. O João Esperança o reco – reco. O Matos o cavaquinho e o Adelino a concertina. Nem os moços de braços erguidos no estralejar de dedos, na celebração de um Tempo que tinha muito de fraterna cumplicidade de uma comunidade lá para os lados da Serra da Raposa. Nem elas, as moças de saia rodada e leveza no pé que, com as suas caras bonitas, davam a cada arraial um arco de alegria e de cor.

Tudo morreu. Ruas desertas, onde apenas o sino da igreja não se rende no anunciar soturno das horas que não existem. E, nos caminhos de poeira, apenas este ou aquele rebanho e o seu balir numa sinfonia de chocalhos, como que a pedir compaixão por um Tempo que já não volta numa oração de ausência.
QP        

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O AMIGO DE PENICHE ...






Peniche ...

Chamam-lhe “Peniche”, mas o seu nome próprio é Filipe. Um dia foi para a guerra e os camaradas de armas apelidaram-no da terra que é seu berço. Um homem discreto, que hoje é pai de duas lindas filhas. Uma delas, ontem, exibia com orgulho o colorido estandarte da companhia onde o pai serviu como combatente na Guiné.  E nós, os outros, os que com ele combateram, ali estávamos junto ao Forte de Peniche de má memória.  Por sua iniciativa, visitámos aquele Monumento, embora parcialmente, pois o Museu do Resistente apenas estará disponível ao público na sua totalidade dentro de um ano. Porém,  tivemos oportunidade de ver o chamado “parlatório” onde os presos políticos eram visitados pelos seus familiares, e que é um bastião de sofrimento a que ninguém pode ficar indiferente. Também as salas com vasta documentação merecem uma leitura atenta.

A cidade mais ocidental da Europa, terra de pescadores, tem o anátema de que “o amigo de Peniche” será alguém em quem não se pode confiar ou é indesejável. Mas eu tenho há quase cinquenta anos um amigo de Peniche em quem confio e que comigo cimentou uma amizade fabricada na guerra e em todas as privações e aflições por que passámos. Ele foi ontem o anfitrião que organizou aquele almoço de confraternização em que reuniu mais de cem antigos militares e suas famílias. Por isso demos um caloroso abraço e, se lá chegarmos, no quartel de Estremoz e precisamente a 4 de Junho de 2O21, dia em que faz cinquenta anos que dali partimos para a guerra, almoçaremos todos naquele aquartelamento. Para o ano, porém, será a cidade da Covilhã o nosso rumo.

Partimos para Peniche de véspera. Um hotel simpático com varanda com vista para o mar e a escassos metros do farol do Cabo Carvoeiro. O silêncio e a tranquilidade que se procura. O sentar nas rochas junto ao farol e ver as traineiras que passam junto a nós e se fazem a um mar pouco amistoso que as fazia balançar com a proa a afundar nas vagas que nos comprimia o coração. E uma neblina densa, que parecia uma cortina bem definida, onde as traineiras desapareciam em direção ao alto mar rumo ao desconhecido e a todos os perigos, na procura do peixe que comemos à nossa mesa, por vezes em brindes calorosos.

O almoço foi o alvoroço do costume. Um repasto vivido intensamente, porque tem por detrás um momento especial das nossas vidas de juventude. Sabemos, todos sabemos, que estes homens sacrificaram parte da sua juventude numa luta que não queriam. E agora, que tantos anos passaram, a consciência do alheamento e desrespeito a que sempre foram votados pelos sucessivos governos ao longo dos tempos. Ou até daqueles que nem sequer entendem os momentos negros de uma trincheira num fim de mundo. Mas jamais nos anularemos no nosso estatuto de homens que combateram pelo seu país, mesmo que num combate perdido contra os Ventos da História. Jamais a nação ao edificar aquele monumento aos mortos do Ultramar na zona ribeirinha de Lisboa, poderá ter a veleidade de achar que o seu reconhecimento é pleno. Assim se lavam as mãos como Pilatos e se assobia para o lado.

