quinta-feira, 24 de setembro de 2026

ENCONTRO COM A ARTE - TEXTO DE KITO PEREIRA AS AVENTURAS DOS CINCO BAIRRO NORTON DE MATOS

 

 ÉPOCA DO BAIRRO MARECHAL CARMONA

AS AVENTURAS DOS CINCO ...


O Bairro Marechal Carmona, foi um Tempo. Um tempo passado de recordações presentes. Olho a floresta de betão de prédios anónimos, de bombas de gasolina e de catedrais de consumo num corre-corre da vida dita moderna. Ali, aquele espaço agitado de carros, poluição e de buzinas estridentes, também já foi uma catedral. Uma outra catedral de uma liturgia de silêncio e de silêncios. Naquele espaço alargado, morava um pinhal – o Pinhal de Marrocos. Não sei a proveniência do nome, mas sei que tinha a identidade própria de um lugar quase de culto de todos os que habitavam as casas singelas de um bairro com nome de marechal. 


Nos dias de primavera e de verão, o pinhal ganhava um novo folgo e uma nova vida. Debaixo das árvores se namorava e se faziam juras de amor. Debaixo das árvores se estudava para exames em tempo de exigência escolar. E debaixo das árvores se sonhava e se faziam versos arrebatados e sonhadores. E também havia a casa modesta da Maria, que tratava dos  animais no seu jeito atarefado. Lá longe, um longe que era tão perto, havia uma mina de água. Uma mina mesmo a propósito para as nossas aventuras de infância. Uma caverna que nos fazia sonhar com os contos escritos pelo punho de Enid Blynton. Penetrar na mina era uma aventura.  


Lembro do espaço que era fresco e húmido e que permitia andar de pé. Mas havia locais, onde era necessário rastejar, até ao gozo supremo de se chegar a um local amplo a que batizámos de “sala do trono”. O percurso levava cerca de cinco minutos a fazer. Sempre que demandávamos a mina, fazíamos um pacto de silêncio, para que os nossos pais não soubessem pela sua absoluta reprovação. Chegávamos a casa com os calções sujos de terra e lama e os joelhos esfolados de rastejar pela galeria. E dois açoites no rabo, eram irrelevantes na suprema glória de mais uma aventura no Pinhal de Marrocos. A aplaudida Enid Blynton, teria certamente muito orgulho em nós. Pela sua pena inspirada,  eu e os meus pares teríamos hoje, sem sombra de dúvidas,  um lugar de destaque na literatura mundial.

Kito Pereira  (contos da cidade)


1 comentário:

  1. Ora ainda bem que o Quito apareceu!
    Traz mais histórias destas, do tempo em que eu ainda não “era Bairro”!…
    Abraço, Quito.

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