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terça-feira, 24 de abril de 2012

Aonde já vão o Quito e o bácoro!...

A Romicas descobriu-os em pleno Alentejo:


A VIDA É UM TEATRO...( ÚLTIMO EPISÓDIO)


Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada
  Último episódio

A inusitada correria em palco do campónio Quitus, de facalhão em punho atrás de um bácoro, personagens que não faziam parte desta cena, esfarelou toda a trama cénica, que o Senhor de Viana, desvairado, azul de cólera e expelindo grossas bolas de fumo e fogo, qual dragão enfurecido, procurava reorganizar.
Por duas vezes o cavalete do Lorde Dias António caiu ao chão. Por duas vezes foi levantado. Foi numa dessas vezes que se conseguiu vislumbrar de relance o retrato que durante toda a peça o Pintor Oficial do Reino estivera a produzir com a sua reconhecida arte. Ouviam-se vozes entre a nobre assistência:
- Magnífico! Excelente! Bravo! Digno de figurar para a posteridade no Museu de Arte Conimbricense!
Só o Cavaleiro D’ Abranches destoava, da primeira fila, resmungando entre dentes:
- Grande coisa! Tanto tempo para pintar um reles caroço de azeitona. E depois o vilão sou eu…Pffff…
Mas os próprios actores em cena, não resistiram a aplaudirem a pintura, e o Lorde, a pedido, lá lhes ia explicando as modernas técnicas que utilizava!
- Oh pá, é assim, pá: nada de grades, nada de gaivotas!, dizia ele…
- Isso é ponto de honra, para mim, companheiros! O segredo, pá, porra, está nas tintas, nos pincéis, na luz, no enquadramento! Mas a escolha dos temas é o mais importante! Aí é que está a Arte! 
Esta obra que aqui admirais há-de ficar nos clássicos neo-realistas, corrente pictórica, coiso, pá, de que sou o prógono, o precursor…

O Senhor de Viana, perante tamanha indisciplina e desorganização, rasgou o guião e intimou os artistas a darem a peça por concluída e agradecerem ao público.
Da plateia, elevando-se acima do vozear, ouviu-se a voz potente do Conselheiro Ferrão:
- Vim eu perder o meu rico tempo para assistir à actuação de tantos e tão incipientes canastrões. Para mais de uma peça medíocre, mal encenada, sem a menor qualidade! Mais valia ter ficado no meu solar a preparar a próxima conferência que vou proferir no sumptuoso Palácio de Ribeira Fria, subordinada ao tema: “ As mezinhas para curar maleitas e os processos da sua manipulação e fabrico
A um sinal do Senhor de Viana, entrou em palco todo o elenco. Os artistas enfileiraram lado a lado e lentamente aproximaram-se da boca de cena de mãos dadas, a que se juntou no extremo da fila, ele próprio Ponto do Reino, que acumulava com as funções de contra-regra.
Numa clara ilegalidade, ao usufruir cumulativamente de duas tenças reais!

Um passo atrás, vinha o Físico-Mor do Reino, Senhor de Melo e Pato, sobraçando e dedilhando o seu alaúde, envolvendo o ambiente com uma romântica e bela melodia executada com o brilhantismo que o tornou afamado no Reino e Além Reino.

Os actores curvaram-se pronunciadamente, em agradecimento ao público, dobrando a espinha, orgulhosos do seu desempenho e felizes pelo êxito patente no semblante e no comportamento dos selectos espectadores.
Recuaram dois passos, fazendo menção de se retirarem, mas a assistência obrigou-os a voltarem à ribalta, reforçando ruidosamente os aplausos. Pelo meio ouviam-se vozes:
- Bravo, Bravissimo! Encore!
Mais uma vez, se dobraram em prolongada  e sincronizada vénia.
E mais duas, três, quatro vezes…

Todos se curvavam? Não, todos não! O Senhor de Viana, apesar das insistências dos actores, explicou:
- Não me curvo! Não dobro a espinha perante ninguém!