E tu, António Xavier da Costa, que não regressaste ao teu Algarve porque em África perdeste a vida, também estiveste em Peniche, como estarás sempre nos nossos convívios, que mais não são que o respeito que nos devemos uns aos outros numa sociedade indiferente, ingrata e egoísta, em que a futilidade de muitos é o arco triunfal de uma turba ruidosa, por vezes e muitas vezes sem valores e sem rosto.
QP                     

terça-feira, 14 de maio de 2019

UM CONTO MUITO RELIGIOSO






Ámen ...

Era uma vez dois padres. Dois padres muito amigos. Tão amigos tão amigos tão amigos, que o que um dizia o outro apadrinhava. Havia como que um conluio entre os dois em matéria de religiosidade. Numa bela noite de verão, um dos padres foi dar uma missa lá para o norte da nação. Uma missa muito participada e cheia de fiéis. E quando a Eucaristia estava a correr bem, apareceu o diabo. O diabo, por sinal, nem era encarnado como rezam as crónicas. E a missa esteve para descambar, para gozo de uns e irritação de outros. O outro padre, que estava a ver a Celebração pela televisão, disfarçou e fez que não viu o diabo. E assim, a missa que parecia acabar em apoteose terminou de forma pouco católica. Apesar de tudo, mais de metade dos crentes gostou da missa e até já prometeram uma romagem à capital, uma espécie de prolongamento da mega reunião da grande manifestação de Fé de Fátima. Consta que a festa vai ser rija. E para ser completa, até vem uma delegação das Festas do Senhor Santo Cristo dos Açores. Não há nada como uma boa missa em família.
Ámen.
QP 

terça-feira, 5 de março de 2019

POEMA PARA UMA CASA ...


Mudamos de carro, de casa ou de cidade. Mas jamais trocamos de emblema do nosso coração. As teias de aranha da velha janela da casa deserta são talvez a alegoria do verde da desesperança. De um passado que já não volta e de um futuro que também partiu. Resta um poema breve, que não se lê nem se recita. Apenas se declama, na angústia de um olhar ...
QP

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

ESTRELA POLAR ...





Solidariedade não tem cor ...


É difícil a qualquer cidadão mais sonhador, viver nos antípodas da sociedade competitiva de hoje. É estranho conviver com o que hoje de manhã é verdade e logo à tarde é mentira. É complicado também entender numa nova terminologia, em que triunfalismo pode ser sinónimo de humilhação. Ontem, em mais uma jornada do pontapé na bola, uns insulares em tarde desastrada, beberam do fel de um resultado esmagador. Os da casa, acicatados na mira de se aproximarem do rival odiado, fizeram uma exibição de luxo, perante uma fiel plateia sem rosto e inorgânica, usando um palavrão recente noutros contextos. O adversário era fraco. Muito fraco. E mesmo nessa circunstância e com o resultado a avolumar – se e a vitória inequívoca perfeitamente desenhada, continuaram o massacre. Assim, naquela arena de Roma dos tempos modernos e salvo as devidas proporções, o que se viu a determinada altura, foi não a vontade de uma vitória expressiva, mas uma degola de inocentes, ou seja, o total desrespeito por colegas de profissão. Humilhar era a palavra de ordem e, em circunstâncias normais, as instruções de acalmar a fúria, deveria ter vindo de fora para dentro do recinto de jogo. Recrear e não continuar a pontapear quem já estava caído no chão. O cheiro azedo da covardia. Do lado do antagonista, estavam homens que ganham a vida a jogar futebol e alguns com famílias a cargo. Podiam perder por um resultado pesado. Mas não sujeitos a um vexame. Têm pouco que se vangloriar neste aspeto - e apenas neste aspeto - os profissionais da águia. De resto e bem, pugnaram pelos interesses de quem lhes paga. É apenas a falta de respeito por colegas de profissão que eu contesto, num campeonato profissional. Eu admitiria este tipo de incentivo de ganhar por números irreais, se fossem os inimigos que tradicionalmente andam na peleja pelo título. Sim, reforço inimigos. Mas não oferecer um castigo a um clube que, como mostra a classificação, é muito modesto na arte de jogar à bola. Ontem, quem tradicionalmente sempre teve grande dificuldade em saber perder, mostrou inequivocamente que também tem dificuldade em perceber que ganhar não é a arte da soberba e muito menos da acefalia de alguns como um comentador da TV que no seu discurso babado e idiota dizia entusiasmado : “podiam ter dado catorze ou quinze”. Uma verdadeira glória ! E este discurso, extravasa o próprio âmbito desportivo. Revela apenas e só o tenebroso pensamento de uma sociedade que só olha para o seu próprio umbigo, movendo-se pelos seus próprios valores e construídos à medida dos seus subterrâneos interesses, mesmo que para isso seja preciso esmagar os outros. Naturalmente que este discurso é transversal aos outros clubes portugueses da Liga Principal de futebol e capazes de tal façanha. Humilhação, será sempre sinónimo de covardia. Nesta e noutras circunstâncias da vida. Porque a Estrela Polar que vemos em noites de breu, indica o norte ao caminhante. O norte dos afetos. O norte de respeitar os outros. O norte de perceber que todos temos o direito à indignação. Afinal, o norte de perceber que até numa contenda desportiva, há um código deontológico para quem não se consegue defender. Até no boxe, há uma contagem de proteção do lutador caído no ringue. Mas quem não sabe é como quem não vê. 



