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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O INVERNO AMEDRONTAVA LÁ FORA...


"O inverno amedrontava lá fora….O vento rugia pelo vale de Eiras abaixo, e a chuva, copiosa, batia vigorosamente nas vidraças despidas de portadas ou estores. De vez em quando, um trovão mais forte, fazia com que a minha mãe levantasse o olhar para o tecto e murmurasse uma pequena ladainha a Santa Barbara. Depois de um dia de trabalho duro na cidade, ela cozinhava para nós, , sempre na companhia do único objecto electrónico que existia na casa. O pequeno transístor a pilhas preto, onde as vozes de Heathcliff, Edgar, Catherine e Isabella ressoavam contando-nos o desenrolar dramático do Monte dos Vendavais, romance de Emily Bronte, cujo enredo a (nos) deliciava e a (nos) obrigava a parar, de vez em quando, para escutar os momentos cruciais da novela… Eu limpava cuidadosamente a chaminé de vidro do candeeiro a petróleo, com uma velha folha de jornal, e sentava-me à mesa, com um ouvido na rádio e um olho no livro de aventuras mais recente que me tinham emprestado…quando acabávamos de jantar já se ouvia o programa "Quando o telefone toca" e eu só pensava como era possível à rádio, ter todos os discos das canções requeridas pelos ouvintes. Devagar, a noite avançava…e eu, já deitado e sonolento, ouvia ainda a mãe a lavar, varrer, cozer e passar roupa a ferro e preparar tudo para mais um dia de trabalho e de escola que se aproximava num fechar e abrir de olhos..." - in Memórias & Inspirações

Texto de  José Passeiro

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

IN MEMÓRIAS & INSPIRAÇÕES....


"Até começar a trabalhar era raríssimo eu ter dinheiro. Em casa, o orçamento mal dava para a alimentação e fora dela só quando um vizinho me “contratava” para uma tarefa pontual de limpar currais de galinhas ou regar as leiras no Paço eu conseguia juntar uns vinte e cinco tostões, ou mais! Correspondia nos dias de hoje, a pouco mais de um cêntimo! E nem vos digo o que eu fazia com vinte e cinco tostões naquele tempo, pois não acreditariam. Quando andava desesperado por uns rebuçados de fruta, passava em casa da minha avó e dava-lhe conta da minha “tristeza de vida”. Então ela puxava de uma algibeira de pano arredondada que usava à cintura por baixo do avental e tirava a muito custo, pois via mal, um cruzado (4 tostões) para me dar. Via mal mas nunca tão mal que se confundisse e me desse uma moeda branca de maior valor. No entanto, chegava para eu matar o vício. Demorava uns dez segundos da casa dela à mercearia mais próxima, para fazer a transacção. Mas recordo um tempo, num determinado verão, em que passei umas férias de nababo. ..Ao fazer o ”reconhecimento do chão” na zona do palco das festas do Espírito Santo, na manhãzinha seguinte ao baile, prática habitual da maralha, encontrei uma “vintoinha” dobrada em quatro, entre caricas e cascas de tremoços e de amendoins. Isso mesmo! Um Santo António! Uma nota de vinte escudos! Não imaginam a minha felicidade. Corri para casa, fechei-me na loja, e sentei-me durante algum tempo, a olhar simplesmente para ela, enternecido….Era uma fortuna! Mas não podia apresentá-la na venda, pois poderia levantar suspeitas eu ter tanto dinheiro, sendo tão novo. Consegui trocá-la por moedas junto do “Cabo Elísio”, um servente de pedreiro que trabalhava na obra por detrás da minha casa, e que me devia uns favores por ir à loja, quase todos os dias comprar-lhe cerveja. Garantiu-me que por ele ninguém viria a saber, que eu passei a ser um tipo endinheirado. E cumpriu…                                      ." in Memórias & Inspirações"
José Passeiro

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A FISGA...


"Um gajo sem uma fisga não era ninguém... Fazia parte! Era como que o prolongamento do braço. Construíamo-las e preservávamo-las como o maior tesouro à face da terra. Levávamo-las connosco mesmo que fôssemos a um casamento.. Serviam para caçar, para torneios de tiro ao alvo, e, porque não dizê-lo, como arma dissuasora de defesa pessoal.                                      Mas o processo era penoso para quem não tinha nada. Era preciso antes de mais, arranjar uma forquilha, que tinha de ser de madeira leve mas dura, (oliveira era excelente) ter a forma de V, e ser perfeita em termos de equilíbrio dos dois galhos. Havia tipos (betinhos) que gostavam de deixar um terceiro galho, formando um ípsilon, o que na minha opinião, era ridículo.                                                                                                                      Depois passávamos semanas a manusear a forquilha, cortando mais uma lasca aqui, retirando mais uma pele ali, à espera de arranjar os restantes acessórios. Ela ia ficando com um aspecto “velho” e polido. A malta não gostava muito de exibir fisgas com aspecto recente. Dava uma imagem de novato no grupo, e isso não era bom.                                                                                         Seguia-se o cabedal, que era nem mais nem menos, que um rectângulo de pele de vaca, restos de sapatos que encontrávamos nos vários locais de reciclagem natural, que havia espalhados pela aldeia. Esse pedaço tinha de ser retirado de um sítio especial do sapato, uma língua por cima do peito do pé, para ser flexível, e o mais fino possível.                                                                     Por fim, faltavam os elásticos, que eram o mais difícil de conseguir. Alguns passavam horas à porta do ti Zé Carvalho, mecânico de bicicletas, à espera que ele por fim, lhes atirasse um pedaço de câmara de ar estragada. Na altura, as melhores eram encarnadas, mas o progresso, preocupou-se muito pouco com as nossas necessidades, e começou a fazê-las pretas, que eram muito mais duras e difíceis de esticar.                                                                                  Quem tinha conhecimentos no hospital, ou num laboratório, sempre conseguia o supra sumo dos elásticos, que eram os tubos amarelos que aí se usavam para diversas coisas, que vai vale desconhecermos. Com esses, um tipo era considerado um autêntico "rei da fisga" e invejado pelo resto do maralhal." in Memórias & Inspirações

JOSÉ PASSSEIRO