Nisto, o Lorde Dias António sai a correr da esquerda alta onde tinha permanecido quieto durante todo o tempo, para se juntar à Companhia nos agradecimentos.
Tão precipitadamente o fez que, tropeçando nos próprios sapatos pontiagudos, voou por cima do fosso de orquestra e aterrou no colo da Condessa de Lousada, sentada na primeira fila, que o aconchegou perguntando-lhe com ternura se estava magoado.
No cadeirão ao lado, cheio de ciúmes, o Conde de Azurva invectivava o Pintor, acusando-o de se estar a aproveitar da situação:
- Chega, Carissimo Lorde! Não exagere! Se não se magoou, como parece, é hora de regressar ao seu cavalete!
Do outro lado da Condessa, o Cavaleiro D’ Abranches, corroborava e reforçava os reparos do Conde:

- Também acho, Ilustre Conde! Tendes carradas de razão! É uma ignomínia este descarado aproveitamento do calor do colo da educada e bela Condessa que, na sua ingenuidade, ainda não percebeu que, porventura, o Lorde até terá feito de propósito para se estatelar.
O filósofo De Durão, seguro da sua capacidade de sedução, acariciava suavemente a mão da Condessa e piscava-lhe o olho, sussurrando-lhe:
- O camarote está livre. Dom Rafael já me devolveu a chave. Vindes? Ou não vindes?



O pano cai repentino, abrupto!

E, na queda, acertou inesperada e fragorosamente no lombo do bácoro que dera origem a toda a confusão final, e que saiu cambaleante e a guinchar para as profundezas do palco, sempre com o aldeão Quitus, ofegante, a persegui-lo de faca em punho.

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Os fortes aplausos prolongaram-se, ainda assim, por longos minutos!
Da lateral, pela frente do pano de cena, a insistentes chamamentos da plateia, acorreram os protagonistas Dom Rafael e a Baronesa Dona Celeste que, num terno abraço se beijam apaixonadamente. Ele de bombo a tiracolo, dificultando o abraço. Ela, fresca, airosa, tentando tornear o incómodo instrumento.
Lágrimas humedeciam muitos olhos. Era a prova de que o seu idílio iniciado em palco se iria prolongar na vida real, por muitos, muitos anos!

FIM


segunda-feira, 23 de abril de 2012

A VIDA É UM TEATRO...( PENÚLTIMO EPISÓDIO)


Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada
  
5º episódio

De novo se ouve o bater ritmado das pancadas de Moliére. Paulatinamente, a sala vai ficando na penumbra. Aqui e ali, ouve-se o tossir deste ou daquele espectador e o chiar dos encostos das cadeiras. Regressa o silêncio. Abrem-se lentamente as cortinas. O palco está de novo iluminado.
No palco, vestido de roupa justa de cor verde da cabeça aos pés, onde repousam uns enormes tamancos arrebitados na ponta, está Dom Rafael. Ao fundo, em cima de uma mesa, uma enorme e colorida bola de cristal. A dançar à volta da mesa, em passos saltitantes, tocando pífaro, a vidente de Caria

Dom Rafael, aproxima-se como que a medo e pergunta:
- Desculpai se vos incomodo, ilustre gentil homem, mas sois capaz de prever o meu futuro e o da minha noiva, agora que a vou desposar ?
A Vidente de Caria:
- Por quem sois … naturalmente … deixai-me proferir as palavras mágicas …
(qual aranha de braços arqueados em redor da presa, o mago concentra-se na bola de cristal e começa a ladainha) :
- Aibaixocataixoidédóminé …ecaspócasdófinócas … sanga … sanga … colatrossas …
De repente, a vidente dá um salto à retaguarda e exclama assombrada:
- ó … jamais vi nada assim … nunca vi uns noivos com tantos banquetes, farras e torneios no futuro …por Deus  …são milhares …a bola deve estar avariada …amanhã mesmo passarei por Penela, onde a comprei numa casa de penhores, ainda está dentro da garantia …
Dom Rafael, desiludido, rodopia nos calcanhares e a pulso sobe a corda que o leva à varanda da sua amada, que o aguarda com um sorriso angelical. Entretanto, a cena vai-se compondo de atores, que falam em surdina uns com os outros.
Então, ouve-se o trotar de um cavalo que traz no dorso um garboso cavaleiro. É o Senhor Conde de Colmar, com as suas vestes festivaleiras que remata:
- Passei por aqui e já sei da boa nova do casamento de Dom Rafael e Sua Formosa Donzela …
Dom Rafael, da varanda:
- Mas quem sois ?
Por entre o relinchar nervoso do belo equídeo, Dom BobbyZé, remata:
- Sou o Conde de Colmar, agente artístico nas horas vagas … se necessitais de contratar artistas para a boda, contai com os meus serviços … trapezistas …palhaços … malabaristas ..cantores de cantigas de escárnio e maldizer … aqui vos deixo o meu cartão de contacto … agora vou a França dar a boa nova …
E parte em desenfreado galope …