E é por isso que eu venero António Bentes. No dia em que foi ter com o árbitro e lhe disse que o golo que meteu pela Briosa em Elvas, era inválido e que o adversário tinha razão. Bentes demarcou – se dos simples mortais e andará lá pelas bandas do Olimpo. E eu, terreno que sou e cheio de defeitos, cá vou olhando de longe este circo de gladiadores e desta sociedade perversa com laivos de uma fraternidade mascarada. 
QP

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O CORO DOS EXPATRIADOS ...







Somos um povo de partidas. Uma nação de caravelas quinhentistas, na procura de um novo Mundo para lá do Bojador. Na espuma do Tempo e em anos não muito afastados, vivemos de uma forma mais intensa o êxodo dos nossos jovens para o estrangeiro. Fomos e somos um país de emigrantes. Ontem como hoje, em situações políticas distintas, continuamos a viver o fenómeno da partida. Dos tempos do salto da fronteira, à mala de cartão e das selfies de despedida no aeroporto de Lisboa, com os olhos húmidos e sorrisos de plástico, vai um mundo. Dei comigo a meditar nisto, quando há dias, no aeroporto da capital, um emigrante abraçava a mulher e as filhas na hora da partida. Ele, um homem conhecido na indústria do futebol, tinha sido despedido pela sua entidade patronal. Sendo figura pública no mundo do desporto, as televisões lá estavam, famintas de notícia e de dar ao país aquele momento triste de uma família abraçada na hora da partida, momento privado que nem tiveram o decoro de resguardar. Ele, um tal Rui, tentava perante as câmaras mostrar uma imagem de serenidade. Mas os olhos avermelhados por detrás das lentes claras dos óculos graduados, não mentiam e não escondiam o desgosto de deixar os seus. É certo que é um emigrante de luxo, pago pelo dinheiro do petróleo. Mas não deixa de ser um cidadão, no momento frágil da partida.  Ela, a comunicação social, com especial relevo a desportiva, vai enchendo páginas de jornais, falando nos milhões que este ou aquele vai ganhar nesta indústria parda. E eles, os consumidores de jornais, os mais pacóvios, babam-se de inveja, nesta história de Ali Babá. Porém, nem tudo o que luz é ouro. E o dinheiro às resmas como passaporte para a felicidade, é uma gigantesca falácia. Numa sociedade em que o dinheiro é uma religião, é preciso parar para pensar. De pensar que todos temos o direito a uma vida confortável que o dinheiro pode trazer, sem que a cegueira da ambição turve os valores que devem ser os pilares da vida. E este meu meditar, vem no seguimento de uma entrevista num país árabe a um dos nossos emigrantes de luxo, um tal Jesus em terras de Alá que, no seu cortiço sumptuoso onde vive sozinho, perguntado se naquele paraíso de abastança lhe faltava alguma coisa, respondeu com uma cara de desencanto: falta - me tudo !
E esta frase, que reputo de dramática para quem tem um salário dourado, bem pode ser o cântico sacro do coro dos expatriados. Ou, talvez melhor dizendo, o nosso fado.
QP     
        

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O REAL DAS CANAS ...




