"O inverno amedrontava lá fora….O vento rugia pelo vale de Eiras abaixo, e a chuva, copiosa, batia vigorosamente nas vidraças despidas de portadas ou estores. De vez em quando, um trovão mais forte, fazia com que a minha mãe levantasse o olhar para o tecto e murmurasse uma pequena ladainha a Santa Barbara. Depois de um dia de trabalho duro na cidade, ela cozinhava para nós, , sempre na companhia do único objecto electrónico que existia na casa. O pequeno transístor a pilhas preto, onde as vozes de Heathcliff, Edgar, Catherine e Isabella ressoavam contando-nos o desenrolar dramático do Monte dos Vendavais, romance de Emily Bronte, cujo enredo a (nos) deliciava e a (nos) obrigava a parar, de vez em quando, para escutar os momentos cruciais da novela… Eu limpava cuidadosamente a chaminé de vidro do candeeiro a petróleo, com uma velha folha de jornal, e sentava-me à mesa, com um ouvido na rádio e um olho no livro de aventuras mais recente que me tinham emprestado…quando acabávamos de jantar já se ouvia o programa "Quando o telefone toca" e eu só pensava como era possível à rádio, ter todos os discos das canções requeridas pelos ouvintes. Devagar, a noite avançava…e eu, já deitado e sonolento, ouvia ainda a mãe a lavar, varrer, cozer e passar roupa a ferro e preparar tudo para mais um dia de trabalho e de escola que se aproximava num fechar e abrir de olhos..." - in Memórias & Inspirações
Texto de José Passeiro