Ainda não refeitos da surpresa, nova surpresa se configura. Estridentes trombetas ecoam por toda a sala e aparece um personagem ricamente vestido. Traz uma casaca azul debruada a ouro, calças brancas e uma enorme faixa dourada à volta da cintura. É Dom Francisco Torreira da Silva, Vice- Rei do Canadá e sua corte. Atrás vêm duas formosas mulheres. São as suas queridinhas – mãe e filha. Depois um enorme grupo de jovens possantes, em tronco nu. São os marinheiros do seu galeão privativo. Com uma cerimoniosa vénia, Dom Francisco dispara:
- Tenho o meu coração repleto de alegria. Uma arreliadora tempestade e ventos fortíssimos desviaram a rota da minha nau e quando dei por mim estava a navegar no Mondego. Reconheci logo a Torre da Universidade da minha amada terra e até me ia dando o badagaio com a comoção. Apeteceu-me logo pegar no alaúde e tocar um fado de Coimbra … mas já que estamos aqui assistiremos à boda …
 ( com um estalar de dedos imperativo, ordena à corte que se recolha a um canto do palco) …

Entretanto, no outro canto da sala, desenha-se novo romance. O Conde da Ericeira, não resistiu ao belo olhar da estalajadeira e, de joelhos, confessa-lhe o seu amor e propõe-lhe casamento.
Olinda Linda, quase desfalece, nos píncaros da paixão e aceita o pedido. Com as mãos entrelaçadas, olham-se com ternura. O público está em completo silêncio e rendido ao momento.
Há lágrimas na plateia …
Eis senão quando, aparece em palco o aldeão Quitus, com uma faca na mão a correr atrás de um porco, que grunhe em desespero. Atravessam o palco de palco de lés – a - lés, enquanto o campónio vai gritando:
- Anda cá maldito porco, que não entras nesta cena …
Nos fundos do palco, e do olhar do público, desenrola-se um drama. O ponto Senhor Carlos Viana, vai desfolhando nervosamente o guião e dizendo entre-dentes.
- Porra pró campesino, que já lixou isto tudo !!!

   Fim do 5º episódio

No próximo e último episódio, a apoteose final desta peça teatral!
Não perca! Ficará a saber a forma inesperada como acabará!

domingo, 22 de abril de 2012

A VIDA É UM TEATRO...(4º EPISÓDIO)


Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada
4º episódio
Decorre o intervalo da peça que está a ser representada no luxuoso salão…



A Condessa de Lousada levantou-se e percorreu a coxia em direcção ao "foyer", observada disfarçadamente pelos fidalgos da nobre assistência que sussurravam à sua passagem com trejeitos de admiração e acenos de cabeça, murmurando:
- Está tão morena! – dizia um, que depois esclarecia: Todos os anos vai de férias para as cálidas praias de Saint Tropez de onde vem com aquela tez sensual.
- Que idade terá ela? – perguntava-se outro
- Dizem que já tem quase 60 anos! – atirava outro ainda.
- Não creio meu Caro Visconde! Pelo aspecto não deve ter chegado ainda aos cinquenta. , contradizia o primeiro.

Atrás dela seguiam O Conselheiro Ferrão que escutava atento o irrequieto Conde de Azurva que defendia ardorosamente que um verdadeiro coche deve ser branco. Porque, asseverava ele:
- Só há três cores de coches, meu Caro Conselheiro!  Os brancos, usados pela nobreza com ancestrais pergaminhos, os pretos, que são próprios para carretas funerárias e os vermelhos que são os escolhidos para as pelejas desportivas de corridas de coches.
- Mas o meu coche é preto, amigo Conde! Devo considerar que essa côr é mais própria para carretas funerárias?!, questionava de sobrolho carregado o Conselheiro.