( foto de Fernando Rafael)

O meu estimado amigo Fernando de Oliveira Rafael, nasceu a poucos quilómetros de Coimbra. Gosta da sua bela vila de Penela que foi seu berço, e também da cidade universitária mondeguina onde vive. Balança portanto, entre estes dois amores: Penela e Coimbra. De Coimbra, que um dia foi capital do reino antes de Lisboa e teve no Mosteiro de Santa Cruz o primeiro Panteão Nacional onde jaz o Fundador, Fernando Rafael vai calcorreando ruas e praças, na descoberta deste ou daquele pormenor de interesse para fotografar, como é o caso de artísticos edifícios de cantaria trabalhada, ou de becos medievais e míticos da urbe. Por vezes – muitas vezes – o veraneante bebe o cálice amargo da decadência, que mais se acentua quando Coimbra foi  seu berço e viveu outras realidades. Não quero agora fazer aqui uma busca exaustiva de locais ou de espaços comerciais emblemáticos da nossa cidade, que foram devorados por um novo tempo. Nem da cintura industrial, que era também o sangue vivo que fazia pulsar as artérias estreitas da baixinha, com o poder de compra dos que tinham o seu emprego garantido. E, lá no alto, como imagem de marca de uma cidade única, o coração emblemático dos que cá nasceram: a Torre da Universidade.
Todos os dias visito este espaço do meu amigo. E há dias, no silêncio dos meus pensamentos, olhei esta foto de uma casa degradada, lá para as bandas do Miradouro do Vale do Inferno. Aquela memória diante dos meus olhos, foi um dos mais afamados restaurantes da cidade. Situado na margem esquerda do Mondego, o Retiro Real da Canas pela sua vista privilegiada para o rio e para o anfiteatro da cidade, e também pelo excelente serviço de restauração, era um marco na arte de bem servir o cliente. Porém, esta fotografia inquietante, trouxe-me também outras recordações. A lembrança das tardes soalheiras de domingo, quando no velho Estádio Municipal de Coimbra, uma genuína Académica recebia um dito clube grande de Lisboa, com o estádio pintado de vermelho e a romper de multidão pelas costuras. Eles, os de Lisboa, eram sempre favoritos na contenda. E nós, os de Coimbra, na secreta esperança que o rato conseguisse enganar o gato. E, pela instalação sonora do estádio, lá vinha o anúncio que era quase um hino de fé: o jogador da Académica que marcar o golo da vitória, tem direito a um almoço grátis no Retiro Real das Canas.
Era Coimbra. Uma outra Coimbra. Uma Coimbra entre muros, menos indiferente, mais intimista e mais barricada na defesa da sua genuinidade e dos seus valores intrínsecos. Uma Coimbra dos seus cidadãos. Uma Coimbra mais solidária e mais nossa.
QP

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A ALMA NUMA GARRAFA DE VINHO ...





Corremos. Corremos muito. Corremos uma vida inteira. Somos reféns de nós próprios e dos outros. Olhamos o quotidiano na esperança de alcançar aqueles quinze dias mágicos de nos libertarmos da roupa formal, da maldita gravata que nos estrangula o pescoço e que a empresa exige. De não termos de esperar pacientemente pelo transporte público que não aparece e que, quando aparece, ficarmos prensados no meio da multidão de passageiros que olha o relógio que lhes bloqueia a suposta liberdade que pensam ter. Os tais quinze dias mágicos são as férias. O tempo de arrumar as malas. De partir para outro local. De dar um pontapé no ponteiro da horas e de fazer uma refeição quando e onde apetecer. De matar, ainda que provisoriamente, a ditadura do labor forçado e por vezes escravo. Porém, há também aqueles que gozando férias, não conseguem fugir ao espartilho em que andaram todo o ano. Transportam para as novas terras e novas praias do seu lazer, a correria em que vivem no dia a dia. Vestidos de palhaço pobre, buzinam no trânsito porque vão com pressa, discutem nas filas do supermercado e olham com vinagre o vizinho do lado que lhes roubou os cinco metros quadrados de areal para espetar o chapéu de praia, pousar as toalhas, as cadeiras de encosto, a lancheira, a prancha de surf,  a bola de futebol, as raquetas de ping-pong e o balde de praia do filho mais novo para fazer castelos na areia. Vivem permanentemente irritados e quando vão ao restaurante em rancho, levam o rei na barriga. O empregado de mesa desce ao estatuto de criado, para lhes servir de bandeja a impertinência da sua insignificância plena. No fim do repasto de muitas reclamações, olham milimétricamente a conta, numa concentração absoluta, como se estivessem a fazer uma prova de matemática na Faculdade. São os reis de Agosto. Um rei nu.


A Fortaleza da Praia da Luz é um embalo de tranquilidade. Naquela mesa debruçada sobre a pequena praia e um mar plano e azul, olhamos ao longe o promontório e as rochas que a natureza arrumou sem critério. Os barcos de vela colorida sulcam o oceano em ondas de espuma. A vingança efémera de que tomámos conta do Tempo e não do Tempo que tomou conta de nós. Não há presente nem futuro. Apenas nós. E sós. A cataplana de peixe fumegante que desce sobre a mesa. O aroma de uns olhos grandes e o sorriso da jovem empregada nepalesa, plenos de cordialidade. E uma garrafa de vinho. De vinho branco transparente a repousar num balde de gelo. Os copos que se enchem e que se tocam. O observar do rótulo do vinho que é servido. Olhar a sua graduação e origem. Rodar lentamente a garrafa e ler o monólogo de quem anonimamente escreveu:


“Crepúsculo em pinceladas douradas. É hora do silêncio e da tranquilidade. Um suspiro deixa sair o dia que passou. E convida a entrar a gosto os frutos tropicais. Tudo é fresco na boca e na alma. Olho a paisagem e não preciso de muito para interpretá-la. Porque é expressiva, contudo simples. Equilíbrio é o que o momento me traz"

Um momento de ouro. O diálogo entre quem saboreia aquele néctar, e de quem escreveu uma prosa embrulhada num rótulo de poesia. Talvez o coração nobre de um palhaço rico. Rico de inspiração. Rico de emoções. Rico de sentimentos. Rico no seu anonimato plebeu de quem não aspira sequer a ser príncipe e jamais o será, nesta sociedade de competição feroz, que desgraçadamente já nem pressente o murmurar do mar, nem olha na noite de breu o cintilar das estrelas.

Q.P.   
  

domingo, 29 de outubro de 2017

CANTIGAS DE MALDIZER ...






 