Mas o Conde de Azurva já enveredava  por outros caminhos…
- O mês passado fui ao Império do Meio. Tirando o plebeu Marco Polo, disseram-me que fui o primeiro nobre lusitano a pisar terras orientais. 
E em breve, embarcarei na Nau Catrineta em demanda do Império do Sol Nascente. Estou ansioso por olhar a flor de cerejeira a tremer ao vento.
- Mas por cá, junto à fronteira com Castella, também temos belas cerejeiras, lembrava-lhe o Conselheiro...

- De acordo, de acordo! , concedia o Conde de Azurva. Ainda há pouco tempo lá fui vê-las a convite do Regedor de Salgueiro do Campo. Mas não tremem como as do Império do Sol Nascente. Não têm nada a ver!
- Que orgulho deve ter Vossa Senhoria em espalhar a nossa fé e a da nossa Pátria por tão longínquas paragens!, confessava o Conselheiro.
E prosseguia:
- Mas olhe que eu não lhe fico atrás! Não há ninguém mais do que eu, tão conhecedor dos roteiros gastronómicos mundiais. Se hoje se come batata no nosso Reino a mim mo devem. Fui eu que trouxe uma saca de 25 Kgs das Américas o ano passado!

Aproximou-se deles a Condessa de Lousada já com um fute de champanhe na mão a borbulhar. Abanava-se freneticamente com um leque sevilhano e desabafou:
- Ainda bem que os encontro! Há tanta plebe aqui misturada com a nobreza! Até me chegaram uns calores que não sei se são dos nervos ou de outra coisa mais profunda.
O Conde de Azurva segurou-a delicadamente por um braço e o Conselheiro Ferrão pelo outro.
- Deveis descontrair-vos, Condessa!, sugeria-lhe o primeiro. Respirai fundo, levantai o diafragma! Assim aprendi com os indios dos Andes numa das viagens que fiz naquela cordilheira do outro lado do mar!
- Quereis que vos entoe alguma balada para descontrair? – perguntava-lhe sorridente o Conselheiro.
- Oh sim! Oh sim! Entoai algo, simpático Conselheiro! Talvez algo que me lembre a neve…, requeria a Condessa levantando o diafragma até quase ao pescoço, como lhe aconselhara o Senhor de Azurva.

O intervalo estava a esgotar-se...
Retornaram aos seus lugares onde tinha permanecido sentado, pensativo, calado, o filósofo De Durão.
- Porque não viestes connosco ao "foyer", grande filósofo deste Reino? – perguntou-lhe, com voz afectada, a Condessa levando ainda nos ouvidos a balada que o Conselheiro Ferrão lhe acabara de cantar.
- Sabei, Senhora Minha, que estive aqui a meditar. Sem saber ainda o que nasceu primeiro. Se o ovo, se a galinha!, esclarecia o filósofo De Durão.
- Além disso, gostava de saber se o Pintor Real Lorde Dias António já entrou em cena ou se ainda não entrou. Há muita coisa nesta peça que não joga certo. Esta é uma delas! Se ele está no palco é porque já entrou em cena, como diria o meu ilustre colega Senhor de La Palisse. Ora, se assim é,  porque pergunta ele a cada passo quando é que vai entrar?

- Mas Vós me havieis prometido um chocolate para adocicar a minha amargura, meu divino filósofo...,
lembrou-lhe a Condessa de Lousada. E promessas são para cumprir! Podieis ter ido ao Bar furar uma rifa de chocolates que lá têm! E haveis também prometido que me levarieis ao vosso camarote para eu degustar o chocolate!
- Tendes razão! - aquiesceu o filósofo. Mas Dom Rafael pediu-me a chave do camarote para levar lá a Baronesa Dona Celeste enquanto durasse o intervalo.

O Conselheiro Ferrão intrometeu-se no diálogo:
- Amigo e Caríssimo Senhor De Durão! Gosto menos da Vossa faceta de filósofo e mais da de violoncelista. Deixai-vos de conjecturas inúteis e harpejai com Vossos dedos predestinados o nobre instrumento! Extraindo dele os acordes que acompanharão de forma sublime o meu celebérrimo cântico de Natal! Verá como nos acompanhará em coro, ainda que desafinado, esta assistência que enche o salão!