É histórica e conhecida uma certa gabarolice portuguesa e uma verborreia que entra em nossa casa todos os dias pelos canais de televisão. Alguns que por aí andam, com a sua queda para “troca – tintas” do que agora é verdade amanhã é mentira, até conseguem trepar numa sociedade pouca dada a valores e mais interessada no mediatismo das páginas pagas a peso de ouro das revistas cor – de - rosa, onde  trafulhas de mil expedientes, metem ao bolso os seus direitos de imagem e aparecem em jantares em praias do sul, rodeados por gente de risos de plástico, que mais não são que um rancho de falidos e falidas. Nem tudo o que luz é ouro.
Mas onde vou eu parar nesta minha incontinência verbal ? Estou aflito, incapaz de desfazer este nó. De onde me vem esta estória da gabarolice enquanto vou olhando ao longe o mar profundo?
Bem, com esforço, lá me lembro. Vem de um texto que estive a refletir de António Lobo Antunes. Convivemos com um passado povoado de heróis anónimos. Em África, tivemos soldados e soldadesca. Soldados destemidos, capazes de fazer peito às balas, a varrer a bolanha a rajadas de metralhadora, na defesa da sua própria vida. Depois os outros, a soldadesca, a fugir da picadela de um mosquito e que gostavam de exibir os seus dotes de machos latinos mal resolvidos. Dos que na penumbra das casernas, se gabavam das suas aventuras com mulheres africanas. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, sábia constatação popular. Ao longo de vinte e oito longos meses de entrar e a sair da tabanca junto à minha base militar no mato, nunca vi nada de anormal. Só ouvia da boca desses taratas brejeiros, cantigas de maldizer.
Nos fins de tarde, eu visitava os meus soldados africanos e suas famílias, onde falávamos em clima fraterno das coisas da vida. Por vezes, deambulando por lá despreocupadamente com o meu cão, eu via por detrás das esteiras, mulheres desnudadas a tomar banho no seu asseio diário e, quando me pressentiam, escondiam o corpo num pudor natural e compreensível.
Hoje, António Lobo Antunes e a sua escrita, fez - me refletir. Falava de um tal Rei de apelido, a quem na Base chamavam “Reizinho”, que chorava de pavor de ter que integrar uma qualquer missão, fazendo-se incapaz e doente. Mas já no quartel, usava as suas artes manhosas para vender mercadoria barata que trouxera do continente, na esperança de ganhar mais uns cobres. Um farsante. Talvez mais um a engrossar as fileiras da soldadesca, a cair de costas aterrada ao bafo metálico de um canhão.
Porém, há que repor a verdade dos factos. De sacudir de uma vez por todas essa inverdade histórica, de que a África dos tempos de guerra, era um gigantesco bordel da soldadesca portuguesa. O anátema de que a mulher africana não tinha a sua dignidade própria. Sempre a teve. Eram mulheres com outras formas de estar no feminino, nas suas tradições, no seu trajar, na sua religião. Iguais à mulher europeia ou de outros continentes e costumes. Se ficaram filhos em África de soldadesca que se cruzou com africanas? Sim, sabemos que ficaram. Mas são casos pontuais, em que a generalização ofende. Elas, no seu papel de mães solteiras, assumiram criar os filhos que geraram no seu ventre. Eles, alguns deles, com a gabarolice dos covardes, partiram sem deixar rasto nem responsabilidades.
Por isso, mas noutra escala, olhando o circo mediático que foram as eleições autárquicas, com alguns atores manhosos e pouco recomendáveis com roupagens de candidatos, faz - me lembrar a soldadesca nos embustes e no ardil com que enganavam as vitimas, nestes casos os incautos eleitores. A gabarolice foi ontem como é hoje, uma instituição nacional. Tenhamos paciência. São os custos que temos de suportar dos oportunistas da democracia.
Quito Pereira           

domingo, 22 de outubro de 2017

O DIA EM QUE A MONTANHA TRAIU OS SEUS FILHOS ...





 Aldeia do Cide

 O Júlio Bicho é um homem bom. Avantajado de corpo e bonacheirão, logo deu nas vistas aos camaradas de armas, quando em batalhão partimos para a Guiné. Fomos, voltámos, e quase todos sobrevivemos. E é essa glória do apego pela vida, que nos faz juntar todos os anos. Ele, o Bicho, vindo lá do Alentejo profundo, aparece sempre. Vem alegre e falador, trazendo sempre com ele um rebanho de família. Também foi assim no passado dia sete de outubro, quando mais de cem almas nos juntámos lá para os lados de Fátima.

A mensagem que me mandavam era devastadora. Um camarada de armas dizia-me e informava a nossa comunidade militar, que uma filha do Júlio Bicho tinha morrido com o marido num dos incêndios florestais que devastaram o país. Informava também que o casal deixava dois filhos menores e que era necessário o grupo militar tomar providências com vista a prestar auxilio às crianças e que para tal era preciso nomear uma comissão de ajuda aos órfãos. Porém, prioritariamente, era preciso dar força e um abraço solidário ao nosso amigo, lembrar-lhe que para além de festas e abraços dos bons momentos, também ali estávamos com ele nas horas amargas.