- É agora que entro? É agora?, ouve-se, como que em lamento, a voz do Lorde Dias António, por trás do pano ainda fechado.
Até aí calado e sorumbático, profere em voz tronitruante o Cavaleiro Abranches, famoso pelas suas batalhas no Novo Mundo que Colombo descobriu, e que se queixa:
- Fui ao "foyer", procurando por um vinho Reserva Vintage do Dão. Até parece impossível num salão de tal nobreza, mas a verdade é que só têm vinho com dois anos. E nem sequer decantador usam! Claro, para beber surrapa de plebeus, prefiro passar sede…
O pano sobe, aos solavancos...
Fim do 4º episódio


O que se passará a seguir?
Como prosseguirá o evento teatral?
Novas e estranhas personagens virão a terreiro?
A feiticeira de Caria irá ler a sina a alguém? Adivinhará o futuro de Dom Rafael e da Baronesa Celeste?
Não perca as cenas dos próximos capítulos!

sábado, 21 de abril de 2012

A VIDA É UM TEATRO...(3º EPISÓDIO)



Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada
3º episódio


No final do último episódio, a estalajadeira Olinda tinha perguntado:

- Quem será aquele cavalheiro de capa que repousa junta à fonte, que nunca o vi por estes reinos …vou perguntar-lhe … cavalheiro, quem sois ?

O Conde, leva então a perna esquerda à frente, faz uma estrondosa vénia e apresenta-se:

- Sou Dom Felício, Conde da Ericeira, ao vosso dispor … e vós quem sois miúda ?

Olinda Linda, de mãos na cintura:
- Mais respeitinho ó cavalheiro, que aqui onde me vê, sou a estalajadeira que faço o melhor javali no espeto d’aquém e além Mondego … ( e virando-se para o público) … ó mas agora reparo … como o fidalgo é elegante…este é que me levava ao altar (e levando a mão à testa)… ó … pressinto que vou desfalecer …

Lord Dias António:
- Ó menina, desfalece lá para onde quiseres, menos para cima do cavalete …e não me chores para cima das aguarelas, que me esborratas a pintura …
Olinda Linda:
-  Grosseirão … se é assim que se fala a uma donzela … se aqui estivesse o Senhor d’Abranches, cavaleiro e cavalheiro de fino trato, eu jamais ouviria tal insolência …
Lord Dias António (colérico):
- Nem ouseis em falar-me do nome desse vilão, que até se me dá um arrepio na ponta do pincel … esse plagiador que só sabe pintar gaivotas penduradas nas pontes e nas ameias dos castelos …
Da coxia, entretanto, aparece Dom Rafael a tocar bombo, que grita para a varanda chamando a sua amada:
- Celéstita, regressei … razão da minha existência …
A janela abre-se de par em par e a Baronesa, radiante e a arfar, exclama:
- Ó meu amor … como já tardáveis ..o meu coração estava mais inquieto que um pintassilgo dentro de uma gaiola … vá dizei-me algo que me aqueça o coração …
Dom Rafael, com um joelho prostrado por terra, diz sorridente:
- Trago uma boa nova para vós, minha amada … já tenho escudeiros suficientes para ir ao Torneio do Jamor …
A Baronesa faz uma cara de desagrado e diz irada:
- Ó … como me desiludis Dom Rafael …só pensais em banquetes e em torneios …
(ato contínuo, ausenta-se, batendo com fragor as portadas da janela)

E é nesta altura, que entra em palco uma figura bizarra. Usa uma túnica vermelha, chapéu cónico e uma pequena vara na mão. É a São Rosas, travestida de Vidente de Caria, com um mestrado em bruxaria, tirado em Vilar de Perdizes:
- Meus senhores … meus senhores, vinde até mim, que vos prevejo o futuro por meia dúzia de ducados … a minha bola de cristal é infalível … e se tendes problemas também podereis recorrer aos meus serviços …remédios para os calos, treçolhos e unhas encravadas, para tudo tenho solução … vendo sangue de vampiro, saliva de lagarto, raspas de unhas de morcego, baba de lince da Malcata, tudo á vossa disposição ao preço da chuva …

Da penumbra do palco, aparece um figurante que inspira compaixão. Arrasta uma perna, tem horríveis chagas nos cotovelos e nos joelhos. É o mendigo Lucas, com a sua roupa andrajosa, que, de mão em concha vai pedindo esmola:
- ó … tende piedade de um pobre mendigo, que já nem dinheiro tem para se deslocar para as termas da Póvoa do Varzim, apanhar sol e mar, para curar estas chagas como receitou o Físico de Conimbriga  … lograi ajudar esta ancião que há mais de um ano que não sabe o que é meter os dentes incisivos num naco de queijo da Rabaçal

As luzes esmaecem no palco ao mesmo tempo que os lustres do salão se vão iluminando.
O pano desce lentamente para o fim do 1º Acto
Por trás do pano, sobrepondo-se ao vozear que inundou o salão durante o intervalo, consegue escutar-se uma acesa discussão entre o ponto Senhor Carlos de Viana e o Lorde Dias António. Perfeitamente audível a voz deste último, de vez em quando:
-  Mas, pá, coiso… Afinal quando é que eu entro?

Fim do 3º episódio

Como estará a nobre assistência a reagir a esta peça teatral?
O filósofo De Durão irá fazer um furo no Bar, para ganhar um chocolate que adoce os lábios da Condessa?
E irá oferecer-lho no recato do camarote que possui no Teatro?
Ou ficará a filosofar sobre etéreas coisas, desaproveitando o ensejo de a seduzir?
E sobre o que discorrerão o Conde de Azurva, o Conselheiro Ferrão e o Cavaleiro D' Abranches?
E Dom Rafael e a Baronesa Dona Celeste? Aproveitarão o intervalo para se entregarem recatadamente aos prazeres da carne?

Sabê-lo-emos durante o 1º intervalo, escutando algumas conversas dos circunstantes.
Esteja atento!
Não perca o próximo episódio!


sexta-feira, 20 de abril de 2012

A VIDA É UM TEATRO...(2º EPISÓDIO)



Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada

 2º episódio

Debruçada na janela de sua alcova, a Baronesa Celeste vira os olhos ao céu e declama:
- Bem me pareceu ter ouvido o bombo do meu amado! Pois ali está ele! Deve ter vindo anunciar-me finalmente a decisão de se esponsar comigo.
- Que belo, que galante!

Dom Rafael pareceu não dar por ela e proclamou, como um arauto:
- Já tendes pouco tempo para confirmardes a Vossa presença no banquete, Veneráveis Senhores, Concupiscentes Damas, Desabrocháveis Donzelas! Vinde! Dai-me os pergaminhos e as espórtulas!

- O meu coração desfalece, o meu amor por ele é demasiado. Não sei se resistirei a este fogo que arde sem se ver!, dizia a Baronesa debruçando-se na varanda.
- Como haveis passado Dom Rafael? Vindes hoje dar-me a boa nova? , perguntava dirigindo-se a ele, de braços estendidos.

Alheio aos apelos da Baronesa Dona Celeste, Dom Rafael prosseguia, absorto com a preparação do banquete:
- Só já vos concedo mais meia hora para confirmardes a ida ao banquete, Ilustres Senhores, Nobres Damas,  Frescas Donzelas, repetia entre uma e outra bombada o Dom Rafael, com os olhos fixos na assistência.
- Que bem que lhe ficam estes sentimentos! Sempre preocupado em proporcionar o lazer a esta selecta Corte! É um garboso homem, incansável, voluntarioso! Como o amo!, dizia Dona Celeste, com os olhos em alvo.

- É só para saber se é agora que eu entro! – insistia o pintor.
- Que raio! Não é agora ainda! – vociferava o ponto.
- É que isto é assunto de alto gabarito. Mas pronto. Há mais marés que marinheiros!, retorquia o pintor
- Eu sei muito bem o que estou a fazer! , esclarecia o ponto. Quando for a altura eu dou te um sinal. Tem calma!
- Já coloquei um calhau em cima do assunto!, acalmava-o o pintor
Dom Rafael já com os pergaminhos na sua posse, dá três bombadas no tambor e sai a correr pela esquerda baixa.
- O meu doce amado foi-se embora sem me lançar um olhar, sem me suavizar estes calores! Como vou viver esta vida sem ele a meu lado?, dizia inconsolável a Baronesa Dona Celeste, arrepelando os cabelos…
Bateu com estrondo as portadas da janela e saiu de cabeça baixa.