De mapa na mão e expectativa no coração, partimos de Coimbra na procura da aldeia de Vide, onde eram as exéquias fúnebres. Na medida em que penetrávamos no ventre do país, o nosso coração ia ficando mais negro. Devagar em curva e contra – curva, a paisagem escura tomava conta do cenário. Também casas arruinadas pelo fogo, janelas estilhaçadas e carcaças de carros na margem das estradas de mau piso. Aqui e ali, casas intactas com quintais destruídos. Naquela propriedade queimada, vejo um homem de botas de borracha, que vai deambulando como um sonâmbulo no zénite da desesperança. Pega numa mangueira que olha atentamente e, de imediato, num ato de revolta, atira-a ao chão.Enquanto vou progredindo cauteloso no asfalto, vou olhando as árvores queimadas na berma da estrada, algumas sujeitas a tombar para a via e a necessitar de uma intervenção urgente. Entretanto, aqui e ali, muitas fumarolas e pedaços de madeira a arder e a extinguirem-se, já inofensivos. Era o render do demónio. Lá mais à frente, naquele deserto de gente e de árvores calcinadas, vejo outro habitante. Apesar da proximidade do carro, o homem ignora-me e atravessa a estrada em passo lento. É ainda novo e fixo-lhe uma mortalha de cigarro pendente da boca. Como que atordoado e olhos fixos no alcatrão, parece caminhar sem rumo certo. Curva e contra – curva, chegamos ao destino. Eu e minha mulher somos olhados com a curiosidade dos forasteiros que nunca foram vistos por aquelas paragens. Com expectativa, procuro outros amigos da minha família militar que ainda não tinham chegado. Mas chegaram pouco depois. Foi então que um jovem de camisola negra se abeirou de nós. Disse ser familiar dos falecidos e que até tinha sido ele nas buscas pelos desaparecidos, que os tinha encontrado pelas cinco horas da madrugada, num cenário que me escuso a descrever. Sentada à porta da igreja num banco de madeira, a idosa vestida de negro vai-nos contando a noite de terror e das noites sem fim. Fala-nos nos dois geradores de eletricidade que funcionam nas extremidades da aldeia, para assim abarcar mais gente que necessita de luz. Porém e por vezes, os geradores falham em simultâneo, deixando aquela aldeia no fundo do vale afundada nas trevas da noite e do carvão, com a silhueta das serras queimadas a tornar o cenário mais assustador. Cá fora, algumas mulheres choram baixinho. E eles, os homens, dispostos numa roda, vão contando estórias daquela noite de inferno. Cada um tem um episódio para contar. Mas não choram porque as lágrimas já se lhes secaram.  Olham o futuro partindo de um presente de privações e angústias, agora que as montanhas feridas de morte lhes nega o pão. Mas resistem, como resistem os heróis.

A Raquel e António viviam na aldeia do Cide, um pequeno lugarejo de meia dúzia de casas, encravado no meio de uma montanha. Naquele dia, a montanha  rodeada de outras montanhas, teve um acesso de fúria. Num ápice, tudo o que a vista alcançava começou a arder. O casal, veio então a Vide pôr os dois filhos a salvo, para depois num ato irrefletido e até incompreensível, de novo subirem a montanha em chamas, para irem a casa procurar e reaver alguns documentos e bens. Apanhados no turbilhão do fumo e do fogo, completamente desprotegidos, sucumbiram ao inferno. Tentaram, numa luta desigual, medir forças com o demónio e perderam.

No amplo templo da igreja na penumbra por falta de luz, teve lugar a missa de corpo presente daqueles dois filhos da montanha. Olhando o que me rodeava, fui percebendo que a plateia da gente simples, cantava com um fervor que ecoava pelo templo. A tragédia acicatava-lhes a fé. O Júlio Bicho, o tal homem alegre e folgazão, sentado na primeira fila, era agora um homem pálido, vestido de negro e parecia alheio à cerimónia. Então o Bispo da Guarda falou. De palavra fácil, não entrou em chavões litúrgicos de filosofias difíceis de entender. Nem em discursos piedosos no tributo às duas vítimas. Falou mais nos homens do que de Deus. Privilegiou mais a vida e falou de esperança. Terminou a sua linha de pensamento falando dos povos sós e abandonados, entregues à sua sorte. Acredito que grande parte aquela plateia silenciosa de gente campesina e humilde, não terá entendido a subtileza da afirmação. Mas a entidade que ali estava em representação do Presidente da República, terá compreendido certamente.
Quito Pereira