- Já saíram todos. É agora que entro não é?, dizia a medo o pintor…
O ponto Senhor de Viana não resistiu mais. Saiu de dentro da caixa, o cigarro entre os queixos, e dirigiu-se apressado à esquerda alta. Agarrou o pintor pelo pescoço, amachucando-lhe o colar plissado e berrou-lhe expelindo uma nuvem de fumo:
- Se voltas a perguntar quando é que entras, dou-te cabo do canastro!
- Isso era assunto!, articulou o pintor.
O Senhor de Viana, com o maço de folhas escritas na mão, chupando furioso o cigarro, recolheu de novo à caixa remoendo imperceptíveis remoques.

De rompante e em passada larga, entra em palco um homem avantajado, de negro vestido, capa pelos ombros, botas de cabedal de cano alto, espada à cintura e arco e flechas a tiracolo. É Dom Felício, Conde da Ericeira, que exclama:
- Ó … mas que rico dia para uma caçada … já aqui trago no bornal 3 coelhos, 2 lebres e 5 codornizes …está na hora de descansar da jornada ….
( senta-se então e bebe sofregamente de uma fonte colocada no fundo de cenário, dessedentando-se)
Nessa altura, aparece em cena um homem baixo e atarracado, vestido de calças castanhas, paletó e chapéu de aba larga e um cesto pendurado num braço. Tem as bochechas rosadas e aspeto campesino. É o regedor de Salgueiro do Campo, que se abeira do Conde e pergunta :
- Saúdo-vos Senhor, acaso estais interessado em comprar produtos da minha horta …alfaces, tomates, rabanetes …
Com brusquidão ( e muita falta de educação, admita-se), o Conde afasta-o e exclama com veemência:
- Para trás insolente, quem sois vós para vos abeirardes de um fidalgo da minha estirpe … ainda por cima tresandais a bode e queijo de ovelha … até fiquei com a pituitária arruinada …
O aldeão, regedor de Salgueiro do Campo, afasta-se pesaroso, rapa do bolso do paletó uma pena, um tinteiro e uma folha de papel meio amarrotada, e dá curso ao seu vício de nascença. Começa a escrevinhar e sai então de cena cabisbaixo …

De uma porta lateral, entra em cena uma rapariga de saia rodada até aos pés, avental alvo e touca na cabeça a condizer. Chama-se Olinda Linda e é estalajadeira. Virando-se para o público, com um ar intrigado, pergunta:
- Quem será aquele cavalheiro de capa que repousa junto à fonte, que nunca o vi por estes reinos …vou perguntar-lhe … cavalheiro, quem sois ?

Fim do 2º episódio

O romance entre Dom Rafael e a Baronesa D. Celeste terá falhado?
Ou o amor tudo vencerá e será agora que Dom Rafael lhe vai declarar o seu amor?
E a atracção que a estalajadeira Olinda sente por Dom Felício?
Será mais um romance que se está a desenhar?
Não perca o próximo episódio!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A VIDA É UM TEATRO ...


Autoria: PPP-Parceira Pública e Privada “QuitoFelicio”, de irresponsabilidade limitada

Burburinho no rico salão. Cumprimentos, risos, conversas entre os membros da Corte que se preparam para assistir à representação cénica que se iniciará dentro de minutos.

Na primeira fila, o Conde de Azurva, olhos bem abertos, sobrancelhas arqueadas, assevera ao Conselheiro Ferrão, que o Mundo não se cinge aos Reinos da Europa e que, nas suas inúmeras viagens se deparou com culturas e tradições milenares que metem a um canto a História dos quase bárbaros povos europeus.

Refastelados nas poltronas ali perto, o Cavaleiro Abranches, também pintor, o filósofo Abilio De Durão, a Condessa de Lousada, empertigam-se e disfarçadamente percorrem o salão com o olhar.

Os lustres subitamente apagam-se e ouvem-se por trás da cortina de veludo vermelho que esconde o espaço cénico, repetidas pancadas no sobrado do palco a que anos mais tarde viriam a chamar de Molière.

Um silêncio profundo aquietou a nobre assistência.

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O pano sobe lentamente…

À esquerda alta, sob um potente jorro de luz que o destaca no palco vazio, a única personagem em cena. Era o Lorde Dias António, Pintor Oficial da Corte, postado frente a um cavalete, a paleta de tintas na mão esquerda e meia dúzia de pincéis na direita, vestido de gibão negro encimado por uma gola plissada, boina descaída na cabeça, calções de folhos às riscas, meias justas cor de rosa e sapatos brilhantes pontiagudos com enormes fivelas prateadas.

- É agora que eu entro? – pergunta Lorde Dias, em voz sonora.

- Não! Não!, Ainda não é agora! – foi a resposta de uma voz roufenha que parecia sair das catacumbas.

Era o Senhor de Viana, nomeado Ponto Real, que o público adivinhava escondido atrás de uma caixa central, de onde saiam espessas baforadas de fumo.

- Está bem, está bem já aqui não está quem falou!- retorquia o pintor, dando duas pinceladas na tela.

- Quando for a tua vez eu digo-te Lorde do Caraças!, sussurrava o ponto.

Pela direita baixa, entra a correr Dom Rafael tocando um enorme bombo, enquanto anunciava o próximo banquete:

- Nobres Senhores, Estimadas Senhoras, Apetecíveis Donzelas! Daqui a quinze dias terá lugar um faustoso banquete nos jardins do Palácio do Monteiro-Mor, digno senhor da herdade da Várzea do Mondego!

Dava mais duas bombadas fortes no tambor e prosseguia:

- Haverá veado no espeto, touro às fatias, faisão sem penas, palmípedes no forno e muitas outras iguarias! Será uma honra poder contar com a presença de Vossas Senhorias. Vos peço que me confirmeis a Vossa ida a este banquete, preenchendo o pergaminho que vou mandar distribuir e entregando a quantia de dois cruzados para custear as despesas.

Mais duas bombadas e novo pedido:

- Se preferirdes deslocar-vos à Quinta do Monteiro-Mor na data aprazada em coches puxados por parelhas de cavalos puro sangue, acrescereis à espórtula mais meio cruzado.

Nova baforada de fumo se desprendia da caixa do ponto e ouvia-se:

- Tens que dizer o local e a hora de partida, carago!

- Ahn? Que é que foi? – perguntava Dom Rafael olhando para a caixa, com a mão em concha no ouvido.

-Não trouxeste o funil para ouvires melhor, percebi!, rosnava o ponto por entre dois ataques de tosse.

E repetiu, agora em voz mais alta:

- Tens que dizer de onde é que partem os coches e a que horas, porra!

- Ah, está bem, já percebi. Não precisas de berrar que eu não sou surdo!

- Ilustres fidalgos: a hora da partida será 3 horas depois do sol nascer, junto ao portão do Paço Real!

- É agora que eu entro? – perguntou de novo o pintor.

- Não, quando fôr eu digo-te! Deixa-te estar aí! – respondia o ponto…

- Correcto e afirmativo, dizia o pintor, molhando um pincel na boca antes de o passar na paleta.

Dom Rafael percorre o palco de uma ponta à outra, sempre tocando o bombo.

Abre-se de par em par a janela do primeiro andar do solar desenhado no cenário ao fundo.

Assoma uma esbelta donzela, de vestido escarlate com grandes folhos violeta, decote generoso deixando ver o colo branco, a cintura e o tronco espartilhados por colete apertado por atilhos brancos em cruz, segurando uma rosa cujo perfume ela aspirava com olhar sensual.

Era a Baronesa Dona Celeste, romântica donzela a que aspiravam todos os jovens nobres da Corte.

Fim do 1º episódio

Será finalmente desta vez que Dom Rafael irá declarar o seu amor à Baronesa?

E o pintor Oficial do Reino? Será que por fim vai entrar em cena?

Não perca as cenas dos próximos capítulos!

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